sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Nova Fic: Sem coração

Eu Chorei no final..Essa fic é muito legal..
Os capítulos são meio grandes mas garanto que valem a pena..
OBS: são 10 capítulos e vou tentear postar um por dia!!


Capítulo Um: Morte
Arthur caminhava pela longa estrada de pedregulhos, ecoando o barulho emborrachado de seu sapato social a cada passo firme em direção ao túmulo, recém-aberto no cemitério, de seu irmão Pedro. O paletó completamente amarrotado vinha sendo arrastado pelo percurso, deslizando vagarosamente por cima das numerosas pedrinhas que deixava para trás. Os ombros caídos, o nó da gravata desfeito e a cabeça baixa intensificavam sua total falta de ânimo para com os “convidados” e seus pêsames, em sua opinião, todos desejados falsamente. Os óculos escuros escondiam seus olhos frios. Ele não conseguiria chorar, embora quisesse – e muito. Digamos que se sentisse de certa forma culpado, o que o impedia de derramar qualquer lágrima que fosse, e se o fizesse não seria pela perda de Pedro e sim pelo que julgava ter levado com ele: um pedaço seu. O sol se escondia entre as nuvens, somente para dar aquela sensação de que até ele, o único capaz de iluminar um dia triste como aquele, não era bom o suficiente para clarear os pensamentos de Arthur. O rapaz levantou os olhos castanhos e percorreu o caminho que teria à frente, seguindo-o até avistar a multidão chorosa ao redor do glorioso mausoléu da influente família Aguiar. Não conseguiu evitar esboçar um fraco sorriso irônico com o canto dos lábios, pois a maioria só estava presente com a intenção de aparecer nos jornais do dia seguinte. O que não era totalmente verdade. Pedro tinha muitos amigos ali, de seu trabalho naturalista e humanitário, de seu dia-a-dia, conquistados pela sua simpatia inigualável, e de seus tempos de colégio e universidade, amizades essas que Arthur não julgava necessário preservar.
Ele não se sentiu bem em acompanhar o “cortejo fúnebre”, permaneceu sentado na mais isolada poltrona aveludada do enorme salão para só então seguir seu caminho, completamente sozinho. Olhos curiosos pousaram em sua figura transtornada ao primeiro sinal de sua presença no cemitério, o que o irritava por receber pena e compaixão também indiretamente. As pessoas abriram caminho para que ele chegasse à frente do mausoléu, como se apenas o brilho de seu olhar tivesse o poder de fazê-las se atirarem para o lado. Evitou encarar qualquer um ali, sem paciência para demonstrar que não era “perigoso” como aparentava naquele momento. Atravessou os poucos metros que o distanciavam do túmulo, travando a mandíbula por todos aqueles olhares assustados grudados nele, e fincou os pés no primeiro degrau de mármore, parando para respirar profundamente. Aquela seria a última vez, aquele seria seu último adeus. Apertou os olhos com os dedos trêmulos debaixo dos óculos, deslizou as mãos pelos cabelos desgrenhados, jogou o paletó do terno preto que usava por cima do ombro, ao levantar a cabeça, e passou pelo portal marmóreo escuro, cessando os passos em frente ao caixão de uma madeira muito vermelha, com adornos refinados e simplórios.
Pedro já não podia ser visto. O irmão permaneceu imóvel, segurando em seus braços a vontade de pular sobre o mesmo e arrancar cada talha de madeira a fim de rever o rapaz. Ele não havia tido coragem de vê-lo antes, nem mesmo no velório. Portanto, não conseguia se esquecer de como havia sido um completo idiota quando estivera com ele pela última vez. Pedro não estaria ali, eternizado em um caixão, se Arthur o tivesse ouvido. A culpa o consumia aos poucos, impedindo que sentisse mesmo a dor da perda. Thur estava apressado no início do dia anterior, teria de viajar para o norte a trabalho devido a um transtorno em uma das empresas da família, das quais era presidente desde a morte de seu pai. Pedro insistiu inúmeras vezes em acompanhá-lo, animado em contar-lhe suas mais novas ideias ambientalistas. Contudo, a única reação que Arthur teve para com o irmão foi virar-se de frente a ele, apontar o dedo indicador em seu rosto e dizer-lhe “Poupe-me de suas utopias,Pedro, você não pode salvar o mundo!”, antes de fechar a enorme porta de entrada da mansão dos Aguiar em seu rosto. Ouvir era o que ele deveria ter feito, nada mais. Que tipo de monstro Arthur era, afinal? Isso não importava, não mais. Pedro foi de qualquer forma encontrado morto ao final do mesmo dia, a cabeça rente a uma pedra pontiaguda que de acordo com a perícia fora o que lhe causou o traumatismo craniano que consequentemente o levou ao óbito. O mistério, no entanto, era o que pareceu ser uma segunda batida em sua cabeça. Como se não tivesse simplesmente tropeçado e caído e sim, assassinado. Como se apenas um ataque não houvesse sido o suficiente e o esperto homicida o houvesse deixado estrategicamente ao lado da “arma do crime”, embora os investigadores tenham afirmado ser um ultrajoso acidente, em vista de que o tal suposto segundo ataque não tenha sido nada significativo. O caso foi arquivado como “acidente caseiro”, envolvendo duas pedras e não apenas uma – o que não fora, para Arthur, o bastante para justificar a morte do irmão. Pedro estava no jardim quando acontecera tal brutalidade e possivelmente fora apenas um mero escorregão. Mas é claro que para alguns, ainda mais de tamanha influência como Thur, aquilo não terminaria ali. O homem estava disposto a procurar em cada mísero centímetro do planeta pelo assassino de Pedro e ninguém, ninguém o impediria de se vingar.
Os minutos que se seguiram foram os mais longos de sua vida. Arthur desligou sua mente de todo aquele cinismo barato enquanto muitos ousavam dizer algumas palavras em homenagem a Pedro. Ele observava atentamente cada ser que se dirigia a frente, mesmo que não ouvisse o que dizia, e insistia em acompanhar com os olhos os cravos vermelhos jogados sobre o caixão. De repente a atenção foi voltada para ele, que contra sua vontade, teve que acordar de seu transe. Levantou minimamente a cabeça, que permanecia baixa, fitando o último botão jogado sobre a madeira, e continuou com a expressão séria, esperando que alguém lhe dissesse o motivo de o encararem novamente. Sua mãe, Eleonor, que apesar de também usar óculos escuros, não conseguia esconder a vermelhidão por todo o rosto, apontou discretamente com a cabeça, indicando a direção que todos os demais haviam feito para dizer suas belíssimas e vazias palavras de despedida. Arthur não demonstrou nem uma mínima vontade de se mover, esboçando a mesma expressão insensível de sempre. Percebendo que ele não estava disposto a descruzar os braços e caminhar até lá, Reece, seu padrasto, pigarreou alto, caminhando ele mesmo até a outra ponta do caixão. Começou a pronunciar diversas palavras, as mesmas que Thur voltava a não ouvir. Irritado com os cochichos e olhadelas indiscretas direcionadas a ele, o rapaz uniu as sobrancelhas, virando-se bruscamente para trás, quase passando por cima de uma aglomeração de admiradores ao sair pisando forte do mausoléu. Ouviu exclamações espantadas, o que o fez apressar ainda mais os passos pesados em meio aos túmulos envelhecidos.
Sua intenção era simplesmente se distanciar, como se aquelas pessoas sugassem suas energias quando por perto. Ele levou o corpo cambaleante até o banheiro masculino, parando em frente a uma pia branca imunda, na qual apoiou as mãos, jogando o peso do corpo sobre os braços, após retirar os óculos escuros e jogá-los dentro de um dos bolsos da calça social. Fitou com a cabeça baixa o chão sujo, inundado por uma poça de água asquerosa que parecia vir de um dos vasos sanitários, e levantou o rosto em direção ao espelho manchado acima da pia. Seu reflexo era deplorável: as olheiras escuras marcavam o desconforto de uma noite mal dormida, rentes aos olhos castanhos, que agora estavam avermelhados e foscos, talvez pela vontade que tinha de chorar, embora ainda não conseguisse. Os lábios se encontravam pálidos, sem vida, assim como todo o rosto, que normalmente estaria corado de tamanha superioridade. O nariz chegava a oscilar devido à respiração agoniada, que fazia seu corpo tremer de aflição. Por fim, os cabelos estavam desalinhados, despenteados pelas inúmeras vezes em que ele já passara as mãos sobre os fios. Se a culpa pudesse se expressar fisicamente, Arthur acreditava que ela seria assim, ele seria o seu próprio retrato.
Derrotado, abriu a torneira, deixando algumas gotas d’água escorrerem antes de colocar as mãos embaixo das mesmas. Sentiu o líquido gelado transbordar pelos seus dedos, apertando os olhos. Juntou a palma das mãos e passou-as pelo rosto, na tentativa inútil de diminuir a sensação quente que parecia queimá-lo por dentro. Deslizou as mãos à nuca, deixando as gotículas frias escorregarem de volta a pia, enquanto tentava acalmar a respiração. Inspirou e expirou várias vezes, até sentir-se confiante. Levantou a cabeça, colocou novamente os óculos, penteando porcamente os cabelos com os dedos, e saiu do banheiro, caminhando de um jeito violentamente destrutivo.
- ... Ouvi dizer que o coração foi para uma jovem... – duas senhoras passaram ao seu lado, diminuindo o tom de suas vozes ao lhe lançar olhares reprovadores, e continuaram seu caminho em direção à saída do cemitério. Arthur, que tinha parado abruptamente ao escutar o que uma delas havia dito, voltou o corpo rumo ao mausoléu. Aquela era a oportunidade perfeita para quem o considerava assustador finalmente ter razão em temê-lo. Só não correu, porque não estava interessado em chamar ainda mais atenção, mas seus passos certamente estavam muito mais rápidos do que o seu andar lento e provocador. Assim que avistou a família dentro do túmulo, não hesitou nem por um momento em fazer o que fez, mesmo atraindo o que antes tentava evitar: mais olhares.
- Como ousou doar seu coração? – agarrou a gola do terno de seu padrasto Reece rudemente, levantando-o do chão e o prensando-o na parede fria de mármore. Fora Reece quem cuidara de todos os procedimentos do enterro de Pedro, em vista de que Arthur não saiu mais de seu quarto ao receber a notícia. Portanto, havia sido ele a autorizar a doação dos órgãos do irmão. Um verdadeiro insulto não perguntar-lhe nada – Não podia ter feito isso, é muito... Pessoal. – disse, tentando conter a dor aguda que infligira seu peito naquele instante. 
- Era o desejo dele, filho. – respondeu o homem, assustado.
- Não me chame assim, você não é o meu pai! – rugiu Arthur, respirando ofegante. O brilho assassino em seus olhos foi o que mais apavorou a todos, que ficaram escandalizados com sua atitude. No entanto, para ele, os curiosos poderiam continuar observando a cena abominável que se seguia, pois ele não ligaria, assim como nunca havia ligado para a opinião alheia. A raiva era tão intensa que parecia transbordar por seus poros, não sabia o porque de ter reagido a isso dessa forma, mas pareceu-lhe um absurdo se “desfazer” de uma parte tão essencial como o coração do irmão.
- O que é isso, Arthur? – Eleonor perguntou, aflita, tampando a boca com as mãos, horrorizada – Acalme-se, por favor. – pedia, chorosa, tentando segurar os braços fortes do filho, enquanto buscava não derramar mais lágrimas. Contudo, suas frágeis mãos perto dos músculos avantajados do rapaz não surtiram nenhum tipo de movimento. Ele continuou a pressionar o pescoço do padrasto, como se ele fosse o culpado pela morte de Pedro. Como se ele próprio tivesse arrancado o coração de seu peito e o jogado pela janela.
- Pedro não o usaria mais, Arthur, não percebe que seu irmão salvou a vida...? – começou Reece, sendo interrompido pelo seu grito horripilante:
- Ninguém é digno de carregar no peito o coração de Pedro, NINGUÉM! – dito isso, empurrou-o mais uma vez para cima, largando-o em seguida, o qual escorregou pela parede até o chão, massageando a garganta. Arthur deu passos aos tropeços para trás, fitando Reece como um maníaco enfurecido. Virou-se para o lado, perdido, enquanto passava as mãos pelo rosto, tentando clarear a mente a fim de deixar de enxergar as coisas de forma turva. Caminhou bufando até o caixão, pegando grosseiramente um cravo de um buquê, que tinha o propósito de “enfeitar” o local, e o jogou sobre o mesmo, travando a mandíbula – Desculpe-me, irmão. – sua voz soou estranhamente rouca ao engolir em seco, transtornado. Fitou por segundos o entalhe na madeira com as iniciais do nome e sobrenome de Pedro, como se fosse receber algum tipo de intervenção divina por sua parte. Ao perceber que nada mudaria, voltou-se rumo à saída com um sorriso sádico nos lábios, sendo devorado pelo choque dos presentes.
- Arthur, o que pretende fazer? – gritou sua mãe, correndo até o arco de mármore, apoiando-se dolorosamente sobre ele ao deixar lágrimas caírem dos olhos vermelhos. O rapaz não respondeu, caminhava obstinado em direção ao sombrio portão do cemitério, agora sem prestar atenção nos detalhes sórdidos do lugar. Eleonor, temerosa, ia atrás do garoto, com passos difíceis e cambaleantes, gritando para que Thur não fizesse nenhuma besteira. O sol agora lançava raios intensos sobre ele, que sorriu irônico. “Tarde, tarde demais” Pensou. A gritaria de Eleonor só instigava sua ira, que começara também a querer esmurrar seu rosto pálido, pois por mais que tivesse sido persuadida por Reece nas decisões, ainda tinha relação com toda a história – Arthur, filho. Não faça isso! – ele a ignorava. Avistou seu Rolls Royce estacionado junto à fila de carros sombreados por um caminho de grandes árvores, e se dirigiu até ele, abrindo a porta em um movimento rápido para se sentar no banco. Segurou o volante com força, exaltando as veias dos braços, em uma última tentativa de se acalmar, mas não conseguiu – O que vai fazer? – sua mãe chegara ao seu lado, batendo desesperadamente no vidro do mesmo.
- Pedro foi roubado... – disse seco, fitando morbidamente a estrada a sua frente – Só vou recuperar o que nunca deveria ter-se tirado dele. – e arrancou o motor, pisando fundo no acelerador. Uma olhada pelo retrovisor com o canto dos olhos e avistou a figura desfocada de Eleonor cair de joelhos em meio aos pedregulhos. Entretanto, ele não cederia aos caprichos sentimentais de sua mãe.Pedro teria o coração de volta e era apenas nisso que ele pensava. Não importasse quem o estivesse carregando agora, ele o teria de volta.


Créditos: Fanfics Tensão Teen

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