quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sem Coração



Capítulo Quatro: Interrupção
- Não sentirei culpa, você não me conhece. Quer parar de insinuar que estou com peso na consciência por Pedro ter morrido? – Thur gritou, levantando-se do chão para começar a caminhar de um lado ao outro no cômodo. Lua estava certa e sabia disso, mesmo que Arthur nunca admitisse. Já ele se sentia invadido, como se ela adentrasse em sua mente até poder lê-la. O sol abaixava no horizonte e o aposento já estava começando a ficar escuro, mesmo com seu piso muito branco – Você não sabe como ele era, como pode achar que merece estar viva no lugar dele? – Arthur pensava alto, não se importando com o que Lu acharia de suas indagações.
- E você quer parar de dizer que eu não mereço estar viva? – ela berrou, jogando a cabeça entre os joelhos – Eu acabei de te contar toda a minha vida, nunca tive o seu dinheiro e os benefícios que ele trouxe, nunca tive um pai...
- Meu pai está morto, não pense que é a única órfã por aqui. – ele interrompeu-a, apontando o dedo indicador em seu rosto. Lua o encarou séria e incrédula, balançando a cabeça negativamente. Apoiando as mãos na parede, ela se levantou, parando de frente a ele. Segurou firme na barra de sua larga blusa e a levantou, passando-a pelo pescoço, ficando somente com o top claro e folgado que usava por baixo da mesma, deixando evidente a faixa por seu busto e barriga, a qual tinha a intenção de esconder a sutura da operação. Thur acompanhou o movimento com o olhar desesperado, engolindo em seco – Por quê? – perguntou, franzindo o cenho ao controlar sua vontade de pular sobre ela e traçá-la como faria um animal.
- Prometi que me entregaria se não o convencesse, e vou. Só não quero sujar a camisa branca com o meu sangue. – falou, soando quase inaudível. Sua intenção era obrigá-lo a olhar para o local com a atadura, e obteve sucesso, pois ele não tirou os olhos de cima de seus seios – Fique à vontade. – abriu os braços em sinal de rendição, fitando o fundo dos olhos do rapaz. Thur não conseguiu se mover ao encará-la, não poderia ofuscar o brilho daqueles olhos, era como se fosse matar sua própria felicidade. Ele não estava preparado para mandá-la embora desse mundo e não queria que ela partisse. Lua era o tipo de pessoa, como Pedro, que não merecia morrer. Porque o coração dele haveria de ter ido justamente para ela? Thur mataria sem pestanejar qualquer pessoa, porque esteve evitando esse momento até agora se, para ele, Lu não passava de uma ladra? – Precisa de ajuda para apertar o gatilho? – incentivou, ainda esperançosa de que o homem desistisse. Arthur levantou a mão trêmulo, para total surpresa dela, e apontou a arma em sua direção.
- Arthur, não faça isso! – Reece arrebentara a porta dos fundos da casa da garota, assustando o rapaz que mirou o teto da cozinha para evitar atirar nela com o sobressalto. Lua respirou aliviada, passando as mãos no rosto. Reece aproximou-se dela, abraçando seus ombros – Você está bem? – perguntou paternalmente, fazendo-a assentir – Graças aos céus cheguei a tempo de evitar o pior, pensei que já estaria morta. Desculpe-me pela porta, mas me desesperei quando vi o carro estacionado em frente à casa. – falou, bufando. O rosto de Thur começara a ficar vermelho de raiva e Lua jurava que passava por sua mente atirar no homem ao seu lado.
- Precisa arrumar um carro mais discreto, 
Thur. – ela brincou, tentando quebrar o clima tenso pairando por suas cabeças. Não obtendo muito êxito em sua falha tentativa de piada, a garota se postou frente ao homem, tentando protegê-lo de um possível tiro – Duas perguntas. Primeira: quem é você? E segunda: devo supor que está aqui para ser morto junto a mim? – indagou Lua, atraindo o olhar feroz de Arthur, antes preso ao padrasto. Ela somente fitava sua mão apertar a arma, parecendo indeciso em atirar.
- Meu nome é Reece e sou padrasto do Thur. – disse o homem, atônito. Lua encarou-o intrigada, levando os olhos para Arthur a exatos cinco passos dela – É exatamente para que ninguém morra que eu estou aqui. – falou, empurrando a garota para o lado ao começar a atravessar o espaço que o distanciava do rapaz – Vamos Thur, desista dessa sua ideia maluca. Você não é um assassino, filho. – e calou-se ao ouvir o tiro que Arthur acionara atingir o chão, despedaçando um dos pisos brancos. Lu se assustara com o barulho, contudo ficara indignada era com o fato de ter uma fissura em seu chão impecavelmente limpo. Reece parecia demonstrar apenas o medo físico, pois seus olhos eram inexpressivos e não pareciam apavorados – Arthur Aguiar deixe de ser infantil e largue essa arma agora mesmo. Não queira que eu tome medidas mais drásticas. – pronunciou Reece, unindo as sobrancelhas. Lua o estudou: tinha o corte de cabelo curto, elegante como o de um executivo, usava um terno preto amarrotado, seu porte não era o de um jovem de academia, mas ele ainda tinha espirito de galanteador, contudo, a barba era o que o deixava com ar paternal.
- Você não tem esse direito! – bradou Arthur, ficando cara-a-cara com o padrasto – Só o meu pai poderia conferir ordens como essas, e, pela milionésima vez eu repito, você não é ele. – disse nervoso. Lu olhava de um para o outro sem reação, seria a oportunidade perfeita para fugir, já que finalmente Arthur estava entretido com outra coisa que não ela. Mas algo a impedia de deixá-lo e por mais que soasse impossível, uma parte dela já pertencia a ele; talvez o coração que tanto ele almejava. Possivelmente ela já estava ficando louca, pois querer ficar ao lado de alguém que quer te matar não é algo com o que uma pessoa esteja acostumada a fazer – Saia daqui Reece, antes que eu atravesse uma bala em seu peito. Lua é 
minha e ninguém vai me tirar a chance de pegar o que é meu! – suas palavras soaram autoritárias, o que fez a garota se sentir incomodada com elas.
- Sabia que Dominic saiu aos tapas com Conor hoje? Soube que você ordenou que ele ficasse em seu lugar e isso não o agradou muito. Não o agradou nem um pouco, na verdade. – comentou, sorrindo ironicamente – Você conhece Conor o suficientemente bem para saber que ele não aceita ordens de subordinados. Mas é claro que não saberia nada do que acontece na sua empresa, não é mesmo? Sua atenção esteve voltada para outra coisa nesse ultimo mês. – encarou Lu com o canto dos olhos, vendo-a ofendida com a intensão em que ele o fazia. Arthur bufou, acertando um soco no olho direito do padrasto, que cambaleou para trás – Prefere mesmo perder seu dinheiro fácil à voltar comigo, está fisgado! Só não diga que eu não avisei, garoto. Você vai se arrepender amargamente por estar perdendo seu tempo com ela. – apontou-a com a cabeça, recebendo outro soco no rosto em seguida, que lhe provocou um corte nos lábios.
- Deixe-me ver se entendi. – Lua interrompeu o confronto dos dois, colocando as mãos em frente a eles – Conor é seu sócio nos negócios e não ficou feliz por ter Dominic, que ainda me escapa a identidade, em seu lugar na empresa, porque você está “perdendo seu tempo comigo” e agora vocês se acham no dever de lavar a roupa suja na minha casa? – perguntou sarcástica – Eu nunca tive nada haver com a família de vocês, para falar a verdade. Não tenho culpa se Pedro morreu que é onde eu acho que está o começo de toda essa confusão. Não tenho culpa se você não consegue dormir a noite por causa disso. Não tenho culpa se Dominic apanhou, talvez de fato eu tenha, já que isso não aconteceria se você estivesse frente a sua empresa onde é o seu lugar e não aqui. Não tenho culpa de nada, muito menos de carregar esse coração no peito! – virou-se rumo à porta, começando a caminhar, entretanto, foi impedida pela mão de Arthur, que a fitava repreendedor – Por favor, cuide da sua vida e me deixe em paz. – Lu implorou com a expressão distorcida em dor. Thur afrouxou a mão, mas não a largou – Ou melhor, acabe com isso de uma vez. – disse, apontando para a pistola.
- Você é maluca? – Reece gritou, apoiando-se no fogão para se erguer – Como pode pedir que ele simplesmente atire em você? – voltou a questionar. Thur novamente o olhava impetuosamente. Se Reece ousasse dizer que Lua era perda de tempo mais uma vez, ele não estaria vivo no segundo seguinte para ver qual sua reação – Além de querer morrer, quer transformar Arthur em um delinquente? Logo vi que você não era lá... – novamente foi atirado ao longe, e dessa vez o soco de Thur o tirara sangue pelo nariz. Lua estava impressionada com o modo defensor de Arthur, ainda mais por ele querer matá-la quando tivesse a oportunidade. Era uma atitude contraditória e tanto.
- Vai embora Reece, não estou interessado na porra da sua opinião! – Arthur apontou porta afora, indicando caminho para o padrasto sair da casa. Contudo, o homem não se moveu nem um centímetro – Quer que eu te faça sair de joelhos? – perguntou grosseiramente.
- Saio sem pestanejar se você me entregar essa arma. – pediu ele, estendendo a mão. Arthur sorriu irônico, negando – Vim apenas ajudar a essa garota estúpida, mas ela me parece depressiva o bastante para enfrentar o destino dela e arruinar a sua vida. Pensei que você fosse mais inteligente, Arthur. – disse o padrasto, dando passos lentos em direção à porta – Espero do fundo do coração que não sinta sua morte minha jovem, pelo visto nunca recebeu um tiro na vida e não sabe como é, boa sorte. Vejo você depois, Thur. – e saiu, abaixando a cabeça.
- Todos as pessoas da sua família são perturbadas? – Lua perguntou e recebeu um tapa involuntário no rosto. A mão de Arthur era pesada e a região ficou ardendo por um tempo. Ela fitou-o indignada, pela primeira vez com medo. Thur olhou-a com o cenho franzido e pareceu perceber o que acabara de fazer, segurando seus braços a fim de impedir que ela bambeasse e caísse ao chão.
- Desculpe-me. – disse ele, levando os lábios gelados à bochecha dela, depositando ali um beijo forte e provocador que a fez vacilar ao respirar falha – Prometo nunca mais encostar a mão em você. – disse firme, expirando perto de seu pescoço.
- Certo, você pode atirar de longe, não pode? – provocou ela, virando a cabeça para o lado oposto dos lábios de Arthur. Ele por sua vez não se intimidou, beijando o início de seu pescoço – O que está fazendo? Desistiu de me matar ou só está aproveitando antes de fazê-lo? – perguntou novamente, fazendo-o se afastar – Oh, claro, como eu poderia ser inocente o bastante em acreditar que você realmente não faria isso? – disse em um tom sincero, cansada.
- Já disse que não quero fazer, é só que... Eu preciso. – ele encostou o corpo ao balcão, encarando o piso. Thur estava ciente de que não conseguiria, mas continuaria passando a imagem de que iria, ainda não sabia o porquê, mas ele sentia uma aproximação maior de Lua ao provocá-la.
- Dói? – ela perguntou, após segundos de silêncio – Quero dizer, o tiro? – levantou a cabeça e encarou-o. Arthur mordeu o lábio inferior, lembrando-se da dor que uma bala causava ao entrar em contato com a pele. Ele mesmo já havia tido a experiência no ano anterior, mas saíra ileso a danos maiores. E mesmo não sabendo de que direção havia sido atingido, pois o “ataque” foi em meio a rua, o fez pensar se essa não teria sido a primeira tentativa do assassino de Pedro, talvez ele estivesse visando assassinar os dois irmãos.
- Sim. – respondeu.
- Ótimo, é bom saber. Cinco minutos para me preparar psicologicamente? – pediu ela. Arthur começou a gargalhar roucamente, achando engraçado todo o jeito que Lua tinha para adiar o fim – Ok, faça agora, antes que eu me arrependa. – choramingou.
- Quer que eu atire? – questionou triste, encarando a arma. Obviamente ela negou, um calafrio lhe subindo o corpo. Arthur caminhou até o lixo ao lado da geladeira e o abriu, jogando a pistola dentro dele. A garota olhou-o assustada, teria ele finalmente desistido? Arthur começou a fuçar entre as gavetas do armário, procurando por alguma coisa. Lu não ousou perguntar o que ele estava fazendo, só o acompanhou com o olhar, ansiosa. Ele parou de se mexer ao fitar um objeto dentro de uma das gavetas, respirando calmamente – Não sei qual é a sensação disto. – pensou alto, pegando uma faca em mãos. Lua soltou um grito abafado, tampando a boca – Doeria mais do que um tiro? – perguntou ele, colocando o objeto sobre o balcão. A garota aproximou-se dele, implorando com os olhos que não a apunhalasse. Sabia, pelas inúmeras vezes que se cortara com o objeto, que doeria tanto quanto ou mais do que o tiro. Ela pegou a mesma, tentando afastá-la de Arthur, que seguiu seus movimentos com as órbitas castanhos intensas – O coração de Pedro tem que ficar comigo. – rosnou, totalmente perdido entre o que queria e a necessidade de mantê-la viva.
- Você o quer tanto assim? – Lua perguntou com a voz embargada – Tome, venha pegar. – apontou a faca em direção a Thur, apertando o punho com força, fazendo suas veias se sobressaírem.Arthur agarrou o cabo da mesma sobre a mão da garota, comprimindo os dedos dela. Lua mordeu os lábios para conter a dor infligida a ela, respirando bravamente. O rapaz aproximou o corpo do dela, prensando-a no balcão da cozinha enquanto virava a faca rumo ao seu pescoço. Levou a mão livre aos cabelos dela, soltando-os lentamente ao tirar os hashis já bambos presos a ele. Os fios caíram delicadamente sobre o seu colo, destacando as ondas volumosas que se formaram. Em um movimento raivoso, Thur jogou os pauzinhos ao chão, tornando a mão perto de seu rosto. Enganchou os dedos nos cabelos loiros dela e aproximou suas testas, apertando os fios de maneira grossa e violenta. A faca incomodava a pele do pescoço de Lua e seu nariz oscilava, esperando pelo momento em que ela atravessaria o mesmo. Mais uma vez Arthur se via excitado por tê-la nas mãos, deixando evidente seu desejo por sobre a calça. Ele mirava os lábios vermelhos e carnudos da garota, querendo imensamente devorá-los – O que está esperando? 
Eu sou sua, Arthur Aguiar. – o hálito refrescante de Lu roçou seu nariz, a navalha da faca impedindo-a de abaixar o rosto e chegar a boca mais próxima a dele. Thur gemeu, forçando os dedos por seu cabelo, fazendo-a soltar uma leve guinada de dor. Ele encarou seus olhos castanhos e teve ali a certeza de que matá-la não era o que ansiava; ele queria possuí-la. Lua forçou a mão agarrada à faca em direção ao balcão, mas foi Thur quem a depositou ali enquanto travava a mandíbula. Ele puxou com ainda mais força seus cabelos, levantando seu rosto, e, deslizando os lábios próximos aos dela, capturou-os em um beijo; entorpecente e enlouquecedor.

Créditos: Fanfics Tensão Teen

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