11
Lua fala:
Certo. A idéia do bosque foi meio que... Suicida.
Era tudo escuro e sombrio, e a atmosfera parecia de um filme de terror macabro. Nem a lua brilhava mais.
- Aguiar? - eu sussurrei. Estávamos de mãos dadas para não cair e eu tremia mais de medo do que de frio.
- Oi? - ele sussurrou de volta, apertando minha mão. Estava andando na minha frente e eu tinha uma visão panorâmica dele.
Ui.
- Eu tô com medo. - sussurrei de volta, ficando mais perto dele.
Em volta, o vento soprava nas árvores e fazia aquele barulho como se fosse um fantasma chorando. Nós pisávamos em galhos secos e sempre que um estalava eu dava um gritinho.
Íamos totalmente morrer ali.
- E quem é o medroso agora? - ele brincou.
A única pessoa no mundo que poderia brincar num lugar daqueles.
- Eu sou. - respondi, com a respiração falhada. - Sério, já admiti, vamos voltar agora?
- Nós já andamos tudo isso e agora você quer voltar? - ele perguntou, se virando para trás e parando.
- Pelo menos até agora nós não morremos, para trás é seguro! - eu choraminguei.
- Não se preocupe com isso, se alguém nos viu aqui, provavelmente mandou cercar o bosque e nós vamos morrer tanto no final quanto no começo. - ele respondeu, indiferente.
- Pára com isso, Aguiar! - eu disse, dando um soco no seu ombro. Ele sorriu pra mim – um sorriso que se eu não estivesse com tanto medo faria meu coração derreter – e disse, paternalmente:
- Relaxa, Luinha, eu não vou deixar nada acontecer com você.
- Promete? - eu perguntei, me juntando mais a ele.
- Prometo. - ele respondeu, quase que no meu ouvido.
Nós estávamos muito – muito mesmo – próximos, e ele se inclinou. Colocou suas mãos quentes na minha cintura e me puxou para perto dele. Eu espalmei as minhas mãos no seu peito nu e quando nossas bocas estavam a poucos centímetros de distância ouvimos uma voz grave exclamar:
- Quem está aí?
Eu dei um gritinho agudo e abracei ele pela cintura, afundando minha cabeça no seu peito e fechando os olhos. Ele passou as mãos pelo meu cabelo, encostou a cabeça na minha e nós ficamos imóveis, respirando fundo.
- Quem está ai? - repetiu a voz, e pelos olhos fechados pude ver um feixe de luz. Abri os olhos rapidamente e respirei aliviada ao ver que era o guarda do bairro, segurando uma lanterna em uma mão e um Pastor Alemão na outra.
- Estamos a salvo! - gritei, soltando Thur e jogando a cabeça para trás. Ele riu e disse para o guarda:
- Desculpe, estávamos pegando um atalho para casa dela.
- Atalho pelo bosque à noite? - ele perguntou, irônico. - Sei.
- É sério! - eu exclamei, mas parece que ele continuou não acreditando, porque, bem, estávamos semi-nus e abraçados até pouco tempo.
- Eu dou carona para vocês. - ele disse, girando as chaves do carro na mão.
Seguimos-o até o carro e ele nos entregou sãos e salvos na minha casa, dando a última recomendação:
- Não façam nada que seus pais não fariam!
E foi embora.
Thur fala:
A casa dela era, sem exageros, gigante.
Só o banheiro do hall devia ser do tamanho do meu quarto.
Era toda branca e espelhada, e o piso era quente. Juro por Deus que o piso de mármore era quente. Eu tirei minhas meias para ver se não estava delirando.
- O chão tem um sistema térmico. - ela respondeu, acabando com todas minhas perguntas.
Subimos pela escada e fomos até a sala de Tv. Sala de Tv? Isso era chamado de sala na minha casa. E nós só tínhamos uma, diferente dela, que tinha umas 5.
Ela se jogou no tapete creme peludo do chão e abriu os braços. Achei estranho, mas mesmo assim eu queria beijá-la inteira.
- Quase tive um infarto agora! - ela exclamou, se contorcendo toda para trás e pegando um telefone estranho no criado-mudo ao lado do sofá de couro branco. - Rosa, trás alguma coisa gostosa pra eu comer com meu amigo? Valeu!
Abri a boca. Ela tinha até um telefone particular com a empregada?
Joguei-me ao seu lado e me apoiei com os cotovelos, admirando seu lindo corpo.
- O quê? - ela perguntou, percebendo que eu a olhava de um jeito estranho. Balancei a cabeça e respondi, deixando meus cotovelos moles e caindo sobre eles: - Nada não.
- Ah, não vai dizer, Aguiar? - ela perguntou, e logo depois eu senti uma almofada na minha cara. Peguei-a e joguei de volta nela, que pegou outra e jogou em mim. Eu peguei essa mesma e num movimento ninja peguei a que tinha jogado e joguei as duas, só que uma acertou seu rosto e bateu no olho.
- Ai! - ela exclamou, colocando a mão no olho direito. Arrastei-me até ela e passei a mão no seu cabelo fino e gostoso como seda.
- Desculpa, Luinha! - eu disse, colocando uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Ela mantinha a mão no olhos e eu perguntei: - Deixa eu ver?
Ela tirou a mão do olho e estava meio vermelho embaixo. Nada que um gelo não resolvesse.
- Espera aí, eu vou pegar gelo.
- Não! - ela exclamou, me puxando pelo braço. Eu voltei a me ajoelhar ao seu lado e ela corou. Colocou a mão de volta no olho e me olhou, piscando o olho esquerdo. Mas logo retomou a indiferença de sempre e disse: - A casa é grande, você pode se perder.
Até parece.
- Ok. - eu disse, saindo de perto dela e me sentando no sofá de couro. A empregada Rosa entrou na sala e colocou dois hambúrgueres com tudo que tem direito em cima de uma mesinha dobrável que ela trouxe.
- Já subo com a Coca. - ela disse, e desapareceu pela porta.
Lua se ajoelhou perto da mesa e me chamou com a mão para fazer o mesmo. Ajoelhei-me ao lado dela e comecei a devorar meu hambúrguer.
- As meninas só vão chegar às 22h. - ela começou, dando uma mordida de passarinho no hambúrguer.
- Então provavelmente elas estão com os meninos, porque eles também só vão chegar as 22h. - eu respondi.
Traíras.
- Por que será que não nos chamaram? - ela perguntou, lendo meus pensamentos.
- Acho que é porque nós vivemos brigando. - eu respondi, dando de ombros e mordendo novamente meu lanche, que já estava no fim. - Eles não iriam querer duas pessoas se xingando e decapitanto enquanto comem sushi com as amadas.
- Eles estão gostando delas? - ela perguntou. Rosa entrou com duas latas de Coca, despejou nas nossas canecas I Love NY, e saiu, como se fosse um fantasma. Tomei um gole da Coca e respondi:
- Sei lá.
- Como eu conheço minhas amigas, tenho certeza que será mais complicado juntá-los do que foi juntar Chay e Sô. - ela disse, tomando um gole de Coca.
- Isso não é problema para os melhores cupidos da cidade! - eu disse, levantando minha caneca de Coca. Ela levantou a dela e eu continuei. - A nossa futura agência de encontros se o McFLY não der certo.
- A nossa futura agência se eu não me tornar promotora! - ela repetiu, e bateu a caneca na minha.
Se eu não podia tê-la, pelo menos podia fazer meus amigos felizes.
Mas por que isso me deixava tão... triste?
Continua.....
12
Lua fala:
- E aí! - Micael exclamou, entrando pela porta de madeira da sala de Tv. Harry, Mel e Michele vinham atrás. - O que nós perdemos?
Olhei em volta. Eu e Thur estávamos quase sem roupa, deitados no tapete da sala, cobertos por um cobertor azul celeste e assistindo Penélope.
Hum. Nada?
- Nada demais... - Thur disse, se apoiando nos cotovelos. Fiz o mesmo e meu ombro roçou no dele. Meu coração deu um pulo. - Estávamos assistindo esse filme idiota.
- Não é idiota! - exclamei, olhando para ele, meio indignada. - Você acabou de dizer que a Penélope é bonita!
- Mesmo assim não deixa de ser idiota. - ele disse, dando de ombros.
- Idiota é você... - eu suspirei, me jogando no chão novamente.
- Meu Deus, vocês não conseguem ficar mais de dois segundos sem brigar? - Michele perguntou, se jogando no chão ao meu lado. Os outros fizeram o mesmo, e, depois de cinco segundos, estávamos assistindo Penélope um em cima do outro, contando o caso Chay e Sophia.
- Aí nós fizemos um jantar legal pra eles... Nada melhor do que comer antes de se comer. - eu disse, e todos riram.
- Ah, que legal. Eu acho que os dois combinam! - Mel disse, passando o braço pelo ombro de Micael.
- Também acho. - ele disse, fazendo o mesmo com ela e passando os dedos pelo seu cabelo.
Os 4 estavam no maior clima romance e eu queria estar do mesmo jeito com Thur.
Se ele não fosse tão idiota.
- Bom, acho que vamos ter que dormir aqui hoje. - Harry disse, como se fosse a pior coisa do mundo. - Sabe como é, não quero chegar no meio da pegação e falar: Opa, continuem aí e finjam que eu não estou no quarto ao lado!
- Cala boca, Judd! - Michele exclamou, dando um tapa no ombro dele. - A Sophia não vai fazer nada com o Chay.
- É, ela não é nem um pouco como as meninas que vocês andam. - Mel completou.
- Que meninas que nós andamos? - Micael perguntou, mas logo depois bateu com a mão na testa e continuou. - Ah, vocês querem dizer as meninas que nós já pegamos? Ah! Sim, elas são bem vadias mesmo...
- Deve ser por isso que Chay gostou da Sô. - eu disse, jogando o cabelo para trás, que pousou uma parte nas minhas costas e a outra nos ombros de Thur, que não se mexeu. - Ela não é... Vaca.
- Provavelmente. - Micael disse.
Continuamos a assistir o filme até o sono bater. Dormimos ali mesmo, um em cima do outro. Mel deitou na barriga de Micael, Harry encostou a cabeça nos ombros de Michele e Thur despencou no meu colo.
Eu era a única acordada e fiquei olhando para ele, no meu colo, respirando vagarosamente. Seus cabelos estavam caídos no rosto e a boca estava semi-aberta. O peito nu subia e descia no ritmo do coração, e eu me arrepiava toda vez que ele se mexia.
Eu realmente não conseguia explicar o que estava começando a sentir por ele.
Thur fala:
Acordei com uma avalanche de cabelos lisos no rosto. Pisquei os olhos algumas vezes para ver se era verdade que Lua estava desmaiada no meu peito.
Putaqueopariu, Lua estava mesmo desmaiada no meu peito!
Mexi-me em silêncio, tentando ao máximo não acordá-la. Olhei em volta e vi os outros 4 desmaiados. Lua suspirou e se virou para meu rosto, a boca rosada e os cabelos bagunçados.
Eu ainda estava pensando no que fazer quando ela abriu os olhos e piscou algumas vezes, olhando sonolenta para mim. Depois se apoiou nos cotovelos e perguntou, com a voz embolada:
- Nossa, a gente dormiu aqui?
- Parece que sim. - respondi, sorrindo para ela, que sorriu de volta.
Às vezes eu pensava que ela também poderia sentir algo por mim.
- Acordamos? - ela perguntou, apontando para os outros que roncavam. Mexi a cabeça negativamente e ela se levantou, envolvendo os braços no corpo.
- Vou pegar uma roupa mas quente. Quer uma?
- Como assim? - perguntei, imaginando um armário insano, cheio de roupas femininas e masculinas. Doideira!
- Você é exatamente do tamanho do meu irmão. - ela respondeu, esclarecendo minhas dúvidas.
- Ah... Ok, é, pode ser.
Saímos pela porta de madeira e andamos pelo extenso corredor, que também tinha o piso quente. Ela abriu outra porta, e entramos no que parecia ser o quarto do seu irmão.
- E onde está seu irmão? - eu perguntei casualmente, porque eu não sabia que ela tinha irmãos. Aliás, duvidava que alguém soubesse. Lua raramente falava da família. Eu sabia disso porque já tinha ouvido suas amigas comentarem.
- Longe. - ela respondeu, abrindo a gaveta do armário bruscamente.
- Como assim? - perguntei, sentindo uma fisgada no coração ao ver o olhar triste dela.
- Ele foi morar com meu pai na Holanda. - ela respondeu, mexendo furiosamente na gaveta do irmão. Ajoelhei-me atrás dela e coloquei as duas mãos no seu ombro. Ela permaneceu rígida, mas se acalmou, puxando uma camiseta verde clara de manga comprida da gaveta e me estendendo.
- Não precisa se preocupar. - ela disse, levantando-se, caminhando até a porta e se apoiando na batente. - Eu não vou chorar no seu ombro ou qualquer coisa do tipo. A saudades que eu tinha dele já passou...
- Eu não estava preocupado com isso. - eu disse, vestindo a camiseta e observando o olhar triste dela. Então percebi o porquê dela ser tão fechada e implicante. Sempre pensei que fosse pelo fato dela ser popular e todas essas merdas, mas não era nada disso. Provavelmente ela só estava triste demais com os problemas na família para levar a vida normalmente. E isso só fez meu coração bater mais rápido e minha respiração falhar novamente.
Era oficial. Eu estava completamente apaixonado por ela.
- Que bom. Porque eu não costumo chorar muito.
Levantei-me e fiquei de frente para ela na batente da porta. Peguei nas pontas do seu cabelo e ela fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás. Então eu me ouvi dizendo, já no seu ouvido:
- Mas deveria. Você não pode guardar tudo para você.
Continua....
13
Lua fala:
Levantei meu rosto e sorri para Thur, que parecia mais adulto com a camiseta.
Aquela costumava ser a camiseta preferida do meu irmão, e naquele momento, olhando para ele, eu me lembrei muito de Ryan e de como ele costumava ser brincalhão e implicante como Thur.
Eu era muito próxima ao meu irmão, mas depois que ele se mudou nós meio que... paramos de nos falar.
Mas talvez Thur fosse um lembrete do meu irmão para não levar a vida tão a sério. E de me lembrar também que ele sempre estaria, de um jeito ou de outro, olhando por mim.
E foi por isso mesmo que eu dei um soquinho no ombro de Thur e exclamei, disparando pelo corredor:
- Quem chegar por último na cozinha faz os lanches!
- Hey! - ele exclamou, correndo atrás de mim. - Roubando de novo?
Mas dessa vez ele foi mais rápido e me alcançou, me pegando no colo e descendo pela escada correndo, enquanto eu gritava que nem louca:
- Me põe no chão! Nós vamos cair!
E não deu outra. Chegando no último degrau, Thur escorregou no tapete persa e caiu sentando no chão, e eu cai por cima dele. Nossas pernas se encaixaram e eu deixei minha cabeça despencar no seu peito. Ríamos sem parar e ele ficava falando:
- Sai de cima de mim! Você vai me matar!
Quando finalmente conseguimos parar de arfar e rir, joguei meus cabelos para trás e olhei para seus olhos, que pareciam sorrir. Ele tocou a ponta do meu nariz com o dedo e desceu para meus lábios, que sorriram involuntariamente. Sem pensar muito, me inclinei para frente e nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Mas por pouco tempo, porque logo em seguida ouvi Michele gritar do andar de cima:
- SAI DE CIMA DE MIM, JUDD!
Afastei meus lábios de Thur e olhei para a escada. Ele beijou meu pescoço e por pouco eu não ignorei as meninas lá em cima e voltei a beijá-lo.
Veja bem, por pouco eu não fiz isso.
- VOCÊ QUE TÁ EM CIMA DE MIM, MALUCA! - Harry gritou de volta e eu pulei de cima de Thur, já subindo a escada com passos firmes.
Cheguei na sala de Tv, com Thur atrás de mim, a tempo de ver o inferno na terra.
Harry estava bagunçando os cabelos de Michele enquanto ela gritava: “Pára com isso!” e dava tapas em qualquer lugar que alcançasse. Mel pulava em cima de Micael que ria sem parar e na Tv o Geraldão Caminho [N/A: By Marcella.] do My Chemical Romance gritava uma de suas músicas dramáticas.
- HEY! - eu gritei, me jogando no meio de Micael e Mel. Harry parou de encher o saco de Michele e olhou para mim, e ela fez o mesmo. - Vamos parar com a putaria, galerinha no mal? Nós temos um Chay e uma Sô para zoar!
- Eu dirijo! - Micael exclamou, mergulhando em cima de Harry e roubando as chaves do conversível vermelho.
- Dirige o seu cu! - Harry replicou, pegando a chave de volta, deixando Micael com cara de bebê babão. Então olhou para o resto de nós e disse, girando as chaves no dedo. - Vamos?
Dois minutos depois estávamos descalços, descabelados, idiotas e exagerados, gritando no conversível de Harry enquanto ele nos levava até a casa dos meninos.
“Now dance, fucker, dance! Man, he never had a chance! And no one even knew? It was really only you?” todos gritavam – dessa vez sentados – e riam quando Michele errava a letra da música.
Mas quem não erra as letras do Offspring?
- Chegamos. - Harry disse, freando bruscamente o carro. Virei meu rosto para o lado e meu olhar cruzou com o de Thur. Senti meu rosto queimar. Será que eu teria coragem de falar com ele depois daquele pseudo beijo? - Vamos entrar devagar e pegar eles no flagra!
- Ok, ok! - eu disse, toda animadinha. Olhei novamente para Thur, que fazia uma careta engraçada para Micael, que estava roendo as unhas. Ele lembrava muito meu irmão.
- Hey. - ouvi ele sussurrar no meu ouvido, assim que Micael tinha parado de gritar com ele sobre como ele tinha direito sobre suas unhas e como ele gostava de roê-las. - Você tá bem?
- Tô. - respondi, respirando fundo.
- Ok. - ele disse, envolvendo o braço na minha cintura no exato momento em que Mel olhou para nós. Ela arqueou a sobrancelha e exclamou:
- Olha, será que vamos ter outro casal?
Olhei para Thur, que tirou a mão rapidamente e colocou no bolso, se explicando:
- Eu só fui pegar um negócio que caiu ali no banco, só isso...
- Ahám. - ela respondeu, mas logo sua atenção se voltou para Micael, que assoviava aquela música do Happy Three Friends e pulava na calçada que nem um gnomo.
Olhei para Thur em um sorriso aliviado e ele sorriu para mim.
Mas até quando poderíamos esconder aquilo?
E, aliás, o que era aquilo?
Thur fala:
Entramos em casa e encontramos os tênis de Chay e os chinelos de Sophia jogados no chão do hall, junto com suas blusas. Nos entreolhamos, tentando segurar as risadinhas do tipo “opa”, e continuamos, subindo as escadas.
Chegando ao quarto de Chay, encontramos a porta entreaberta e de dentro a luz solar invadia o cômodo e parte do corredor. Estávamos nos segurando para não começar a rachar o bico e acordar os pombinhos.
- Ok, quem vai primeiro? - eu sussurrei.
- Eu não quero ver o Chay boy pelado, dude... - Micael respondeu, fazendo careta.
Lua deu um beliscão nele e Mel resmungou:
- Cala boca, Borges, Sô nunca faria isso!
- Ok bibas, se ninguém vai, eu vou! - eu disse, já sumindo pela porta.
A cama de casal estava desarrumada e dois corpos abraçados respiravam em sintonia embaixo das cobertas. E, para meu alívio, os dois estavam vestidos.
Coloquei a mão para fora do quarto e chamei os outros para entrar. Paramos em silêncio em frente a cama e nos posicionamos para fazer o que tínhamos combinado de fazer no dia anterior.
- Um, dois, um, dois, três, quatro, vai! - Harry sussurrou, batendo os dedos no criado-mudo como se fossem baquetas.
- Tonight, I'm gonna have myself, a real good time, I feel alive! - eu comecei a gritar.
- And the world, is turning inside out, yeah! And floating around, in ecstasy! - Lua cantou, mais alto que eu.
- So don't stop me now! - Mel, Micael, Harry e Michele cantaram, e Sophia começou a se mexer.
- Don't stop me now! - eu gritei, e ela acordou definitivamente. Levantou a cabeça e os cabelos varreram a cara de Chay, que continuava imóvel. Ele resmungou algo do tipo “bacon com ovos” e virou para o outro lado.
Sophia o cutucou com cara de assustada e continuou nos ouvindo cantar, piscando os longos cílios para nós, até que Chay finalmente levantou a cabeça, meio atordoado pelo sono. Coçou a cabeça e olhou para nós, desfocado.
- E aí, dudes! - ele disse, sorrindo para mim. Sophia olhou para Chay, depois para mim, depois para Chay de novo. Então começou a rir.
Sem parar.
Sério. Tipo, ela começou a gargalhar.
E como todos lá eram meio retardados, começamos a rir junto. Menos Chay, que ainda estava nos olhando meio desfocado. E quando finalmente paramos de rir, ele olhou para mim e perguntou, de um jeito meio bobalhão e inocente:
- O quê?
E aí nós rimos mais um pouco.
Continua.....
14
Mais tarde.
- Não acredito que elas vão nos forçar a ir em uma festa do colégio. - eu resmunguei, colocando a espada falsa de volta na bainha. - E ainda por cima à fantasia!
- Você só está reclamando porque a sua fantasia é meio boiola, dude. - Micael brincou, colocando a máscara de Zorro. - Se você fosse o Zorro e não o príncipe encantado, iria gostar, pode acreditar!
- Melhor do que o Zorro, só o Coringa! - Chay exclamou, entrando no quarto com seu terno roxo, terminando de passar batom vermelho na bochecha. Quando ele terminou, passou a língua pela boca exatamente igual ao Coringa em O Cavaleiro das Trevas, e todos nós rimos, menos Harry, que estava sentado na cama, emburrado.
- Pelo menos você não é o Barney! - ele murmurou, enfiando o rosto nas mãos. Ele estava sentando há um bom tempo na cama com um terno rosa escrito Barney na lapela, porque nós simplesmente não conseguíamos vê-lo em pé, com o rabo rosa saindo da calça, sem mijar de rir.
- É, verdade... - todos nós concordamos, segurando o riso.
- Tá, as menininhas já acabaram? Eu quero ir logo ver minha garota. - Chay nos apressou e foi atingido por vários tapinhas e cutucões.
- Vamos, meninas, a biba quer ver o pitelzinho! - eu disse, batendo no ombro de Chay. E alguns minutos depois estávamos no carro de Harry com os cabelos voando no rosto, quase chegando na escola.
Fomos direto para lá. Confesso que fiquei meio deprimido quando as meninas disseram que não iriam precisar dos nossos serviços pois iam com a mãe de Lua para a escola.
Mas tudo bem, era mesmo bom ficar só com os dudes, sem nenhuma menina chata e gostosa por perto.
Claro...
Quando chegamos na escola, nos deparamos com o ginásio de basquete completamente mudado. Do teto saíam redes de lycra verdes limão e por todo o lado víamos arranjos e balões verdes-limão. Eu nem sabia qual o motivo da festa, mas alguma coisa com verde tinha.
Ah, se tinha!
As luzes da pista de dança eram fortes e a música eletrônica fazia o chão tremer. Exatamente o que eu mais odiava no mundo.
Só não odiava mais que todas as pessoas fofocando logo que entramos no salão, falando por cima de suas vodcas com gelo como se nós não pudéssemos ouvir.
- Ouvi dizer que o produtor deles deixaram eles na mão e agora eles estão se prostituindo para as meninas. Pra ganhar algum dinheiro. - Isabella Matriz falou a uma amiga gorducha ao seu lado, que assentiu ferozmente com a cabeça.
- É, e os pais deles os expulsaram de casa, por isso que eles moram juntos. Ah, e também porque Chay e Harry são gays. - James Oliver disse, e seus amigos começaram a rir.
E depois o nosso blog que era fofoqueiro?
- Ok, acho que eu definitivamente preciso de uma vodca. - Harry declarou, assim que ouviu uma menina da oitava série dizer que tinha tara por dinossauros. Ele se virou nos calcanhares e foi rebolando seu rabo até o bar, e nós fomos atrás, rachando o bico.
Eu pedi cachaça com Fanta, – o que é muito bom e vocês deveriam experimentar algum dia desses – Harry e Chay pediram vodca com Coca eMicael pediu uma cerveja mesmo.
Quando já estávamos com nossas bebidas na mão e falávamos sobre um novo produtor que nos ligou há alguns dias, ouvimos os murmúrios começarem novamente, só que dessa vez mais intensos e mais... picantes.
- Eu ouvi dizer que elas estão pagando os meninos do McFLY para que finjam ser seus namorados, assim elas não tem que andar por aí solteiras, porque, convenhamos, é o maior mico! - Kelly Putzer disse, soltando uma risadinha abafada. Como se todos não soubessem que ela era a maior corna de todas.
É, comandar um blog de fofocas te deixava por dentro de tudo.
- É, e elas combinaram de ficarem grávidas juntas esse ano, e querem engravidar deles. Se elas não beberem hoje, provavelmente já estão grávidas! - Rachel Robinson guinchou, tomando um gole de Coca pura.
Hã... Quem estava grávida mesmo?
- Mas que porra toda é essa que estão fal... - eu comecei a dizer, mas minha boca despencou quando meus olhos pousaram nas portas de entrada.
Putaqueopariu!
Lua e suas amigas entravam e estavam simplesmente... Lindas!
E hots.
Michele estava de colegial – ou qualquer merda do tipo – com uma saia curtíssima cinza de pregas, uma camisa de manga comprida, branca e decotada, sapatos boneca pretos de salto e uma meia branca que ia até um pouco acima do joelho. Os seus cabelos compridos e ondulados estavam presos em um rabo-de-cavalo alto e ela quase não usava maquiagem. Harry arqueou a sobrancelha e olhou para o outro lado, temendo, pelo que parecia, alguma reação precipitada.
Mel estava de dançarina de tango, ou sei lá o nome das mulheres com rosas no cabelo e vestidos vermelhos, mas pra mim é o que ela era. Seus cabelos estavam soltos pelos ombros e uma rosa pendia em uma mecha presa. O vestido, como eu já disse, era vermelho, curto e apertado no corpo, com uma só alça do lado direito. Ela também usava uma meia fina desfiada que acabava no par de escarpins vermelhos. Micael tomou um gole da sua cerveja e limpou a boca com as costas das mãos.
Sophia estava de Batgirl, com um vestido de couro preto colado ao corpo e uma bota de combate combinando, que ia até o meio das coxas. Ela colocou um chicote preto no cinto e enfiou uma mecha dos cabelos frisados no cabeleireiro atrás da orelha, mostrando as luvas pretas de cetim que iam até os cotovelos. Chay estremeceu ao meu lado.
Mas, na minha humilde opinião, a mais bonita era Lua, sem sombra de dúvidas.
Ela estava de fada, com um vestido lilás curto, decotado e com duas fendas na saia. Duas asinhas transparentes saiam de suas costas e os cabelos caíam pelos ombros e chegavam a sua cintura modelada. Duas mechas da frente do cabelo estavam presas para trás com uma piranha de borboleta e ela usava uma sandália de salto lilás, com as belas e torneadas pernas amostra.
Eu podia sentir que nunca mais iria fechar a boca novamente.
- Dude... - foi a única coisa que eu consegui falar, antes de abrir a boca de novo.
As meninas começaram a andar em câmera lenta pelo salão e minha mão começou a formigar. Com os outros não era diferente.
Olhe, não me leve e mal. Muitas meninas no salão estavam lindas, mas nós já havíamos ficado com a maioria e... Acho que todos nós já começávamos a sentir algo a mais pelas patricinhas mais chatas do colégio.
- Fecha a boca, Thur. - Harry balbuciou, me dando um tapa no ombro, agora sem tirar os olhos dos peitos de Michele.
- Fica na sua, Barney. - eu respondi.
Elas finalmente – para mim foram duas horas esperando – chegaram a nossa roda e sorriram, depois de analisarem nossas fantasias escolhidas, bem... por elas mesmas.
- Serviu direitinho! - Mel exclamou, animada, olhando Micael de cima a baixo.
- Ficou uma graça! - Michele brincou, fazendo Harry dar uma voltinha. Ele deu sem pestanejar, porque ainda estava meio grogue pelo decote da menina.
Consegui, finalmente, desviar o olhar de Lua, e pude ver a hora exata que Chay pegou o chicote de Sophia e a puxou para perto dele, que, por sua vez, sorriu envergonhada quando ele sussurrou alguma coisa no seu ouvido.
Nesse instante, os murmúrios ecoaram mais forte pelo salão, e se Chay não estivesse realmente apaixonado por Sophia, eu daria um tapa em sua cabeça e diria que ele estava acabando com a nossa reputação.
E enquanto pensava em tudo isso, Mel, Micael, Harry e Michele sumiram para dançar – sim, Micael e Harry dançando. Você não entendeu errado – me deixando sozinho com a menina que eu mais amava odiar e que mais odiava amar.
Ótimo.
Olhei com o canto dos olhos para seu rosto maravilhoso, e vi que ela não tirava os olhos de mim. Resolvi virar todo meu corpo para ela, mas foi em vão, porque ela continuou me olhando de um jeito esquisito.
- O quê? - perguntei, arqueando a sobrancelha. Ela sorriu docilmente e, por pouco, eu não caí em contradição e a agarrei ali mesmo.
- Você ficou... - ela começou a dizer, ainda com o sorriso adorável no rosto, mas aí mordeu os lábios como se lembrasse com quem estava falando, e continuou, um pouco áspera. - Engraçado.
- Pode falar que eu fiquei sexy, Blanco. - eu disse, dando de ombros. - Isso não vai te matar, sabia?
- Ok... - ela concordou, balançando os cabelos e piscando os olhos expressivos. Depois mordeu o lábio novamente, mas de um jeito mais provocante, e chegou bem perto de mim, sussurrando no meu ouvido: - Você ficou realmente sexy.
Olhei em volta pelos ombros dela, com os cabelos caídos no rosto, e vi que o salão inteiro ainda nos encarava.
Bom... Foda-se.
- Só não entendi uma coisa. - eu sussurrei, puxando-a pela cintura, até que seu colo encostou no meu. Ela deu um gritinho, mas logo se encostou em mim e perguntou:
- O quê? - encostou os lábios no meu ouvido e um arrepio passou pela minha coluna vertebral. Eu mordi o lábio inferior, fechei os olhos e respirei fundo.
Ela me deixava louco.
- Todos estão combinando. Barney e colegial, Zorro e dançarina da tango, Coringa e Batgirl, mas... - puxei ela pra mais perto, como se quisesse fundi-la ao meu corpo. Com uma mão ela segurou firme em minha nuca e a outra deixou cair mole ao lado do corpo. - Príncipe e fada?
- E quem foi que disse que eu quero combinar com você? - ela sussurrou, dando uma risadinha e descolando seu corpo do meu. Depois se virou e começou a andar na direção oposta a que estávamos.
Ah, aquilo não ia ficar daquele jeito!
Lua fala:
Ok, eu não consegui agüentar. Eu precisei provocar!
Talvez fosse a roupa de vadia que eu estava usando.
Vai saber...
Só sei que saí andando, com um sorriso triunfante no rosto. Sabe como é, ter o pegador do Aguiar babado por mim era até que legal.
Legal? Era ótimo!
Mas o ar de dominação que eu demonstrava sumiu um pouco depois, quando ele me pegou pelo braço e me virou para ele, colando seu corpo ao meu e roçando seu nariz na minha bochecha.
- Você não me engana. - ele disse, com os dentes cerrados, e pela primeira vez na noite, eu encarei seus olhos. - Você pode esconder o que quiser debaixo dessa máscara de indiferença, mas não me engana. Nunca me enganou.
- O que você quer dizer com nunca me enganou? - eu provoquei, passando a língua pelos lábios.
- Eu quero dizer que eu sempre te observei de longe e sempre soube o que você pensava entre os sorrisos falsos e o falso interesse na conversa dos seus amigos. - ele disse, aproximando sua boca da minha. - E, como eu tenho esse poder de ler pensamentos, eu sei, por exemplo, que agora você me quer o tanto que eu te quero.
Fechei meus olhos e me deixei levar, pela segunda vez no dia. Seu perfume me envolvia e senti a mesma vontade de beijá-lo que sentira mais cedo.
Mas como nem tudo são rosas, e quando se trata de Lua e Aguiar, tudo dá errado, senti uma mão me cutucar no ombro, no instante em que pensei que ele me beijaria ali na frente de todo mundo e acabaria de uma vez por todas com aquelas fofocas sem noção.
Virei-me para trás imediatamente, ignorando minha vontade de agarrar Thur pelos cabelos.
Tudo pela boa aparência.
- Oi! - exclamei, tentando disfarçar minha respiração ofegante. Quando levantei meus olhos dei de cara com John, que sorria falsamente e passava a mão nos cabelos dourados que caíam no rosto.
- Putaqueopariu, agora eu preciso de um banho gelado. - ouvi Thur reclamar, mas ignorei e me voltei a John.
- Fala. - disse, meio ríspida.
Mas porra! Ele tinha acabado com todo o clima!
John me olhou de cima a baixo e seus olhos brilharam pervertidos. Thur se mexeu impaciente atrás de mim.
E esse era o problema de ir feito uma vadia nas festas da escola.
- Então, sei lá, você quer dançar? - ele perguntou, passando as mãos novamente nos cabelos. Olhei para ele de cima a baixo também, e não posso mentir. Ele estava bem gato de Elvis moderno.
Mas ele tinha me atrapalhado para falar aquilo? Podia ser uma coisa mais emocionante, não podia?
- Hum, não, desculpe John. - eu disse, entortando a boca. - O meu amigo aqui quer ajuda com uma menina e eu preciso bancar a cupida! - continuei, batendo com a mão nos ombros fortes de Thur. Ele olhou para mim curioso e eu só pisquei para ele. - Então, vamos lá, Aguiar?
- Hum... Vamos? - ele respondeu, meio inseguro.
- A gente se vê por aí, John! - eu exclamei, empurrando Thur pelas portas principais do salão.
Thur fala:
- Agora você pode me explicar por que estamos congelando nossas bundas nesse frio se lá dentro temos aquecimento, comida e o que é mais importante, bebida? - eu perguntei, quando finalmente Lua parou de dar voltas pelo ginásio e se sentou em um banco de madeira no gramado verde oliva do colégio. Os cabelos de Lua à luz do luar brilhavam, e ela parecia um anjinho reluzente.
- Porque eu não suporto mais aquelas pessoas. - ela disse, dando de ombros. Depois olhou para cima e suspirou. Sentei-me ao lado dela e olhei para cima também.
- Que foi, seu afetado, resolveu me imitar? - ela brincou, me dando um tapinha no ombro. Eu dei outro e ela me deu um mais forte. Então eu olhei para ela com aquele olhar agora-você-se-ferrou e esfreguei minhas mãos. Ela percebeu o que eu ia fazer e começou a ir para o lado, mas eu já estava com as mãos na sua cintura, fazendo cócegas.
- Pára, pára! - ela começou a gritar, mas as risadas já abafavam sua voz, e eu ficava perguntando, todo inocente:
- O quê? Não tô te ouvindo!
- Pára, por favor, pára! - ela guinchou, e eu tirei minhas mãos dela, que respirou aliviada. - Sério, eu tenho asma, você não pode fazer isso!
- Asma? Você tem asma? - perguntei, achando graça da revelação. - Como uma cheerleader pode ter asma?
- Como um babaca pode ter uma banda? - ela respondeu, me olhando nos olhos e mostrando a língua para mim.
- Como eu não me aproximei de você antes? - eu perguntei, amaciando um pouco a voz. Passei a mão pelo seu rosto, não conseguindo resistir. Ela sorriu.
- Como eu não sabia que você era tão divertido? - ela disse, roçando o nariz no meu.
- Como nós nunca fizemos isso antes? - eu respondi, e antes mesmo que ela pudesse perguntar alguma coisa, mergulhei meus lábios nos dela e a beijei com vontade.
Ela enfiou suas mãos pequenas por entre minhas mechas embaraçadas e ficou brincando com o meu cabelo, enquanto eu envolvi sua cintura esculpida com minhas mãos. Quando nos cansamos de um lado, ela virou o rosto e apoiou, junto com os seus cabelos, no meu ombro. Nós nos beijamos por muito – muito mesmo – tempo. E eu posso jurar que se não tivéssemos ouvido vozes saindo pelas portas principais, continuaríamos ali para sempre.
Ai, que coisa mais gay!
Continua.....
15
Lua fala:
- Você o quê? – eu exclamei, chacoalhando Sophia pelos ombros, que estava quieta desde o começo da conversa.
- Isso mesmo que você ouviu. – Mel disse, deixando os ombros caírem.
- Mas não foi culpa dela! – Michele veio em sua defesa. – Ela estava bêbada!
- Mas como foi que isso aconteceu? – perguntei, soltando os seus ombros, porque pensei que se ficasse mais tempo os segurando poderia quebrá-los.
Sophia olhou para mim com os olhos tristes e por um momento eu não tive mais raiva dela. Mas só por um momento. Porque depois eu me lembrei do que ela tinha feito e a raiva voltou com tudo.
- Eu estava com o Chay. Nós estávamos ficando. – ela começou, falando lentamente. – E eu estava bebendo um pouco demais. Então ele disse que precisava ir ao banheiro, e eu fiquei esperando na mesa... Daí, do nada, apareceu a porra do John e começou a me encher o saco para dançar e ficou beijando meu pescoço, e eu não tinha forças para empurrá-lo, e o Chay não chegava, e...
- Tá. – eu a cortei. – E o que isso tem a ver com o que você disse pra ele?
- Posso terminar? – ela perguntou, parecendo irritada. Assenti com a cabeça e ela continuou a falar. – Então. Aí eu pedi para ele parar e ele parou. Mas então ficou me enchendo o saco, perguntando porque nós estávamos andando com os losers. No começo eu não respondi nada, mas aí ele voltou a beijar meu pescoço, e o Chay não chegava, e eu comecei a ficar nervosa e...
- E...? – perguntei.
- E as palavras jorraram da minha boca! – ela sussurrou, desanimada.
- Que palavras, exatamente? – eu perguntei, sentindo meu pulso se fechar.
- “Nós estamos andando com os losers porque eu descobri que eles são os donos do Conte Seu Babado e agora eles tem que fazer tudo que a gente mandar.” – ela repetiu exatamente o que tinha dito para ele.
Thur fala:
O dia começou relativamente bem.
Mas preste atenção. Relativamente.
Acordei no meu quarto com a cabeça enfiada no travesseiro, e um fio de baba descia pela minha boca. Usava só boxers e o cheiro de Lua ainda estava em minha pele.
Nossa. A cada dia mais gay.
Levantei-me e fui ao quarto de Harry, porque ouvi de lá uma música alta. A porra do Harry sempre acordava duas horas antes de todo mundo.
- Tá feliz, dude? – perguntei, entrando no quarto dele de qualquer jeito e me jogando na cama. – A noite foi boa, é?
- Foi, dude. – Harry disse, saindo de frente do laptop e se jogando na cama ao meu lado. – Eu quase peguei a Michele.
- Por que quase? – perguntei, estranhando. Harry sempre fora o mais pegador de todos e sempre o mais rápido. Enrolar mais de uma semana para pegar Michele estava sendo estranho.
- Porque... Ah, dude, sei lá. Eu meio que não quero pegar ela de qualquer jeito em qualquer lugar como eu sempre fiz com as outras... – Harry desabafou. Eu olhei para ele com a sobrancelha arqueada mas depois olhei para frente.
O amor fazia essas coisas com as pessoas.
Eu ia falar alguma coisa, mas fui interrompido por Micael e Chay que entraram no quarto e se jogaram na cama com nós dois.
- Nossa, todo mundo madrugou hoje? – Harry perguntou, rindo da situação engraçada e gay em que estávamos.
- É o amor, Harry. – Chay disse, jogando a cabeça no travesseiro e encarando o teto. Micael olhou torto para mim, e eu olhei para Harry e Chay que brisavam no teto.
O amor fazia essas coisas com as pessoas.
- E aí, o que nós vamos fazer hoje? – Micael perguntou, cutucando Chay e Harry, que saíram do transe da parede.
- Sei lá, eu tava pensando em ir no lasershoot. – eu sugeri, pensando em como seria bom pegar Lua no escuro do labirinto.
- Boa! – Chay exclamou, já sacando o celular do bolso. – Posso chamar as meninas?
- Pode. – eu disse, tentando parecer indiferente. Nenhum deles sabia que eu estava a fim de Lua.
A fim dela?
Apaixonado por ela!
- Alô?... Oi, linda!... Tudo, e com você?... Que bom. Linda, nós vamos no lasershoot e os meninos querem que as meninas vão, e eu quero pegar você no escuro e... Hahahaha, ok, a gente se pega no escurinho! Hahahaha... Vocês vão?... Quem tá aí?... Oi, Lua, Mel e Michele!... VAMOS NO LASERSHOOT? Hahahaha... Ok, combinado então!... Vai se foder você, Blanco!... Eu não tenho culpa se a Sophia se apaixonou por mim!... Quem disse que ela tá apaixonada? Ah, nem precisa, só de ver os olhinhos dela eu já sei... Hahahaha. Ok, combinado! Às 13h em frente ao lasershoot. Beijo, Luinha! Deixa eu falar com minha lindinha e... Ah, oi, Sô!... Não, era só pra te falar tchau mesmo. Tchau... Hahahaha. Ok. Beijo na boca. Tchau, linda! Até 13h!.. Também já tô com saudades! Tchau!
Chay desligou o celular e olhou para nós, que estávamos com a boca aberta e segurando animalmente a risada. Ele só mostrou o dedo do meio e saiu pela porta.
- Vai, saiam do meu quarto, é muita testosterona junta! – Harry reclamou, nos empurrando pela porta. – E eu quero tomar banho.
Fui até meu quarto e tomei um banho demorado, tentando me livrar do cheiro da Lua. Não que eu realmente quisesse me livrar do cheiro dela. Mas se ela me encontrasse novamente com o mesmo cheiro ia pensar que eu era um maluco que não tomava banho.
Não que eu não fosse maluco.
Quando já era 12:20h, nós estávamos prontos e cheirosos no carro de Harry, nos dirigindo ao shopping.
Lasershoot, aí vamos nós!
Chegamos lá e nos sentamos em um banco de madeira, esperando as meninas chegarem. Ficamos conversando e dando em cima das meninas que passavam.
Estávamos apaixonados, mas não mortos.
- Oi, meninos! – Mel deu o seu famoso piado animado, chegando perto do banco em que estávamos. Algumas meninas da oitava série estavam conversando com a gente, mas quando viram as garotas mais lindas/desejadas/malvadas da escola chegando, foram embora de mansinho.
- O que vocês estavam fazendo com essas meninas? – Lua perguntou, com certa raiva na voz. Sorri por dentro.
- E o que você tem a ver com isso? – eu perguntei, lançando um olhar pervertido para ela. Ela retribuiu meu olhar, como se entendesse.
- Cala boca, Aguiar. – ela respondeu, dando um semi sorriso para mim.
- Ok, as bibas vão parar de brigar e entrar no lasershoot ou nem? – Micael perguntou, se levantando e indo em direção à salinha preta do lasershoot. Mel se levantou com um pulinho e foi atrás dele, conversando animadamente sobre alguma coisa da festa do dia anterior. Sophia e Chay já estavam brincando de desentupidor de pias no banco e Harry conversava baixinho com Michele.
- Hã... Vamos? – perguntei para Lua, que sorriu pervertida.
- Claro, Aguiar. – ela falou em voz alta, mas aí abaixou a voz e disse, no meu ouvido: - Como se você não estivesse louco para me beijar no escuro.
Olhei para ela e sorri com a boca fechada.
- Eu não vou pagar nada pra ninguém! – eu falei em voz alta, mas aí abaixei a voz e sussurrei de volta: - Como se você não estivesse louca para retribuir meus beijos no escuro.
- Hey, Aguiar, espera! – Harry exclamou, vindo atrás de mim e de Lua, com Michele ao lado. Chay e Sophia vinham atrás, abraçados.
Estávamos muito bem juntos, e eu não me sentia feliz daquele jeito há muito tempo.
É, pena que durou pouco.
Continua.....
16
Lua fala:
Até de noite, o dia foi calmo e... divertido.
Sophia manteve a boca fechada – pelo menos uma vez – durante todo o dia, e ficou pegando Chay durante todo o lasershoot.
Michele e Harry ficaram se matando com as arminhas e davam risada de tudo. Mel e Micael ficavam correndo pelo labirinto, ela de cavalinho nele, e tomavam bronca toda hora da mulher mal-humorada que mantinha “ordem” lá.
Tentei evitar Thur e seus lindos olhos e cabelos. Mas foi por pouco tempo.
Estava correndo por um corredor comprido e estreito, e parei, vendo que já tinha despistado Harry, que queria porque queria me acertar.
Encostei-me na parede e respirei aliviada. Eu realmente tinha asma.
Fiquei ali, só respirando e ouvindo os outros gritarem, quando os lindos cabelos de Thur surgiram do outro lado do corredor, e começaram a vir em minha direção.
É, até ali era o máximo que eu podia agüentar.
- Hey, o que você tem? – ele perguntou, ficando de frente para mim e me prensando na parede. Eu respirei fundo.
Aliás, eu sempre tinha que respirar fundo quando estava perto dele.
- Nada, Aguiar, por quê? - eu perguntei, virando meu rosto. Ele sorriu.
- Hum, então quer dizer que você me usou e hoje já jogou fora? - ele perguntou, se encostando mais em mim. Minhas pernas se encaixaram nas dele e eu joguei minha cabeça para trás. Ele beijou meu pescoço e eu cerrei meus dentes.
- Não, Aguiar, você é lixo reciclável. - eu me ouvi dizendo, então levantei a cabeça dele com as duas mãos e beijei sua boca.
Ele pegou minha cintura com força – não como um animal, mas com... força – e eu meio que levantei do chão e fiquei encaixada nele. Se eu não estivesse de calça jeans provavelmente quem passasse por ali iria achar que nós estávamos fazendo alguma coisa feia.
Eu passava as mãos pelo seu rosto e cabelo ferozmente e ele me beijava com vontade, deixando escapar alguns suspiros. De vez em quando parávamos para respirar e beijar o pescoço um do outro.
- Não, Micael! SAI DAQUI! - ouvi Mel gritar e me separei imediatamente de Thur, mas nossas blusas se enroscaram, então ainda estávamos relativamente próximos.
Relativamente? Minha boca estava a centímetros da dele.
Tentei puxar e ele também, mas na confusão de zíperes, respirações ofegantes e gritos, acabamos nos aproximando mais ainda. E os gritos de Mel se aproximavam.
- Ai porra! - eu exclamei, quase rasgando minha blusa novinha. - Aguiar, e agora?
- Não seria mais fácil... - ele disse, espantosamente calmo. Levantei meus olhos nos deles, tentando entender o motivo da calma. Ele sorriu torto para mim. - Contar para eles?
- Contar o quê para eles? - perguntei, chacoalhando a cabeça freneticamente. Pela altura dos gritos de Mel, ela estava quase virando o corredor. - Contar o que, Aguiar? Porra, diz logo que ainda precisamos nos desenroscar e...
Tudo meio que aconteceu ao mesmo tempo. Na mesma hora que eu disse aquilo, Mel virou no corredor, eu puxei a blusa com força. Micael veio pelo outro lado, e eu me afastei com um pulo de Thur, que murmurou:
- Que nós estamos juntos.
Thur fala:
É. Eu sei. Não devia ter falado aquilo. Eu sei, eu sei.
Mas o que eu poderia fazer? Estávamos grudados um no outro, Mel estava virando o corredor e Lua estava mais linda do que nunca de calça jeans, Nike e uma blusa com touca toda puída.
Depois que eu disse aquilo, Lua abriu a boca num semi-sorri, semi-espanto, e eu fechei os olhos, aliviado por Mel ter trombado em nós dois e caído no chão, porque Micael viu a cena e se jogou no chão, rindo sem parar.
Eu não estava com ânimo nenhum de rir, mas era melhor do que ficar analisando o rosto sem expressões de Lua, tentando descobrir o que ela tinha achado do que eu tinha dito, então simplesmente comecei a rir sem parar de Micael e Mel e eles começaram a atirar em mim e eu neles.
Olhei para o lado e ela ainda estava inexpressiva, olhando para o fim do corredor, onde Harry e Michele vinham pulando feito cabritas.
Então veio o arrependimento.
Sabe como é. Eu tinha acabado de revelar para a menina que eu gostava que eu achava que nós estávamos juntos e ela não tinha dito nada para confirmar.
O arrependimento viria mais cedo ou mais tarde.
Quando Micael finalmente levantou Mel, eu tentei desesperadamente me livrar da situação. Não foi preciso.
- Gente, eu já cansei de lasershoot! - Sophia piou, vindo pelo corredor de mãos dadas com Chay. - Vamos para algum lugar mais claro?
- Por quê? Cansou de se amassar com Chay no escurinho? - Michele brincou, e Sophia deu um tapa no seu ombro.
- É, vamos sair daqui. Eu não agüento mais ficar no mesmo lugar que Luinha. - eu disse, tentando parecer normal e implicante como sempre. Olhei para o lado, mas ela mantinha a cabeça baixa, fitando os pés.
Realmente eu não devia ter dito aquilo.
Continua.....
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1 comentários:
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