Lua fala:
É claro que ele estava brincando. Quando Thur iria parar de brincar comigo e falar sério?
Nunca.
Nós fomos o caminho inteiro até a casa de Harry em silêncio, sentados ao lado um do outro. Sentia ele perto de mim mas longe ao mesmo tempo. Um frio percorreu minha espinha.
Eu tinha tentando de tudo para entendê-lo. Ou mesmo para ficar longe dele. Mas nada que eu tinha feito estava dando certo.
Talvez eu devesse simplesmente ignorá-lo, como fiz todos aqueles anos. Mesmo que por dentro eu estivesse sofrendo, como sofri todos os anos em vê-lo na escola e fingir odiá-lo.
Porque, veja bem, eu já tinha desistido de ignorar que eu sempre amei Thur. Era a mais pura verdade.
- Onde você está indo, Judd? - Michele perguntou do banco da frente. Desviei os olhos dos meus tênis sujos e olhei em volta. Harry tinha passado da casa de Michele e ia em direção a dele.
- Eu vou levar o pessoal em casa primeiro. - então disse mais baixo, com a intenção de só Michele ouvir, falhando, porque eu ouvi tudo. - Quero te levar para um lugar.
Sorri por dentro e por fora.
Nem tudo estava perdido.
Ou estava. Quando Sophia contasse o que tinha feito. O que ela faria mais tarde aquela noite.
Estremeci.
Se o clima já estava estranho entre eu e Thur, imagina depois que ela contasse.
Merda.
Harry parou o carro na frente de sua casa e Micael pulou do carro, com Mel ao seu lado. Sophia desceu de mãos dadas com Chay e Thur desceu, me fitando.
- Hã, Harry? - chamei ele, sem mover um músculo do bando de couro branco. - Se importa de me levar para casa?
Eu não estava com o mínimo humor de ficar comendo pizza, falando merda e vendo Thur maravilhosamente perfeito na minha frente.
Não naquela noite.
- Tudo bem. - ele disse, já dando partida no carro. Mantive a cabeça baixa, mas antes de virar a esquina, olhei novamente para a casa dos meninos.
Thur estava parado no quintal, com as mãos no bolso da jeans dois números maiores que o que ele deveria usar, olhando para o céu.
Thur fala:
Entrei em casa desanimado, sentindo o cheiro do perfume da Lua nos meus ombros e cabelos. Minha roupa pesava no corpo e minha cabeça doía.
Mas não era só a cabeça que doía.
- Acho que eu vou dormir. - eu avisei o pessoal, subindo pela escada. As meninas me olharam com curiosidade e os meninos só deram de ombros.Chay estava louco para ficar sozinho com Sophia e Micael estava louco para finalmente ficar com Mel, o que seria meio difícil, devido a falta de atenção que Mel parecia ter. - Não quero estar parecendo um zumbi amanhã na escola.
- Ok, dude. - Micael disse.
- Boa noite, Thur! - as meninas falaram em couro.
- Boa noite. - repliquei e subi o resto das escadas. Entrei no meu quarto e fechei a porta. Tirei toda a roupa e liguei o aquecedor. Eu estava morrendo de frio, mas queria dormir de boxers para tentar esquecer Lua. Não ia tomar banho, estava cansado demais para isso.
Joguei-me na cama e adormeci imediatamente.
Não ouvi o que estava acontecendo lá embaixo, mas quando fiquei sabendo no outro dia, descobri porque meu coração estava tão apertado e batia freneticamente no quarto.
E não era só o meu.
Lua fala:
Passei a noite inteira me revirando na cama. Não conseguia dormir sabendo que Sophia estava na casa dos meninos e, possivelmente, contando a burrada que tinha feito a Chay.
Mas, acima de tudo, não conseguia dormir porque a visão de Thur falando o que tinha dito mais cedo não me saía da cabeça.
Quando finalmente o cansaço venceu os meus pensamentos contínuos, relaxei os músculos na cama, mas tive que os contrair alguns minutos depois, quando ouvi o despertador tocar.
Levantei-me imediatamente, cansada de tentar pensar em outra coisa. Precisava ir para a escola para saber o que tinha acontecido.
Quando coloquei meus Adidas brancos no pátio da escola, fui recebida por Michele, que voava em minha direção, com o fichário rosa colado ao corpo.
- Cadê os meninos? Você viu o Harry? Ah, não importa... Quer saber o que aconteceu ontem? - ela me abordou, os olhos brilhando e a respiração ofegante.
Eu não estava com humor de ouvi-la contar da melhor noite que tivera na vida. Toda aquela coisa de amor e pegação só ia me deixar mais deprimida.
Mas eu não podia deixá-la na mão. Porque, mesmo com todos os meus problemas, ela era minha amiga.
Então, ao invés de mandá-la tomar no cu e sair andando, respirei fundo, coloquei meu melhor sorriso no rosto e exclamei:
- Conta tudo!
- Então! - ela guinchou, me puxando pelo braço e sentando-se em um banco de madeira. - Harry deixou você em casa e depois me levou para o mirante. Ele não queria me dizer para onde iria me levar, mas eu nem liguei. A noite estava gostosa e o céu estava lindo, cheio de estrelas.
- E aí? - perguntei, como toda boa amiga faria.
Olhei em volta, varrendo o pátio com os olhos. Não achei quem procurava, então voltei minha atenção à história detalhada de Michele.
- Chegando lá, ele abaixou o capô do carro e me chamou para dançar. Eu não queria, porque eu meio que sou um desastre pra dançar lento, mas ele colocou All You Need Is Love e eu não agüentei! E ele dança tão bem que nem se importou com meus pisões e...
- O Harry dança bem? - perguntei, realmente curiosa. Aquela era nova.
- Pior que dança! - Michele gargalhou, tão surpresa como eu. Depois recomeçou. - E enquanto nós dançávamos, ele dizia coisas lindas no meu ouvido, e eu me arrepiava toda vez que ele chegava perto de mim.
- Tipo? - perguntei, agora interessada na conversa. Se não poderia ser feliz com o cara que eu gostava, pelo menos poderia ficar feliz pelas minhas amigas.
- Ah... - ela corou. - Tipo “Eu nunca fiquei tão feliz perto de alguém” e “Eu poderia ficar assim para sempre”.
- Ah! - exclamei, dando um cutucão nela para provocá-la. - Que lindo! E aí?
- Aí, quando a música acabou, nós voltamos para o carro e ficamos olhando as estrelas. Ele escolheu uma e deu meu nome, e eu escolhi outra, ao lado da minha, e coloquei o nome dele. - ela dizia, e seus olhos brilhavam. - Então, ele se aproximou e...
- E...? - perguntei, já sabendo o que ela iria dizer.
- Ele me beijou! - ela piou, e depois abriu o maior sorriso que eu já tinha visto ela dar.
- Ahhh! - agora eu a empurrava e bagunçava seus cabelos bem penteados, enquanto ela gargalhava.
- Nunca imaginei minhas amigas todas apaixonadinhas pelos losers! - eu disse, rindo.
- Quem disse que eu tô apaixonada? - ela perguntou, levantando a sobrancelha de um jeito engraçado.
- Seu sorriso diz tudo, baby. - eu respondi, piscando para ela.
- Olha lá, as meninas! - ela exclamou, saltando do banco e caminhando firmemente para as escadas do colégio.
Meu coração deu um salto no peito e minhas mãos começaram a suar. Levantei-me e dei de cara com Sophia, e meu coração deu outro salto ao ver que seu rosto estava vermelho e inchado.
- Sô, o que foi que aconte... - eu ia dizendo, mas foi interrompida por ela, que me abraçou e começou a soluçar no meu ombro. Eu passei as mãos pelos seus cabelos que mais pareciam um ninho enquanto Mel explicava o que tinha acontecido para Michele, que ouvia tudo com os olhos apertados, preocupada.
- E-ele... Terminou comigo! - Sophia desabou a chorar, se apertando no meu abraço.
- Não fica assim, Sô! - eu disse, afagando suas costas. - Tudo vai dar certo, ele vai te perdoar!
- Não, não vai! - ela exclamou. - Eu nunca mais vou ser feliz de novo! E eu estraguei a felicidade de vocês! Vocês também perderam seus losers!
- Nós não nos importamos com isso, Sophia. - eu murmurei, com a voz firme. Não me preocupei em ocultar o fato de que tinha me incluído na história.
- Hum, meninas. - Mel nos chamou. - Desculpe interromper, mas os Mc... Losers estão subindo as escadas.
Sophia se separou imediatamente de mim e passou as mangas do suéter de cashmere nos olhos, secando as lágrimas.
Chay vinha na frente, com a cabeça baixa e um sorriso triste no rosto. Era a cara de Chay. Mesmo triste estava sorrindo. Micael estava ao seu lado, olhando com o canto dos olhos para Chay, provavelmente preocupado com a reação do menino ao ver Sophia. Mas acho que Chay estava mais centrado do que... Bem, do que a própria Sophia, que lutava para segurar as lágrimas.
Atrás dos dois, vinha Harry, que tentava esconder o sorriso bobo ao olhar para Michele. Ela corou e desviou os olhos, com uma expressão vamos-fingir-que-nada-aconteceu-para-não-magoar-nossos-amigos-e-eu-te-pego-na-saída. E ao lado de Harry, Thur andava com as mãos no bolso, exatamente como eu o tinha visto no outro dia, olhando para cima.
Nós nos juntamos mais e tentamos olhar para outro lado, mas de um jeito ou de outro, nossos olhos se voltavam para os quatro meninos que subiam as escadas. Exatamente como todas as outras meninas do colégio.
Harry, Thur, Micael e Chay passaram por nós.
Do mesmo jeito que passavam por todas as outras meninas.
Continua.....


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