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18
Eu não achei que ignorá-las iria ser tão difícil. Mas, dude, foi pior do que eu pensei. Ver Lua ali, parada, ao lado de Sophia – que realmente parecia arrasada, mas não mais que Chay – e não poder me explicar, dizer que era verdade o que eu quis dizer no outro dia, abraçá-la e mostrar para todo mundo que ela era minha e só minha, foi muito foda.
- É só passar reto, dude. - Micael incentivou Chay, que estava com um péssimo humor, meio pálido. - Ela não te levou a sério e merece isso.
- Eu sabia, desde o começo... - ele murmurava, chutando o chão, parecendo uma criança mimada. - Ai, meu Deus, por que ela tem que ser tão hot? - ele perguntou, finalmente passando pelas meninas, que estavam unidas perto de um banco.
- Todas elas são. - Harry disse, sem tirar os olhos das pernas de Michele, que estavam a mostra em uma saia xadrez.
- Ânimo, Chay, hoje é um novo dia! - eu disse exageradamente, fazendo ele dar um semi sorriso.
A situação estava pior do que eu pensava.
As três primeiras aulas se arrastaram, até que finalmente o sinal tocou e eu dei um pulo da cadeira, me lembrando de onde estava. Harry já estava parado ao meu lado e conversava com uma de suas fiéis fãs. Olhei para ele malicioso e saí da sala sozinho. Chay e Micael estavam na diretoria por quebrar o lixo da sala.
Tão previsível.
Andei pelos corredores, parando para cumprimentar alguns amigos e amigas. Encontrei uma das meninas que era apaixonada por mim e meu humor melhorou um pouco.
Saindo do emaranhado de pessoas no corredor, fui até a biblioteca, sem antes esbarrar em John.
- E aí, veado! - ele exclamou, me dando um empurrão. - Algum babado hoje?
- Vai se foder, John. - eu disse, peitando ele. Nós éramos da mesma altura, mas ele definitivamente era mais forte.
- Eu vou me foder e foder sua garota. - ele disse, apontando para Lua, que passava com Sophia atrás de nós. Fechei meus olhos e respirei fundo. - O que foi, ficou bravo? Então ela é mesmo sua garota? Não sei como alguém pode ficar com um loser como você... Mas Lua sempre fora meio burra, não é?
Então, com um lampejo de força e raiva, eu virei um soco no seu nariz perfeito. Ele caiu para trás, se apoiando nas mãos.
À essa altura, todos em volta estavam parados em um círculo e cochichavam. Lua estava lá, mas ao invés de fofocar, me olhava com preocupação.
- Vocês viram isso?! - John exclamou, se levantando e sorrindo por cima do sangue que jorrava do seu nariz. - O nosso Thur aqui ficou bravo porque eu falei da sua amada Lua!
Os cochichos foram mais intensos e eu senti a mesma raiva que sentira alguns segundos antes me dominar. Respirei fundo mais uma vez.
- Cala boca, John. - sibilei, tentando não gritar aquilo.
- Cala boca, John! - ele repetiu, fazendo uma voz afeminada. - Queria saber qual seria sua reação se eu contasse a todos seus amigos que você...
- John! - Lua exclamou, cortando o que John ia falar. Todos viraram seus rostos para ela, que entrava no meio da roda com os cabelos longos jogados de qualquer jeito na cintura e uma beleza estonteante. Olhei para ela aliviado, mas ela me ignorou, e andou em direção a ele, com passos firmes. Finalmente me olhou, mas não como eu queria. Ela só me mediu de cima a baixo e disse para John, com sarcasmo na voz: - Sério, porque você ainda perde seu tempo com... - me olhou novamente, com nojo. - Ele?
John sorriu, o sangue parando de escorrer pela boca. Ela parou ao seu lado e foi envolvida por seus braços, sorrindo com desdém, mas seus olhos ainda mantinham o nojo. E desconfiei que não era por mim.
- Isso não vai ficar assim, Aguiar. - ele disse, me olhando com ódio, os braços apertando Lua. Segurei-me para não avançar nele novamente. Alguma coisa me dizia que se fizesse isso, o esforço de Lua seria em vão.
John se virou levando Lua pelo corredor. Eu os segui com os olhos e me virei, entrando na biblioteca como se nada tivesse acontecido.
Entrei no computador, digitei minha senha e certifiquei-me que não havia ninguém por perto. Entrei no nosso blog, onde a foto que Chay havia postado há uns dois atrás, de umas meninas do terceiro ano vomitando na rua ainda estava lá. Fechei a página com ódio, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa.
Aquele blog imbecil foi o que tinha me juntado a Lua, mas estava sendo o pivô da separação.
De repente, algo me atingiu a cabeça.
“Foda-se o blog!” eu pensei, caminhando rapidamente até o pátio. “Foda-se minha reputação. Se eu tiver Lua, nada disso importa!”.
Saí e coloquei as mãos no rosto num reflexo involuntário. O Sol brilhava alto e eu varri o pátio, em busca de Lua. Vi-a sentada sozinha, perto de uma árvore afastada das pessoas.
Era agora ou nunca.
Lua fala:
Quando finalmente consegui despistar John, não tinha mais ânimo para nada. Estava me sentindo mal por saber que Thur havia brigado com ele por mim, e mesmo assim eu não tinha coragem de dizer tudo o que sentia por ele.
Sentei-me na minha árvore preferida, onde eu sempre ia quando as coisas ficavam ruins.
Sophia provavelmente estava no banheiro chorando, Michele estava com Harry escondidos em algum lugar pela escola para tentar esconder o impossível. Ou talvez para não magoar Chay e Sophia. Mel estava conversando com algumas meninas do terceiro ano e Micael jogava futebol com os meninos do primeiro. Os dois fingiam se ignorar, mas as rápidas olhadas de um para o outro entregavam tudo.
Todos estavam, de algum jeito, escondendo o sentimento.
É, nossas vidas haviam mudado tanto em tão pouco tempo.
Antes de alguns meses, nós provavelmente estaríamos sentadas juntas, rindo dos meninos que corriam atrás de nós e xingando os McLosers e todos os outros do colégio.
E veja só onde estávamos agora.
Todos se escondendo de algum jeito. E eu sentada na árvore da tristeza pensando no ser mais desprezível e irresistível do mundo.
- Hey. - ouvi alguém dizer atrás de mim. Virei-me e me senti meio tonta ao dar de cara com Thur, que já se sentava ao meu lado. Olhei em volta, procurando John, mas provavelmente ele estava com alguma menina, longe do nosso alcance. - Não se preocupe, se John aparecer vai receber outra surra. - ele disse, adivinhando meus pensamentos.
- Ótimo, se eu não tiver que abraçá-lo novamente. - eu disse, puxando as magas do meu cardigan preto e escondendo minhas unhas ruídas. Unhas nunca foram meu forte.
- Pode deixar, isso não vai acontecer. - ele sorriu, se apoiando nos cotovelos e olhando para o Sol. Repeti seu gesto e encostei meu ombro no seu. - Escuta, Lua, sobre hoje...
- Não precisa se explicar. - eu disse, jogando meus cabelos para trás, que caíram em uma cascata nas minha costas. O Sol bateu nas minhas clavículas e eu me senti bem novamente. Não só pelo Sol, mas por ter Thur ao meu lado.
- Mas eu quero. - ele resmungou, ficando sério. Olhei para ele e assenti com a cabeça, para ele continuar. - Sobre ontem. Sobre hoje.
- O que tem ontem?
- Quando eu disse que estávamos juntos eu... - ele parou, envergonhado. - Eu realmente pensava que estávamos juntos.
- Então porque fez daquilo uma piada logo depois? - perguntei, olhando para ele com o canto dos olhos. - Porque eu não quero me enganar em relação a você!
- Porque eu pensei que não fosse o que você queria. - ele disse, olhando para os tênis.
- É o que eu mais quero. - me ouvi dizendo. Ele sorriu, os cabelos caindo nos olhos. - E você?
- Eu nunca quis tanto algo na vida. - ele respondeu. E depois de demorar o olhar nos meus olhos, me deixando tonta, ele continuou: - E sobre hoje.
- Sobre hoje. - eu repeti. - Sobre o que quer falar? A burrada de Sô ou a briga?
- Lua, aquele blog não muda em nada. Não me importo se a escola inteira ficar sabendo. A única coisa que eu quero é te fazer feliz e ser feliz ao seu lado! Mas Chay... - ele disse, abaixando a voz. - Chay está realmente magoado.
- Sophia está realmente arrependida. - eu disse, triste por minha amiga.
- Chay e Micael são os mais cabeças duras. Vai ser difícil de perdoar. - ele disse, se perdendo nas pessoas que andavam pelo pátio, com o olhar vago. - Sempre pensei que eu fosse o mais orgulhoso. Mas acho que nenhum orgulho do mundo vai me manter longe de você.
- Thur? - eu sussurrei. Ele se virou e me encarou. Eu perguntei: - Você realmente brigou com John por mim?
Ele demorou um pouco a responder, me analisando. Mas enfim, respondeu:
- Sim.
Sorri e voltei a puxar as magas do meu cardigan, envergonhada.
- Lua, será que você ainda não entendeu? - ele perguntou, depois de um longo silêncio. - Eu te amo! Eu... - seu rosto corou e ele olhou novamente para o céu. - Eu sempre te amei.
Sentei-me ereta e olhei em seus olhos, que novamente me encaravam, embora o rosto ainda estivesse muito vermelho. Seus olhos estavam tristes, porém decididos.
Eu poderia ter feito milhões de coisas. Poderia ter dito para ele ir embora. Ou talvez dizer que ele estava enganado. Quem sabe ficar em silêncio até que ele fosse embora e me deixasse sozinha?
Mas a única coisa que eu consegui fazer – porque foi o que me pareceu correto – foi sorrir e dizer, quase sussurrando:
- Eu também te amo.
Ele sorriu e aproximou seu rosto do meu. Eu fechei meus olhos e respirei seu hálito doce por alguns momentos. Então senti seus lábios sobre os meus. Durou alguns segundos, e ele os retirou. Abri meus olhos, curiosa.
- Não quero fazer isso na frente de todo mundo. - ele disse, apontando com a cabeça para o pátio. Ninguém nos olhava, preocupados com a própria vida, mas tenho certeza que se ficássemos ali nos beijando por muito tempo alguém iria perceber e seria tarde demais. - E não quero deixar Chay pior do que ele já está.
- Eu não quero magoar Sophia. - eu murmurei. - E não quero que todos se metam na nossa vida.
- Eu não quero ficar longe de você. - ele disse, roçando seu nariz no meu, mas logo se separando. - Eu quero você pra sempre.
- Eu vou ser sua pra sempre. - eu respondi, sentindo seu cheiro.
Às vezes a vida podia ser boa.
19
Thur fala:
- Micael? Micael? Micael!? - eu gritava e batia na porta do quarto de Micael. De repente, ele apareceu na porta só de boxers e uma cara nada boa.
- O que foi, porra? - ele exclamou, coçando os olhos.
- Me empresta as chaves do seu carro? - pedi, fazendo minha melhor cara de gatinho do Shrek.
- Pra quê? - ele perguntou. - Ahá! Vai sair com alguma menina eim, eim, eim? - ele me deu vários cutucões, enquanto eu gargalhava.
- Nada disso. - eu disse, ficando sério de repente. - Eu preciso ir ao super-mercado.
- Super-mercado das curvas! - ele brincou, me dando um tapa na cabeça. - Quem vai ao super-mercado às... - olhou no relógio. Eram 6:22h, e faltavam 8 minutos para o despertador geral da casa tocar Why Don't You Get a Job do Offspring. - Porra, Thur, sua puta, você me acordou 8 minutos antes do despertador!
- Micael, minha gata, pára de frescura e me empresta o carro? - eu pedi novamente, já perdendo a paciência e os preciosos minutos.
- Ok. Mas lembre-se de que você ainda tem 17 anos. Nada de bebidas, mulheres ou drogas. - ele disse, imitando meu pai incrivelmente bem. Eu ri. Ele jogou as chaves da sua Eco Sport preta que ele raramente usava – de acordo com ele, o conversível de Harry impressionava mais as meninas – e voltou para o quarto, se misturando com a bagunça e as sombras.
Comemorei com uma dancinha idiota e disparei pela escada, pegando uma banana na fruteira pelo caminho. Me joguei de qualquer jeito no carro deMicael e alguns minutos depois já estava na frente da casa da Lua, sorrindo radiante para ela, que esperava por mim na porta.
Ela estava linda, com uma saia jeans azul marinha acima dos joelhos bronzeados. Os cabelos caiam sobre a cintura e ela usava um suéter de cashmere branco, com as mangas puídas e a barra desfiada.
Linda como sempre.
Ela veio correndo em direção ao carro e jogou sua mala rosa bebê no banco de trás, junto com o fichário, e me beijou com vontade. Eu a beijava e sorria por dentro. Ficamos nos beijando até eu perder o fôlego e exclamar:
- Boa dia para você também!
- Bom dia! - ela exclamou, me dando um selinho. - Agora aonde você vai me levar por quase meia hora antes do colégio?
- Aí você já tá querendo demais, srta. Blanco. - eu disse, bagunçando seus cabelos muito bem penteados. Ela não ligou e continuou sorrindo para mim. Por um instante não consegui desviar meus olhos de tamanha beleza. Mas aí me lembrei do que tinha preparado para ela e acelerei o carro.
- É nessa hora no filme que você me mata? - ela perguntou, colocando a mão na minha perna. Eu me arrepiei todo, por um simples toque, e respondi, malicioso:
- Só se for de amor.
- Nossa, Aguiar, que coisa mais gay! - ela exclamou e nós dois gargalhamos.
Fomos cantando durante o caminho, e nos beijando durante os faróis. Em um, nos empolgamos tanto que um motoqueiro passou ao nosso lado e gritou: “Arrumem um quarto!”.
O dia estava ensolarado e logo Lua tirou o suéter, ficando só com uma blusa de alcinha vermelha. Passei a língua pelos lábios sem ela ver, tentando me controlar.
Como se isso fosse possível.
- Porra, Lua, você veio assim só pra me provocar, não é? - eu exclamei, virando os olhos. Ela sorriu para mim e respondeu:
- Quem sabe?
Passamos por dentro de um bosque meio fechado, quicando no banco do carro. Lua ria de todas minhas piadas e eu ria de suas maluquices.
Quando estávamos perto, parei o carro e amarrei uma venda nos seus olhos. No começo ela protestou, mas depois deixou.
- Estamos chegando. - eu disse, parando o carro novamente, só que dessa vez tínhamos chegado mesmo. Ela deu um gritinho empolgado e eu desci do carro. Ajudei-a a descer do outro lado e a levei de cavalinho até uma clareira cercada por árvores enormes. Mais à frente, um lago corria e o barulho era relaxante. - Pronto. Um, dois, três. - tirei sua venda e ela piscou algumas vezes, antes de sorrir e envolver seus braços no meu pescoço.
Ela me beijou longamente e parava às vezes, para dar alguns selinhos. Eu a peguei pela cintura e a puxei o mais próximo possível. Ela segurava meu rosto com as duas mãos quentes e um frio subia e descia pela minha coluna vertebral.
- É lindo! - ela exclamou, finalmente me soltando e correndo até o lago. Fui atrás dela e me agachei ao seu lado, examinando seus olhos, sua boca, seu nariz. Tudo nela era perfeito. - Como você descobriu isso?
- Eu vinha muito aqui com meu pai. - eu respondi, jogando um pouco de água nas suas pernas nuas. - Ele é um grande fã da natureza.
- Seu pai é dos meus. - ela sorriu, jogando água de volta em mim. - Não se sente invadido por me mostrar um lugar tão íntimo?
- Não. - respondi, com sinceridade. - Na verdade, eu quero dividir tudo com você a partir de hoje.
- Eu também. - ela respondeu, se levantando. - Vem, vamos dançar!
- Dançar? - eu perguntou, incrédulo. - Sem música?
- Você não sabe cantar? - ela perguntou, me provocando. - Porque pelo o que eu soube, e pelo o que eu ouvi, sua voz é linda.
Peguei-a pela cintura, mordendo os lábios. Ela gargalhou e envolveu suas mãos novamente nos meus ombros, mas dessa vez ela apoiou a cabeça na minha clavícula e eu apoiei a minha nos seus cabelos com cheiro de morango.
- “If you want my future, forget my past! If you wanna get with me, better make it fast!” - eu cantei, com a voz afetada. Lua gargalhou no meu peito e eu continuei cantando, enquanto nos balançávamos lentamente. - “Now don't go wasting, my precious time! Get your act together, we could be just fine...”
- “I'll tell you what I want, what I really really want! So tell me what you want, what you really really want!” - ela cantou junto comigo, se separando do meu abraço e dançando com os quadris. Fiquei meio paralisado, só observando ela dançar, mas continuei cantando e rindo, enquanto ela balançava os braços e jogava os cabelos longos para todos os lados. - “I wanna, I wanna, I wanna, I wanna, I wanna really, really really, wanna zigazig ha!”
Começamos a rir e ela se jogou nos meus braços novamente. Quando conseguiu parar, me olhou nos olhos, com uma expressão séria, e pediu:
- Agora é sério, Thur, vamos dançar.
- O que você quer que eu cante? - perguntei, afagando seus cabelos.
- Me surpreenda.
Lua fala:
E ele me surpreendeu.
Não só por sua linda voz, ou pelas suas mãos gentis e firmes na minha cintura. Não. Foi mais que isso. Foi a paixão com que ele cantou.
- “Too alarming now, to talk about... (Muito apressado agora para falar sobre isso...). - ele começou, balançando meu corpo para um lado e depois para o outro, junto com ele. [N/A: Desculpem meninas, eu sei que My Hero não é muito romântica, mas é linda mesmo assim! Ah, e eu fiz essa parte ouvindo My Hero versão Paramore, então se quiser criar um clima... xD] - Take your pictures down, and shake it out... Truth or consequence? Say it aloud! (Pegue suas fotos e as segure bem... Verdade ou conseqüência? Fale em voz alta!). - a voz dele era mansa, quase um sussurro, mas mesmo assim era maravilhosamente afinada. Apertei-me mais no seu abraço e continuei balançando com ele. - Use that evidence, race it around! There goes my hero! Watch him as he goes... (Use aquela evidência, saia correndo! Lá se vai meu herói! Observe-o enquanto ele se vai...). - ele cantou baixinho no meu ouvido, e eu me arrepiei inteira. - There goes my hero! He's ordinary!” (Lá se vai meu herói! Ele é uma pessoa comum!).
Eu poderia ficar ali para sempre, só ouvindo sua voz e sua respiração. O vento soprava gelado nos meus cabelos e nos dele, e eu me afundava cada vez mais no seu peito, me desmanchando. Ele parou um pouco de cantar e só me balançou mais um pouco. Fechei meus olhos e suspirei.
A vida estava cada vez mais perfeita.
- Don't the best of them, bleed it out? While the rest of them, peter out... (O melhor deles, não sangra? Enquanto o resto, desaparece...). - ele continuou, ainda em um sussurro. Sua voz ficou mais rouca e ele me segurava com mais firmeza. - Truth or consequence? Say it aloud! Use that evidence, race it around! (Verdade ou conseqüência? Fale em voz alta! Use aquela evidência, saia correndo!). - o vento bateu novamente, e eu me arrepiei de novo, fazendo ele rir baixinho. Uma risada meio rouca, mas muito sexy. - There goes my hero! Watch him as he goes... There goes my hero! He's ordinary! Kudos my hero, leaving all the best! You know my hero, the one that's on! (Lá se vai meu herói! Observe-o enquanto ele se vai... Lá se vai meu herói! Ele é como eu e você! Glória para o meu herói, abandonando todos os melhores! Você conhece meu herói, aquele que está por cima!).
Ele escorregou as mãos para a base da minha bunda – sei que é feio falar assim, mas é melhor que nádegas, certo? - e eu escorreguei as minhas para seu peito forte, que descia e subia calmamente.
- There goes my hero! Watch him as he goes... There goes my hero! He's ordinary! (Lá se vai meu herói! Observe-o enquanto ele se vai... Lá vai meu herói! Ele é como eu e você!). - ele terminou. E como se ele fosse algum tipo de ímã, inclinei minha cabeça e beijei seus lábios entreabertos.
O beijo foi se intensificando à medida que o frio na minha espinha aumentava. Se as mãos de Thur estavam perto, agora já estavam estrategicamente apertando minha bunda. Eu o fazia se arrepiar a cada puxada mais forte que dava nos seus cabelos.
Ele não se cansava nunca de me beijar, e sempre ofegava mais. Depois de algum tempo, ele pousou a mão direita no meu pescoço, me fazendo ofegar junto com ele, enquanto descia vagarosamente, quase chegando no meu peito.
Mas veja bem.
Quase.
Ele estava chegando bem perto – e meu corpo endureceu – quando meu celular começou a cantar os versos de “Kiss Me” versão New Found Glory.
Suspirei aliviada.
Claro, não era como se eu não quisesse me amassar com Thur. É só que... Eu não me sentia bem fazendo aquilo em um lugar tão... verde!
Ok, é agora que vocês me chamam de fresca.
- Não atende... - ele pediu, ainda com a boca colada na minha.
Olhei no visor do meu iPhone – presente do papai. Era Mel, provavelmente querendo me contar algum capítulo emocionante de alguma série que ela estivesse assistindo ou simplesmente para perguntar se eu queria que ela comprasse um lanche natural para mim antes de entrar na sala e eu pagava depois – coisa que ela fazia todos os dias e mesmo assim me ligava para perguntar.
- Pode ser importante! - menti, me desvencelhando do seu abraço gostoso. Coloquei o aparelho na orelha e falei: - Alô?
- Luinha!? - Mel gritou por cima de algumas risadas altas. Provavelmente já estava na escola.
- Não, Melzinha, é a vovó Mafalda! - brinquei, virando os olhos.
- Cadê você, vovó Mafalda? - ela perguntou, e as risadas em volta aumentaram o volume. Pude reconhecer a risada escandalosa de Harry e os miados de Michele.
- Eu estou... - olhei para Thur alarmada, mas ele gesticulou algo do tipo “indo para a escola” e eu repeti: - Indo para a escola.
- Sozinha?
- Não, com o Jim Sturgess! - respondi, estranhando a pergunta. - Claro que sozinha. Eu vou sozinha para a escola todo dia, porque hoje seria diferente?
- HAHAHAHA! - ela riu sozinha. - Não é isso, Luinha, é que nem você nem o Aguiar chegaram, então eu e as meninas apostamos que você estava em um lugar e ele em outro, e os meninos apostaram que vocês estavam juntos se pegando no bosque!
A essa altura, Thur ouvia tudo, pois eu tinha colocado no viva-voz, e ele estava ficando vermelho de segurar a risada.
- Hey, espera aí! - eu exclamei, colocando a mão na boca de Thur para ele não rir. Ele passou os braços pela minha cintura e eu continuei: - Então quer dizer que vocês e os meninos estão de boa?
- Mais ou menos. - ela respondeu, abaixando um pouco a voz. - Chay nem olha na cara de Sophia, mas fora isso... Eu achava que eles não iam falar mais com a gente pelo resto da vida! Mas acho que só Chay ficou realmente bravo, porque você sabe, Sophia realmente traiu sua confiança... Só espero que um dia ele a perdoe e ela tire esse olhar triste do rosto... Bom! - ela exclamou, como se lembrasse de algo. - Eu preciso ir, Micael quer contar uma piada. Ah, e vem logo pra escola!
E desligou.
20
Thur fala:
- Corre, Luinha! Vamos! - exclamei, puxando-a pelo braço.
- Ai, seu maluco! - ela gritou, se soltando dos meus braços. - O que você tem?
- Luinha! - eu resmunguei, arregalando os olhos. - Você não ouviu? Estamos perdendo a piada de Micael!
Lua garalhou e eu sorri vitorioso. Fazê-la rir era melhor do que tudo no mundo.
Quer dizer, só não era melhor do que aquele corpo maravilhoso e aquele rosto perfeito.
Peguei sua mão e pisquei para ela, maliciosamente, me conformando que não passaríamos do beijo aquele dia. Mas tudo bem, com ela – só com ela – eu podia esperar.
Não podia?
- Vamos então, pudim de beterraba. - ela disse, me dando um beijo no rosto sem dificuldades. Lua era muito alta, quase do meu tamanho.
Guiei-a pelo caminho de volta para o carro.
Voltamos para a escola rindo o caminho inteiro de uma história que ela contava sobre seu pai e alguns travestis. Eu não conseguia parar de rir, principalmente quando ela disse que o pai dela olhou para os três homens depois de algum tempo conversando com eles e perguntou: “Vocês são homens?”.
- Hey, Thur. - ela sussurrou, em um dos nossos raros momentos de silêncio. Estávamos chegando perto da escola e eu estava me sentindo mais deprimido do que nunca. - Você pode me deixar duas quadras antes da escola? Eu não quero levantar suspeitas e...
- Tudo bem. - a cortei. Já tinha entendido, desde o começo, que para ficar com ela eu teria que modificar muita coisa em mim e na minha rotina. Por um lado, isso me deixava bravo, pensando se ela não poderia assumir e foda-se os outros, mas por outro, eu entendia o lado dela.
Ou pelo menos fingia que entendia.
E outra. Eu também tinha que manter minha reputação de pegador.
Deixei-a a duas quadras da escola, dando um selinho nos seus lábios vermelhos e arrancando pela rua. Cheguei na escola e estacionei a Eco deMicael perto do carro do diretor. Faltavam uns 15 minutos para o sinal bater e a escola já estava lotada.
- Hey, dude! - Chay acenou de uma mesa onde estava com Harry, Micael, Michele, Mel e Sophia. Fui até eles e me sentei na mesa. - Até que enfim!
- Sentiu minha falta, é, coisa fofa? - perguntei, mandando um beijo para ele, fazendo os outros rirem. Sophia estava ao meu lado, particularmente feliz, comparado aos outros dias, que ela andava com a cabeça baixa e os olhos vermelhos. Olhei para Chay e ele estava ignorando a presença da garota, mas estava meio nervoso, mexendo os pés sem parar.
- Quase morri, meu amor! - ele respondeu, piscando para mim.
- Ok, vamos parar de viadice e decidir de uma vez por todas o que vamos fazer no fim de semana? - Michele exclamou. Harry estava com os braços na sua cintura e todos que passavam olhavam para nós e cochichavam. Senti uma pontada de inveja, querendo estar assim com Lua.
- Eu já disse que quero assistir O Massacre da Serra Elétrica x Jason! - Micael disse, emburrado.
- Micael, o dia que eu assistir esse filme, você pode me colocar no hospício, porque eu provavelmente vou estar LOUCA! - Mel exclamou, e os cantos da boca de Micael se curvaram para cima. Ela deu um soco no seu ombro e ele fez uma careta que fez ela sorrir.
Michele e Harry se entreolharam.
Love is in the air?
- Vamos... - eu comecei, mas fui interrompido por Lua, que chegava e atraía todos os olhares masculinos do pátio. Uma vontade gigante de me levantar e gritar “TIREM OS OLHOS QUE ELA JÁ TEM DONO!” invadiu meu cérebro, e eu tive que me segurar na mesa para não realmente fazer.
- Vamos? - Sophia me tirou do transe quero-que-todos-morram e eu sacudi a cabeça para ela. Chay, Harry e Micael olharam discretamente para onde eu estava olhando e pousaram os rostos sérios-mas-morrendo-de-vontade-de-me-zoar em mim. Eu só apertei os olhos para eles e logo depois eles já estavam fazendo o que faziam antes.
Ou seja, nada.
- Para a praia? - me lembrei que meu tio tinha uma casa vazia pé na areia em uma das praias mais lindas do estado e, bem, por que não? Tínhamos 18 anos, – bem, menos eu e as meninas, mas isso não vem ao caso – dinheiro, - não éramos milionários, mas, sim, tínhamos dinheiro – carro e beleza. O que nos impedia?
Ah, seria por que dois de nós nem se olhavam, dois de nós estavam constantemente se agarrando depois de ter experimentado a primeira vez, dois de nós fingiam ser amigos quando realmente morriam um pelo outro e dois de nós, bem, se amavam e não podiam assumir por motivos supérfluos e mesquinhos?
Ah... É, era por isso...
- Quem vai pra praia? - Lua perguntou, se jogando ao lado de Harry e Chay. - Eim?
- Nós. - eu disse, dando de ombros, tentando não olhar por muito tempo para seu rosto perfeitamente assimétrico. - Quer dizer, se vocês quiserem.
- Aonde nós ficaríamos? - Michele perguntou, desgrudando a boca de Harry, como se estivesse ouvindo toda a conversa.
- Casa do meu tio. Duas suítes, piscina, churrasqueira, sala com dvd e cozinha americana. - respondi, vendo os olhos das meninas brilharem ao ouvirem a palavra suíte.
- Eu fecho. - Micael disse. Chay concordou com ele, olhando rapidamente para Sophia, que analisava as unhas. Harry fez um jóia com a mão, beijando o pescoço de Michele.
Meu Deus, procurem um quarto!
Depois que eles tinham percebido que se agarrar na frente de Sophia e Chay não os incomodava em nada, eles não PARARAM MAIS!
- Claro, preciso mesmo pegar uma cor. - Mel disse, se olhando. Micael olhou também e abriu um pouco a boca quando ela desgrudou a regata da barriga para analisar o seu estado de “branquisse”.
- Eu também! - Michele parou de beijar Harry e exclamou, mostrando o braço para Mel. Sophia concordou e Lua disse que ela também.
Aliás, do que meninas não reclamavam?
- Ok, lumbriguinhas, nós vamos então? - Chay perguntou.
- Eu vou! - Mel disse novamente.
- A Mile também. - Harry disse por Michele, que sorriu e apertou as bochechas dele.
Blergh.
Não que eu não estivesse morrendo de vontade de fazer o mesmo com Lua.
- Pode ser. - Sophia disse, corando ao trocar olhares com Chay, que felizmente tirou a cara séria do rosto e sorriu um pouco.
- É, eu vou. É só não me deixar muito tempo perto do Aguiar! - Lua disse e piscou para mim. Eu mostrei a língua para ela e todos riram.
Realmente, era só não ficar muito perto dela.
Mas não pelos motivos que todos achavam.
21
Lua fala:
- Esse definitivamente me deixa uma vaca gorda! - Sophia reclamou, tirando o biquíni rosa claro que ficava maravilhoso nas curvas dela e jogando no cesto de biquínis péssimos. Separamos três cestas, a dos biquínis ótimos/lindos/não-fico-uma-vaca-gorda-com-esse, a dos biquínis se-todos-sujarem-eu-uso e a dos biquínis péssimos/desconfortáveis/bregas/fico-uma-vaca-gorda-com-esse.
- Eu gosto desse. - Michele disse, se analisando, com um biquíni azul-turquesa com a parte de baixo estilo cuequinha e a parte de cima cortininha, no espelho de parede do meu quarto. Era quarta-feita e estávamos no meu quarto porque era o único que tinha espelho por todas os lados, então podíamos nos botar defeito à vontade. - Eu fiquei mais alta!
Michele era a menor de nós três. Mas quando eu digo menor, era menor mesmo! Ela tinha 1.58m.
- Claro, e Papai Noel passou aqui em casa ontem. - eu brinquei, e ela jogou uma almofada em mim. Eu já tinha separado todos meus biquínis e fiquei observando as meninas provarem os seus.
Não ficávamos constrangidas nem nada do tipo. Nos trocávamos juntas desde bebês, era meio que um hábito nosso.
- Lua, me ajuda aqui? - Mel pediu, se enroscando em um biquíni estranho e pequeno verde-limão de Sophia. Definitivamente ele iria para os péssimos. Cheguei perto de Mel e tentei desatar o nó, mas não consegui, então ela tentou me ajudar.
- HEY, num rela ni mim! [N/A: Viu só Lucas Feldélcio, promessa é dívida! HAHAHAHA] - eu exclamei de brincadeira, e ela deu um pulo para trás, fazendo as outras rirem.
- Meninas... - Sophia suspirou, e eu senti a tristeza na sua voz. Eu e Mel fomos até onde ela estava e Michele também. Ela se sentou no chão e foi acompanhado por nós.
- O que foi, Sô? - perguntei, passando as mãos quentes por seus ombros gelados.
- Não sei, é só que... - ela começou, suspirando. - E se Chay nunca me perdoar?
- É claro que ele vai ter perdoar! - Mel a encorajou. - Mas você tem que entender que ele também está sofrendo. Você... - ela nos lançou um olhar de dúvida e antes que nós pudéssemos fazer alguma coisa, continuou: - Você magoou ele de verdade.
- Eu sei. - ela disse, e uma lágrima escorreu por seu rosto pálido. Se a situação não fosse tão ruim, eu estaria rindo de nós quatro sentadas no chão de pernas de índio, duas de biquínis, uma quase pelada com o biquíni todo enroscado no corpo e eu de roupa.
- Mas não chora! - Michele piou, lançando um olhar bravo para Mel, que deu de ombros. - Nós vamos nos divertir pra caramba, e outra, eles estão levando um estoque de Tequila e Vodka!
- Sério? - perguntei, curiosa. Nem eu sabia disso.
- Ahám, o Harry me disse! - ela respondeu, sorrindo ao pronunciar o nome dele.
Nós íamos no dia seguinte, quinta-feira, pois sexta não teria aula na escola devido ao conselho. E, mesmo que não tivesse o conselho, nós iríamos, porque alguns alunos do segundo ano ouviram nossos comentário e a única coisa que falavam na escola era sobre os dois lados da força estarem indo para a praia juntos.
E, por falar nisso, no quesito fofoca, aparentemente, eu e Thur éramos noivos e eu estava grávida dele, por isso escondíamos o romance. Sophia eChay brigaram porque Chay estaria com Michele. Harry era o corno manso, e Micael só não ficava com Mel pois tinha medo de que os boatos de que ela tinha AIDS fossem verdadeiros.
Sem mais nada a declarar.
- Então é isso! - Sophia exclamou, se levantando em um pulo e jogando o biquíni lilás na cesta dos ótimos e finalmente sorrindo. - Se ele me ignorar eu vou afogar todas minhas mágoas na tequilaaa!
- Tequilaaa baby! - nós exclamamos juntas. Nós quatro éramos VICIADAS em Tequila. E eu não estou brincando.
- Mas se a Luinha sair gritando pela rua que é uma xícara DE NOVO, eu nunca mais tomo tequila com ela! - Mel disse, mostrando a língua para mim.
- Foi só uma vez! - eu reivindiquei.
- Uma vez que você se lembra. - Michele disse, e recebeu um tapa na cabeça.
- Bom, eu acabei. - Mel disse, jogando o biquíni verde-limão no ventilador e pegando sua cesta de biquínis mais ou menos e jogando junto com os biquínis legais. Depois pegou essa cesta e despejou na mala abarrotada de roupa e a fechou – depois de alguns minutos de batalha.
Michele e Sophia acabaram algum tempo depois e nós deixamos nossas malas no meu quarto e fomos assistir Penélope pela décima quinta vez no mês.
Precisaríamos nos acalmar antes de entrar no carro daqueles maníacos no dia seguinte.
22
Thur fala:
O dia amanheceu ensolarado e quente. Muito quente. Ok, quente pra porra.
Pulei da cama antes mesmo do despertador tocar. Ouvi a música tocar no quarto de Harry e me dirigi até lá, arrastando meus pés. Entrei e me joguei de qualquer jeito na sua cama coberta por revistas, camisetas, livros e papéis, como eu sempre fazia, todos os dias.
Harry já estava acostumado, então só continuou jogando qualquer coisa que encontrava no armário dentro de uma mala gigante da Nike. Entre as camisetas e shorts, jogou luvas e eu jurei ter visto um cachecol. Ri sozinho e ele nem percebeu. Ele sempre acordava cedo, mas nem sempre acordava de verdade.
- Alguém viu minha escova de dentes? - Chay perguntou, entrando no quarto com uma calça de moletom furada nos joelhos.
- A última vez que eu vi estava na cozinha, dentro do armário de chocolate. - Harry respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma escova de dentes na cozinha.
Bem, na nossa casa era.
- Alguém viu meu boné azul? - Micael perguntou, passando por Chay que saía do quarto.
- A última vez que eu vi estava no banheiro lá de baixo. - eu respondi, dando de ombros.
Se alguém gravasse nossas conversas e colocasse no YouTube, garanto que fariam muito sucesso.
Harry terminou de socar as coisas na mala e foi colocar a roupa que tinha separado. E, ao contrário de mulheres, eu saí do quarto sem pensar duas vezes.
Sabe como é, eu não curtia muito ver homens pelados e essas coisas...
Nem um pouco.
Entrei novamente no meu quarto e acendi a luz. Ele estava todo bagunçado, com cuecas e meias jogadas no chão, meu laptop aberto na escrivaninha, meu abajur do Bob Esponja metade aceso metade desligado, o carpete todo furado de cigarro – eu costumava fumar – e manchado de Coca e Vodka, a cama toda bagunçada e as paredes rabiscadas por todos que já entraram ali, com frases como “vai se foder, Aguiar” e “Aguiar para presidente”.
Era o meu lugar favorito no mundo.
Ai, que gay!
Peguei minha mala verde escura da Adidas e coloquei nos ombros, saindo pelo quarto e batendo a porta de qualquer jeito. O pôster do Green Day voou e voltou ao lugar, como sempre fazia.
Chegando na sala, todos já estavam lá, segurando suas malas e colocando seus óculos de sol.
- Vamos? - Harry perguntou, girando as chaves do conversível nos dedos, como sempre fazia.
- Vamos. - eu disse, colocando meus óculos de sol e boné. Tínhamos combinado de viajar com o capô abaixado para bagunçar o cabelo das meninas e as deixar irritadas, então tínhamos que ir de boné para que os nossos próprios cabelos não voassem. Peguei o violão no chão e rumamos ao carro de Harry.
Eu estava sentindo que aquele seria um fim de semana memorável.
Lua fala:
A minha casa parecia um inferno. Logo às 8h da manhã.
Os meninos tinham combinado de passar em casa às 10, então nos acordamos às 7h.
Nem fodendo – desculpe o palavrão – nós íamos nos encontrar feias com eles.
Certo?
- ALGUÉM VIU A PORRA DO AMARRADOR DE CABELO ROSA QUE ESTAVA EM CIMA DO BANHEIRO? - Michele gritou, entrando no quarto com as mãos no topo da cabeça, segurando um rabo-de-cavalo que descia como uma cascata nas suas costas.
Ela estava com um shorts jeans e uma blusa de alças branca. O Nike Shox rosa com branco completava o look linda/esportiva.
Minha mãe sorriu para ela, que corou. Não sabia que ela estava lá.
- Desculpa, tia Jô. - ela disse, lançando um olhar mau-humorado para mim. Eu mostrei a língua para ela, enquanto minha mãe prendia meu cabelo numa trança comprida.
- Tudo bem, Mile, você não é a única que fala palavrão aqui. - minha mãe, Joana, tia Jô pras mais íntimas, respondeu, ainda calma.
Essa era minha mãe. Sempre calma.
Agora espera até as visitas irem embora.
- Pronto! - Sophia disse, sorrindo com todos os dentes para nós. Seus cabelos estavam presos em duas trancinhas ao lado do rosto e ela parecia uma boneca de porcelana.
Nós havíamos combinado de prender o cabelo porque tínhamos certeza que os meninos iriam querer viajar com o capô do carro levantado, só para irritar.
- Linda! - Mel elogiou, observando Sophia de cima a baixo. Ela usava uma saia de malha que ia até um pouco acima do joelho, branca com vermelho. Seus ombros estavam amostra com a blusa de alça vermelha. Ela usava uma sandália rasteira de bambu – ok, eu sei lá a porra do material daquela sandália – com pedrinhas vermelhas.
Estava linda.
Mel se levantou para se espreguiçar e para mostrar que também estava pronta e não ficou atrás de nenhuma das meninas. Estava com uma jardineira jeans – de mini-saia – e uma baby-look roxa por baixo. Usava aquelas Havaianas personalizadas rosa e roxa e os cabelos estavam em um rabo-de-cavalo alto com alguns fios desfiados na frente.
- Você também, eim Melzinha! Quer matar o Borges do coração? - eu disse, e ela corou e mostrou o dedo do meio pra mim, fazendo todas rirem, inclusive minha mãe.
- Você também está linda, filha. - minha mãe disse, me admirando depois de ter acabado a trança.
Eu também estava de jardineira, só que de shorts. Ela era jeans bem clarinha e por baixo eu usava uma regata verde. Nos pés, uma rasteira de couro branco com strass.
Olhei no relógio. Só nesse papo, eram 9:23h. Todas estavam prontas e fomos tomar café.
Eu não estava muito a fim de comer nada, então tomei um copo de suco de maracujá pra ver se eu me acalmava e se o pensamento saía de Thur e pousava no mundo real.
Mas eu só queria saber como ele estaria!
Porra, era demais?
Ficamos enrolando na cozinha, minha mãe contando histórias malucas da adolescência – tomando cuidado para não envolver meu pai, já que ela não falava com ele nem dele há muito tempo. Nem com ele nem com meu irmão – e nós mijávamos de rir toda vez que ela contava de um namorado que tivera que fazia xixi na cama.
Quando eram 10:08h, ouvimos barulhos de buzinas na frente de casa. Nos entreolhamos e saímos correndo para olhar a sala de estar e grudamos nossas caras na janela. Eram eles.
Harry e Micael estavam apoiados no carro, no estilo garoto-mal-que-espera-a-namorada. Chay estava em pé dentro do carro, olhando para as nuvens. Thur estava parado com as mãos nos bolsos, ao lado de Micael, mais lindo do que nunca.
Harry usava uma bermuda jeans e uma camiseta pólo listrada de azul com branco. Nos pés, um Puma branco com azul. Micael estava de bermuda camuflada e camiseta azul-marinha, combinando com as Havaianas azul marinhas. Chay usava uma camiseta verde mamãe-não-me-perca-na-neblina e uma bermuda preta com detalhes em verde, junto com tênis estilo pão-que-cresceu-demais.
Thur era, de longe, o mais lindo.
É, eu sei que eu sou suspeita para falar.
Foda-se.
Ele usava uma bermuda jeans, como Harry, mas a dele era mais escura e desfiada na barra. A blusa vermelha com uma caveira em preto ficou meio agarrada no peito, que descia e subia com a respiração. Nos pés, All Star preto, surrado e sujo.
Lindo.
- Ai meu Deus, o Chay está tão lindo! - Sophia suspirou, saindo de perto da janela e correndo até onde nossas malas estavam. – Vamos logo antes que eu mude de idéia!
- Vamos! - eu sorri, pegando minha mala vermelha da Kipling no chão e colocando a mochila da Nike vermelha com preto nas costas. As meninas pegaram suas malas Kipling – todas eram do mesmo modelo, porém de cores diferentes – e demos um beijo estalado no rosto da minha mãe.
- Se comporte. - ela disse no meu ouvido.
Ah, desculpe mãe, mas era a última coisa que eu iria fazer.
23
Thur fala:
Se elas queriam quase nos matar do coração, bem, conseguiram.
Sério. Vai tomar no cu. Elas estavam MUITO hots.
Muito, muito, muito, muito hots.
Hots demais.
Já mencionei que elas estavam... hots?
Quando saíram da casa de Lua segurando as malas nas mãos e descendo as escadas de pedra da entrada, meu coração meio que deu um pulo no peito.
Mas não foi só o coração que pulou, se é que você me entende.
Micael e Harry saíram correndo para pegar a mala com as meninas, quase tropeçando nas pernas. Chay me olhou suplicante e eu virei os olhos.
- Eu te ajudo, Sô do meu coração. - eu disse, pegando a mala verde-limão que combinava com a camiseta de Chay. Ela sorriu para mim e caminhou até o carro. Olhei para o lado e Lua descia as escadas com as escandalosamente lindas pernas de fora com uma jardineira jeans. Ela me lançou um olhar de cão sem dono e eu me aproximei dela, tentando ser o mais hostil que conseguia.
- Deixa que eu levo a sua, Blanco.
- Só para se achar o fodão, não é, Aguiar? - ela perguntou, quase jogando a mala em cima de mim. Pisquei para ela quando ninguém mais olhava nossa pequena discussão e ela piscou de volta,
Joguei as malas no porta-malas que já estava abarrotado de malas e pulei para o banco de trás, ficando estrategicamente ao lado das pernas nuas de Lua e ao lado de Chay, para não cair em tentação nas pernas igualmente lindas das outras meninas.
Na frente, Harry dirigia e Michele ia ao lado, roubando o posto de co-piloto de sempre de Micael, que não se importou, pois estava meio prensado entre Mel e Sophia.
Sophia estava no apoio do banco, na ponta. Ao lado Micael estava sentando no banco e Mel vinha em seguida. Chay também estava sentando no apoio do banco e eu estava ao seu lado, sentado como uma pessoa normal. Lua estava ao meu lado, também no apoio do banco.
Nós sabíamos que quando entrássemos na expressa teríamos que nos espremer no banco de trás, mas enquanto isso não acontecia íamos nos divertindo com o espaço.
Harry – logo depois de dar um longo beijo de oi em Michele – deu partida no carro e ela colocou Offspring no som, estourando as preciosas caixas de som do conversível.
Nós cantamos o caminho todo até a expressa. Eu tentava não encostar em Lua, mas estava meio difícil com as suas longas pernas bem do meu lado, me chamando. Mas eu me segurei.
Palmas para mim.
- Gente, sentando aí, chegamos na expressa. - Harry disse, olhando pelo retrovisor, o vento bagunçando todo seu cabelo. Michele tentava arrumar, mas não estava dando muito certo.
- Alguém troca comigo? Eu não gosto de ficar espremida na ponta! - Sophia choramingou. Mel lançou um olhar significativo para Lua e disse:
- Eu troco.
Elas trocaram rapidamente e então Sophia percebeu que teria que ficar ao lado de Chay. Revirou os olhos e olhou para Lua, que estava rindo com a mão na boca. Quando percebeu o olhar da amiga, parou de rir na hora, olhando para frente.
Lua desceu do apoio e caiu ao meu lado, com metade do corpo colado no meu e a outro metade na porta do carro. Chay, ao meu lado, tentava ao máximo ficar longe de mim, então estava praticamente em cima de Sophia, que olhava para todos os lados, menos para ele. Micael e Mel conversavam animadamente sobre a Segunda Guerra Mundial – sim, você não ouviu errado. Micael falando sobre a Segunda Guerra. Impagável – e nem perceberam o aperto em que estavam.
- Se você soubesse o quanto eu quero te agarrar agora não ficava tão perto de mim. - sussurrei no ouvido de Lua, vendo que todos estavam tão entretidos em ouvir música, – Harry e Michele – se ignorar – Chay e Sophia – e conversar – Micael e Mel.
Lua fechou os olhos e encostou sua cabeça na minha por dois segundos. Depois levantou e não disse nada.
- Eu te amo, sabia? - eu disse, novamente no seu ouvido.
- Eu também te amo. - ela disse no meu, e voltou a observar as paisagens das montanhas.
A viagem durava duas horas, e eu já estava quase morrendo na primeira meia hora.
Ótimo.
- Thur! - Harry gritou lá da frente. - Onde você colocou as bebidas?
- Na mala marrom. - eu respondi. - Ela está lá atrás, embaixo da mala do Chay.
- Que que tem minha mala? - Chay perguntou, saindo de algum tipo de transe.
- Ela voou pelo porta-malas e nós não podemos voltar para pegar. - Harry disse, dando de ombros.
- AI MEU DEUS! - Chay exclamou, e todos nós começamos a rir. - A MINHA CUECA DA SORTE ESTÁ NAQUELA MALA! HARRY, VOLTA, PELO AMOR DE DEUS!
Nós gargalhávamos enquanto ele balançava Harry pelos ombros, pedindo para ele voltar.
Quando finalmente Harry parou de rir e explicou para ele a verdade, Chay ficou mais emburrado do que antes e encostou sua cabeça no banco.Sophia ficou o analisando, e ele abria os olhos de vez em quando para ver se ela continuava, fechando-os novamente quando via que sim.
- Thur, você trouxe o baralho? - Micael perguntou.
- Tá na sua mala, no bolso da frente. - eu respondi, como se fosse a mãe dele. Mas na verdade eu era a mãe de todos eles, mesmo sendo o mais novo.
O mais responsável.
E o mais veado, se você está realmente lendo essas coisas que eu falo.
- Ah, que graça, o Thur lembra de tudo! - Michele disse, se virando para mim. Senti meu rosto queimar. - Ah, que graça, e ainda por cima fica vermelho! Se o Judd não tivesse a pegada tão boa eu largava dele pra ficar com você!
- Largava nada. - Harry disse. - Essa aí só larga de mim quando morrer!
Nós rimos quando Michele mostrou a língua para Harry. Olhei para Lua e ela estava meio vermelha, não sei se pelo sol ou por... ciúmes?
Harry – depois de desgastantes horas tentando me controlar ao lado de Lua - finalmente entrou na cidade litorânea que iríamos ficar e andou devagar pela cidade, que tinha muitos restaurantes e clubes perto da praia. Era uma cidade muito visitada por universitários nas férias, por isso tinha shopping e todas essas coisas de cidade grande.
- Agora vira a direita. - eu expliquei, apontando para a rua que Harry teria que virar com uma mão. Com a outra abraçava a cintura de Lua discretamente.
- Estamos chegando? - ela perguntou, em voz alta. - Eu preciso desesperadamente usar o pipi house!
- Eu também! - Mel exclamou, saindo da conversa com Micael e entrando na nossa. - E é sério!
- Estamos, é só virar a esquerda que é a casa do meu tio. - respondi.
Harry virou a esquerda e chegamos na majestosa casa do meu tio. Nunca tinha reparado em como ela era grande – pra uma casa na praia – e parece que o pessoal achou a mesma coisa.
- Meu Deus, é gigante! - Chay disse, abrindo os olhos e se endireitando no banco.
- Ótimo, agora me dá a chave que eu preciso mesmo ir ao banheiro! - Lua exclamou, estendendo a mão para mim, com as unhas vermelhas e compridas. Peguei a chave no meu bolso e depositei com cuidado em sua mão. Ela sorriu com desdém – todos olhavam para nós dois – e pulou do carro.
Lua desapareceu pelas sombras da casa do meu tio com Mel quicando atrás. Sophia pegou sua mala e foi junto arrastando os pés, com o olhar triste. Michele finalmente se soltou dos braços de Harry e foi deslizando pela entrada, como se fosse um Dementador feliz, e logo estávamos sozinhos.
- Certo, eu não aguento mais! - Chay exclamou, jogando a mala de bebidas nos ombros e segurou a sua própria mala nas mãos. - Hoje vamos deixar elas bêbadas de não lembrar de nada amanhã e eu vou pegar a Sophia!
- E eu vou pegar minha garota de jeito! - Harry sorriu maliciosamente, colocando a mala de Michele em uma mão e a sua na outra.
- Hoje eu pego a Melzinha! - Micael disse, revelando pela primeira vez seu interesse em Mel.
- Ah, muleque! - eu disse, cutucando as costelas de Micael, que se contorceu de dor.
- E se a biba do Thur não parar de brigar com a Luinha e ficar logo com ela, vai segurar vela legal! - Chay disse, e os outros concordaram.
- Nunca! - eu exclamei, como aqueles super-heróis afetados. Eles riram.
- Ok, vai perder uma hot daquelas porque é medroso. - Harry falou, fechando o porta-malas e entrando pelo portão da casa.
Ah, se eles soubessem...
24
Lua fala:
- Meu Deus, eu nunca quis tanto mijar na minha vida como eu quis hoje! - Mel suspirou, fazendo uma cara de aliviada ao sentar na privada, logo depois de mim.
- Nós não podemos falar essas coisas perto dos meninos! Eles vão achar que nós somos umas primitivas! - Michele disse, soltando os cabelos que caíram livres nos ombros.
- Verdade. - concordei, fechando a torneira e secando as mãos.
- Só a Luinha pode, ela não quer impressionar ninguém. - Sophia brincou, desmanchando minha trança.
- Nem eu! - Mel reivindicou.
- Cala boca, Mel! - exclamamos ao mesmo tempo.
- Droga. - ela murmurou, dando descarga.
- Porque você não fica com o Aguiar de uma vez? - Sophia sugeriu, passando pó no nariz.
- Olha bem para a minha cara e vê a minha vontade louca de ficar com o Aguiar. - elas nem imaginavam como aquilo era verdade.
- Ele deve ter A pegada. - Michele disse, pensativa. Aquele ciúmes repentino de toda vez que eu ouvia o nome dele por outra garota surgiu, e eu senti um nó na garganta. - Afinal, ele toca baixo e tem os dedos rápidos.
Até eu ri dessa.
- Você pretende fazer, hum, alguma coisa a mais, com o Judd, Mile? - Mel perguntou, abafando a risada. Eu e Sophia sorríamos maliciosas.
- Ah. - ela corou. - Sei lá, umas mãos bobas podem até rolar, mas nada além disso, porque nós não somos namorados, nem nada do tipo...
- E se ele pedir? - perguntei, levantando a sobrancelha sugestivamente. Sophia e Mel seguraram o riso.
- Acho que não. - seu rosto agora estava vermelho rubi. - Ah meninas, eu estou gostando dele, mas vocês sabem que eu não sou assim...
- Aaaaaah! - nós exclamamos e abraçamos-a, que ria sem parar.
- Vamos para a praia? - sugeria, já destrancando a porta.
- Vamos!
Thur fala:
- E aí, Melzinha, aposta uma corrida? - Micael sugeriu para Mel, que tirou os chinelos e os jogou na areia. A praia estava meio deserta, com só alguns privilegiados como nós, que tinham a casa na beira do mar. O sol brilhava alto e queimava nossas peles protegidas pelo fator 30.
- No já? - ela perguntou, já se preparando, afundando seus pés na areia. Micael se posicionou ao lado dela e respondeu:
- Até aquelas pedras, já! - e saiu correndo na frente, mas ela foi atrás e o ultrapassou com facilidade.
Eu e os outros nos jogamos no chão e ficamos observando os dois correrem como bobos. O mar azul se fundia com o céu do mesmo tom, fazendo com que nossos olhos doessem ao observar o horizonte. E todos nós vimos a exata hora em que Micael se aproximou de Mel e a jogou na areia, caindo sobre ela. Suas pernas se encaixaram e ele se curvou e a beijou com força. Mel envolveu seus braços nos cabelos desgrenhados do menino, e eles ficaram ali se beijando, sem se importar com os velhinhos que tomavam sol e olhavam horrorizados para a cena de amasso em plena luz do dia.
Ah, danados!
E isso seria realmente muito romântico.
Se não fosse por nós.
- Micael pegador! - Chay gritou, lançando um olhar charmoso para Sophia, que riu do menino.
- ALELUIA! ALELUIA! - eu e Harry gritamos, e as meninas continuaram a rir.
Eles não pararam mesmo assim.
- Vocês não vão para o mar? - Harry perguntou, puxando Michele pela cintura para mais perto dele, que sentou de costas, encostando em sua barriga, no meio de suas pernas dobradas.
- Não. - respondi, quando Lua se levantou. Segui seus movimentos com o olhar e quase caí de costas quando ela tirou o shorts branco lentamente e logo depois a camiseta larga, revelando seu corpo malhado e bronzeado por - creio eu - cremes bronzeadores - estratégicamente aplicado no banheiro da casa - envolvido em um biquíni azul claro. Abaixei o olhar, rezando para que Harry e Chay não tivessem reparado na minha cara de tarado.
- Eu vou! - ela exclamou, lançando um olhar significativo para mim. Depois correu para o mar, balançando os longos cabelos pelo corpo. Olhei para o lado e Harry já estava comendo Michele. Olhei para o outro e Sophia lia um livro e lançava olhares tortos para Chay, que, por sua vez, fingia dormir com os óculos de sol enfiados na cara, mas na verdade observava Sophia no seu biquíni branco com vermelho.
- Humhum. - pigarreei, mas ninguém pareceu prestar atenção. Então simplesmente corri até o mar.
25
Lua fala:
Eu estava no mar, sentindo as ondas quebrarem na minha cintura. O sol queimava na minha pele e eu me sentia... Feliz!
Virei-me e minha felicidade só aumentou, meu coração se apertou e o cheiro doce e másculo invadiu meu nariz. Thur andava - praticamente corria - em minha direção. O peito nu, cabelos caindo no rosto e um sorriso doce.
Sorri.
Porra! Quem não iria sorrir?
- Essa viagem está me matando! - ele gritou por cima do barulho do mar, se aproximando, mas mantendo uma divisória imaginária entre nossos corpos. Ele colocou as mãos atrás das costas. - Está me matando lenta e dolorosamente.
- Como sangrar até a morte? - perguntei, sorrindo maliciosamente.
- Como sangrar até a morte. - ele sorriu, assentindo graciosamente com a cabeça.
- E para quê sofrer desse jeito? - perguntei novamente, colocando uma mecha dos seus cabelos atrás de sua orelha, não sem antes me certificar de que todos estavam distraídos.
- Não sei. - ele respondeu, fechando o sorriso. Senti meu próprio rosto se contrair, mas logo ele sorriu torto e continou, fazendo com que eu sorrisse de novo: - Mas algo me diz que vale muito a pena.
- Pelo menos... - disse, não conseguindo não me aproximar dele. Seus dedos, de baixo da água, roçaram minha barriga nua.
Senti um calor subir pelo meu corpo e antes que fizesse alguma besteira, me afastei, ouvindo Michele gritar, não dando nem tempo para se arrepender.
- PÁRA, HARRY! AQUI NÃO! - Harry estava beijando-a no pescoço e suas mãos, que estavam sobre sua bunda, a traziam para perto cada vez mais. Quando procurei por Sophia e Chay, os dois haviam sumido. Ele estava na barraquinha pegando mais uma cerveja, ela, por sua vez, conversava com um surfista gostosão. Micael e Mel continuavam a se beijar sem se importar com o mundo - e os coitados dos velhinhos - e com o tempo, como se estivessem em um universo paralelo.
Ah, que lindo!
Thur me puxou e falou ao pé do meu ouvido:
- Vamos aproveitar que eles estão ocupados demais um com o outro! - e me deu um beijo. Mas não foi qualquer beijo, foi selvagem, como se esperasse há muito tempo por aquilo. Por um momento senti que ficaria sem ar.
Mas para quê respirar quando se está tendo o melhor beijo de sua vida?
Respirar é para losers.
Ele me puxou pelos cabelos e passeou com as mãos pelo meu corpo. Suas pernas se juntaram as minhas e sua língua explorava toda a minha boca.
Segurei em seu pescoço com firmeza, com medo de cair e ser levada pela correnteza, pois sentia minhas pernas moles e meu coração prestes a explodir.
Me entreguei.
Não conseguia mais me conter.
Ele puxou o laço da parte de baixo do meu biquíni e eu puxei seu shorts para baixo. E quando pensei que tudo estava perdido, uma onda veio forte e quebrou em cima de nós dois, fazendo com que caíssemos na areia molhada.
Segurei meu biquíni e fiz novamente o laço. Quando emergi na água, Thur já estava lá, olhando assustado para mim.
- Você está bem? - ele perguntou. E como se fosse a coisa mais natural do mundo - depois de um amasso daqueles - eu comecei a rir. No começo ele só me olhou, como se eu fosse louca. Depois, se juntou a mim, e riu.
- Thur!? - Chay gritou na beira do mar, surgindo do nada. Sophia estava parada a alguns metros dele, e a sua cara não era a das melhores. - ESTAMOS VOLTANDO!
Thur e eu nos entreolhamos.
Teríamos que deixar aquilo para mais tarde.
Thur fala:
Voltamos para a casa do meu tio pois o sol resolveu se esconder, dando espaço para nuvens pesadas e chuvosas. A atmosfera ficou negra e só tínhamos vontade de uma coisa: Tequila!
Todos tomaram banho e desceram a escada incrivelmente ao mesmo tempo.
Harry usava uma calça jeans escura e estava sem camiseta e sem sapatos, fazendo Michele sorrir maliciosamente ao pousar os olhos nele. Mas ela não ficava atrás no quesito pouca roupa. Usava um shorts xadrez e uma blusa de alcinha branca, e também descia descalça.
Mel, que usava um vestido branco e chinelos da mesma cor, descia abraçada pela cintura com Micael, que usava uma bermuda preta e chinelos pretos, e como Harry, sem camiseta.
Chay usava uma bermuda xadrez e chinelos brancos. Ele descia sem camiseta, imitando os outros dois, e Sophia vinha logo atrás, camiseta preta, saia jeans e sandálias pretas, como se estivesse de luto ou triste.
Vai saber...
Eu vinha por último, também sem camiseta, porque senti que não conseguiria olhar para Lua sem suar. Usava calça jeans e chinelos azuis.
Lua vinha ao meu lado, mantendo uma distância preocupante de dois dedos de mim. Usava uma camiseta vermelha e larga de Chay, escrita “Fuck You!” em letras garrafais – pois alegava não ter mais roupa, depois de, não sei, algumas horas? – e um míni-shorts jeans. A camiseta era comprida demais, cobrindo o shorts e dando a impressão de que ela não usava nada por baixo.
Perdição. Provocação. Tesão.
Fomos jantar, gargalhando sempre que podíamos, fazendo uma zona na mesa branca e quadrada da cozinha. Entretanto, ninguém tocou na comida que Micael fizera em dois minutos, – uma mistura de macarrão com arroz – nojenta demais para qualquer contato direto.
- Ok, está uma puta chuva lá fora e nós estamos presos aqui dentro. – reclamou Sophia, alegando o óbvio, já que os trovôes não paravam de explodir do lado de fora. Ela colocou o prato de lado, apoiou os dois cotovelos na mão e continuou, como uma professora chata: – O que nós vamos fazer?
- Sexo! – Harry exclamou, apertando Michele pela cintura. Ela deu um tapinha no seu ombro, corando no estilo eu-quero-fazer-sexo-com-você-mas-não-quero-que-você-espalhe-para-todo-mundo-na-mesa.
- Além da pornografia, mas alguma sugestão? – Mel interveio, olhando para Micael com um sorriso idiota nos lábios.
- Truco com Tequila! – Sophia sugeriu, e todos concordaram na hora. Cinco minutos depois estávamos com a Tequila e o baralho na mesa.
Fomos jogando, jogando e jogando. Só percebemos que estávamos bêbados quando ninguém mais entendia o que o outro falava e tínhamos que gritar para falar.
- Cansei de jogar truco! – eu berrei, abafando as vozes enroladas dos outros. Lua brincava de dar tapas em Chay, Sophia e Mel riam sem parar,Micael embaralhava o baralho e Harry fora trocar o Cd dos Beatles que já tinha tocado umas 10 vezes seguidas. – Vamos jogar Sueca!
Todos assentiram com a cabeça, quase caindo da cadeira ao fazer isso.
- Começa aí, Thur! – Micael exclamou, colocando o baralho para baixo na mesa de vidro da sala de estar. Peguei a primeira carta – 7. Faça sua regra.
Eu não sei se foi porque estava muito bêbado para pensar em outra coisa que não fosse sacanagem, ou se eu não conseguia mais ficar longe dos beijos de Lua. Só sei que minha primeira regra foi:
- Antes de beber, os casais tem que se beijar.
- Que casais? – Chay perguntou, olhando fora de foco para mim. Sophia piou ao seu lado.
- Harry e Michele, Micael e Mel, claro... – eu disse, rodando a cabeça. Não conseguia nem organizar meus pensamentos direito. Minha coordenação motora era zero e a música eletrônica que tocava alto fazia um barulho esquisito na minha mente. Chay olhou para Sophia apreensivo, mordendo os lábios, bêbado o suficiente para não perceber a força que usava, e eu completei: - E nem pense que vocês vão escapar dessa! Vocês eram um casal até aquela merda acontecer...
- E você, Thur, faz casal com quem? – Mel perguntou, lançando um sorriso afetado para Lua.
- Eu? Eu... – comecei, procurando Lua com os olhos. Mas nem precisei, porque ela mesma se pronunciou, enrolando todas as palavras e rindo entre elas:
- Pode deixa que o Thur vai comigo. Eu faço esse sacrifício! Agora eu pego a carta!
Ela pegou a próxima carta. Rei.
Todos bebem.
E era por isso que eu amava aquele jogo.
Harry e Michele já estavam se comendo antes mesmo que eu pudesse lembrar o significado da carta. Mel e Micael riram afetados e começaram a se beijar como um casal apaixonado.
Olhei para Chay, que sorriu afetado para mim. Depois pousou os olhos na boca de Sophia e no próximo segundo eles estavam se beijando.
Virei meu rosto para o lado, ficando meio tonto com o movimento brusco, e dei de cara com Lua, que se inclinou em cima de mim e sussurrou:
- Amei essa regra!
E me beijou.
26
Lua fala:
É, eu fiquei muito bêbada.
Mas não só eu. Os outros também. E finalmente o amor e o desejo falaram mais alto que o orgulho.
Depois do primeiro beijo, todos os casais foram para algum lugar da casa, para ter mais privacidade. E para as coisas esquentarem, claro...
Harry e Michele foram os primeiros e desistir. Subiram se agarrando para o quarto dos meninos e trancaram a porta, fazendo uns barulhos engraçados lá em cima, como se estivessem derrubando o quarto inteiro. Mais tarde eu descobri que na verdade eles estava correndo pelo quarto, brincando de pega-pega, logo depois de Michele dar um chega pra lá em Harry.
Eu e Thur fomos os segundos, subindo para o quarto das meninas. Mas eu falo disso mais tarde.
Chay e Sophia foram os terceiros, saindo para a piscina aquecida, quando a chuva parou. E aquilo explicava o porquê de Sophia ter acordado no nosso quarto gripada e encharcada.
Ou será que não explica?
Micael e Mel ficaram pela sala mesmo, conversando e se pegando às vezes, porque, pelo o que Mel nos explicou, a única coisa que Micael gosta de fazer bêbado é... conversar.
- Thur, eu estou bêbada! – eu reclamei, logo depois rindo ao ser jogada na cama de casal que Sophia dividia com Mel. Ele se jogou em cima de mim, beijando meu pescoço e me fazendo ficar com vontade de fazer coisas que eu não faria sóbria, se é que você me entende. – Não faz nada comigo!
- Ok. – ele murmurou, como se não tivesse nem ouvido o que eu tinha falado, mordendo minha orelha. Inclinei-me para seu ouvido, aproveitando o bom senso que me restava, e choraminguei:
- Promete?
De repente, ele parou de me provocar e me fitou, ficando sério como se estivesse sóbrio.
- Você acha mesmo que eu faria alguma coisa sem seu consentimento?
- Então promete!
- Prometo. – ele respondeu, olhando no fundo dos meus olhos. Voltei a beijá-lo.
Esquecendo da promessa – ou não – Thur me encaixou em suas pernas e enfiou a mão dentro da minha camiseta, como se quisesse tirá-la. Indo no embalo, desabotoei sua calça e comecei a dar leves beijos no seu pescoço, indo para baixo cada vez mais. A bebida e a vontade me dominaram por completo. Eu estava pouco me fodendo para tudo. Eu queria ele.
Quando cheguei até o meio da barriga e Thur viu que eu ia continuar descendo, me empurrou gentilmente e se levantou com um pulo. Estranhei seu movimento e me levantei também, fitando-o curiosa. Sabia que a bebida deixava minhas expressões bizarras, e agradeci por ele não estar rindo.
Ele andou de costas até a porta, como se não quisesse ir embora. O olhar desconfiado e decepcionado pousou nos meus olhos ainda curiosos, e ele murmurou:
- Desculpe, Lua, mas eu prometi.
E saiu.
Thur fala:
Acordei no meu quarto, jogado no chão ao lado de Harry. Micael estava babando no travesseiro da cama de casal e Chay pingava água na cama de solteiro, enrolado em uns três cobertores que provavelmente Micael jogara nele durante a noite.
Rolei para o lado, tonto pelo cheiro de perfume feminino, masculino e álcool que empregnava o quarto, e dei de cara com Harry, que olhava para o teto, pensativo.
- Madrugou? – perguntei, falando baixo para não acordar os outros.
- Talvez. Nem sei que horas vim parar nesse quarto. Mas a tontura passou agora há pouco... – ele respondeu, fazendo círculos imaginários com os braços.
- E a noite com a Michele, foi boa? – perguntei, segurando o riso.
- Foi foda, dude! – ele exclamou, arrumando a postura de repente. Um sorriso se expandiu de orelha e orelha, e se ele não fosse meu amigo eu estaria o chamando de gay até o outro dia.
- E aí, rolou um fanfer’s? [N/A: Fanfer’s = sexo. Créditos by Bruno.] – brinquei, fazendo ele gargalhar e olhar maliciosamente para o teto.
- Quase, dude, quase...
- Quase por que, Judd? Não vai me dizer que não subiu!? – o zoei. Não podia perder a oportunidade de sacanear Harry-garanhão-Judd.
- Vai se foder, Thur! – ele exclamou, me dando um soco no ombro. – Não foi nada disso. Ela... Não quis...
- Ela não quis? – Micael perguntou, pulando em nós dois. Quase tive um infarto, pois pensei que ele estivesse dormindo.
- Caralho, Micael! – eu guinchei, fazendo-o rir. – Vai se foder, quase morri agora!
- O quê foi, Thur? Nasceu de 6 meses? – ele perguntou, gargalhando.
- Vai, Judd, continua. – eu disse, ignorando a pergunta de Micael. – Agora eu quero saber.
- Então... Quando cansamos de jogar sueca...
- Dois segundos depois da brincadeira começar... – Micael ironizou, virando os olhos e recebendo um tapa de nós dois.
- DEPOIS DA BRINCADEIRA COMEÇAR... – ele gritou, por cima da risada de Micael, que parou para prestar atenção. Chay enfiou o travesseiro na cabeça, irritado. Já havia acordado, mas era sempre o último a dar sinais de vida. – Eu trouxe ela para cá. Só que ela estava tão bêbada que toda aquela postura só-me-toque-depois-do-casamento foi por água abaixo. Dude, ela começou a tirar minha roupa e a própria roupa ao mesmo tempo, e eu nem sei como isso é possível! – ele relatou, e nós rimos. – Então me puxou para a cama de casal e eu comecei a suar frio, e ANTES que vocês comecem as brincadeirinhas, eu estava nervoso sim. Sei lá... Com ela tudo é diferente...
- Ah, nosso baterista gostosão está apaixonado! – eu brinquei, e ele sorriu, indiferente ao comentário. Reparei em como as coisas mudaram. Se eu tivesse dito aquilo algum tempo antes, ele me socaria tanto que eu sairia roxo.
Ah! As cheerleaders do colégio Norbert...
- Eu sabia que seria aquela hora. Sabia disso, e mesmo sabendo que sóbria ela não faria aquelas coisas, me joguei em cima dela. Fui realmente egoísta, mas foram os hormônios...
- Hormônios, sei... – Micael zoou, e Chay soltou uma risadinha da bola de cobertores.
- Aí eu comecei a beijar aquele corpo lindo dela, e a cada segundo que se passava o nervosismo aumentava. E se ela não quisesse? Mas então as coisas foram fluindo e ela tirou minhas boxers. E quando eu estava prestes de ir para o céu... – ele narrou, e nós arregalamos os olhos, arrumando nossas posturas. Harry sabia como contar uma história. – Ela me empurrou e sussurrou: “Melhor não, Harry...”.
Soltamos o ar presos em nossos pulmões e gargalhamos.
Por pouco Harry não era nosso ídolo.
Mas as patricinhas ganharam de novo.
- Aí nós fomos brincar de pega-pega e dar uns amassos de vez em quando. – ele completou, rindo das nossas caras de decepcionados.
- Pega-pega pelados? Deve ser legal... – Chay comentou, saindo do seu casulo e entrando na conversa.
- Seria, mas nós colocamos nossas roupas. – ele disse, dando de ombros.
Sonhos de uma noite de verão.
Ou sonhos de uma noite de tempestade, se você preferir assim.
Agora, desde quando o tarado do Judd resolve não fazer nada e prometer “esperar o tempo que for preciso” para ficar brincando de pega-pega em um quarto escuro, aconchegante e sem roupa?
E, melhor ainda, desde quando uma menina rejeitava o tarado do Judd?
E é aí que você percebe como as coisas mudam...
- Porra, eu não conto mais as coisas pra vocês, porque a cada vez mais soa mais gay... Mas eu gosto mesmo dela, e vou esperar e todas essas merdas que caras apaixonados fazem... – Harry suspirou, com cara de apaixonado. – Nem que para isso eu tenha que torturar o coitado do Harry Jr.
- Como isso ficou gay, dude... – Chay concordou, e nós quatro gargalhamos.
- E você e a Melzinha, eim Micael? – Harry perguntou, tirando o foco da conversa da sua tentativa frustrada de conseguir alguma coisa comMichele. – Rolou alguma coisa?
- Não, dude, você sabe como eu fico bêbado. – ele respondeu, dando de ombros.
- Assexuado. – eu concordei.
- É, isso mesmo. Então nós basicamente nos amassamos, conversamos e bebemos o resto da garrafa de Tequila. O único problema é que a Melzinha fica TARADA bêbada e eu tive que afastar ela, porque não tinha a mínima vontade de fazer outra coisa a não ser rir...
- E é por isso que as meninas na escola odeiam te amar... – Chay disse.
- Mas acho que ela não se importou muito... Ah! – ele exclamou, lembrando de algo. – Nós fizemos um bolo de Nescau que provavelmente está todo sujo e nojento na geladeira.
- Vocês fizeram um bolo... bêbados? – Harry perguntou, incrédulo.
- É.
- Não vou chegar nem perto disso. – Harry brincou e Micael mostrou o dedo do meio para ele. – E aí, Chay, como foi sua reconciliação com Sophia?
- Sei lá se foi uma reconciliação... – ele respondeu, dando de ombros, e uma sombra passou por seus olhos, deixando a atmosfera pesada. Mas logo ele voltou ao normal de Chay e continuou: - Ela vai ter que ralar muito para ter meu perdão.
- Chay, o exterminador de corações. – eu brinquei, imitando um robô.
- Mas mesmo assim a pegada foi forte. – ele disse, maliciosamente.
- Essas meninas ficam perversas bêbadas! – Micael resmungou, parecendo uma criança mimada só porque não conseguia fazer nada bêbado.
Coitado.
Bixona!
- Nós entramos na piscina! – Chay continuou, os olhos brilhando. – Foi animal, nunca tinha pego ninguém em nenhuma piscina, principalmente uma aquecida!
- E foi bom pra você? – perguntei, irônico.
- Nós entramos de roupa mesmo. Estava tão quente que saía fumaça! – ele contava, como uma criancinha. – A neblina estava tão espessa que eu quase não via o lado de fora da piscina, dando um clima irado de filme de terror.
- É uma criança... – Micael comentou.
- Então, primeiro, nós conversamos por um bom tempo. – ele continuou, ignorando Micael e seus famosos comentários irônicos. – Ela me pediu desculpas e eu disse que iria pensar... Então ela simplesmente me ATACOU!
- HAHAHAHAHA! – todos nós rolamos de rir com os gestos exagerados de Chay.
- Conte como foi o ataque, dude! – Harry pediu, se empolgando com a história.
Chay também sabia como contar uma história.
- Ela tirou a camiseta, ficando só de saia jeans e sutiã, e logo em seguida começou a me beijar tanto que eu nem conseguia respirar direito! Ela beijava meus ombros e eu beijava seu pescoço. Então, no calor do momento, minha mão desceu pela água quente e parou no meio das suas pernas, que ficaram rígidas mas logo depois amoleceram. Eu meio que fiz aquilo de propósito, e não porque estava bêbado, porque há muito tempo eu queria aquilo... Aquela menina sabe como deixar alguém louco!
- Esse alguém lê-se Chay. – Harry concluiu.
- Aí vocês já sabem o que aconteceu... – Chay terminou, ficando contrangido.
- Ela deixou na boa? – eu perguntei, tentando deixar Chay mais constrangido ainda. Eu sabia que aquelas coisas eram íntimas, mas entre nós não havia segredos, – PUTAQUEOPARIU, QUE COISA MAIS GAY! – e eu não ligava se Sophia tinha feito ou não alguma coisa, pra mim ela sempre seria a santinha de Chay.
Mas mesmo assim era divertido irritá-lo.
- Dude, nós estávamos bêbados! – ele respondeu, defendendo Sophia dos pensamentos nefastos.
Nefastos, da onde eu tirei essa palavra?
- E... Eu a amo, e ela me ama, vocês sabem disso, não tem nada demais e...
- Tudo bem, garoto sensível! – Harry o desarmou. – Nós não falamos nada!
- E depois disso? – Micael perguntou, meio que com inveja do amigo.
- Depois eu peguei uns cobertores e...
- Eu sabia que tinha visto um Chay passando pela sala molhado! – Micael gritou. – Não era sonho, não era mito! [N/A: Desculpem pelas gírias estranhas, a maiorida é piada interna. xD]
- HAHAHAHA! – Chay gargalhou. – É, era eu mesmo... Então nós ficamos deitados na churrasqueira vendo as estrelas.
- E você veio parar aqui que horas? – perguntei.
- Nem sei. Nós bebemos mais, e eu perdi a consciência de novo. Só sei que acordei aqui do nada com o Thur falando todo enrolado. Thur, você estava mais bêbado que tudo!
- Sério? – perguntei. Eu não me lembrava daquilo. – O que eu fiz?
- Você caiu com tudo no chão e ficou nele, falando um monte de coisas que eu não entendi. – ele respondeu, e os outros riram.
- Agora... – Micael disse, e os outros dois olharam para mim. Engoli em seco. Chegara minha vez. E eu tinha uma resposta na ponta da língua para dar.
Mas não era a resposta que eu realmente queria dar.
- Agora? – perguntei, me fazendo de desentendido.
- Como foi sua noite com Luinha? – Chay perguntou, segurando o riso.
Respirei fundo.
- Pra falar a verdade, eu não lembro de nada.
27
Lua fala:
- Não adianta! – reclamei, jogando um travesseiro em Mel. – A última coisa que eu me lembro foi de ir ao banheiro logo antes da última partida de truco, depois só me lembro de algumas coisas alheias...
Lies, lies, lies!
- Ah não, Luinha! – Michele reclamou. – Só porque finalmente vocês ficaram?
Finalmente é?
- Credo, nem me lembre disso... – resmunguei, relembrando de todos os momentos do dia anterior. Esbocei um sorriso.
- Ah, mas já estava subentendido que eles iriam ficar, ou vocês acharam mesmo que eles iriam ficar segurando vela? – Sophia gritou do banheiro, onde tomava banho. O vapor saía por debaixo da porta deixando o quarto quentinho, o que era bom. O dia estava uma merda. Frio e nublado.
- Nada a ver! – resmunguei, me jogando na cama e passando as mãos no meu cabelo úmido do banho. – Eu não ficaria com ele sóbria...
Ou será que ficaria?
- Ok, mas você não lembra nem de um beijinho do baixista gostosão? – Michele perguntou.
Sorri como boba, e elas viram.
- Aaaaaaaah! Olha a cara dela! – Mel brincou, me cutucando. – Vai, conta!
- Ok, ok! – gritei, afastando as mãos delas que me cutucavam inteira. – Lembro de um só!
- Pode contando! – Sophia pediu, saindo do banheiro enrolada em uma toalha e se jogando entre nós três na cama.
- Eu me lembro que o Thur veio comigo para o quarto mas logo depois saiu, mas não me lembro do motivo. – comecei, omitindo a parte toda da promessa. – Depois de alguns minutos, ele voltou, rindo sozinho.
- E aí? – Mel exclamou.
- Detalhes, Luinha, detalhes! – Michele e Sophia imploraram.
- Ok... – suspirei. – Eu estava deitada de barriga para baixo na cama, esperando a tontura passar. De repente ouvi um clic na porta. – nem sei porquê estava contando tudo aquilo para as meninas, mas as palavras jorravam da minha boca e eu não fiz nada para impedir. – Levantei minha cabeça e olhei, ainda meio zonza, para ele, que entrava cambaleando pela porta. Ele se jogou ao meu lado e eu encostei minha cabeça nos seus ombros.
As três ouviam o relato hipnotizadas.
Eu até podia ouvir o que elas pensavam. “Quem diria, Thur e Luinha!”.
- Ele passou os dedos pelos meus cabelos e ficamos olhando para o vazio negro do quarto.
- E o que ele disse? – Sophia perguntou, quebrando o silêncio.
- “Luinha, eu sempre quis você.” – respondi, antes mesmo de tentar inventar alguma coisa.
“Merda!” pensei. Agora que elas não me deixariam em paz.
- Aaaaaaah! Que lindo! – Mel gritou! – Eu sabia, eu sabia!
- Não se empolgue tanto, Melzinha, eu estava bêbada e ele também. E outra, eu não vou ficar com ele novamente. – disse, virando os olhos. As expressões nos rostos das meninas murcharam.
- Mas vocês ficam tão fofos juntos! – ela protestou.
- Acho que nem, eim? – perguntei, rindo das suas caras incrédulas.
- Vai, Luinha, continua! – Michele pediu.
- Acho que depois disso nós dormimos por algum tempo e acordamos ao mesmo tempo. Senti ele se mexendo ao meu lado e me virei, nossos rostos ficando paralelos.
- E o que ele disse? – Sophia perguntou, empolgada.
- “Oi.”
- Conta a conversa toda! – Michele reclamou.
- “Oi.” eu respondi. “Você está quente!” ele exclamou. – imitei a voz dele e as meninas riram. – “Acho que é porque nós estamos cobertos por uns vinte cobertores...” eu respondi, fazendo ele rir e dizer: “Ah, é...”.
- E...? – Michele já estava ficando impaciente.
- “O que você quer fazer agora que não estamos tão tontos?” eu perguntei. Então ele se inclinou em minha direção e sussurrou, com seus lábios perto dos meus: “Isso.” e me beijou.
Foi realmente muito romântico.
E eu me derretia toda vez que pensava em nós dois abraçados, se beijando, e em como ele tinha mantido a promessa, respeitando minhas vontades.
Thur era tão perfeito!
E eu estava tão apaixonada; e ferrada.
- Que lindo... – Mel suspirou.
- É, lindo, maravilhoso, agora vamos descer que eu tô com fome. – reclamei, colocando um par de meias limpas. Fazia um frio da porra.
Colocamos moletons velhos e sem graças, mas para aquele tipo de frio era o único tipo de roupa que se encaixava. Descemos com os cabelos úmidos, uma ressaca do caramba e morta de fome.
Quanta feminilidade.
- Meu Deus, o espelho do quarto de vocês quebrou? – Micael exclamou, fitando Mel de cima a baixo, enquanto os outros riam.
- Vai se foder, Borges. – resmunguei, pegando o muffin de blueberry que ele estava prestes a enfiar na boca.
Passei por Chay, que olhava carrancudo para Sophia conversando com Harry e fui até a pia, onde Thur lavava louça distraidamente.
Ele estava cheirando sabonete e loção pós-barba e eu queria me envolver em seus braços e nunca mais sair. Ele lavava habilmente os pratos e os colocava no escorredor, olhando vagamente para as mãos. Nem me percebeu parada ao seu lado, e meio que tomou um susto quando eu peguei um pano de prato e comecei a secar as coisas do escorredor.
Continuou entretido na lavagem, mas inclinou a cabeça para mim e perguntou, quase sussurrando:
- Domiu bem?
- Sim. – abaixei consideravelmente a voz. – Pensando em você.
- Eu também. – ele disse, sorrindo para mim e mostrando seus dentes perfeitos, meio tortinhos em baixo, que eu tanto amava.
- E aí, te enxeram muito? – perguntei, apontando com a cabeça para o grupo de 6 pessoas que riam como crianças e jogavam comida umas nas outras.
- Um pouco. – ele deu de ombros. – E você?
- Bastante.
- Luinha... – ele abaixou mais ainda a voz, sem tirar os olhos das mãos ensaboadas. Ele estava tenso e suas pernas apoiaram na bancada da pia, como se ele pudesse cair a qualquer momento. – Nós precisamos mesmo continuar mentindo?
- Sim. – respondi, exasperada. Nem eu sabia mais o motivo de esconder aquilo, já que todos estavam numa boa. Mas eu realmente não queria contar para ninguém.
Sem contar já tínhamos problemas, imagina contando?
Quantas intrigas as pessoas do colégio fariam para nos separar?
Só de pensar nisso, estremeci.
Thur continuou olhando para as mãos como antes, mas sua respiração ficou agitada.
- Thur, eu não quero que ninguém se meta com o que nós temos e...
- É isso ou eu sou algum tipo de jogo pra você? – ele sussurrou com raiva, e se eu não estivesse inclinada para ele não teria ouvido.
Senti um aperto no coração.
Será que ele achava aquilo mesmo?
- Como você pode chegar a pensar em uma coisa dessas? – perguntei, parando de secar os pratos e olhando para seus cabelos que caíam pelo rosto. Ele fez um movimento rápido com a cabeça e logo me encarava, com raiva nos olhos. – Eu amo você.
Suas feições se suavizaram na hora, e eu senti um alívio instantâneo.
- Eu também te amo, Luinha. – ele suspirou e o sorriso torto que eu tanto adorava se apossou do seu rosto. Atrás de nós as gargalhadas não paravam. Estávamos seguros. – Desculpe por isso, é que às vezes eu não sei o que você está pensando e isso me deixa... inseguro.
- Tudo bem. – eu repliquei, baixando meus olhos, meio envergonhada por deixar o cara que eu gostava em dúvida sobre o que eu sentia. – Eu quero contar, você sabe que sim, mas eu quero que seja na hora certa, no momento certo e não sei quando isso vai...
- Hey, ok, deixa isso pra lá. – ele me cortou, pegando discretamente na ponta dos meus cabelos úmidos. Olhei para trás com o canto dos olhos, mas todos estavam muito ocupados em rir de Micael, que colocava todas as bolachas da mesa na boca. – Você só não pode me privar dos seus beijos.
- Como se eu quisesse... – virei meus olhos e ele riu.
- Promete? – ele pediu, sorrindo maliciosamente.
- Prometo.
28
Thur fala:
- Porra, não pára de chover! – Chay resmungou, mexendo as pernas, ansioso.
- É, e não tem nada pra fazer... – Sophia concordou, afundando no sofá ao lado de Chay, que colocou a mão discretamente ao lado da dela.
- Ainda tem duas garrafas de Tequila e quatro de Vodca. – Micael nos lembrou.
Nos entreolhamos, com olhares marotos no rosto.
- Fui! – Harry exclamou, sumindo pela porta da cozinha.
- Desse jeito eu vou entrar em coma alcoólico! – Michele exclamou, batendo com as mãos na barriga. – Ou fazer alguma besteira...
Luinha deu uma risadinha.
- Tudo bem, o Harry não se importa. – eu brinquei, mas logo completei, quando todos me olhavam curiosos: - Com o negócio de fazer besteira, claro.
- Certo! – Harry gritou, chegando na sala novamente, com o resto mínimo de Tequila do dia anterior, uma garrafa cheia e outra cheia de Vodca. – Vamos fazer o quê?
- Sueca! – Mel exclamou, olhando para Micael, que fez uma careta engraçada.
- De novo não... – todos resmungaram.
- Ok, que tal porco? – Luinha sugeriu, sentando ao meu lado. Nossos ombros se tocaram e eu senti uma eletricidade maluca passar por mim.
- Não, eu tenho uma melhor. – eu respondi, de repente me lembrando das festas de quinta série, onde o sonho de consumo de todos os meninos era beijar Mel, Sophia, Michele e Luinha no verdade ou desafio. – Verdade ou desafio!
- Boa! – eles gostaram.
- Um shot antes de cada rodada? – sugeriu Chay.
Todos assentiram, se arrumando em uma roda.
Fiquei ao lado de Michele e Luinha, que por sua vez estava ao lado de Chay. Sophia se sentou ao lado dele e Micael sentou-se ao lado da menina.Mel ficou entre Micael e Harry, que puxou Michele para mais perto. Fechamos o círculo.
- Mas vale tudo? – Micael perguntou, olhando apreensivo para Mel. – Tipo, ninguém é de ninguém.
Nos entreolhamos. Já sabíamos que queríamos. Mas o primeiro a se pronunciar foi Harry:
- Se alguém ficar de gracinha pra cima da minha Mile morre.
Rimos.
Mel começou rodando a garrafa vazia – depois de Chay a matar – de Tequila. Chay pergunta para Harry.
- Desafio! – Harry disse, antes mesmo de ouvir a pergunta.
- Desafio você a ficar com a Lua. – Chay disse, dando uma risada discreta.
Ao escutar aquilo, meu coração se apertou e eu senti que poderia vomitar todas as minhas tripas ali mesmo.
O Harry. Com a MINHA Lua?
- Ok, vamos lá! – Harry disse, entusiasmado.
E quem não ficaria?
Olhei para Michele e pude ver em seus olhos que ela estava sentindo a mesma coisa que eu. Os olhos perfuravam Harry com ódio mas ao mesmo tempo amor, e sua mão encontrava-se no estômago, como se ela fosse vomitar.
Sabia que aquilo seria uma péssima idéia.
Ninguém é de ninguém, certo?
Errado.
Harry se sentou ao lado de Luinha e eles ficaram se encarando, tentando parar de rir durante um bom tempo, até que Micael interrompeu, irritado:
- Vamos logo com isso, eu quero continuar a brincadeira!
Harry passou as mãos por debaixo dos cabelos de Luinha. Ela colocou a mão pequena na sua nuca – como ela costumava fazer comigo – e aproximou as duas bocas. Enfim, Harry a beijou.
Michele ficou estática e eu me remexi desconfortável.
Tudo bem, era só uma brincadeira.
Uma brincadeira IMBECIL, que EU tinha sugerido. Mas ainda assim, era uma brincadeira...
Não era?
- Já deu né? – eu exclamei ao mesmo tempo que Michele. Chay passou a mão pelo beijo e os dois se separaram, rindo. Micael olhou para mim desconfiado e eu completei: - Eu quero jogar também.
Acho que ele engoliu aquela.
Harry – com um sorriso odioso no rosto – encheu os copos de shots e nós tomamos de novo.
Luinha pegou a garrafa vazia e rodou. Sophia perguntava para Michele.
- Verdade ou desafio?
- Desafio.
- Então... – ela começou, percebendo meu olhar vingativo e o olhar malicioso de Michele. – Eu quero que você beije o baixista das mãos hábeis.
Todos nós gargalhamos.
Luinha olhou torto para mim e a satisfação tomou conta do meu ser.
Ah, a doce vingança.
Eu troquei de lugar com Harry – que me olhou com raiva – e me sentei ao lado de Michele, que não conseguia esconder o sorriso diabólico. E ela estava mesmo a a fim de provocar, porque antes de me beijar subiu no meu colo e enfiou as duas mãos nos meus cabelos, os colocando para trás. E depois encaixou seus lábios doces nos meus.
O beijo dela era bom. Muito bom. Mas ela não era Luinha.
Ninguém era.
Envolvi minhas mãos seguramente em seus cabelos, longe de sua cintura. Aquilo seria demais para Harry.
- Time’s over! – Mel exclamou, batendo nos ombros de Michele, que desceu do meu colo rindo, exatamente como Luinha fizera.
- Vira! – Chay exclamou, e viramos novamente.
Mel já estava alegre e Sophia fechava os olhos de vez em quando.
E era por isso que eu adorava a Tequila.
Mel rodou a garrafa. Michele perguntava para Sophia.
- Verdade. – ela deu de ombros.
- É verdade que você sempre achou o Suede gato, mesmo antes de vocês ficarem? – Michele perguntou, lançando um olhar sugestido para Chay.
Sophia corou.
Admitir aquilo iria matá-la. E iria fazer com que ela quisesse matar a Michele, mas isso já é outra história...
- Hum... Eu... – ela murmurou, desviando o olhar de Chay, sem muito sucesso. Então acho que ela se enxeu de todo aquele teatrinho me-poupe-dessa-gentalha – assim como eu já estava de saco cheio faz tempo – e exclamou, largando os braços pelo corpo: - Ah, é verdade mesmo, satisfeitos?
Chay sorriu maliciosamente ao seu lado e mordeu os lábios sugestivamente.
- ÓTIMO! – ela berrou, virando os olhos de um jeito engraçado. – Agora a bosta do Suede vai ficar se achando pra sempre!
Chay se inclinou para ela e passou os braços por seus ombros rígidos. Mordeu sua orelha de brincadeira e disse:
- Eu sempre me achei gata!
Todos nós rimos, não sei se por achar graça no comentário ou porque a bebida estava subindo direto e reto. E ficamos rindo por um bom tempo, até recomeçar a brincadeira.
Ela continuou pela tarde inteira. Nós nem vimos a manhã ir embora, emendando com a tarde. Só sei que quando eu percebi, o céu estava de um azul marinho e as nuvens se carregavam cada vez mais.
Durante o dia aconteceram coisas bizarras pelo efeito da bebedeira.
Só pra você ter uma noção, Michele lambeu o pescoço de Micael até chegar na sua barriga, com chocolate na língua; beijou as coxas de Chay, que não conseguia parar de rir e beijou Harry de ponta cabeça.
Sophia comeu metade de uma melancia com Harry – sem as mãos, só com a cabeça enfiada na melancia – e depois teve que beijá-lo com cara toda nojenta; mordeu todo o rosto de Chay e teve que me dar 30 selinhos seguidos enquanto pulava.
Mel dançou até o chão comigo; beijou Chay de olhos abertos; lambeu as orelhas de Harry – que saiu meio tonto depois dessa – e teve que beijarMicael girando – nem me pergunte como.
Luinha teve que beijar Micael sem a língua; morder a boca de Chay até ele gritar “PÁRA!” – o que ele demorou considerávelmente para fazer – e teve que me beijar sem encostar nenhuma parte do corpo em mim além da boca.
As brincadeiras foram se esgotando e o dia foi acabando. De noite já estávamos totalmente sóbrios e com a tempestade que caía lá fora, um pouco românticos.
- Verdade. – Luinha pediu para Mel.
- É verdade que... – ela começou, olhando em volta para achar alguma coisa bem constrangedora para jogar em cima de Luinha. De repente, seus olhos caíram sobre mim e ela sorriu, com más intenções. – Que você gostou de ficar com o Aguiar ontem?
29
Luinha fala:
Mel sabia mesmo como ferrar os outros. Porque pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia o que fazer, o que falar. Pelo menos eu não sabia o que fazer o que falar para enganar meus amigos do que eu realmente estava sentindo.
Esfreguei minhas mãos depois de sua pergunta, como se aquilo pudesse me ajudar de alguma maneira. Sentia todos os olhares focalizados em mim, e minha respiração falhou.
O que fazer numa hora dessas?
Seguir o coração e dizer que sim, o Aguiar era O cara e que eu estava apaixonada por ele, ou simplesmente enganar a todos e me enganar por tabela?
Olhei em volta, eles ainda esperando uma resposta. Eram meus amigos, meus melhores amigos. Elas antigas, eles novos. Mas eu amava todos do mesmo jeito.
O que fazer?
E foi então que meu olhar se encontrou com o dele.
Com o motivo das minhas noites mal dormidas. Com o menino pelo qual eu suspirava sem parar. Com ele que tinha a voz mais linda do mundo e o sorriso mais encantandor.
Thur.
E ele sorriu para mim, mas dentro dos seus olhos ele me fitava triste, e talvez cansando de esconder o que nós tínhamos.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu soube o que dizer para todos. A coisa certa a se dizer. Pois eu não estaria me enganando nem enganando ninguém.
E foi por isso que eu respondi, ainda olhando para seu sorriso hipnotizador:
- Muito.
Olhei em volta, envergonhada. As meninas somente abafaram risinhos e os meninos levantaram a sobrancelha. Mas naquele momento meus amigos não me importavam muito.
Virei meu rosto vagarosamente e fitei Thur. E meu coração deu um pulo no peito quando percebi que ele estava feliz verdadeiramente.
- Bom, sintam-se à vontade se quiserem, sabe como é, repetir a dose. – Harry nos provocou, piscando para Thur, que corou.
- Também não exagera, não é, Judd!? – eu brinquei, e Thur soltou o ar.
Pelo menos tínhamos nos safado daquela.
- Vai, girando a garrafa! – mandei, sentindo minhas orelhas queimarem.
Thur se inclinou do meu lado, roçando seu braço no meu e seu perfume invadiu meu nariz, subindo diretamente para meu cérebro. Fechei os olhos por um instante, tentando guardar aquilo na lembrança.
A garrafa caiu em Michele.
- Desafio. – ela me olhou suplicante.
Olhei para Harry, que a abraçava com carinha e afagava seus braços nus e acho que nem cheguei a pensar em outra coisa.
- Desafio que você e o Harry sumam daqui porque o casal já está me deixando enjoada!
Harry sorriu surpreso para mim, mostrando os caninos. Michele suspirou aliviada.
Finalmente a sós.
Ele se levantou e a ajudou a se levantar, e os dois sumiram escada acima, dando risada e zoando um com o outro. Chegando no quarto das meninas, trancaram a porta e nós não ouvimos mais nada por um bom tempo.
E olha que nós ficamos em silêncio para tentar ouvir.
- Ah! O amor é lindo! – Mel suspirou, também sendo abraçada por Micael.
Ele sussurrou alguma coisa no ouvido dela enquanto eu, Sophia, Thur e Chay discutíamos algo de quem iria fazer o almoço no outro dia – nem ferrando comeríamos a comida de Micael novamente – e ela riu baixinho.
- Ok, vocês podem subir também. – eu disse, vendo os olhos sussurrando, excluídos da conversa. – Odeio casais! Ah! – gritei, jogando uma almofada neles, que riram e sumiram pelas escadas, assim como Harry e Michele. Chegando lá em cima, entraram no quarto dos meninos e trancaram a porta, e nós não ouvimos mais nada.
O andar de cima estava em silêncio total.
Nos entreolhamos.
- Eles ficam fofos juntos... – Sophia comentou.
- É, e eu dou dois dias para a escola inteira estar falando que Michele e Mel estão grávidas. – eu completei, e nós quatro caímos na risada. - Por falar nisso, como vai o blog?
Thur virou os olhos e Chay se aprumou no chão, arrumando a postura. Sophia sorriu para o garoto todo se achando.
- Vai bem. Pelo menos até agora o veado do John não contou nada para niguém. Espero que continue assim.
- E qual foi a última coisa que vocês postaram? – perguntei.
- Postei antes de vir. – Thur virou os olhos de novo e suspirou. – Umas fotos dos meninos do primeiro ano pichando o carro do diretor. Genial!
- Legal. – Sophia disse, meio desconfotável com o assunto. E devia ser mesmo meio estranho conversar com o cara que gostava sobre o assunto pelo o qual terminaram.
Bem estranho.
Abaixei minha cabeça, pressentindo o que vinha a seguir. Thur fez o mesmo, e nossos cabelos cubriram nossos rostos espiões. Thur sorriu mostrando todos os dentes para mim, feito um leão, e eu ri baixinho.
- Hum. – Chay pigarreou. – Porque os dois autistas abaixaram a cabeça?
- Cala boca, Suede. – eu disse, chacoalhando os cabelos. – Eu fiz isso porque deu vontade, e como o Aguiar não pode viver sem encher meu saco, fez igual.
- Claro, meu sonho era abaixar a cabeça junto com a Banco. – ele ironizou, e Chay gargalhou. Sophia permaneceu séria, e me lançou um olhar de súplica, que eu rebati para Thur, que parou de rir na hora.
Ficamos um bom tempo em silêncio. Até que Chay finalmente resolveu agir.
- Você quer, sei lá, ir lá fora? – ele perguntou para Sophia. Eu não conseguia ver nada com todo meu cabelo jogado na nuca, mas podia ouvir muito bem, e eu sabia que pela voz de Sophia, ela estava ansiosa por aquele momento, mas não sairia dali sem fazer um doce.
- Nessa chuva? – ela sussurrou de volta. Eu e Thur estávamos tão quietos que acho que os dois esqueceram da nossa presença.
- A gente fica na sala de ginástica. – ele respondeu. A sala de ginástica ficava do lado da piscina, mas nunca fora usada realmente para ginástica. Na verdade, era um quarto com cama e Tv. E ar-condicionado.
- Ok. – ela concordou, e eu nem pude contar até 5 que eu e Thur estávamos sozinhos na sala.
- E aí, o que você quer fazer na pior tempestade do ano? – ele perguntou, esfregando seu nariz no meu e colocando uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha. Respirei fundo, depois de sentir seu toque suave em mim, como se fosse a primeira vez que realmente respirava no dia.
- Primeiro, sair desse chão frio. – respondi, me levantando de qualquer jeito. Ele se levantou em seguida e ficou ao meu lado, como se esperasse por uma ordem minha. – E agora me enrolar nos cobertores.
A próxima coisa que eu senti foi seu peito embaixo de mim, respirando profundamente. Minhas mãos estavam aninhadas no seu pescoço e ele me segurava pela cintura, encostando sua bochecha no topo da minha cabeça. O cobertor vinha até meu pescoço e nós tomávamos leite com Nescau na taça de chapagne.
- Como esse cara não percebeu que a garota dele estava cuspindo sangue até morrer? – ele perguntou, incrédulo. Assistíamos Moulin Rouge na Tv e ele comentava alguma coisa do filme de 5 em 5 segundos, como aqueles amigos chatos que nunca te deixam assistir o filme. Mas como ele era fofo, porque ele realmente não estava entendendo o filme e fazia umas caras de perdido muito fofas.
- Você acha mesmo que ele iria perceber que ela estava morrendo com todos os outros problemas que ele tinha que resolver? – perguntei, fazendo ele concordar com a cabeça.
- Eu perceberia se você estivesse com gripe, que dirá com tuberculose! – falou sério, passando os dedos por meu rosto.
- Atchim! – brinquei, e nós dois rimos.
Ah, piadinhas internas...
Assistimos mais um pouco, mas Thur estava ficando ansioso demais para assistir um musical tão gay quanto Moulin Rouge. Então me deixei levar por seu toque quente em meu rosto, e inclinei minha boca para a dele, que se encostou com leveza e ao mesmo tempo vontade na minha, e com os lábios nos meus, sussurrou:
- Se alguma coisa acontecesse com você eu nem sei o que eu faria.
- Não vai acontecer nada comigo. Não enquanto eu estiver com você. – respondi, separando nossas bocas e dando um beijo na ponta do seu nariz.
- Eu não vou deixar. – ele murmurou, logo depois beijando minha boca.
Seus lábios guiavam os meus devagar e seu gosto impregnava minha boca. Suas mãos deslizavam docilmente em minha cintura e nossos corpos se ligavam como um só. Envolvi minhas mãos nos seus cabelos desgrenhados e o senti estremecer. Ele apertou minha cintura com força e ouvimos um estalo.
Abri meus olhos.
A casa todo estava no maior breu. A Tv estava apagada e a luz da cozinha – antes acesa – apagou também.
- O que aconteceu? – ele perguntou, tateando meu rosto com as mãos. Gemi. Eu morria de medo do escuro.
É. Gay demais. Eu sei.
- Lua, linda, você está bem? – ele perguntou novamente, mas dessa vez a ansiedade dominou sua voz.
- N-não! – gaguejei, me apertando mais nele. – Eu morro de medo do escuro!
Thur abafou uma risada e eu fechei meus olhos, afundando minha cabeça no seu peito.
- É sério!
- Eu sei que é sério. – ele sussurrou. – Só achei graça que uma mulher desse tamanho tenha medo do escuro!
- Vai se ferrar, Thur! – eu resmunguei, batendo nele de leve, pois não tinha forças para bater mais forte. E acho que ele percebeu que eu estava realmente apavorada, porque segurou meu braço e foi beijando todo ele, até chegar no meu pescoço, me fazendo esquecer um pouco do negócio do escurto.
Mas só um pouco.
- Lua, eu estou aqui.
- Ah, ótimo... – falei, nervosa. Ele riu e me abraçou apertado, me protegendo.
Ficamos um tempo em silêncio. Mas eu não aguentei ficar ouvindo o som das ilusões da minha cabeça, e logo murmurei:
- Thur?
- Lua?
- Canta pra mim? – pedi baixinho, ainda afundada em seu peito que subia e descia vagarosamente.
Thur se arrumou no sofá e me apertou no seu peito. Pigarreou.
- Hey, I'm looking up for my star girl! I guess I'm stuck in this mad world, the things that I wanna say... (Hey, eu estou procurando minha garota estrela! Eu acho que estou preso nesse mundo maluco, com coisas que eu quero dizer...) – ele cantou no meu ouvido, e eu senti meu corpo amolecer aos poucos. Minhas mãos afrouxaram um pouco na sua nuca e escorregaram para seus ombros. Eles já haviam tocado aquela música no ensaio, mas como só a voz de Thur parecia outra música. – But you're a million miles away! And I was afraid when you kissed me, on your intergalactical frisbee! I wonder why, I wonder why, you never asked me to stay! (Mas você está a milhões de quilômetros de distância! E eu estava com medo quando você me beijou, no nosso Frisbee intergaláctico! Eu me pergunto porquê, eu me pergunto porquê, você nunca me pediu para ficar!)
- Espera! – exclamei, e ele parou bem na hora do “uuu!” e ficou em silêncio. Expliquei: - Essa eu já ouvi. Canta outra?
- Claro, como se eu escrevesse uma música a cada segundo.
- Por favor. – choraminguei.
Ele suspirou, fingindo estar com raiva.
- Ok, mas ela é nova, então não ria!
- Não vou.
- It's all about you, it's all about you baby! It's all about you, it's all about you... (É tudo sobre você, é tudo sobre você, baby! É tudo sobre você, é tudo sobre você!) – ele começou, e eu deixei minha cabeça pesar no seu peito, de tão tonta que a voz dele me deixava. - Yesterday you asked me something I thought you knew! So I told you, with a smile, it's all about you! Then you whispered in my ear and you told me too! Said you make my life worthwhile, it's all about you! (Ontem você me perguntou Algo que pensei que você sabia! Então te disse, com um sorriso, "É tudo sobre você"! Então você sussurrou em meu ouvido, e me disse também. Disse: "Você faz minha vida valer à pena, é tudo sobre você!")
Sorri sozinha. Percebi porque ele não queria cantar a música.
Ele a escreveu pensando em nós.
- And I would answer all your wishes, if you asked me too! But if you deny me one of your kisses, don't know what I'd do... (E eu realizaria todos os seus desejos, se você me pedisse! Mas se você me negasse um dos seus beijos, não sei o que eu faria!) – ele afagava meus cabelos e cantava baixinho, tentando me acalmar. E estava dando certo. – So hold me close and say three words like you used to do... Dancing on the kitchen tiles, it's all about you! (Então me abrace forte e diga três palavras como você costumava fazer! Dançando nos azulejos da cozinha, é tudo sobre você!).
Thur repetiu a música, ainda no meu ouvido, e quando acabou eu nunca estivera tão calma em toda minha vida.
Ele se inclinou e beijou meus lábios. A chuva ainda caía espessa lá fora e a luz ainda não havia voltado. Retribuí seu beijo com leveza e ele se separou de mim. E, mesmo não vendo nada, senti que ele olhava no fundo dos meus olhos. Então, sussurrou:
- It’s all about you, Lua.
Passei minhas mãos em seu rosto quente e respondi:
- It’s all about us, Thur.
E antes que eu pudesse impedir, adormeci.
30
Thur fala:
Eu tinha prometido para mim mesmo que não adormeceria. Eu não podia dormir. Tinha que aproveitar aquilo até o último suspiro.
Lutei com o sono e com a posição agrádavel, com a garota dos meus sonhos nos braços, até o último momento, mas não fui forte o suficiente. Eu dormi com ela, quente, grudada em mim, e nem sonhei, pois meu sonho estava dormindo comigo.
Acordei com o Sol batendo no meu rosto. Abri os olhos com cuidado, evitando olhar diretamente para os raios solares, e senti o perfume dela invadir todos os meus sentidos. Olhei para baixo e ela estava adormecida do mesmo jeito que no dia anterior, apenas com os cabelos mais desgrenhados. Ela respirava profundamente e mantinha um leve sorriso no rosto, como se estivesse sonhando.
Mordi meus lábios com força, para ter certeza que não estava sonhando.
E doeu pra porra.
É, não era um sonho.
Levantei-me do sofá devagar, segurando sua cabeça para não tombar. Depois a apoiei no encosto do sofá e saltei em silêncio para a cozinha.
Fiquei uns 15 minutos lá dentro, batalhando com a minha falta de coordenação em qualquer coisa que envolva comida, mas quando sai com uma bandeja com MilkShake de chocolate, panquecas com calda de caramelo de salada de frutos com leite condensado, senti orgulho de mim mesmo.
Cheguei na sala e Luinha continuava desmaiada, como um anjo. Olhei para a bandeja e ela ainda não estava boa o suficiente. Então furtei uma rosa vermelha de um vaso prata do meu tio e coloquei entre o prato e o copo.
Perfeito.
Luinha se mexeu um pouco e colocou a pequena mão embaixo da bochecha. Os raios de sol batiam em seus cabelos, que brilhavam mais que o normal.
Eu a amava.
Eu não conseguiria mais viver sem ela.
Sentei-me ao seu lado e apoiei sua cabeça no meu colo.
- Bom dia, gata! – sussurrei no seu ouvido e ela abriu os olhos lentamente. Piscou os cílios algumas vezes e, ao ver a baneja de café da manhã ao meu lado, sorriu para mim.
- Bom dia, Thur! Tudo isso pra mim?
- Tudo, mas se você não quiser eu posso comer. – brinquei, e ela levantou levemente a sobrancelha.
- Claro que eu quero! Mas se eu morrer volto pra puxar seu pé!
- Há há, hilária!
Ela deu um gole no MilkShake e sorriu.
- Bom!
- E aí, dormiu bem? – perguntei, enquanto ela cortava as panquecas.
- Sim, sim. A cama não era muito boa, mas... – ela brincou, enfiando um pedaço de panqueca na boca. Eu dei um peteleco no seu nariz e respondi:
- Pra sua informação, muitas matariam por essa cama.
- Que mal gosto... – ela continuou, e eu ri.
Luinha acabou de comer – entre uma risada e outra – e eu coloquei a bandeja em cima da mesa de centro, segurando um bombom que tinha deixado por último nas mãos. Ela veio para pegar e eu levantei o braço. Ela tentou de todos os jeitos pegar e não conseguiu, até que subiu em cima de mim e conseguiu pegar. Quando abriu o bombom, eu o roubei de sua mão e coloquei na boca.
- Ah seu safado! – ela exclamou, me beijando para ver se conseguia tirar o bombom da minha vida. Entrelaçou sua perna na minha cintura e segurou meus braços atrás da minha cabeça. Finalmente, pegou o bombom de volta e o mastigou feliz.
- Não me provoca assim não! – brinquei, apontando com a cabeça para a nossa posição. Ela olhou junto e gargalhou, passando a mãos pelos meus cabelos e os jogando para trás. De repente, ficou séria, me analisando.
Resolvi fazer o mesmo e analisei aqueles olhos expressivos, boca provocativa e nariz perfeito. Nós dois ficamos sérios e parecia que podíamos ler o pensamento um do outro.
- O que vai acontecer com a gente quando descobrirem? – ela cortou o silêncio, afastando um pouco o rosto do meu. Respirei fundo para não me esquecer daquele momento, e respondi, fechando os olhos:
- Estou tão perdido quanto você.
Mative meus olhos fechados e a respiração aguçada, para sempre lembrar daquele momento.
De algum jeito, eu sabia que o fim estava próximo.
Luinha se aproximou mais uma vez, dessa vez sem cautela nenhuma, me fazendo perder o ar. Beijou-me com força e soltou meus cabelos, pousando sua mão no meu peito.
Percebi que com o passar do tempo o clima ia esquentando. Ela passou as mãos pelos meus cabelos novamente e puxou, fazendo eu me arrepiar com seu toque. Desci um pouco minha mão e parei na barra da sua blusa, passando os dedos de leve em sua barriga, fazendo-a suspirar, e quando estava prestes a tirá-la, ouvi suas risadas abafadas.
Abri meus olhos rapidamente e me deparei com Micael e Mel na base da escada, nos olhando incrédulos.
Luinha continuava a me beijar com vontade, e eu tive que apertar sua cintura para que ela percebesse que algo estava errado. Passou a mão pelos cabelos, tirando-os da minha cara, e Micael viu que eu já os percebera ali.
E ele simplesmente sorriu para mim.
- O que foi? – ela murmurou no meu ouvido, e se aquela situação não fosse tão constrangedora, eu a agarraria ali mesmo.
- Hum... – tentei achar um jeito mais delicado de dizer o que estava acontecendo, mas não tive muito progresso, então somente respondi: - Micael e Mel parados na escada.
- Ai merda. – ela exclamou, arregalando os olhos. Tirou as pernas de volta da minha cintura rapidamente e caiu com um baque oco no sofá. Sem levantar os olhos, ela murmurou:
- Oi, Melzinha. Oi, Micael.
- Oi, Lua! – Micael exclamou, como se nada estivesse acontecendo. Mel olhou para mim e depois os cabelos de Lua, e foi mais sensível.
- Vamos para a cozinha pegar o que íamos pegar, Micael.
Os dois desapareceram pela cozinha e Luinha levantou o rosto pela primeira vez, completamente vermelha.
- Lua, desculpa, eu... – comecei a dizer, mas fui interrompido.
- Tudo bem, Thur. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde eles iriam descobrir.
- Você não está cheteada? – perguntei, fitando seus olhos, agora sem expressão nenhuma.
- Não. Eu só estou com... – e uma tristeza inexplicável se apossou dos seus olhos e eu senti vontade de abraçá-la e dizer que tudo iria ficar bem. Mas não pude. Eu fui covarde demais. Quem sabe se eu a abraçasse naquele exato momento, prometido para ela que nada poderia nos separar, nós teríamos evitado tudo que teríamos que passar... – Medo.
- Lua, são nossos amigos! Eles não vão fazer nada! – exclamei, ficando meio impaciente com todo aquele esconde-esconde.
- Eu sei, Thur, mas isso vai se espalhar de um jeito ou de outro.
- Linda, eu não vou deixar que nada nos separe! Nós já demoramos muito para ficarmos juntos, eu não posso te perder por motivos insignificantes!
- Thur... – ela suspirou, um pouco mais alegre. – Eu vou te amar pra sempre, não importa o que aconteça!
Embora eu tenha achado o que ela disse um pouco forte demais, como uma despedida, respondi com o meu coração:
- Claro!
E beijei sua testa.
Se eu soubesse que depois daquilo tudo ficaria péssimo, não teria beijado sua testa, e sim sua boca. E não teria dito “claro”, teria dito “pra sempre!”.
Continua....
Créditos: Raíssa

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