31
Lua fala:
Eu e o pessoal ficamos mais um dia na praia – agora todos sabiam sobre eu e Thur, então podíamos ficar mais à vontade. Na verdade, foi até divertido ouvir todos dizendo que já sabiam e essas coisas – e voltamos para a cidade, e, infelizmente, para a escola.
Segunda-feira foi um dia como todos os outros. Pelo menos o começo do dia.
Eu e Thur andamos de mãos dadas pela escola e os murmúrios iam e vinham. Mas nós nem ligamos. Acho que eu estava tão feliz em finalmente mostrar para todos que nós estávamos apaixonados que nem dei atenção para as fofocas que surgiam.
- E aí, o que já inventaram sobre vocês? – Michele perguntou, sentando-se na mesa do pátio com Harry.
- Grávida. – admiti. Mel e Sophia – que tinha voltado com Chay naquele dia da praia – levantaram as mãos e disseram ao mesmo tempo: - Grávida.
- Grávido. – Thur brincou e me deu um beijo na testa. Todos nós rimos.
E o dia seguiu. O sinal da última aula bateu. Thur me deu um beijo na bochecha e sussurrou no meu ouvido:
- Vamos ensaiar, passa lá em casa mais tarde.
- Claro. – respondi, beijando a ponta do seu nariz e depois sua boca. Ele me segurou pela cintura e nos beijamos na frente de todos, que sussurravam e apontavam, até que a inspetora que eu nunca lembro o nome veio nos separar.
- Onde já se viu, fazer uma coisa dessas na frente de todo mundo? – ela exclamou, olhando feio para Thur, como se ele fosse o culpado.
Normalmente, ele xingaria a inspetora e tomaria uns 3 dias de suspensão, mas acho que o bom humor havia o invadido, porque ele somente sorriu e pediu desculpas, envergonhado. A tiazinha-sem-nome olhou assustada para ele e nos deixou ir embora, ainda surpresa com sua reação.
- Até mais tarde, Luinha! – ele gritou, saindo pelos portões da escola. Acenei com a mão e me sentei no muro de tijolos, esperando minha mãe chegar, pois iríamos ao shopping depois da escola.
E foi quando tudo começou.
- E aí, Lua. – ouvi uma voz me chamar. Virei-me e dei de cara com John, seus cachos dourados caindo no rosto e os olhos azuis celestiais me fitando. Se ele não fosse tão escroto eu cairia de costas ali mesmo.
- Oi, John. – respondi, me virando novamente, rezando para minha mãe chegar logo. Ele se sentou ao meu lado e colocou o braço nos meus ombros. Virei os olhos. – O que você quer?
- Sempre direta ao ponto... – ele riu e me apertou nos braços. As pessoas passavam e comentavam. – Bom, se você quer assim...
- Diz logo, John. – murmurei entre os dentes, me segurando para não dar um soco nele. Tirei seu braço dos meus ombros com nojo e fitei seus olhos, agora raivosos.
- Eu quero te propor uma troca.
- Do que você está falando?
- Eu troco seus beijos pela reputação do Aguiar. – ele respondeu, agora sorrindo maliciosamente.
- Como assim? – perguntei, ficando meio assustada.
- Se você não terminar até hoje à noite com o Aguiar, eu conto pra escola inteira o segredinho dele e dos seus amiguinhos. – ele explicou, como se estivéssemos tendo uma conversa de elevador. – Eu fui muito bonzinho até agora, mas ele merece perder tudo que tem.
- Você não tem como provar nada. – eu disse, tentando me controlar um pouco, mas o meu cérebro já trabalhava a mil e eu tentava de qualquer jeito fugir daquela situação.
- Tenho sim. – ele replicou, levantando a sobrancelha de um jeito sombrio. - A última foto que eles postaram eu que mandei, e posso provar que só eu tenho aquela foto e só mandei pra eles.
- Você mandou para o conteseubabado, isso não prova nada. – declarei, ficando um pouco aliviada.
- Acontece, linda, que seu amigo, Chay, é tão idiota, que postou uma foto que eu mandei para o e-mail próprio. – ele disse, passando a mão pelos cachos. Arregalei os olhos. Ele gargalhou. – Você tem até à noite. Me encontre no Barney’s, senão, adeus McLosers.
Depois disso ele pulou do muro e saiu pelo portão da escola, com todas as meninas se virando para observar ele passar. Minha boca se abriu.
Acho que eu nunca vira John falar mais sério em toda vida.
E eu tinha que tomar uma decisão. E nem cheguei a pensar direito. Na verdade, eu já sabia, de algum jeito, que aquilo iria acontecer, e eu meio que tinha uma decisão tomada na cabeça. Nem que para isso eu tivesse que sofrer.
Minha mãe chegou bem na hora. Eu pulei do muro e entrei no carro.
32
Thur fala:
Quando ela saiu pela porta, fiquei tão zonzo que caí com tudo na cama. Apoiei os dedos nas têmporas e respirei fundo, tentando processar o que havia acontecido.
Não havia nenhuma explicação plausível, nada que eu tenha feito. Mas então, porque ela tinha feito aquilo?
Fechei os olhos e tudo ficou preto. Meu coração batendo lentamente no peito. As mãos suando e a tontura que não passava. Tentei me recordar do que havia acabado de acontecer.
Lua entrara em casa, no final da tarde. Micael a deixou entrar e ela subiu para meu quarto. Bateu na porta e entrou, com passos lentos e firmes. Levantei minha cabeça da baixo e a vi parada na batente, séria. Sorri para ela, que continuou com a mesma expressão.
- Oi, linda, entra aí! – eu disse, colocando a baixo de lado. Levantei-me, só de boxers e meias, e a puxei para perto. Ela vacilou, caindo em meus braços e me dando o melhor beijo que eu já recebera em toda vida. Suas mãos acariciavam meus cabelos e eu passeava com as minhas mãos pela sua cintura, quadril, ombros e nuca, sempre com intensidade. Ela ofegava e dava leves beijos na minha boca. Nem sei porquê, mas senti que aquele beijo era... Triste.
Como um final previsto.
Até que ele foi ficando mais lento. Suas mãos pararam nos meus cabelos e as minhas na sua cintura. Ela encostou sua testa na minha, separando nossas bocas.
- Thur? – chamou, baixinho. Estremeci.
- Oi?
- Eu quero terminar.
Abri os olhos, sentindo meu chão sumir.
O quê?
- Você ouviu o que eu disse? – ela perguntou, depois do longo silêncio que eu fiz. Inclinei minha cabeça, me separando dela totalmente. Meus braços caíram pesados ao lado do meu corpo e minha visão ficou escura.
O quê?
- Como assim, o que, eu... – tentei organizar meus pensamentos, mas não tive muito sucesso. Sua voz ecoava em minha mente. “Eu quero terminar. Eu quero terminar”. Só conseguia ouvir isso. Quase nem ouvi quando ela disse, já saindo pela porta:
- Não se preocupe, você vai ficar legal. – sua voz era séria e um pouco nervosa. – Acho que eu nunca precisei de você, assim como você não precisa de mim. Desculpe, Thur, nós fomos um erro e eu quero consertar isso.
- Luinha, espera, o que você está dizendo? – as palavras conseguiram finalmente escapar da minha garganta.
- Acredite, Aguiar, você vai melhorar.
E saiu.
E lá estava eu, me lembrando de tudo aquilo, os dedos nas têmporas, a pele formigando e uma dor inexplicável dentro de mim.
Uma dor que eu nunca sentira antes.
- Dude, por que a Luinha saiu correndo daqui, vocês brigaram ou algo do tipo? – Micael perguntou, invadindo meu quarto sem nenhum tipo de constragimento. Quando me viu deitado de barriga para cima, os braços no rosto, chamou: - Dude?
Eu não conseguia dizer nada. Ou talvez não soubesse o que dizer. As palavras não saíam da minha boca e a dor no peito não passava.
- Dude, o que foi que aconteceu? – ele perguntou novamente, dessa vez se sentando na beirada da minha cama. Tirei os braços do rosto e me levantei, apoiando meus cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos novamente. Respirei fundo, tentando orgnizar aquilo para soar o menos estranho possível. Mas se nem eu estava entendendo, como faria para explicar para Micael? Então as palavras meio que jorraram da minha boca, antes mesmo que eu pudesse ter um pingo de amor próprio e orgulho masculino: - Ela terminou comigo.
- HAHAHAHA, essa é boa! – Micael gargalhou, me dando um tapa forte na perna. Levantei meu rosto dos braços e lhe lancei meu melhor olhar pára-de-rir-retardado-que-eu-estou-falando-sério e ele fechou a cara. – Nossa, é verdade?
- É verdade, porra. – eu disse, ficando reto. – Dá pra você sair do meu quarto agora?
O que estava acontecendo!? Eu nunca fora idiota daquele jeito com os meus amigos, principalmente por uma... garota.
- Foi mal, Thur. – ele parecia arrependido. – Se precisar de alguma coisa, é só chamar. – e saiu do meu quarto, o olhar vazio.
Joguei-me na cama novamente e fitei o teto.
Mas que merda tinha acontecido?
A dor assolou meu coração e eu fechei os olhos, para tentar me convencer de que aquilo era uma brincadeira e que Lua iria voltar.
Mas ela não voltou.
E aquilo não era brincadeira.
Lua fala:
Caminhei sozinha pela rua, a garoa caindo sobre minha pele. Meus olhos se apertavam contra o frio e minha cabeça latejava de dor. Enfiei as mãos nos bolsos do meu moletom e me obriguei a continuar. Porque pelo menos a dor física – frio – me afastava da pior dor de todas. A dor de perder a pessoa que eu mais amava no mundo.
Não sei quanto tempo caminhei, mas sei que cheguei ao Barney’s muito mais cedo do que eu previa. E como eu também previa, John esperava por mim, sentado no banco mais visível do lugar, com os braços no assento.
- Olha só quem resolveu aparecer! – ele disse, a ironia estampada na voz. – Minha princesa.
- Ok, John, você venceu. Pode parar com a brincadeira. – respondi, virando meus olhos. Sentei-me na sua frente e ele se inclinou bruscamente. Todos que estavam ali – maioria alunos do Colégio Norbert – viraram seus rostos para nós dois.
- Agora o grande final. – ele sorriu, mostrando a fileira de dentes reluzentes. Inclinou-se mais um pouco e seus lábios gelados tocaram os meus. Uma ânsia muito forte percorreu meu corpo, mas não me afastei, com medo de sua reação.
Sua boca pairou sobre a minha por um bom tempo. Ele tentou algo a mais, mas minha repulsa era tão grande que nem se eu quisesse, conseguiria. Finalmente, ele se separou de mim.
Não tive coragem de olhar em volta, mas pelo que pude perceber, todos estavam adorando aquilo. A maior fofoca do ano.
- Luinha, Luinha... – ele suspirou. – Tão doce, mas com tanto ódio dentro desse coração.
- Vai. Se. Foder. – eu disse, com grandes pausas entre as palavras. Ele gargalhou.
- Adoro seu gênio!
Fiquei em silêncio e um amigo dele chegou. John começou a tagarelar sobre nós dois – mentiras e mais mentiras – e eu me forçava a sorrir de vez em quando para o garoto, que parecia sinceramente interessado e impressionado.
- Falou aí, boa sorte pra vocês dois! – ele exclamou, e me lançou um aceno de cabeça. Sorri de boca fechada e o observei ir embora. John agora me olhava.
- Posso ir? – perguntei, cruzando os braços no peito.
- Pode. – ele respondeu, jogando os cachos dourados para trás. – Mas paga a conta antes.
Respireu fundo. Naquele momento eu queria MUITO voar no seu pescoço. Mas agarrei a mesa e contei até dez. Mais calma, continuei:
- Eu não vou pagar nada. Você pode muito bem pagar com o cartão do seu papai.
- Como se você também não fosse fazer isso. – ele virou os olhos azuis.
- Não, John, e quer saber porquê? – perguntei, me levantando da mesa.
- Por que, gata?
- Porque eu não sou escrota como você. – respondi, e meio que corri para sair logo dali. Lá fora a chuva caía pesada e fria. Mas eu não me importei. Caminhei pelas ruas já escuras com o final da tarde, tentando imaginar como seria bom estar na chuva com Thur e como eu nunca mais teria aquele sorriso perfeito só para mim.
Cheguei em casa ensopada e triste.
Triste como nunca fora antes.
- Mãe, cheguei. – gritei, e ao ouvir alguma resposta de volta, subi correndo para meu quarto e me enfiei no chuveiro. A água quente acalmou um pouco a dor que eu sentia, mas nem de longe fez eu me sentir bem. Quando saí do chuveiro, coloquei meu pijama e me enfiei debaixo das cobertas.
Thur…
Eu nunca me perdoaria por tê-lo machucado tanto.
4 meses depois.
33
4 meses depois.
Thur fala:
Segundos se passaram. Minutos. Horas. Dias. Semanas. Meses.
No começo eu ligava para ela todos os dias. Ela nunca estava. E quando caía na secretária, eu deixava inúmeras mensagens, uma mais humilhante que a outra.
Ela nunca chegou a me responder.
A minha vida seguia. Não totalmente uma vida. Uma semi-vida.
Forçava-me a conversar, a opinar, a rir, a zoar, a comer, a dormir, a viver. Mas tudo parecia incompleto e... vazio.
Toda vez que meus olhos se encontravam com os de Lua no colégio, no Barney’s, nos ensaios, minha visão ficava escura e a dor no peito latejava. Eu não podia e não queria mais viver sem ela. Então me afastei das meninas, e muitas vezes deixei os dudes de lado. Ficava a maior parte do tempo sozinho, e quando não estava sozinho, era para ensaiar, pois o Festival de Bandas estava próximo. Escrevi uma música para ela, somente uma música, pois todas as outras que escrevi não eram boas. Toda minha inspiração foi embora, assim como todo o meu motivo para ser feliz. Se antes dela minha vida era normal, depois dela, minha vida não chegou nem perto de voltar a ser como era.
- Dude, nem acredito que é amanhã! – Chay exclamou, descendo as escadas correndo, secando os cabelos com uma toalha amarela. – Vai ser a primeira vez que todos aqueles babacas do colégio irão ver o nosso potencial!
- Só se for o seu potencial. Porque eu tenho quase certeza que vou vomitar na cabeça de alguém. – Micael replicou, zapeando pelos canais da Tv. Harry garalhou. Eu continuava no piano, batendo qualquer tecla que me vinha à cabeça. Dó, dó, ré, sol, sol. Dó, dó, ré, sol, sol.
- Hey, dude, faz isso de novo! – Harry pediu, quando eu deixei minha cabeça cair na teclas. Bati minha cabeça de novo, e o mesmo barulho ensurdecedor aconteceu. – Não isso, seu animal, as notas antes disso.
Dó, dó, ré, sol, sol.
- Isso? – perguntei, fechando o piano.
- É. Ficou legal. – ele respondeu, apertando os lábios. Chay concordou.
- Ficou uma merda. – eu disse, subindo as escadas lentamente. Harry suspirou e Micael desligou a Tv. Chay continuou secado os cabelos.
- Thur, volta aqui. – Harry chamou, mas eu já entrava no meu quarto. Deixei-me cair na cama e fechei os olhos, não conseguindo dormir direito, como havia acontecendo há alguns meses. 4 meses, 2 semanas e 3 dias para ser mais exato. Esse era o tempo certo que eu não falava com ela. Não a beijava. Não sentia sua pele quente na minha.
E esse era o tempo exato em que ela estava com o escroto do John, sempre a humilhando e fazendo-a de boba.
Lua, agora, era a maior corna do colégio. E o que mais me matava era que ela não parecia se importar muito com aquilo. Sua expressão era sempre séria e há muito tempo eu não a via sorrir. Suas amigas tentavam, em vão, fazer com que ela terminasse com John. Mas ela não terminava, e também não demonstrava qualquer tipo de afeição por ele, salvo as vezes em que ele a beijava à força na frente de todos, sendo repelido com nojo.
Era isso que eu não entendia.
Se ela não gostava dele, por que não voltava para mim?
E é aí que o orgulho masculino – aquele filho da puta, que sempre existiu em mim – entrava. Depois dela ignorar todas minhas mensagens, eu simplesmente não fui atrás dela para tentar descobrir o porquê de tudo aquilo.
Na verdade, mantive a maior distância possível por todo esse tempo, sempre evitando qualquer palpite emocinal que meu coração insistia em dar.
Eu sabia que ela ainda me amava. Ela TINHA que amar. Mas me forcei a acreditar que não. E por isso sofri em silêncio por 4 meses, segurando as lágrimas e mentindo para meus amigos que estava bem.
- Não é egoísmo, só não quero que ele se humilhe amanhã na frente de todo mundo! – Micael exclamou lá de baixo. Levantei-me na mesma hora e encostei a orelha na porta quando percebi que falavam de mim.
- Eu também não, mas o que podemos fazer? Ele é nosso baixista, não podemos tocar sem ele! – Harry respondeu, irritado.
- Sei lá, liga pra Michele, pede pra ela pedir pra Luinha não ir. – Micael sugeriu e Chay replicou:
- Não, dude, ele tem que perceber que ela já era! Que ela não vai voltar!
Encostei-me na porta e deslizei até o chão. Meus cabelos caíram por cima da testa e eu apertei os olhos, segurando novamente as lágrimas que eu nunca deixara cair em todo aquele tempo. E, não sei como, adormeci ali mesmo, com a cabeça encostada nos joelhos.
Lua fala:
- Eu não quero ir! – berrei, me encostando no armário de Sophia. Ela virou os olhos. – Que parte do eu não quero ir você não entendeu? O eu, o não, o quero ou o ir?
- Você não tem escolha. – ele respondeu, me atirando uma calça jeans skinny escura e uma blusa decotada em V preta. Os saltos scarpins pretos já estavam no chão e os acessórios na sua escrivaninha. – Vai por bem ou por mal.
- S6o! – choraminguei, mas ela ignorou. Levantou-se e tentou tirar minha blusa rosa do pijama. Dei um tapa em sua mão e exclamei: - Ok, isso eu ainda consigo fazer sozinha!
- Ótimo. – ela respondeu, sentando-se novamente. – Anda, você só tem 15 minutos.
- Ótimo. – repeti, atirando longe meu pijama. Eu tinha tomado banho e colocado-o, crente de que iria passar mais um sábado assistindo filmes na Tv e sendo corna, mas minhas amigas tinham outros planos para mim.
Em 10 minutos estava pronta.
- Vamos. – ela disse, me arrastando pela porta. – Chay já está me esperando lá embaixo.
- Espera, Chay está com...? – nem terminei, e Sophia respondeu, seca:
- Não.
Elas – minhas amigas - não sabiam porque eu havia terminado com Thur – ninguém sabia –, mas sabiam que eu não queria qualquer contato com ele, até um simples olhar, atitude que discordavam ferozmente.
- Oi, Luinha! – Chay exclamou, me olhando com uma mistura de eu-ainda-te-amo e vai-se-foder-você-fez-meu-amigo-ficar-mal.
- Oi, Chay. – disse, afundando no banco de trás. Ele deu partida no seu novo New Beatle preto – presente de seu pai que ele odiou por ser gay demais e amou por ser um ótimo carro – e voamos até a escola, em silêncio por todo o caminho.
Chegando lá, as luzes saíam pela porta e meu coração acelerou. Tentei ficar calma, mas só de saber que todos os olhares se focariam em mim quando entrasse foi o suficiente para me desesperar.
- Ok, péssima idéia, posso ir pra casa? – pedi, e Chay me lançou um olhar de compaixão. Mas Sophia foi menos compreensiva.
- Nada disso. Vamos lá, você é uma mulher ou um saco de pipocas?
Saco de pipocas, saco de pipocas.
- Mulher. – murmurei, como uma criancinha. Sophia sorriu e me ajudou a descer do carro. Fiquei mais alta que ela, pois eu já era bem alta, e o salto não ajudou muito. Aliás, devo ter ficado maior que Chay, mas isso não vem ao caso...
Entramos no salão que estava todo escuro e tinha um palco perto da arquibancada norte. Na frente do palco, algumas pessoas se aglomeravam. Algumas até usavam camisetas com o nome das bandas que iriam tocar ali. Virei os olhos. Eu não queria estar ali. Eu não queria ter que ouvir a voz de Thur linda e maravilhosa nas caixas de som. E, acima de tudo, eu não queria encostar em John.
Opa. Tarde demais.
- Oi, linda! – ele exclamou, chegando perto de mim com outras duas garotas muito suspeitas. Lançou-me um olhar de finja-que-gosta-de-mim-na-frente-dos-outros e eu respondi, quase inaudível:
- Oi, John.
O “Oi, linda!” percorreu meu cérebro diversas vezes, e eu me lembrei de como era quando Thur dizia aquilo. A perfeição do seu timbre de voz, o modo como falava as palavras lentamente, o jeito que sua boca se mexia...
John podia ser lindo e gostoso, mas nem de longe era Thur.
Aquela altura do campeonato, eu não queria mais degolar John. Na verdade, eu já me acostumara com ele, e a única coisa que eu me forçava a fazer era suportá-lo.
Minha vida estava tão vazia e triste que eu nem me importava mais de ser a maior corna do colégio. Na verdade, eu agradecia por John estar galinhando por aí, ao invés de me encher o saco. Porque eu só queria ficar sozinha. Todo o tempo. Isolada, sozinha e triste.
Assim como Thur.
Thur... Sentia tanto sua falta...
- Olá, alunos do Colégio Norbert! – um famoso Vj da Mtv gritou no microfone. A gritaria subiu a mil e eu tapei meus ouvidos, com medo de que eles estourassem. Nossa escola havia ganho a promoção “use e abuse de Daniel Madolack” e era o que estávamos fazendo, colocando o coitado para apresentar aquele Festival idiota. – Tudo ok?
“Tudooo!”
- Bom, eu sou Daniel Madolack, e estou aqui para apresenter as melhores bandas do Colégio! – mais gritos histéricos. Reparei direito. Ele era bem gato. E não parava de me olhar. – Sem mais demora, com vocês, Asas de Porco!
Espera aí.
Asas de Porco?
Eca!
A banda entrou. 5 meninos vestidos de preto com a maior cara de mal. Reconheci-os do clube de xadrez. Ou será que era do clube de ciência?
Ah, vai saber...
- E aí, galera! – o vocalista gritou, e foi recebido por poucos gritos. – Nós somos o Asas de Porco e essa é a nossa música!
Os acordes pesados das guitarras começaram e eu me senti tonta. Olhei para o lado e Sophia era abraçada por Chay e ria da banda.
- Cadê os outros? – perguntei.
- Atrás do palco. Nós somos os próximos! – Chay respondeu.
- E por que você não está lá?
- Opa, é mesmo. – ele exclamou, e Sophia riu. Ele a pegou pela mão e sumiu atrás do palco, me deixando, bem... sozinha.
Olhei em volta novamente, e todos os olhares estavam focalizados em mim. Minhas mãos começaram a suar e eu senti que poderia desmaiar. O chão pulsava e minha cabeça doía. Aliás, os pensamentos da minha cabeça que a faziam doer. Há 4 meses que a única coisa que eu sabia pensar, direta e indiretamente, era em Thur.
Senti minha visão escurecer e sabia que iria cair ali, no meio de todos.
- Hey, você está bem? – uma voz conhecida perguntou. Minha visão ficou clara novamente e eu vi o Vj gato parado na minha frente, me segurando pelo braço. Os acordes agora soavam dentro do meu cérebro e eu respondi, sincera:
- Não muito.
- O que aconteceu? – ele perguntou, ainda me segurando pelo braço. Forcei um sorriso e respondi:
- Eu não queria estar aqui.
- E por que não? – ele perguntou, verdadeiramente curioso. Olhei em volta e os olhares não saíam de mim. Apontei com a cabeça e ele sorriu. – Ah, claro, fofocas escolares.
- Se fosse só isso, tudo bem. – eu respondi, e respirei fundo. Nem sei porquê, mas logo em seguida me ouvi contando todos meus problemas para um cara maravilhoso, que, provavelmente, era só uns 2 anos mais velho do que eu. – Na verdade, eu tive que terminar com o cara que eu amo porque um outro cara me forçou, dizendo que se eu não terminasse e ficasse com ele, ele contaria para todos o segredo desse garoto que eu amo. E eu não quero que esse garoto que eu amo fique com a reputação queimada, porque, bem, eu o amo certo? E agora eu estou há 4 meses sem falar com ele, sem ouvir sua voz, sem senti-lo, sem nada! – parei e respirei. Daniel me olhava meio assustado, mas ao mesmo tempo com cara de que queria ouvir mais. – E agora, depois dessa banda, ele vai subir ali e cantar, com a mesma voz que ele já cantou pra mim muitas vezes, e eu não sei como eu vou reagir e...
- Hey, hey, espera um pouco! – Daniel me chacoalhou pelos ombros e eu parei subitamente de falar. Ele agora estava sério. – Você chegou a conversar com esse garoto sobre tudo isso?
Pensei um pouco.
É, na verdade, não.
- Não.
- E como você sabe que ele prefere a reputação ao invés de você?
- Porque, bem, antes de mim, ele era o maior pegador e... – comecei, mas ele me interrompeu de novo.
- Desculpe, qual seu nome?
- Lua, mas pode me chamar de Luinha.
- Luinha. – ele repetiu. – Bem, eu sei que eu não sou assim tão mais velho e experiente que você, mas eu sou um garoto. E pelo o que você me diz, esse cara que você gosta...
- Thur.
- Esse Thur, ele também gosta de você! Também, quem não gostaria? – ele perguntou, me olhando de cima a baixo. Corei. – Acho que quando duas pessoas se amam de verdade, todas as outras coisas não são nada. Se ele gosta de você, ele não se importa com reputação ou qualquer coisa do tipo! Sabe, aconteceu uma coisa parecida entre mim e minha noiva.
Olhei para baixo e vi um anel de noivado reluzente na sua mão esquerda. Assenti com a cabeça, para ele continuar.
- Ela é da minha produção. Eu gostei dela desde que a vi pela primeira vez. E ela também. Mas ela sempre me rejeitava, dizendo que não estava a fim, mas depois eu descobri que na verdade ela não queria manchar minha reputação de famoso ficando com uma reles garota da produção. E se não fosse pela minha insistência, talvez eu teria perdido a garota que eu amo.
Meus olhos se encheram de lágrimas, pela primeira vez em muito, muito e muito tempo. Acho que eu nem me lembrava mais há quanto tempo as lágrimas conseguiam escapar da minha garganta. Pisquei os olhos rapidamente e elas voltaram para dentro.
Mas que porra estava acontecendo comigo?
Nem quando meu pai foi embora com o meu irmão tive vontade de chorar como eu estava naquele momento!
- Olha, agora eu preciso subir para anunciar a banda do seu garoto. Mas, sei lá, pensa no que eu disse. Não vale a pena sofrer calado por amor se você não sabe o que o outro quer.
Ele piscou para mim e saiu correndo, porque o Asas de Porco já havia se retirado – com algumas vaias – do palco.
- Ok, a próxima banda que vai pisar aqui no palco é o... – ele olhou no papel que segurava. – McFLY! E, antes de eles entrarem, eu queria deixar um, ah, sei lá, nem sei o que é isso que eu vou dizer... Mas, eu queria que antes que vocês façam alguma besteira e quebrem o coração de alguém, parem, pensem e conversem com essa pessoa. Porque, por mais que isso pareça piegas, um coração partido dói mais do que o orgulho de pedir perdão.
Daniel piscou para mim e saiu do palco, sob milhões de aplausos. Estremeci, e engoli mais lágrimas. O ginásio ficou escuro e as pessoas começaram a murmurar. Fui mais para frente, costurando entre as pessoas, e cheguei bem perto do palco. Ao meu lado estavam algumas meninas da oitava série que me lançaram olhares de compaixão. Sorri para elas.
Percebi vultos se mexendo no palco e prendi a respiração. Micael foi o primeiro a aparecer, e foi até o microfone, com o ginásio todo escuro. Apesar de estar morrendo de medo, fiquei firme ali na frente.
- E aí, Colégio Norbert! – ele gritou, e o ginásio inteiro gritou de volta, até meus antigos amigos que, bem, odiavam os McLosers. – Como vocês estão essa noite?
“Bem!”
- Ok, agora um comunicado para vocês. Não sei se irão gostar ou odiar, mas o McFLY vai tocar duas músicas. Uma, foi feita por todos nós. A outra, foi feita somente por um de nossos integrantes. – mais gritos. – Vamos lá?
As luzes do palco se acenderam. Harry contou 3 vezes com a baqueta e as guitarras tocaram os primeiros acordes. Chay apareceu do outro lado sob os gritos das meninas e, bem na minha frente, Thur surgiu.
Seus cabelos caíam no rosto como sempre. Suas calças eram – incrivelmente – do tamanho certo, azuis escuras e apertadas na batata da perna. Ele usava uma camiseta verde escura com as mangas compridas pretas. Seu alargador preto fora trocado por um verde e no dedo da mão esquerda um anel tribal. Os pés batiam no ritmo da música com um All Star preto e sujo.
- Went out with the guys, and before my eyes, there was this girl and she looked so fine! And she blew my mind! And I wish that she was mine... And I said: "Hey wait up 'coz I'm off to speak to her!” (Saí com meus amigos, e diante dos meus olhos, estava esta garota e ela era tão linda! E ela me deixou louco! E eu desejei que ela fosse minha... E eu disse "Ei, esperem porque eu vou falar com ela!") – Thur cantou. Sei que ele percebeu que eu estava ali, mas não me olhou nenhuma vez. – And my friends said: (You'll never get her, you'll never gonna get that girl!) But I didn't care, 'cuz I loved her long blond hair! And love was in the air! And she looked at me, and the rest was history... “Dude you're being silly cuz you're never gonna get that girl! And you're never gonna get that girl!” (E meus amigos disseram: (Você nunca vai pegar ela! Você nunca vai pegar aquela garota!) Mas eu não liguei, porque eu adorei seus cabelos loiros! E o amor estava no ar! E ela olhou para mim, e o resto é história... “Cara, você está sendo idiota porque você nunca vai pegar aquela garota! E você nunca vai pegar aquela garota!”).
Ao meu lado, as pessoas pulavam e algumas já pegaram a música e cantavam o refrão.
Eles eram realmente muito bons.
- We spoke for hours! (She) Took off my trousers! (Spent) Spent the day laughing in the sun! And we had fun! And my friends they all looked stunned... "Dude she's amazing and I can't believe you got that girl!" (Nós conversamos por horas! Ela tirou minhas calças! Passamos o dia rindo no sol! Nós nos divertimos! E meus amigos pareciam surpresos... "Cara, ela é demais e eu não acredito que você pegou aquela garota!") - Harry cantava da sua bateria, fazendo caras engraçadas nas viradas. Chay mandava beijos para Sophia sempre que podia e Micael ficou o tempo todo no centro do palco, bem em frente de Mel. – And my friends said: (She's amazing, I can't believe you got that girl!) It gave me more street cred... I dug the book she read! How can I forget? That she rocks my world! More than any other girl... "Dude she's amazing and I can't believe you got that girl! And I can't believe you got that girl!" (Meus amigos disseram: (Ela é maravilhosa, eu não acredito que você pegou aquela garota!) Ela me deu mais popularidade... Eu peguei os livros que ela lia! Como eu poderia esquecer? Ela agita meu mundo! Mais que qualquer outra garota... "Cara, ela é maravilhosa e eu não acredito que você pegou aquela garota! Não acredito que você pegou aquela garota!").
Todos ao meu lado estava curtindo a música, até meus ex-amigos. Achei estranho, mas gostei mesmo assim.
- She looked incredible, just turned seventeen! I guess my friends were right, she's outta my league... So what am I to do? She's too good to be true! (Ela parecia incrível, acabou de completar 17 anos! Eu acho que meus amigos estavam certos, ela é demais para mim... Então, o que devo fazer? Ela é muito boa para ser verdade!) - Quando foi a vez do solo de Thur, ele foi para o outro lado e quase fez umas meninas da sétima série desmaiarem quando sentou no palco e tocou para elas. Sorri. Ele estava fazendo aquilo de birra. - But three days later, went round to see her, but she was with another guy! And I said fine! But I'll never ask her why... And since then loneliness has been a friend of mine! And my friends say: (Such a pity, I'm sorry that you lost that girl...) I let her slip away, they tell me everyday! That it will be okay! 'Coz she rocked my world, more than any other girl... "Dude it's such a pity and I'm sorry that you lost that girl! And I'm sorry that you lost that girl..." (Mas 3 dias depois, saí para vê-la, mas ela estava com outro cara! E eu disse tudo bem! Mas nunca perguntei a ela porquê... E desde então a solidão tem sido minha amiga! Meus amigos disseram: (Que pena, sinto muito que você tenha perdido aquela garota!) Eu deixei ela escapar, eles me disseram todo dia! Que ficará tudo bem! Ela agita meu mundo, mais que qualquer outra garota... "Cara, que pena, sinto muito que você tenha perdido aquela garota! Sinto muito que você tenha perdida aquela garota...").
O último acorde de guitarra acabou e eles tiraram os intrumentos dos ombros, apoiando-os perto nas caixas de som. Pegaram uns banquinhos no fundo do palco e Harry trocou os baquetas por outras. Thur sentou-se na minha frente com o banco, e os outros sentaram-se nos seus lugares.Micael e Chay não seguravam nenhum instrumento, e somente Thur segurava um violão. O ginásio ficou escuro novamente e eu estremeci. Olhei para cima e Thur olhava diretamente para meus olhos, e seu braço estava estendido para mim, como se ele quisesse de algum modo me acalmar. Respirei fundo. De repende as luzes pousaram em cima de cada um deles. Thur tinha um brilho estranho no olhar e sorria, triste.
- Bom. – ele começou, tirando os olhos de cima de mim e olhando para todos os alunos que agora estavam aglomerados perto do palco, com um brilho diferente no olhar. – Essa música eu fiz quando... Quando a garota dos meus sonhos partiu meu coração.
As meninas ao meu lado soltaram um “aaaah!” e eu olhei para seus olhos, novamente voltados para mim. As lágrimas se acumularam embaixo dos meus olhos, e embaixo dos seus olhos também. Mas ele estava sorrindo, diferente de mim.
- Eu ainda não sei porquê tudo aconteceu, e, para falar a verdade, ainda não superei. Mas eu tenho certeza de que se ela está aqui hoje, - ele ainda olhava para mim. – vai saber que essa música é pra ela, e, bem, isso para mim já vale a pena.
As lágrimas escorreram no seu rosto e no meu também. Sorri para ele, um sorriso fraco e forçado, mas verdadeiro. Ele fez o mesmo, brilhando sob os refletores.
As meninas ao meu lado comentavam que ele estava chorando e que ele não parava de olhar para mim, e uma até tirou uma foto. Mas eu não me importei. Naquele momento, éramos só nós dois naquele salão. Nossos olhares não se desgrudavam por um segundo.
Thur começou a tocar o violão e Harry tocou um ritmo bonitinho na bateria.
- She walked in and said she didn't wanna know, anymore... Before I could ask why, she was gone, out the door... I didn't know what I did wrong! But now I just can't move on... (Ela entrou e disse que não queria mais saber... Antes que eu pudesse perguntar o porque, ela já tinha saído pela porta... Eu não sabia, o que eu tinha feito de errado! Mas agora eu não consigo seguir em frente!) – ele começou, e agora as lágrimas caíam sem vergonha do seu rosto, e do meu também. Mas apesar de estarmos chorando, sorríamos um para o outro, numa compreensão mútua. – Since she left me, she told me, don't worry! You'll be ok! You don't need me, believe me, you'll be fine! Than I knew what she meant, and it's not what she said... Now I, can't believe, that she's gone... (Desde que ela me deixou, ela me disse, não se preocupe! Você vai ficar bem! Você não precisa de mim, acredite, você vai melhorar! Então eu soube o que ela queria dizer, e não era o que ela disse... Mas agora, eu não consigo acreditar, que ela se foi...).
Enquanto ele cantava o refrão, me lembrei perfeitamente do dia em que terminamos. O gosto do nosso último beijo. O seu olhar incrédulo quando eu disse que queria terminar. A dor que se instalou no meu peito e que nunca mais saíra.
Thur era tudo que eu sempre sonhei, e eu tinha desperdiçado tudo o que nós tínhamos.
- I tried calling her up on her phone, no one's there... I've left messages after the tone! (Eu tentei ligar em seu telefone, não havia ninguém... Deixei mensagens depois do bip!) – agora era Micael que cantava, com Chay ao fundo, e Thur enxugava as lágrimas com a manga da camiseta. Enxuguei as minhas também, com as mãos, e continuei hipnotizados por ele, brilhando sob os refletores. Quando Micael cantou que deixara mensagens na secretária, Thur falou ao microfone: Sério? E Micael respondeu: É, cara, um monte. – I didn't know, what I did wrong! But now, I just, can't move on! (Eu não sabia, o que eu tinha feito de errado! Mas agora, eu não consigo, seguir em frente!).
Eles tocaram o refrão novamente e terminaram a música. O ginásio ficou claro novamente e Thur colocou o violão de lado. Agora eu percebia as pessoas em minha volta.
Thur se levantou da cadeira e deu dois passos para sair do palco. Mas voltou em seguida, e parou na frente do microfone. Olhou para mim e disse, num impulso que eu sabia que estava o matando por dentro:
- Eu ainda te amo. E eu sei que você também me ama.
E saiu do palco, sob fortes aplausos.
34
Thur fala:
É, eu sei. Eu me humilhei e rebaixei diante de toda a escola. Mas... Foda-se! Era o que eu queria fazer e foi o que eu fiz.
Saí do palco meio zonzo, com todas aquelas luzes estourando na minha cara. Joguei-me nas cadeiras que nos esperavam no backstage e passei a mão pelos cabelos, meio nervoso e meio feliz.
- Caralho, Thur! – Micael exclamou, rindo. – Nós não havíamos combinado isso!
- Você sabe que vão falar disso pelo resto do ano, não sabe? – Harry perguntou.
- É, eu sei...
- Thur! – Michele gritou, chegando com Sophia e Mel, me sufocando em seu abraço apertado. – Eu quase chorei!
- Hum. – resmunguei, com a cara enfiada no seu ombro. – Mile, eu não consigo respirar!
Ela me soltou, mas não pude respirar por muito tempo, pois Sophia e Mel resolveram fazer a mesma coisa, me sufocando em seus abraços carinhosos/sufocantes. Elas exclamavam de como eu era fofo e como aquilo fora a coisa mais linda que já viram, a atrás de mim os caras riam até perder o fôlego. Depois de todos os apertões e gritinhos, elas foram dar os parabéns para seus respectivos pares, e eu saí de lá, antes que vomitasse em mim mesmo.
Passei despercebido por todos, pois estavam muito concentrados na banda que se apresentava, – ou será que era no Vj da Mtv que apresentava as bandas? - e saí noite afora. Lembrei-me da festa à fantasia e demorei meu olhar no banco que ficara com Lua.
A noite estava quente e abafada, e as estrelas brilhavam mais do que o normal. E foi por isso que eu decidi descer até o campo de futebol, longe do ginásio e provavelmente escuro e vazio, pois ele deveria estar inundado de luzes estelares.
Eu sempre fora louco por estrelas.
Caminhei chutando as pedras no chão e sentindo a brisa pinicar meu rosto. As mãos no bolso me desequilibravam, e eu quase caí diversas vezes.
E foi quando eu estava descendo as escadas que meu olhos perceberam um vulto no meio do campo. Parei de andar e pisquei algumas vezes, tentando me acostumar com o escuro e esperando que o vulto sumisse, mas não foi exatamente o que aconteceu. Ao contrário. O vulto se mexeu, e eu pude perceber que se tratava de um corpo.
E que corpo!
Pisei na grama sintética e caminhei em silêncio até a garota deitada no chão. Alguma coisa nela me atraía como um imã, e meus pés se movimentaram sozinhos. Só percebi que estava parado em cima dela feito um idiota quando ela se levantou nos cotovelos e me olhou curiosa.
E para minha enorme surpresa, a linda garota que me atraíra era ninguém menos que Lua Blanco.
Claro. A única garota que eu achara gostosa desde Lua tinha que ser a própria Lua. Do jeito que eu era cagado, não poderia mesmo esperar outra coisa.
Nem sei como ela chegara tão rápido assim ali, mas não quis fazer nenhum tipo de comentário idiota para não estragar o momento.
- Oi. – foi a única coisa que eu achei certo dizer.
Ela voltou a jogar os longos cabelos na grama e a observar as estrelas. Sem esperar convites, deitei-me ao seu lado e fiz o mesmo.
Ficamos um bom tempo sem dizer nada, curtindo a respiração um do outro, e quando meu coração parou de bater como um louco, eu disse:
- Quer conversar?
Ela não respondeu prontamente. Mexeu-se ao meu lado e, como se nada tivesse acontecido entre a gente, segurou minha mão entre seus dedos frios.
Fechei os olhos e respirei fundo, enquando ela falava:
- Thur, eu nunca deixei de te amar. Nem por um segundo sequer. Eu só... Só queria o melhor para você...
- E como o melhor para mim envolve te perder?
- Eu só quis preservar sua vida antes de mim, antes de eu aparecer e ferrar com tudo.
- Lua... – suspirei, apertando sua mão na minha. – Você precisa entender que, felizmente ou infelizmente, depois que você surgiu, nada vai ser como antes. Você... Mudou o mundo como eu conhecia.
- Eu... – ela tentou responder, mas eu não aguentava mais ficar longe dela, e fui mais rápido, pelo menos uma vez na vida. Antes que ela pudesse evitar, meus lábios estavam nos dela.
No começo, o beijo foi intenso, mas de um jeito diferente. Foi um intenso mais no estilo senti-saudades-disso. Nossas mãos continuavam estrelaçadas e minhas língua explorava sua boca, relembrando os bons tempos.
Mas, depois de algum tempo, meus sentidos começaram a ficar mais aguçados, e minha coordenação motora começou a falhar. Nossas respirações ficaram falhadas e o meu instinto masculino – adorando ter Lua nos braços - falou mais alto.
Minhas mãos soltaram suas mãos e se enfiaram em seus cabelos. Ela parou de beijar minha boca e desceu para o pescoço, roçando seus lábios quentes na minha pele gelada, em um contraste delicioso.
Não agüentando mais aquela situação, passei minha perna por cima do seu quadril, me apoiando na grama molhada com os cotovelos, para não machucá-la.
Em cima de nós, as estrelas reluziam, e cada vez mais eu a queria toda para mim.
Lua segurou a barra da minha camiseta e passou os dedos pela linha da minha boxer. Voltei a encontrar nossas bocas e mordi seus lábios. Ela estremeceu e tirou a minha camiseta delicadamente. Enfiei minha mão na sua blusa com força e com a outra mão a virei, e logo ela estava em cima de mim, beijando meu pescoço e acariciando meu tórax. Tirei sua blusa e nós dois ficamos só de calça, ofegando.
Lua escorregou para o lado e novamente eu estava em cima dela, explorando suas curvas com as mãos. Suas unhas deslizavam em minhas costas e eu me arrepiava toda vez que ela gemia. Finalmente, tomei coragem e coloquei as mãos sobre o botão da sua calça, mas ela estava tão entretida mordendo minha orelha – e me deixando louco – que nem reparou. Abri o botão com delicadeza e em seguida puxei o zíper. Lua descolou o quadril da grama e eu puxei a calça, que estava no chão segundos depois. Ela, por sua vez, demorou para tirar as minhas calças, me provocando ao passar a unha pela minha barriga.
- Provoca mesmo! – eu disse, fazendo-a rir. – Mas depois não reclama!
- Reclamar do que, Aguiar? – ela perguntou, passando a língua pelos lábios ao me observar de cima a baixo. – Não tenho nada do que reclamar.
E minha calça se juntou a dela.
Na verdade, era meio estranho pensar que estávamos no maior amasso no meio do campo de futebol só com as roupas íntimas. E acho que alguém lá em cima teve o mesmo pensamento, pois quando eu estava quase abrindo o feixe do seu sutiã, as gotas começaram.
- Porra! SEMPRE TEM ALGUMA COISA PRA ATRAPALHAR? – eu gritei para o nada, indignado. Lua gargalhou embaixo de mim. – E você? Tá rindo por quê? Eu tenho cara de palhaço? Tenho? – gritei de brincadeira para ela, que agora estava no meio de uma crise de risos. Comecei a cutucá-la e ela fez o mesmo, os dois rolando pelo campo e rindo.
Há quanto tempo eu não era feliz daquele jeito?
Ah! Lembrei! 4 meses, 2 semanas e 4 dias.
35
Lua fala:
- Thur, nós vamos pegar uma pneumonia! – eu gritei, dando vários beijos na sua bochecha. Ele sorriu e afagou meus cabelos encharcados.
- Ótimo. Assim vamos perder a semana de provas.
Admito que em condições normais aquilo não me convenceria. Mas eu estava agarrada em Thur, no meio da maior chuva, só de calcinha e sutiã.
Quem se importa?
- Ok, o que você quer fazer agora? – perguntei.
- Você quer mesmo saber? – ele respondeu, levantando a sobrencelha sugestivamente.
- Ótimo, já que você só consegue pensar em coisas pornográficas, eu sugiro que brinquemos de Pergunta e Resposta.
Thur sorriu do jeito que só ele sabia. Envolveu as pernas no meu quadril e subiu em cima de mim.
- Uma música?
- Basket Case. – respondi, e repeti seu movimento, ficando em cima dele. As gotas caíam com tudo nas minhas costas, mas, não sei como, eu ainda estava quente. – Um filme?
- De volta para o futuro. [N/A: Clichêzinho básico pra não perder o costume.] – ele novamente subiu em cima de mim. – Um lugar?
- Qualquer um com você. – respondi, e ele sorriu mostrando todos os dentes. Beijei levemente seus lábios e continuei a brincadeira. – Um sonho?
- Tenho 2. – ele respondeu, e eu assenti com a cabeça para ele continuar. – O primeiro é ver o McFLY dar certo e fazer sucesso. O segundo...
- O segundo? – perguntei, quando ele parou de falar e ficou me observando. Seus cabelos molhados caíam nos olhos e ele tremia de frio, o que o deixava incrivelmente lindo e sexy. – O segundo eu não posso te contar... Ainda! – completou, quando viu minha cara de cão sem dono. – Algum dia eu te conto.
- Eu vou me lembrar disso. – respondi, e ele se curvou e mordeu carinhosamente meus lábios.
E de repente eu nem me lembrava mais de todos os problemas. Na verdade, eu só queria ficar ali com Thur e colar meu coração de volta, pedaço por pedaço.
Mas quem foi que disse que a vida é cor-de-rosa?
36
Thur fala:
- Chay!? – eu gritei a pleno pulmões, como se eles estivessem em condições depois da chuva que eu e Lua pegamos na noita passada. Mas isso não vem ao caso. – Desce aqui!
Chay desceu as escadas no minuto seguinte, com a escova de dentes na boca e a cara cheia de pasta. Sua cara não era a das melhores.
- Fala. – ele disse, parando atrás de mim, que mais parecia um boneco de neve, enrolado em 327 cobertores. A famosa gripe-depois-da-chuva.
- Você postou isso? – perguntei, apontando para a tela do computador. Ele enfiou a cabeça no meu ombro felpudo e arregalou os olhos, em uma surpresa genuína.
Eu não podia culpá-lo. A foto era mesmo... Escandalosa.
A foto?
Nada mais nada menos do que uma foto minha com Lua no dia anterior. Ela de calcinha – uma muito sexy do Bob Esponja – e sutiã e eu de, bem, boxers vermelhas de seda no maior estilo cafetão.
- Dude, eu juro que não tenho nada a ver com isso! – ele exclamou, puxando um banquinho de madeira e sentando-se ao meu lado. – Aliás, acho que ninguém teve. – e dito isso, ele tentou fazer o login do blog.
E qual não foi minha surpresa?
A senha não foi aceita.
Micael descia as escadas com Harry conversando animadamente sobre um cara que havia ligado atrás do McFLY após o show do colégio, quando pararam atrás de nós dois e arregalaram os olhos assim como Chay fizera.
- Mas que porra é essa? – Harry perguntou, enfiando a cara do outro lado do meu ombro. Micael se apoiou na minha cabeça e não disse nada.
- Isso quer dizer que não foi nenhum de vocês que tirou essa merda dessa foto e postou no blog, e logo em seguida mudou a senha? – perguntei, observando Chay tentar desesperadamente entrar no mesmo.
- Hum. Não. – Micael respondeu.
- Merda. – murmurei. Só que como eu estava gripado, saiu uma coisa mais no tipo “berda”.
- Bom, pelo o que eu conheço das meninas, elas vão nos ligar em 5,4,3,2,1... – Harry contou e quando disse o já, meu celular começou a vibrar no bolso, o celular de Chay e de Harry tocaram qualquer toque alheio e o celular de Micael mugiu.
Sério. Ele mugiu.
- Merda! – agora eu meio que gritei.
Micael foi atender o telefone na cozinha, mas antes de entrar eu pude ouvir ele dizer: Calma, amor, eu posso explicar.
Harry atendeu o celular e só ouviu os gritos de Michele com uma cara de assustado. Chay atendeu e colocou o celular longe da orelha, ouvindo gritos piores do que os de Michele.
Eu olhei para o meu celular. Privado.
Merda!
Subi as escadas correndo e me tranquei no meu quarto. Atendi o celular com medo dos gritos e palavrões, mas ao contrário do que eu esparava, do outro lado Lua chamou, baixinho:
- Thur?
Suspirei aliviado, pensando que estava salvo.
- Oi, Luinha. Que bom que você não começou a gritar, eu...
- Thur. – ela disse de novo, e eu me calei. Ela continuou: - Você é um filho da puta mesmo. Eu pensei que você não tinha ficado com ressentimentos do que eu fiz, porque eu fiz por você, mas acho que me enganei. Como você pôde fazer uma coisas dessas? Você tem idéia do inferno que eu vou passar hoje? Pelo resto do mês? VOCÊ SABE?
Só a última parte foi gritada. Todo o resto ela falou baixinho e com a voz mansa, e mesmo assim meu coração só faltou se desintegrar no peito.
- Lua, linda, por favor, me escuta, eu não fiz nada, eu...
Tu tu tu tu...
Merda!
37
Lua fala:
É. Eu estava PUTA.
Mais do que puta. Eu poderia arrancar a cabeça de alguém com as unhas.
Eu poderia arrancar a cabeça de ALGUM McLoser com as unhas.
Eu queria MATAR Thur.
Você também não iria querer se uma foto sua com uma calcinha do BOB ESPONJA fosse parar no blog mais acessado do colégio? E que nessa foto você estivesse em cima do cara que não era seu namorado – mesmo que seu suposto namorado te botasse chifres como botava suas roupas de marca para lavar? Ah, e que nessa foto você estivesse toda molhada e nojenta, e que o cara que estivesse em baixo de você estivesse incrivelmente gostoso e lindo naquelas boxers vermelhas de seda? E ainda que a pessoa que postou a foto fosse EXATAMENTE esse cara gostoso que você era apaixonada?
Acho que sim.
- O que foi isso? Algum tipo de vingança humilhante? – perguntei revoltada, mas minha voz saiu meio fanha, pois eu estava com a maior gripe. Estava botando o armário do meu irmão abaixo. Finalmente achei a toca preta que procurava e a enfiei na cabeça de qualquer jeito.
- Lua! O Harry jurou que não foram eles! – Michele reclamou do outro lado do celular, que estava no viva-voz, enquanto eu colocava os meus Ray-ban dourados e enfiava um blusão da GAP pelo pescoço.
- É mentira, Mie! Tudo mentira! – eu falei, pegando a calça mais estourada e larga que eu achei e a segurei na cintura com um cinto de couro verde todo desfiado. Terminei com um All Star preto que eu costumava usar quando tinha, sei lá, 12 anos.
É. Meu pé não cresceu.
- Estou indo para a escola. Não espere me reconhecer. – disse para ela.
- Como assim, Luinha? – ela perguntou, e eu ri, mesmo estando com raiva.
- Você vai ver. Ou melhor, não vai ver. – respondi, e desliguei o celular.
Pra falar a verdade, quando acordei naquela manhã e vi aquela foto PAVOROSA na tela do computador e os 214 comentários embaixo – a maioria zoando John por ele ser corno, dizendo que Thur era bonito demais para uma vaca como eu ou dizendo que eu era muito gostosa para Thur – jurei para mim mesma que nunca mais iria para a escola.
Mas depois pensei bem e percebi que minha mãe não iria aceitar muito bem essa história de nunca mais ir para escola. Então decidi que iria para a escola disfarçada a partir daquele dia.
E era por isso que eu estava vestida de homem.
Desci as escadas e passei por minha mãe correndo, que fumava na cozinha:
- Mãe, vou a pé hoje! – gritei para ela, e ouvi um murmúrio com sono de volta. Saí pela rua e agradeci por estar vestida como homem, porque o frio cortante chicoteou no meu blusão e eu fiquei quente o trajeto inteiro até o ponto de ônibus. Pelo menos a gripe não poderia ficar pior.
No ônibus, indo para a escola, pensei em tudo. Tudo, desde o começo até aquele dia, e resolvi que era melhor para mim mesma ignorar Thur, deixar ele seguir a vida dele e tentar seguir a minha.
Thur iria me pagar. Mas eu também pagaria por ter me apaixonado por ele.
Muito.
38
Thur fala:
- Cadê ela? – perguntei, varrendo o pátio com os olhos à procura de Lua. Espirrei e voltei a perguntar: – Cadê ela, porra?
- Ela eu não sei, mas o John está bem atrás de você. – Harry respondeu.
Nem deu tempo de virar para trás. A última coisa que eu senti foi algo sólido acertar meu rosto com muita força, e a última coisa que eu ouvi antes de acertar o chão foi Micael berrando e indo para cima de John:
- Seu filho da puta!
Mais tarde.
Acordei sentindo minhas costas queimarem no colchão duro e fino em que eu estava deitado. A luz piscava, dando as paredes brancas a aperência quase fantasmagórica. Mexi-me um pouco, e, ao olhar em volta, percebi finalmente onde estava.
Na enfermaria.
Virei-me de lado – sentindo minha sobrancelha latejar – e percebi outro corpo na cama ao lado. Ele estava todo sujo de barro e com marcas brancas de tênis por toda a camiseta preta e por toda a bermuda azul escura. Sua mão estava enfaixada e ele tinha alguns esparadrapos pelo rosto.
Esfreguei os olhos para ver quem era, e quando minha visão voltou ao foco, vi que quem estava todo ferrado ao meu lado era John, aí eu me lembrei de tudo.
Automaticamente, pousei a mão em cima da sobrancelha esquerda e vi que um esparadrapo meio humido – de sangue? – estava preso pela minha cabeça.
Olhei para o relógio na parede e vi que eram 7:52, e faltavam 3 minutos para o sinal da primeira aula bater.
Sem pensar duas vezes, pulei da cama e bati a porta ao sair da enfermaria. Ouvi John resmungar alguma coisa, e se não fosse pela minha necessidade de falar com Lua, esperaria ele acordar e o forçaria a contar a verdade. Sabe como é, que ele tinha roubado a senha do blog e forçado toda aquela cena de bater-no-cara-que-pegou-minha-mina só para disfarçar.
Corri pelos corredores desertos da escola até chegar ao corredor dos segundos anos. E, para minha grande sorte, Lua estava andando pelo corredor com Marcus.
Marcus. O veado.
- Eu não agüento mais! – ela exclamou, triste. – Mesmo vestida de homem para ninguém me reconhecer, você sabe quantas comentários maldosos eu já ouvi até agora?
- Quantos, querida? – ele perguntou, envolvendo os braços nos seus ombros, e se ele não fosse mais gay que tudo, eu partiria para cima dele ali mesmo.
- 21! Eu contei! – ela exclamou, e ele passou os dedos pelos seus cabelos.
- Tudo bem, Luinha, isso vai passar... – ele disse, e ela encostou a cabeça nos seus ombros largos. Para um gay, ele era bem forte. – Mas agora me explica, o que você tem com o Thur e o que John tem a ver com essa história toda?
- Pra falar a verdade, nem eu sei direito. – ela respondeu. Eles estavam chegando perto de onde eu estava, então eu me escondi atrás de um vão dos armários. – John só acha que estamos juntos, mas não tem nada a ver, ele é desprezível! E o Thur... – ela suspirou, abaixando a cabeça. – OThur é um babaca.
Um nó se formou na minha garganta.
- O babaca que você ama. – completou Marcus.
Lua sorriu com o comentário, ainda olhando para os pés.
- O babaca que eu amo. – repetiu e Marcus sorriu.
O nó se desfez e eu senti uma corrente elétrica boa percorrer meu corpo.
- Eu sabia. Você e esses risinhos nunca me enganaram. - “Nem a mim”, pensei. – Assim como você não engana que está acontecendo alguma coisa a mais com esse Thur além de sentimento.
- Na verdade... – ela começou, e eu prendi a respiração. Será que ela iria contar para Marcus sobre o blog? Respirei fundo. “Ela nunca faria isso”, pensei novamente, tentando me convencer. E me senti um idiota que não confia nem na garota que amava quando ela terminou: - Nós não temos nada, eu só fico com ele de vez em quando...
Os dois passaram por mim mudando a conversa para o novo namorado de Marcus.
Eu não conseguia mais agÜentar. Precisava esclarecer as coisas com Lua.
Saí do meu esconderijo e gritei pelo corredor:
- Lua!?
Lua parou de andar na hora, paralizando. Marcus se virou. Andei até eles, apertando os punhos com raiva por me humilhar daquele jeito por uma garota, ignorando a presença dele. Ela continuou olhando para frente.
- Lua, eu preciso falar com você.
- Eu não quero falar com você – ela murmurou.
- Por favor. – pedi, num sussurro quase inaudível. Marcus, que nos observava em silêncio, resolveu interferir.
- Hum, Luinha, você pode ir, eu levo isso para a diretora. – dito isso, ele sumiu pela corredor. De costas, ninguém diria que ele era veado.
- Vai me ouvir agora?
Silêncio.
- Luinha, pára de criancice e olha pra mim? – pedi novamente, virando-a com força pelo braço. Ela deu um tapa na minha mão e continuou a encarar o chão. – Qual é, você acredita mesmo que eu fiz aquilo? Por que eu faria uma coisa dessas? Para apanhar de John? – apontei para a atadura na minha testa. Ela olhou rapidamente e voltou a fitar o chão, mas sua expressão havia suavizado. – Acho que não.
- Você apanhou porque não soube se defender. – ela disse por fim, com a cara de menina-birrenta-que-não-ganhou-a-barbie-que-queria, e se não fosse pela situação, eu estaria morrendo de rir.
- Lua, olha nos meus olhos e diz que não acredita em mim que eu te deixo em paz! – pedi, chegando mais perto dela e passando os dedos pelos seus braços cruzados.
Para mim a briga já estava ganha e, depois de um minuto, estaríamos nos comendo no armário de limpeza.
Mas acho que não era tão simples assim.
39
Lua fala:
- Eu não acredito em você. – respondi, olhando no fundo dos seus olhos. E aquilo me matou.
De verdade.
Olhar em seus olhos e ver sua expressão se modificar de vitória para tristeza me matou por dentro. Meu coração já quase colado se quebrou novamente em milhares de pedaços e eu me senti tonta.
Mas eu tinha que fazer aquilo. Eu tinha que esquecê-lo e ele tinha que me esquecer. Se ficássemos juntos, iríamos nos magoar muito. E eu não queria aquilo. Eu não queria ver Thur triste ao meu lado.
- Ok. - ele disse, saindo de perto de mim e balançando a cabeça negativamente, como se quisesse afastar os pensamentos da mente. – Não vou mais te encher, Blanco. – ouvir ele dizer Blanco como dizia quando nos odiávamos doeu. Muito. - Desculpe por estragar sua vida. E muito obrigado por me fazer acreditar que você também me amava. Muito legal de sua parte.
Thur saiu andando pelo corredor com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Minha cabeça parecia que ia explodir a cada passo que ele dava. E meu coração... Esse não tinha mais jeito.
- Thur!? – o chamei, mas ele ignorou e virou o corredor, me deixando sozinha. O sinal bateu e todas as pessoas trocaram de salas, passando por mim e quase me derrubando.
- Olha aí se não é a vadia que quase deu pro Aguiar ontem no campo de futebol. – Beatriz Scarduelli disse para Mary Pazetto, que riu e comentou:
- Ouvi dizer que ela, John e Thur já fizeram um a três!
Não me importei pelos comentários maldosos ou pelo empurrões. Minha mente estava muito longe. Estava em Thur, e na burrada que eu havia feito por não acreditar nele.
Sério. Eu tinha me ferrado legal.
Thur fala:
- Eu gosto dessa. Chay iria gostar. Não sei, é a cara do Chay. É... imbecil como ele. – eu comentei, apontando para um anel prata com a borda dourada. Harry virou os olhos e respondeu:
- Por que eu daria uma aliança imbecil para Mie? Ainda por cima uma alinça que Chay gostaria?
- Nossa, eu totalmente comeria aquela gata dos perfumes. – comentei novamente, apontando para uma morena muito hot que mostrava alguns perfumes para uma senhora.
- Thur, pára de fazer comentários sem noção, mesmo que você esteja mal pela Luinha, e me ajuda a escolher a porra da aliança? – Harry meio que ordenou, e eu me virei para ele, tirando os olhos da garota dos perfumes.
- Mas a porra da aliança é sua! Que tipo de ajuda você quer de mim?
- Sei lá, dude, eu nunca comprei uma alinça antes! – Harry disse, sorrindo amarelo para a garota das alianças, que sorria com compaixão para ele.
Não sei se foi bem com compaixão, mas...
- Posso ajudá-lo? – ela perguntou. Era muito hot também. Acho que antes de trabalhar naquela loja as atendentes tinham que dormir com o dono.
- Não sei, eu estou procurando alguma coisa que... Porra, eu não sei o que eu tô procurando... – Harry admitiu para ela, que riu da suposta pose de sou-um-menino-indefeso de Harry.
Putão!
Mas eu não podia falar nada, porque logo que Harry foi salvo pela mocinha das alianças, eu decidi ir falar com a mocinha dos perfumes.
Só que, ao contrário de Harry, eu não iria comprar um perfume para minha namorada. Eu nem tinha namorada.
Não que eu não quisesse muito namorar Lua.
Mas depois que ela me mandou pastar pela segunda vez, eu voltei à tona para minha antiga profissão: galinhar.
Mesmo que ela só tivesse me mandado pastar há algumas horas.
Eu era rápido, dude.
- Oi. – eu disse, me aproximando dela. Ela estava sozinha atrás do balcão, pois a senhora já havia ido embora.
- Oi. – ela respondeu, sorrindo automaticamente. – Posso ajudá-lo?
- Pode. Você poderia me dizer qual o melhor perfume masculino para se conquistar uma mulher? – perguntei, e ela sorriu novamente, agora me olhando de cima a baixo.
- Acho que cada mulher tem seu cheiro preferido.
- E qual é o seu? – perguntei, e ela gargalhou, mostrando a fileira de dentes perfeitos.
Há! Ponto pra mim!
- O meu? Não sei, provavelmente o Hugo Boss Intense. – ela respondeu, apontando para um frasco vermelho na última pratileira.
- Então é esse mesmo que eu vou levar para me encontrar com você hoje à noite. – respondi, e ela sorriu surpresa.
Eu ainda estava em forma.
- E quem deu essa certeza toda de que eu vou sair com você essa noite? – ela perguntou, e eu me aproximei do balcão, pegando nas pontas dos seus cabelos, assim como fizera tantas vezes com Lua.
Lua...
Mesmo com outras garotas, só conseguia pensar nela.
- Primeiro, eu estou solteiro e eu não vi nenhum anel de compromisso na sua mão. Segundo, eu te achei linda, e você também me achou, se não teria cortado o papo logo no começo. Terceiro, nós somos jovens, por que não aproveitar?
Ela entortou a cabeça, como se pensasse na minha proposta. Olhei bem para ela. Provavelmente era mais velha que eu, uns 18 ou 19 anos. Usava o uniforme todo preto da loja e os cabelos também negros se fundiam no seus ombros estreitos. Tinha uma bela comissão de frente e uns olhos verdes lindos. Os dentes eram pefeitos, brancos e retos, e o corpo sarado competia com o rosto angelical.
Só não era mais linda que a minha Lua.
Merda.
- Ok. – ela respondeu, sorrindo novamente. – Eu saio com você.
- Ótimo. E, qual seu nome? – perguntei.
- Isabella Wells, mas pode me chamar de Bella. O seu?
- Sou Arthur. Mas pode me chamar de Thur. – disse, sorrindo para ela. Apontei para o Hugo Boss e completei: - Pode pegar um desses para mim?
- Claro. – ela respondeu, pegou o Hugo Boss e o passou pelo código de barras. Nem lembro quanto foi, e nem me importei.
Meu pai pagando, tudo bem.
Peguei o perfume, anotei o telefone de Bella e dei um beijo em seu rosto macio.
Voltei para onde Harry estava. Ele já havia comprado a aliança e se despedia da mocinha.
- Tchau, Suzannah! Boa sorte com o Dave!
- Meu Deus, você já sabe a vida inteira da menina? – perguntei, e ele gargalhou.
- Eu causo esse efeito nas mulheres.
40
Lua fala:
- Ele O QUÊ? – perguntei, animada, para Michele, que falava um monte de coisas sem sentindo do outro lado da linha, envolvendo Harry, namoro e aliança. – Fala mais devagar, cacete!
- Caralho, porra, cu! Presta atenção! – ela piou e eu gargalhei. – Eu acabei de voltar de um restaurante japonês que eu fui com o Harry! Aí, no final do jantar, ele disse que ia pedir chapanhe porque nós estávamos fazendo 5 meses de... De nada, pra falar a verdade. Eu concordei, claro, não era eu que estava pagando mesmo... Aí o garçom trouxe a champanhe na taça e eu achei meio estranho, mas nem reparei em nada. Então nós brindamos e bebemos. Aí eu senti um negócio engraçado na boca, meio duro. Então eu tirei e era uma aliança, linda! Prata e com um fio dourado no meio. Aí quando eu olhei com cara de assustada para a aliança, ele se levantou e ajoelhou ao meu lado! Ajoelhou, Luinha! E é claro que o restaurante inteiro tava vendo aquilo! Achei tão fofo! Então ele perguntou: Michele, quer namorar comigo?
- Ai, meu Deus, que lindo! – eu exclamei. – E aí?
- E aí eu recusei e disse que era lésbica... Claro que eu disse que sim! – ela brincou, e nós duas gargalhamos. – Então o restaurante inteiro começou a aplaudir e o Harry ficou todo vermelinho. Muito fofo!
- E o que tá gravado na aliança? – quis saber.
- Harry e Mie – I've Got You. Não é lindo? – ela perguntou, e eu concordei.
Era realmente lindo.
Ótimo. Agora só faltava Thur me ligar e dizer que estava namorando com o Marcus para o meu dia ficar mais deprê.
- Agora só falta o Micael pedir a Melzinha, o Chay pedir a Soph e você se acertar com o Thur...
- O que eu acho bem difícil. – completei e ela suspirou do outro lado.
- O que é difícil? Admitir para todos que está com um loser?
- Claro que não! Eu não tenho problemas com isso, eu só... – tentei dizer, mas ela me cortou.
- Pois é o que parece, Luinha. Cai na real, vocês se gostam! Se você realmente quisesse, estaria feliz com ele. Você tem é medo de admitir que gosta mesmo de um cara que não é aceito por um lado do colégio. O seu lado do colégio. Agora, eu cansei de tentar falar disso com você. Eu vou ligar para a Soph e para a Melzinha e contar a novidade. Mas pensa no que eu te disse, senão você vai perder o único cara que eu já vi você gostar na vida.
Então ela desligou.
Fiquei olhando para o celular por um bom tempo, pensando. Por mais que parecesse patético o que ela disse, me dei por mim e percebi que era a mais pura verdade. Eu só encontrava outros pretextos para terminar com ele, mas no fundo eu tinha medo do que todos falariam.
Eu era realmente um saco de pipocas.
Thur fala:
- E aí, o que você vai querer? – perguntei para Bella, que passava os olhos pelo cardápio. Eu a levei para comer em um restaurante italiano e ela parecia mais bonita ainda com um vestido tomara-que-caia verde escuro e os cabelos presos com aqueles pauzinhos japoneses que eu não sei o nome. Seus olhos estava mais verdes porque ela passara lápis neles e a boca estava mais carnuda.
Resumindo: hot.
- Acho que eu só vou comer uma salada. Não estou com fome. – ela respondeu, colocando o cardápio em cima de mesa.
Um ponto a menos. Não come como gente.
- Muito bem, o que vão pedir? – o garçom perguntou, com o Palm Pilot em punho. Coloquei meu cardápio ao lado do de Bella e respondi: - Pra mim uma macarronada e duas Cocas, pra ela uma salada de cenoura com pepino e uma...?
- Água mineral sem gás. – ela completou, sorrindo.
Dois pontos a menos. Não bebe como gente.
- Mas diz aí, gostou do meu cheiro? – perguntei para ela, logo que o garçom saiu de vista. Ela se inclinou na mesa e eu pude ver o contorno dos seus seios e sorri satisfeito comigo mesmo.
- Gostei, mas deixa eu sentir novamente para ver se está bom mesmo. – ela disse, colocando o nariz no meu pescoço e respirando profundamente. Mordi o lábio inferior. Ela voltou para o seu lugar e respondeu: - É, está ótimo.
- Muito obrigado.
O garçom chegou depois de alguns minutos. Enquanto a comida não vinha, Bella me contou sobre todos os seus ex-namorados, e eu fingi interesse, mas na verdade a única coisa que eu conseguia ver eram seus peitos no decote.
Três pontos a menos. Falar sobre ex-namorados no primeiro encontro.
- Aqui está, senhor. – o garçom disse, colocando meu prato na mesa e o prato multi-colorido de Bella junto. Ela começou a comer como um passarinho, enquanto eu devorava meu macarrão. De vez em quando ela olhava meio torto para mim, mas dude, foda-se, eu estava morrendo de fome.
Passado algum tempo, meu celular vibrou.
Em condições normais, eu não atenderia. Mas Bella era tão chata que eu decidi atender.
- Alô?
- Thur? – uma voz chiada me chamou. Achei estranho, nunca tinha ouvido aquela voz antes.
- Ahám. Quem fala?
- Não te interessa quem está falando. Eu só estou ligando para dizer que fui eu quem roubou a senha do blog, então nem tente recuperá-la, pois você não vai conseguir. Se algum dia você descobrir quem eu sou, meus parabéns.
Tu tu tu tu.
Olhei com o canto dos olhos para Bella. Ela observava curiosa minha conversa.
Quatro pontos a menos. Curiosa demais.
- Era engano. – eu disse, guardando meu celular no bolso. Teria que contar aquilo para os dudes mais tarde.
Ela sorriu e continuou entretida na própria conversa.
- Então, vamos? – perguntei, quando nós dois havíamos acabado. Aliás, eu havia acabado minha sobremesa, ela ficou só olhando.
- Pra onde você quer ir? – ela perguntou, me lançando um olhar sugestivo.
Mas que pergunta, eim?
- Para onde você quiser me levar. – respondi.
- Eu moro com uma amiga, mas ela está viajando. Quer dar uma passada lá em casa? – ela perguntou, e eu levantei a sobrancelha.
- Claro.
Bella me levou para seu apartamento, uma luxuosa cobertura em um prédio bem no centro. Fiquei me perguntando como uma vendedora de lojas poderia pagar o aluguel de um apartamento daqueles, mas resolvi não comentar nada.
- E aí, quer tomar alguma coisa? – ela perguntou, jogando sua bolsa de verniz na mesa e indo em direção à cozinha, toda equipada com coisas em inox. Fui atrás dela e enquanto ela pegava alguma coisa na pia, a abracei por trás e sussurrei no seu ouvido:
- Acho que podemos fazer alguma coisa mais interessante.
É, dude. Eu posso ter 17 anos, mas sou um tremendo conquistador.
Bella virou-se de frente para mim e entrelaçou os braços no meu pescoço. Chegou bem perto da minha boca e respondeu:
- Como o quê?
Aí, dude, não teve jeito. Peguei-a pela cintura e dei um beijo com vontade nela.
O beijo dela era meio frio, sem emoção nenhuma. Suas mãos ficaram sem vida na minha nuca e se não fosse pelo seu belo decote, eu não teria a pegado no colo e a levado para o quarto.
Chegando lá, ela foi mais rápida do que eu previ. Tirou o vestido e desamarrou os cabelos, enquanto eu tirava minha roupa. Eu fui para a cama de casal e ela deitou-se ao meu lado. Voltamos a nos beijar e eu explorei cada curva dela.
Mas... Ao mesmo tempo que a idéia de estar quase nos finalmentes com ela me agradava, a idéia de saber que ela não era quem eu gostaria de realmente estar meio que me desanimou.
- O que foi, Thur? – ela perguntou. Acho que percebeu que eu estava meio frio. Eu balancei a cabeça negativamente e respondi, já me levantando:
- Não sei. Acho que eu não estou no clima. – respondi, e ela foi um pouco para o lado. Depois daquele comentário, o clima tinha ido realmente para o espaço.
- Mas foi você quem começou! – ela exclamou, enrolando o lençol nos ombros. Sorri vagamente, e respondi:
- É, eu sei, mas vejo que foi um erro.
E depois disso ela meio que me expulsou do apartamento dela. E eu voltei para casa mais cedo do que o previsto.
- O que foi, dude, voltou cedo! – Harry exclamou.
- Pois é... – respondi, me jogando ao seu lado no sofá. Reparei na aliança prata no seu dedo e resolvi mudar de assunto antes que Harry ficasse me enchendo o saco por eu não ter ido até o final com uma menina como Bella. – E aí, ela gostou?
- Acho que sim. – ele respondeu, zapeando pela Tv. – Espero que sim.
- Harry, meu lindo, ela sorriu e os olhinhos dela brilharam? – perguntei, abraçando ele pelos ombros.
- Sim.
- Então ela gostou. – terminei, e ele riu. Ficamos um pouco em silêncio, assistindo Padrinhos Mágicos. Mas aí eu me lembrei do telefonema anônimo de mais cedo e exclamei: - AAAH!!!
- Aí porra! – Harry deu um pulo do meu lado e eu comecei a gargalhar. – O que foi?
- Esqueci de contar. Algum lunático, ou lunática, me ligou no meio do jantar com a Bella e disse que roubou a senha e que se eu descobrisse quem foi eu seria o fodão.
- Sério!?
- Ahám...
- Você pegou o número? – Harry perguntou, esperançoso.
- Privado. – seu rosto se contorceu numa careta engraçada.
- Homem ou mulher? – perguntou de novo, com a mesma esperança na voz
- Sei lá, a ligação tava toda chiada, não ouvi nada direito.
- Merda...
Olhei para a tela do computador de relance e desviei o olhar. Mas percebi que alguém falava com Harry, então olhei de novo e vi que não estava ficando louco. Na tela, uma janela do msn piscava.
- Você tá falando com alguém Harry? – perguntei, apontando para o computador. Ele balançou a cabeça negativamente e deu um pulo do sofá, indo até lá. Fiquei por lá, vendo Tv, pois não estava muito curioso em saber quem queria falar com Harry. Provavelmente seria Michele querendo saber porquê Harry ainda não havia ligado.
Passados alguns segundos, Harry me chamou.
- Dude, vem ver isso aqui!
Cheguei perto de Harry e comecei a ler a conversa.
New Gossip says:
O Thur já chegou aí?
Harry s2 Mie says:
Quem é?
New Gossip says:
Não interessa quem é. Responde minha pergunta.
- Caralho... – sussurrei, me apossando da cadeira em frente ao pc. – Tem alguém me espionando!
- E por que essa porra que roubou a senha só persegue você? – Harry perguntou, puxando um banquinho e sentando-se ao meu lado.
- Eu já até sei quem é, Harry. E acho que é porque essa pessoa gosta da Luinha...
- Você não tá achando que é o John, não é? – Harry perguntou, lendo meus pensamentos. – Por que ele faria isso? Pra escola inteira chamar ele de corno?
- Bom, só tem um jeito de saber.
Harry s2 Mie says:
É o Thur. Quem é você? É você, John?
New Gossip says:
Já falei que não interessa quem é. Thur, tenho um assunto mais importante do que quem eu sou para tratar com você.
Harry s2 Mie says:
Que tipo de assunto?
New Gossip says:
É sobre o blog.
- Tá vendo, Harry! – exclamei, afundando a cabeça entre minhas mãos. – Sabia que essa merda desse blog só ia me trazer problemas...
- Relaxa, Thur. – Harry respondeu, me dando tapinhas amigáveis nas costas. – Continua conversando com ele. Ou ela. Sei lá...
Harry s2 Mie says:
Eu não tô a fim de falar disso...
New Gossip says:
Você é quem sabe... Mas acho que a escola inteira vai ter que saber sobre o seu segredinho e dos seus amiguinhos...
Harry s2 Mie says:
Ok, mas seja rápido. O que você quer?
New Gossip says:
Eu quero te fazer uma proposta. Se você descobrir quem eu sou até o final do ano, eu te devolvo o blog e nós ficamos bem. Ninguém vai saber de vocês. Agora, se você não descobrir...
Harry s2 Mie says:
Se eu não descobrir o quê?
New Gossip says:
Se você não descobrir, eu mato seus 3 amigos e a Lua e suas amigas.
Harry s2 Mie says:
O QUÊ???
New Gossip says:
HAHAHAHAHAHAHAHA! Brincadeira, Thur, foi só pra descontrair...
Harry s2 Mie says:
Diz logo o que você quer, porra!
New Gossip says:
Também não precisa ficar agressivo! Bom... Se você não descobrir, além de perder a banda, vai perder a garota.
Harry s2 Mie says:
Perder em que sentido?
New Gossip says:
Relaxa, não vou matá-los nem nada do tipo. Eu só vou fazer seus amigos se virarem contra você, assim como suas amigas e Lua. Eles vão sentir tanto ódio de você que não vão querer nem olhar para sua cara.
Harry s2 Mie says:
E como você pretende fazer isso?
New Gossip says:
Eu tenho meus jeitos. Afinal, eu roubei seu querido blog...
Harry s2 Mie says:
Mas por que você quer ferrar só comigo?
New Gossip says:
Algum dia eu te conto...
Harry s2 Mie says:
E como eu vou descobrir quem é você?
New Gossip says:
Eu vou te dar algumas dicas. Mas fica esperto, Thur! Abre o olho!
Então ele/ela ficou off-line.
- Olha que legal. O blog é do Chay e eu que me ferro! – falei, virando os olhos.
- De qualquer jeito, nós nunca iríamos nos virar contra você. Nós vamos te ajudar. – Harry disse, indo em direção à cozinha. – Assim como fizemos hoje mais cedo com o John...
- Ah! – exclamei, me lembrando que queria perguntar isso fazia tempo. – Foram vocês que arrebentaram com o John hoje de manhã então? – perguntei, rindo.
- O que você acha? – Harry perguntou, entrando na cozinha.
Fiquei rindo sozinho, imaginando John sendo arrebentado pelos meus amigos. Mas, logo depois, o foco do pensamento mudou.
Adivinha para quem?
41
Lua fala:
- Alô? – falei, ofegante por correr pelo quarto para chegar ao telefone. Tinha acabado de tomar banho e meu cabelo pingava água nas costas.
- Luinha? – Sophia piou do outro lado da linha. – E aí!
- Oi, Soph! Diga!
- Sei lá. Só queria ouvir sua voz... [N/A: Aí que gay!] HAHAHAHAHA! Zoeira, só queria saber como foi sua conversa com Thur, porque eu vi vocês no corredor e essas coisas...
- Ah, pra variar um pouco nós brigamos... – respondi, enrolando uma toalha nos cabelos. – Sei lá, acho que nós dois nunca vamos dar certo...
- Aff, Luinha, não viaja, ele te ama! – ela meio que berrou do outro lado.
- É, mas acho que ele não quer me ver nem pintada de ouro. – respondi, olhando triste para uma foto que nós 8 tiramos na praia que estava no meu plano de fundo do computador.
- Por quê?
- Porque eu disse que não acreditava nele...
- Você quer apanhar agora ou mais tarde? – Sophia perguntou, rindo. – Olha o que você fala pro menino!
- Eu sei, mas é melhor assim...
- Melhor assim por quê? Vocês dois estão tristes, e...
- Aí! Tá bom! Chega! Não quero mais receber lição de moral das minhas amigas! Já não basta a Mie...
- Tudo bem, tudo bem... – Sophia me acalmou um pouco, com aquela voz que só ela tem para me acalmar. – Mas que tal você ligar pra ele?
- Ah, sei não, . – Soph, a Melzinha tá me ligando.
- Ah, ok, eu ia mesmo ligar para o Chay... – Sophia respondeu, com a voz fraquinha. Ah, o amor! – Beijos, Luinha! Boa noite! Amanhã a gente se fala...
- Beijos, Soph! Até amanhã! Boa noite! Alô? – disse, atendendo a outra linha.
- Oi, Luinha! – Mel exclamou do seu jeito animadinho. – De boa na lagoa?
- Opa, tranquilo no asilo. E aí? – perguntei, rindo.
- Sussa na montanha-russa... – ela respondeu, e nós duas rimos.
- Nossa, olha como a gente brisa! – brinquei, e Mel riu. – Mas e aí, ligou para ouvir minha voz como a Soph ou nem?
- Nem, liguei para gastar meus créditos mesmo... – ela respondeu, e rimos novamente. - Não, zoeira. Na verdade liguei pra te contar um negócio legal que o Micael disse pra mim hoje!
- O quê?
- Ele quer que eu vá jantar na casa dele amanhã pra me apresentar pra sua mãe! – ela piou animadinha do outro lado. Eu dei um gritinho e ela continuou: - Sabe, aproveitar que os meninos vão no Barney's...
- Que legal, Melzinha! Já vai conhecer a sogrona! Só não vai falar nenhuma merda perto dela, eim! – eu disse, e Mel suspirou.
- Espero que nada idiota saia da minha boca... Mas e aí, como foi a conversa com o Thur hoje? – ela perguntou.
- Meu Deus, tá todo mundo sabendo disso?
- Na verdade, a Mie que contou para mim...
- Ah, a gente brigou... – respondi, me jogando na cama de qualquer jeito. Coloquei a mão sobre a barriga e com a outra fiquei escrevendo Thur no ar. – De novo.
- Que péssimo, Luinha... – ela suspirou, genuinamente triste por mim. – Mas, também, você não ajuda, né? Quem mandou dizer pro menino que não acreditava nele?
- Quem te disse isso? – perguntei, já sabendo a resposta.
- A Soph.
- Como? Eu ACABEI de contar isso pra ela!
- Mensagem de texto. – Mel riu. – Mas relaxa, Luinha, nós só fizemos isso porque somos suas amigas! E nossos machos são amigos do Thur. E pra falar a verdade, nós somos amigas do Thur também. E nós não queremos ver vocês dois tristes... Vocês já fizeram tanto por nós! Até aquele jantar pro Chay e pra Soph...
- Eu sei, Melzinha, eu sei... Dá pra gente não falar nisso? – eu já estava ficando de saco cheio das minhas amigas. Eu sabia que elas só queriam me ajudar, mas mesmo assim, falar de Thur machucava um pouco.
Um pouco?
Machucava MUITO.
- Tudo bem... Bom, eu vou terminar a lição de física e ligar para o Micael. Dorme bem, Luinha! – ela disse.
- Você também. Até amanhã, Melzinha.
- Até!
Desliguei.
O que seria de mim sem minhas amigas?
42
Thur fala:
- Micael, tem certeza que essa coisa aí não vai matar a Melzinha? – Chay perguntou. Ele, assim como eu, estava pronto para ir ao Barney's, e nós esperávamos por Harry enquanto ajudávamos Micael no jantar que ele fazia para Mel. – Porque eu gosto dela, sabe como é...
- Espero que não. Mas se ela estiver tão linda quando estava na escola hoje, quem vai morrer sou eu mesmo... – Micael respondeu, jogando alguma coisa vermelha na panela que borbulhava. Harry desceu as escadas fazendo muito barulho.
- Vamos?
- Harry, preciso da sua ajuda. - Micael pediu, ainda virado para as panelas, passando a mão pelos cabelos nervosamente.
- Não, Micael, eu não vou te ensinar a beijar! - Harry brincou.
- Ai querido, não é isso! - Micael continou a brincadeira. – Na verdade, eu queria saber como eu faço para dar a aliança pra a Melzinha...
- Ai meu Deus, mais um no chicote? - eu suspirei, negando com a cabeça.
- Onde esse mundo vai parar? - Chay concordou.
- Cala boca, Chay! - nós três gritamos. Chay deu um sorrisinho meio torto e voltou a prestar a atenção total à janela.
- Eu sei como fazer, por que você não perguntou para mim? – perguntei, parecendo ofendido.
- Sabe é? Então, como eu entrego a aliança? – Micael perguntou, desconfiado.
- Simples. Abre a caixinha e dá! – respondi, piscando para ele.
- Não. Que tal colocar na sobremesa? - Harry sugeriu, ignorando a brincadeira. Micael abriu um sorriso de orelha a orelha e Harry sorriu satisfeito.
- Brilhante! - Micael exclamou. - Agora vazem que ela deve estar chegando.
- E sua mãe? - perguntou Chay preocupado.
- Também já deve estar chegando.
- Ok, então já estamos indo.- Harry disse, disparando pela porta comigo e com Chay logo atrás.
A mãe de Micael realmente nos assustava.
Fomos na Eco de Micael, pois Harry não queria usar o carro dele. Eu dirigi em silêncio até lá, enquanto Chay contava sobre um produtor que se interessou pelo nosso som.
- É, e ele disse para nós irmos amanhã ao estúdio gravar uma demo.- Harry comentou, quando eu desliguei o carro. - Eu disse que tudo bem.
- Ok. – falei pela primeira vez, entrando pela portinha barulhenta do Barney's. James estava parado na porta e sorriu ao me ver.
Claro, eu também sorriria se o seu cliente que mais gasta em sorvete e cerveja entrasse pela porta.
- E aí, Thur! – ele exclamou, vindo até mim com sua cara espinhenta retorcida em uma expressão feliz. – Mesa de sempre?
- Claro. E me trás um x-burguer? – pedi, e ele assentiu com a cabeça, anotando no seu bloco. – Valeu.
- 2. – Chay pediu, passando por nós dois em direção à mesa no fundo do Barney's.
- 3. E 3 Cocas. – Harry pediu, fazendo o mesmo que Chay. James anotou tudo no bloco e depois desapareceu pelo balcão colorido. Segui o rastro dos caras e quando cheguei à nossa mesa estilo lanchonete americana, arregalei os olhos.
Michele estava lá, ao lado de Harry. Sophia e Chay já brincavam de desentupidor de pias, e ao lado deles, Lua observava as unhas.
- Ah... Oi. – murmurei, me sentando cautelosamente no único lugar vago da mesa, ao lado dela. Ela se remexeu desconfortavelmente e meu cérebro foi a mil, tentando ter raiva dela, enquanto o resto do corpo queria beijá-la. Ela sorriu tímida para mim, e por mais que me matasse, eu a ignorei. – Não sabia que vocês viriam.
- Nem a gente. Mas chegamos e elas estavam aí. – Harry respondeu, dando um beijo no rosto de Michele, que sorriu com o gesto. Chay e Sophia nem se deram ao trabalho de parar o beijo.
Quanta tensão sexual!
Lua estava como eu a via todos os dias. Ou seja, maravilhosa. Seus cabelos estavam presos em um alto rabo-de-cavalo que caía nos ombros. Usava um brinco de argola grande e prateado e um colar com pingente de estrela que ia mais ou menos até a linha da clavícula. Sua blusa de um ombro só azul clara deixava um pouco da sua barriga amostra e ela usava uma calça jeans skinny azul escura com All Star de couro preto. Seu perfume doce e simples invadiu meu nariz e eu respirei fundo.
- Aqui está. – James surgiu com 3 x-burguers, 3 Cocas e 3 bananas split que as meninas pediram. – Mais alguma coisa?
- Não, James, valeu! – Lua falou, enfiando a colher no sorvete de chocolate. Fiquei observando ela levar a colher à boca com a minha própria aberta e acho que dei muito na cara, pois Harry me chutou por baixo do banco.
- Ai caralho!
- Hum, e aí, falta um mês pras férias de julho. O que nós vamos fazer? – Chay comentou, tentando quebrar o silêncio.
- Vamos esquiar! – eu e Lua exclamamos ao mesmo tempo. Olhei para ela com o canto dos olhos e, com a intenção de irritá-la, comentei: - Além de maluca não tem criatividade para ter as próprias idéias...
Ela me olhou com uma mistura de raiva com surpresa.
- Mesmo se isso fosse verdade, – começou, levantando a sobrencelha do jeito mais bravo e fofo possível – eu não roubaria as SUAS idéias, Aguiar.
O Aguiar doeu. Sério.
- Mas parece que foi isso que aconteceu, Blanco. – respondi, agora com os olhos fixados nos dela. Ela aproximou seu rosto do meu e respondeu, sílaba por sílaba:
- Vá se foder, Arthur Aguiar Blanco.
- Vem fazer. – ela me desafiou. Levantei um pouco da cadeira e fui em sua direção – só de brincadeira, não que eu fosse bater nela nem nada do tipo. Afinal, eu a amava. E não era do tipo que gosta de bater. Nem um pouco – e todos da mesa que observavam a cena embasbacados se enfiaram no meio de nós dois.
- Hey, hey, hey! – Chay exclamou, me jogando de volta no banco. Harry segurava os ombros de Lua – que parecia estar sem reação – e falava alguma coisa baixinho pra ela. As meninas sentaram-se ao meu lado e Harry saiu da mesa junto com Lua.
Do ódio ao amor, do amor ao ódio.
43
Lua fala:
- Agora você vai ter que ignorar esses comentários idiotas. Ele ficou muito magoado com você, e quando o Arthur fica magoado, é bem difícil conseguir seu perdão... – Harry me explicou, enquanto conversávamos em um canto isolado do Barney's. – Se você quer que ele te desculpe, tem que ter paciência, e não mandar ele ir se foder!
- Eu sei, eu sei... – murmurei, abaixando a cabeça. – Eu fui muito idiota...
- Foi. – Harry concordou, e eu sorri com tristeza. Ele me abraçou pela cintura e eu envolvi meus braços no seu pescoço, afundando a cabeça nos seus ombros. – Tudo bem, Luinha, todos nós erramos quando se trata do sexo oposto. Principalmente quando se ama o sexo oposto.
- Você não errou com a Mile. – comentei, e ele afagou meu rabo-de-cavalo como um irmão mais velho.
- Porque eu sou foda. – respondeu, me fazendo rir.
Ele me soltou e nós voltamos para a mesa. Thur conversava normalmente com Sophia, Michele e Chay. Quando cheguei, ele respirou fundo e afundou no banco. E antes que eu pudesse falar algo, ouvi uma explosão de risadas vir da mesa ao lado.
Olhei bruscamente e quase dei de cara com John.
John. Há quanto tempo eu estava tão envolvida com outros problemas que esquecera do insuportável do John?
- E aí, Luinha! – exclamou, como se fôssemos velhos amigos. – Saudades?
Olhei assustada para ele, e as gargalhadas explodiram novamente na mesa ao lado.
- Estou aqui com o que costumavam ser seus amigos... Ainda se lembra deles? – disse, apontando para a mesa onde Lindsay, Mary, Rick e Luka, meus velhos amigos hipócritas, estavam sentandos, rindo.
- Lembro. – respondi, seca. John pegou meus punhos com força e continuou falando:
- Não te vi na escola hoje! Aonde você se enfiou? Aliás, com quem você estava se agarrando dessa vez? – perguntou, colocando uma mecha dos meus cabelos atrás da minha orelha. Suas mãos estavam apertadas nos meus punhos, me machucando.
- O que você quer, John? – perguntei, tentando me devenciliar de suas mãos.
- O que eu quero? – ela meio que berrou e agora todos no Barney's prestavam atenção na nossa conversa. – Nada, linda. Só quero dizer que está tudo acabado entre nós. Sabe como é, eu não fico com vadias.
Ok. Ele tinha pego pesado. Por isso não tive nenhum motivo para não fazer o que eu fiz. Que foi dar um tapa bem dado no seu rosto. Mas bem dado mesmo! Daqueles que fazem barulho e tudo.
John colocou a mão sob o rosto e sorriu. Todos em volta agora olhavam curiosos.
- Não precisa ficar brava por eu estar falando isso na frente de todos. Eles já sabem que é só te dar uma balinha e um por favor que já estão pegando. – disse, tirando a mão do rosto, pronto para receber outro tapa, como se adorasse todo aquele teatro.
“Uuuuu!” as pessoas da mesa de John assoviaram. Sophia e Michele tentaram se levantar, mas Chay e Harry as impediram, porque naquele exato momento outra pessoa havia levantado.
A pessoa que eu estava esperando se levantar desde o começo da briga. Porque mesmo brigados, eu sabia que Thur não deixaria John falar aquelas coisas para mim e sair impune. Sabe como é, ele realmente odiava John com todas as entranhas. E, pelo o que eu soube, eles já haviam brigado mais cedo.
Nada melhor que uma briga pra acalmar os nervos.
Thur fala:
Porra! Quem aquele filho da puta pensou que era pra ofender a MINHA garota?
Certo, naquele momento ela não era exatamente MINHA garota.
Mas um dia ela fora.
Por isso que não pensei duas vezes – mesmo estando brigados – antes de levantar da mesa e me enfiar no meio dos dois, fazendo John soltar os punhos dela.
- Não cansou de apanhar, John? – perguntei, chegando perto dele.
- Não cansou de defender essa puta, Thur? – ele perguntou como resposta e meu punho voou em seu queixo. Mas não foi bem como eu previ. Na verdade, John foi mais rápido que de costume – talvez ele andara treinando. Segurou meu braço no ar e virou um soco no meu nariz, que começou a sangrar imediatamente. Lua soltou um gritinho atrás de mim e eu parti para cima de John. Mas não contei que os amigos dele fossem partir para cima de mim.
- Hey! – ouvi Chay gritar atrás de mim, e alguns segundos depois ele e Harry estavam na briga.
- Parem com isso! – as meninas das duas mesas gritaram em uníssono. Mas não adiantou. Sabe como é, muita testosterona junta dá nisso...
Um amigo loiro e alto de John – acho que esse era Rick – me derrubou e logo depois eu senti os chutes nas costelas e uma dor aguda.
- Pára com isso, John! Porra! – Lua gritou por cima dos outros gritos e os chutes cessaram um pouco. Mas logo depois voltaram com toda a força.
- Parem com isso, moleques infernais! – uma voz grave berrou, e toda a gritaria cessou. Os chutes pararam e eu me virei de lado, cuspindo o sangue que escorria do meu nariz. – Não permito agressões no meu estabelecimento.
Minha visão estava escura e a dor era insuportável. Não conseguia me levantar e senti alguma coisa quente afagar meus cabelos com carinho. Joguei todo meu peso nos braços que estavam envoltos a mim e entrei em um estado de semi-consciência. Ainda podia ouvir tudo, embora não conseguisse me expressar devido a dor.
- Saiam já daqui e só voltem quando forem pessoas civilizadas! – a voz grave exclamou novamente.
- Thur, você consegue andar? – ouvi a voz de Lua vir da pessoa que me segurava no chão. Ela passou os dedos por meus cabelos novamente e beijou minha testa.
- Caralho, acho que ele quebrou as costelas! – Harry exclamou, e mais dois pares de mãos me seguraram, me ajudando a levantar.
- Não quebrou, se tivesse quebrado ele estaria gritando de dor. – Chay comentou, e com uma força incrível os três pares de mãos me levantaram.
Caminhei mancando com as mãos em volta de mim, e, de relance, vi John sair com os amigos, com um sorriso no rosto.
Aquilo não ficaria assim.
À medida que caminhava pela garoa até o carro, a dor nas costelas diminuía. Quando me ajudaram a sentar no carro, já respirava normalmente e enxergava tudo direito, sem nenhuma mancha. E pude ver que Lua se sentou ao meu lado.
Sentindo uma dor diferente das dores nas cotelas, meu peito se apertou e minha cabeça despencou nos ombros dela, como se não conseguisse fazer outra coisa senão aquilo.
44
Lua fala:
- O plano era esperar Micael ligar lá no Barney's. – Chay comentou, avançando vagarosamente pelas ruas. – O que vamos fazer agora?
- A gente tem que levar o Thur para algum lugar! – Harry exclamou. – Não podemos ficar por aí com o cara todo manchado de sangue!
- Tudo bem, Harry, eu já estou melhor. – ele disse, apoiado no meu ombro. Entrelacei as mãos, para não cair em contradição.
O negócio é que, por mais que doesse vê-lo todo arrebentado por minha causa, eu ainda estava puta por muitas coisas, como todo o rolo da foto e a briga de mais cedo. Também estava brava comigo mesma, por criar todos esses problemas achando que ficávamos melhores separados, quando tudo que eu queria era ficar com ele.
- Cala a boca, Thur! Você apanhou feio! – Sophia exclamou e ele tirou a cabeça do meu ombro e apoiou na janela.
Pude, enfim, respirar.
- Se vocês quiserem, podem ir para minha casa. – sugeri. – Minha mãe viajou.
- É uma boa. – Michele disse, se virando para trás. – Thur, tem certeza que não quebrou nada?
- Tenho. Eu estou bem.
Seguimos até minha casa só fazendo pequenos comentários, e quando chegamos, agradeci aos céus por poder ficar longe de Thur.
Pelo menos foi o que eu achei que aconteceria.
- Por que eu? – perguntei, indignada. – Por que não o Harry? Ou o Chay?
- Primeiro, ele está assim porque foi te defender. Segundo, Chay e Harry são homens e não podem manchar a imagem cuidando de outro homem. Terceiro, - Sophia ia listando os motivos nos dedos da mão. – eu sei que você quer.
Mostrei o dedo do meio para ela e peguei o estojo de primeiros socorros e uma toalha úmida em cima de mesa. Saí da cozinha pisando duro e subi as escadas do mesmo jeito. Parei na maçaneta da porta do meu quarto.
Abri-a lentamente e encontrei Thur sentado na minha escrivaninha, com a cabeça baixa.
- O que você está fazendo? – perguntei, e ele deu um pulo na cadeira. Olhou para mim todo ensaguentado e puxou um caderninho rosa e lilás que eu não via há uns 3 anos e o colocou perto dos seus olhos. Leu:
- “Querido diário. Hoje eu fiz 11 anos e uma coisa péssima aconteceu. O imbecil do Chay e o imbecil do Micael, na hora da saída, roubaram a minha mala e escreveram ‘Parabéns Quatro-Olhos‘ em branquinho nela. Mas o pior de tudo não foi que Harry viu e não conseguia parar de rir, nem foiMicael mostrando para todos. Na verdade, o pior de tudo foi que Thur viu o que os meninos estavam fazendo a parecia ter ficado bravo. Pegou minha mala dos meninos e veio até mim. E quando pensei que ele iria me devolver a mala, ele sorriu daquele jeito que fez metade das garotas da escola se apaixonarem – inclusive eu – e exclamou: “Feliz aniversário Quatro-Olhos!”. Depois disso, jogou todo meu material no chão, a mala nos meus pés e saiu andando, para rir com os amigos idiotas. Eu queria sair correndo dali e chorar, mas...”
- CHEGA! – berrei, pegando meu antigo diário das suas mãos. Ele gargalhou, mostrando todos os dentes de um jeito lindo, e jogou os cabelos para trás. – Quem te deu o direito de mexer nas minhas coisas?
- Sabe que você ficava uma graça de óculos? O que fez com eles, afinal? – perguntou, ignorando minha pergunta. Joguei o pano molhado nele, que soltou outra de suas risadas irresistíveis e a passou no rosto, enquanto contiuava a falar: - A sua expressão naquele dia foi impagável. Sério. O brilho nos seus olhos quando eu cheguei perto de você e...
- Pára com isso, Thur. – pedi, me virando bruscamente. Já era muito ruim pensar no meu passado, quem dirá falar sobre ele com o cara que transformou minha pré-adolescência num inferno. – Eu sei que você não quer me magoar. Só está fazendo isso porque está bravo e, como sempre, seu orgulho comanda suas atitudes.
- Parece que temos isso em comum então. – ele respondeu, se levantando e jogando pano molhado com raiva em cima da minha cama.
- Não, porque ao contrário de você, toda atitude que eu tomo é pensando nos outros. E parece que sempre acabo me ferrando por isso. – respondi, apoiando-me na parede. Thur olhou para mim com raiva.
- Claro, Lua! E o que eu fiz hoje foi por mim mesmo. Sabe como é, eu apanhei porque eu gosto! – ele disse, me prensando na parede com as pernas sem perceber. Sua voz saia tremida por ele estar se segurando para não gritar. – Eu desenvolvi algum tipo de masoquismo depois que fiquei com você!
- Pois é, e parece que eu tive algum tipo de retardo mental quando aceitei ficar com você! – piei, também me segurando para não gritar, minha voz saíndo umas 2 oitavas acima. Segurei sua camiseta com força e fiquei nas pontas dos pés, a raiva me dominando.
- Mas que coisa, não! – replicou, tirando minhas mãos da sua camiseta e as prensando na parece atrás de mim. Ele se encostou em mim e eu escorreguei pela parede, voltando a pousar os pés no chão. – Parece que muita coisa mudou depois que essa palhaçada começou!
- Palhaçada! – disse, esganiçada. Ele aproximou seu rosto do meu e segurou mais forte as minhas mãos. – Se tem algum palhaço aqui é você!
- Vai dizer que você não ama o palhaço? – perguntou, o maxilar se destacando de raiva.
- Como você é prepotente! – o acusei.
- Diz a verdade, Lua. – ele exclamou, mas algo na sua voz soou como um pedido. - Admite que você é louca por mim desde que me conheceu, na quadra de basquete! Que você não ficou toda envergonhada quando caiu na minha frente aquele dia, e que você mudou todo o seu jeito e seu estilo só para poder ficar comigo!
- Eu mudei meu jeito e meu estilo só para poder ter o gosto de ter caras como você me desejando e eu não querer nenhum deles! – respondi, cuspindo cada palavra com ódio por lembrar de tudo aquilo.
- É, mas você não foi muito bem sucedida! – ele exclamou, me prensando mais ainda na parede. – Porque você se apaixonou novamente por mim! E sabe disso!
- Não, Thur. Pra falar a verdade, eu te od... – ia dizer, mas fui interrompida por seus lábios quentes que se grudaram aos meus bruscamente.
45
Thur fala:
Realmente, pra conseguir me segurar até aquele ponto, eu TENHO que ser foda.
Se eu não sou foda, quem me ajudou a agüentar, até aquele exato momento, é.
Lua, no começo, tentou se livrar das minhas mãos apertadas em seus pulsos, mas depois de algum tempo desistiu. Assim como no começo relutou em me beijar de volta, mas desistiu disso também.
O beijo foi ofegante e todo descompasado, mas pela abstinência que eu estava, nem me importei muito.
Mas ele foi curto também, porque alguns segundos depois, Harry e Michele abriram a porta.
- Opa! Foi mal! – Harry disse, ao me ver segurando Lua na parede, minha boca grudada na dela. Lua me empurrou na mesma hora, limpando a boca com as costas da mão. Eu dei alguns passos para trás, meio tonto, e me apoiei na sua escrivaninha, ainda olhando com raiva para ela. – Não precisava parar, nós só viemos ver se vocês estavam bem, mas parece que sim...
- Você me deve uma barra de chocolate, Judd. – Michele comentou, apontando para nós dois e fazendo Harry rir de algum tipo de piada interna.
Não que eu não soubesse que eles tinham batido uma aposta.
Ela soltou uma risadinha abafada e Harry a abraçou pelos ombros, prontos para saírem do quarto, se não fosse por Chay e Sophia, que subiam as escadas correndo e gritando, e quase derrubando Harry e Michele ao entrarem no quarto.
- Ganhei! – Sophia exclamou, ofegante.
- Ganhou nada, sua trapasseira, você correu antes! – Chay respondeu, puxando ela para junto de si e caindo com tudo na minha cama. – E aí, Thur, tá melhor? – perguntou, enquanto Sophia se contorcia no seu colo por ele estar fazendo cócegas nela.
- Bem melhor! – Harry respondeu por mim, irônico. Ele e Michele entraram no quarto e se sentaram na cama – como pessoas normais, diferente deSophia e Chay – e nos olharam com desconfiança, como se fôssemos nos pegar ali na frente deles a qualquer momento.
Não que eu não quisesse...
- Tô. Tô melhor sim...
- Bom, já que não temos absolutamente nada pra fazer, vamos voltar a decidir nossas férias. – Sophia sugeriu, e logo depois emendou, lançando um olhar assassino para mim e para Lua: - De um jeito civilizado. Pode ser?
- Bom, eu já disse que quero esquiar! – Lua respondeu.
- É. Eu também. – concordei, olhando para os meus tênis.
- Ok, mas onde? – Michele perguntou, deitando no colo de Harry.
- Suíça! – Chay gritou, assustando Sophia. Começou a pular na cama e falar repetidamente: – Suíça, Suíça, Suíça!
- Tá bom, macaquinho! – Sophia exclamou, puxando Chay pelo braço para ele parar de pular na cama. – Nós vamos para a Suíça!
- Eu vou voltar de lá obesa! – Michele reclamou.
- Opa, então acho melhor irmos para outro lugar, e... – Harry disse, tomando um tapa nos ombros de Michele. – Brincadeira, amor, você sabe que eu te amo independente dos seus quilos a mais!
- Ahhhhhh! – suspiramos todos juntos, de brincadeira, e Michele ficou de um estranho tom de rubi, sorrindo envergonhada.
- Mas eu vou te trair e tals... Sabe como é, né? – Harry continuou, e Michele logo se recuperou da repentina timidez e deu mais um tapa estalado nos ombros de dele.
- Trai pra você ver se não toma um pé bem dado na bunda! – disse, fazendo uma careta.
- Não tem problema não, Mile! – Chay se enfiou no meio da conversa, cutucando a bunda de Harry com os pés. – O Harry aqui adora um pé na bunda!
- Vai se foder, macaquinho! – Harry xingou, chutando o pé de Chay.
Continuamos a decidir nossa viagem – na verdade, só ficamos nos zoando e não decidimos porra nenhuma – e eu continuei a ignorar Lua, que fazia pequenos comentários e ria das piadinhas de Chay. Até que o celular dele tocou.
- Alô?... Tá, nós já estamos indo. O Thur apanhou! HAHAHAHA!... É, de novo! HAHAHAHA!... Ok, dude, falou!
- Imbecil. – murmurei, dando um soco no ombro de Chay e caminhando até a porta, feliz por finalmente estar saindo do quarto de Lua. Mas quando cheguei à porta, fui atropelado por Harry, Michele, Chay e Sophia que voaram na minha frente e em um movimento ninja, saíram do quarto e me trancaram lá dentro...
... Com Lua.
Lua fala:
- Ah não! Pára de brincadeira, seus putos! – eu gritei, correndo até a porta. No caminho, quase derrubei Thur.
- Vocês dois só saem daí quando entrarem num acordo. Ou voltarem. Sei lá... – a voz abafada de Sophia veio em resposta.
- Ah, vocês só podem estar me zoando! – gritei, antes de dar um chute na porta. Do outro lado, eles riam sem parar.
Abaixei a cabeça e respirei fundo. Mais calma, me virei para Thur – que estava apoiado novamente na minha escrivaninha – e cruzei meu olhar com o dele, que sorriu.
- Por que você está com essa cara de idiota? – perguntei, cruzando meus braços na frente do corpo.
- Porque você fica uma gracinha birrenta! – ele respondeu, e eu senti meu rosto queimar. Sentei-me na cama emburrada e ouvi Thur fazer “ts!" com a boca. Logo depois, vi um par de tênis se aproximarem da minha cama e ele se afundou ao meu lado.
- Olha, eu sempre ignoro meu orgulho para correr atrás de você, assim como eu estou fazendo agora. – disse, enfiando as duas mãos no meio das pernas e se curvando para frente, os cabelos caindo nos olhos de um jeito que dava vontade de apertar. – Mas acho que dessa vez é por um bem maior.
- Como assim? – perguntei, olhando para seus olhos confusos. Ele deu um sorriso torto – aquele que eu adorava – e me explicou:
- Eu proponho uma trégua.
- Que tipo de trégua?
- Proponho que sejamos amigos, ou pelo menos nos suportemos sem brigar. – ele respondeu, entortando a sobrancelha. – Sabe como é, se nossos amigos resolveram formar 3 casais, nós temos que lidar com isso.
- É... – murmurei, triste pelo o que ele propôs e feliz por finalmente estar falando com ele normalmente, sem nenhum tipo de briga idiota. – Acho que é melhor assim.
- Então... – ele exclamou, levantando a mão. – Fechado, brother!
Olhei para o seu braço estendido e bati com minha mão na sua, exatamente como bons e velhos amigos.
- Fechado, brother!
46
Thur fala:
Acordei com a merda do despertador berrando no meu ouvido, e se não fosse pelo Offspring, eu jogaria ele longe.
- Caralho de despertador do capeta! – exclamei, dando um tapa para desligá-lo.
Pulei da cama e dei de cara com Billie Joe, em um pôster na parede do meu quarto. Lembrei-me que encontraríamos o produtor mais procurado do Estado mais tarde e fiquei um pouco mais animado.
Entrei no chuveiro rindo sozinho, lembrando de Micael contando que Mel quase engolira a aliança e que sua mãe – incrivelmente – havia gostado da menina.
Quando saí do banheiro, me sentia bem melhor.
Vesti minha calça jeans preta e um moletom da Hurley azul-marinho. Enfiei uma touca de qualquer jeito na cabeça, passei perfume e saí do quarto. Desci as escadas rapidamente e pulei os 3 últimos degraus. Quando aterrisei no chão, vi Micael e Harry parados na frente do pc.
- Dudes, vocês estão virando umas bichas fofoqueiras, eim? – exclamei, ignorando o que eles viam na tela e caminhando até a cozinha. Lá, peguei qualquer coisa para comer e voltei para a sala. Os dois continuavam na frente do pc como estátuas.
Ok. Agora a curiosidade tinha tomado conta de mim.
- O que vocês estão vendo? – perguntei, me enfiando no meio dos dois.
Na foto, Harry abraçava Lua pela cintura e ela retribuia, com os braços em volta do seu pescoço. Só mostrava o rosto de Harry, e ele estava com os olhos fechados. O rosto de Lua estava afundado nos seus ombros.
Embaixo da foto, uma coisa inédita.
Um texto.
“Harry e Lua em um momento, hum... Casal? Mas, espera aí, Harry não namora Michele de aliança e tudo? E Lua não está em um triângulo amoroso com o John e Thur?
Hum... Estranho...
Fontes confiáveis alegam que os dois conversavam aos sussurros no canto do Barney's enquanto, pasmem, Michele, John e Thur estavam sentandos ali ao lado!
Sempre achei que Lua fosse do tipo apaixonada fervorosa, mas pegar o namorado da amiga já é feio, não é?
Por falar nisso, alguém ficou sabendo da briga de ontem, no Barney's? Me contaram que a coisa foi feia, e que Thur saiu sangrando. Pelo o que eu soube, Lua e John estavam brigando quando ele a ofendeu; então, fera Aguiar saiu em sua desefa. Só que ele não sabia que os amiguinhos ogros de John iriam partir pra cima, então começou apanhando feio. Mas então, Harry e Chay, para salvar a pátria, entraram no meio e salvaram o dia.
Ai, que Gay!
Bem, eu sei que todos querem saber onde estavam Micael e Mel enquanto tudo isso acontecia, mas não posso confirmar nada. Só acho que hoje na escola vamos ter outro casal aliançado.
Será?
Bom, esse foi só um post inicial, para mostrar a todos que o Conte Seu Babado está sob nova direção. Quem tiver algum palpite de quem eram os antigos donos – sim, antigos, pois eram homens – comentem. Talvez eu conte, talvez eu não conte, depende só deles – ou dele. Mas uma coisa eu posso afirmar – é o maior babado do ANO!
Prometo que deixarei vocês todos atualizados sobre as 8 almas – Harry, Micael, Chay, Thur, Michele, Mel, Sophia e Lua – que vocês mais amam odiar! E alguns coadjuvantes, claro...
Beijomeliga Colégio Norbert.”
- Será que a Michele já leu isso? – perguntei. Harry balançou a cabeça meio atordoado e Chay desceu as escadas berrando:
- Entrem no blog! É sobre a gente e... Ah... – ele parou de correr como um hipopótamo na escada. – Vocês já leram...
- Pior que eu só estava consolando a Luinha por ter brigado com você! Eu não estava fazendo nada de mais! – Harry argumentou, olhando para mim.
- Eu sei, dude, relaxa. – o tranqüilizei.
- Será que a Mile vai acreditar nessas idiotices? – Micael perguntou, rodando a aliança novinha em folha no dedo. Mas que homem que usa aliança não tem essa mania? – Quer dizer, quem acredita nessas coisas?
- Só a escola inteira. – Chay respondeu.
- Valeu, Chay. Valeu mesmo. Animou meu dia! – Harry ironizou, suspirando e se afundando no sofá. – O que eu faço agora?
- Liga pra ela! – sugeri.
- É, antes que ela... – Micael tentou dizer, mas o celular de Harry começou a vibrar em cima da mesa. – Ligue.
- Opa. – Chay disse, entortando a boca.
Harry caminhou até o celular como quem caminha para a cadeira elétrica e fez uma careta ao ver o nome no visor. Levou o aparelho vagarosamente à orelha e disse, baixinho:
- Alô?
Eu, Micael e Chay nos entreolhamos.
- Ah, é você, Luinha... – ele suspirou aliviado. Mas logo ficou tenso novamente. – Chorando? Por que ela está chorando?... Deixa eu falar com ela?... Luinha, você explicou para ela o que aconteceu?... Se não é por isso, porque ela está chorando!?... Ai meu Deus! Passa o celular pra ela?...Mile!? Linda, por que você tá chorando?... Ah Mile, pára com isso! O que importa o que os outros vão pensar? O que importa é o que nós sabemos, e o que nós sabemos é que não aconteceu nada de mais, que a Luinha é minha amiga e nada além disso. Mesmo porque, todo mundo sabe, embora eles tentem esconder, que Thur é louco por ela e ela é louca por ele. – lancei um olhar vingador do futuro para ele, que ignorou e continuou falando: - Gata, por favor, não chora!... Tá bom, a gente se fala quando eu chegar na escola. Te amo, Mile, não esquece disso!... Beijo, tchau.
- Deixa eu ver se entendi. – disse, logo que ele desligou com a maior cara de cão sem dono. – Ela tá triste porque não quer que os outros falem de vocês pelas costas?
- É. – ele respondeu.
- E ela tá chorando por isso? – Chay perguntou.
- É.
- E ela pediu para a Luinha ligar porque estava chorando tanto que não conseguia falar? – Micael concluiu.
- Hum... É.
Silêncio.
- HAHAHAHAHAHAHAHA! – começamos a rir sem parar. Micael até perdeu o fôlego.
- Velho, esse blog ainda vai nos render muitas risadas! – Chay comentou, limpando as lágrimas.
- Ou não. – respondi, ficando sério repentinamente, me lembrando de Lua.
- Vai, vamos logo pra escola que eu preciso consolar a patroa. – Harry disse, se levantando.
- É, vamos logo que eu preciso encontrar a minha béstie! – disse do jeito mais gay possível, virando os olhos e fazendo os outros rirem.
47
Lua fala:
- Tá linda! – respondi a pergunta de Michele, pelo o que parecia a vigésima segunda vez só pela manhã.
Ela havia dormido em casa e visto a foto e o post logo de manhã. E enquanto ela chorava, eu me remoía de arrependimento, por não ter acreditado em Thur. Porque, bem, depois daquela foto eu meio que passei a acreditar nele.
Sabe como é. Ele não colocaria uma foto do amigo no blog.
- Coitado do meu gatinho! – ela reclamou, se remexendo no banco ao meu lado. – Ele não fez nada e é obrigado a me ouvir chorando por idiotices!
- Tudo bem, Mile, ele já devia saber que para namorar uma cheerleader tem que agüentar seus acessos de choro.
- Já sei! – ela exclamou, toda animada, muito diferente da Michele histérica de mais cedo. – Pára no shopping que eu vou comprar alguma coisa pra dar de presente para ele!
- Não viaja, cabeção, faltam só 5 minutos para o sinal bater! – exclamei, tirando as mãos do volante e dando um tapa na testa cheia de pó dela.
- Ah, é mesmo... – ela suspirou.
Voei até a escola com a Pajero da minha mãe e respirei fundo ao entrar nela, vendo Thur com Harry, Micael, Mel, Sophia e Chay. Andamos até eles e eu quase vomitei quando Harry deu um beijo desentupidor de pias em Michele ali no meio do pátio.
- Eca! – alguém disse ao meu lado.
Alguém que eu sabia muito bem quem.
- Vai dizer que você não gosta? – perguntei para Thur, que sorriu.
Estava tentando agir como uma amiga. O que foi meio difícil, levando em consideração que Thur estava mais gostoso que nunca com aquele moletom da Hurley e a calça mais justa.
- Com o Harry? Acho que não...
- É, realmente, não ia pegar muito bem... – respondi, puxando as mangas do meu moletom da GAP e chutando o chão, como uma criancinha tímida.
Thur sorriu com o canto dos lábios e eu iria dizer algo quando seu celular começou a berrar She do Green Day.
- Opa, agüenta aí, Luinha. – ele pediu, como um bom e velho amigo. Colocou o celular na orelha: - Alô?
Tentei ignorar a conversa dele ao celular, me enfiando no meio da conversa de Mel, Micael, Sophia e Chay, mas não pude evitar ouvir algumas coisas.
Ok. Eu ouvi tudo.
- Bella, nossa, oi! – ouvi ele exclamar. – Pensei que você não fosse mais me ligar.. É, eu fui um idiota, me desculpe... Não, é uma longa história, você não iria querer saber... Sei lá, você quer sair hoje? Nós podiamos terminar o que começamos!... Ok, eu te pego as 20h!... Beijo, Bella, até mais tarde.
Quando ele desligou, meu sangue estava todo na cabeça e eu queria chorar.
Muito.
- E aí, o que eu perdi?
“Vai perder os dentes daqui a pouco!” pensei. Trinquei os dentes para não dizer tudo que estava com vontade.
Sabe como é, não é muito legal dizer o que se passa na sua cabeça quando você ouve o cara que você gosta chavecar outra no telefone.
- Nada de mais. Então, gente, nós... – Mel tentou dizer, mas eu a cortei, sendo mau-sucedida no quesito fechar a boca.
- Quem era no telefone?
- Hum... – ele murmurou, surpreso com a pergunta. – Uma amiga.
- E o que ela queria? – perguntei, não me segurando. Os outros se entreolharam e Chay assoviou baixinho.
- Ela queria sair comigo. – Thur disse, arqueando a sobrancelha. – Por quê?
- Não, nada! – respondi, trincando os dentes novamente. – Só para saber. Eu me preocupo com os meus amigos! – dei um tapa meio – meio? – forte no seu ombro e ele sorriu torto. Como resposta, me deu um empurrão amigável – amigável? – e respondeu:
- Claro, amigona!
O sinal bateu e eu me virei, dando com os cabelos na cara dele. Mel veio atrás de mim, com Michele e Sophia conversando logo atrás. - Mas eu me mordo de ciúúúúmes! – ela brincou, e eu dei um empurrão de leve nos seus ombros.
- Vai se ferrar. E deixa eu ver esse anel brilhante no seu dedo! – exclamei, pegando a mão direita dela, onde a aliança prateada reluzia. Puxei o anel de seu dedo e li o que estava gravado dentro. All About You – Melzinha e Micael. – Que lindo, Melzinha! Vocês usaram a música do... – parei de falar, porque meu coração se apertou demais para continuar.
- O Thur disse que tudo bem. – Mel disse, simplificando as coisas. – Micael não conseguiu falar com você e...
- Tudo bem, Melzinha. – disse, respirando fundo. – Firmeza na Teresa!
- Luinha e suas gírias. – Sophia disse, me envolvendo com os braços.
- Qualquer dia desses você vai se arrepender de tratar o Aguiar do jeito que você trata e, sinto te dizer, Luinha, vai ser tarde demais. – Michele aconselhou.
Continuamos andando pelos corredores da escola. Quando passamos por um grupo de meninas do primeiro ano, ouvi uma conversa pela metade, mas ouvi o suficiente para saber de quem falavam.
- ... Acho que essa nova pessoa é a própria Lua querendo se promover... – uma menina baixinha e gorducha disse para outra mais alta e desinteressada na conversa, observando Josh que conversava com algumas meninas de longe. Quando olhou para a amiga, viu que eu estava parada atrás das duas e deu um beliscão na menina, que automaticamente olhou para trás e arregalou os olhos ao me ver.
Vaca!
- Claro, porque eu consigo abraçar o Harry ao mesmo tempo que tiro uma foto e posto no dia seguinte, enquanto minha amiga e namorada dele dorme em casa. Realmente... – disse. Mel, Sophia e Michele riam baixinho e escondiam o rosto para não dar muito na cara que rachavam o bico. A gorduchinha fechou a cara. – Se eu fizesse um livro com todas as merdas que pirralhas como você inventam de mim, acho que estaria bem rica...
Saí deslizando pelo corredor, sentindo que poderia estrangular qualquer idiota que visse pela frente.
E o que eu vejo pela frente? O idiota do John. Com o gostoso do Josh.
- Olha se não é a sumida! – Josh disse, dando um peteleco no meu nariz. Ele sempre fora meio no mundo da lua, então acho que não tinha percebido que eu não andava mais com eles há muito tempo.
- Oi, Josh. – respondi, animada. Adorava Josh, e seus olhos verde-esmelradas. John virou os olhos e foi conversar com umas meninas da oitava série, nos deixando sozinhas com Josh.
- Oi, meninas! – ele disse, olhando espantado para as alianças das meninas. – Estão namorado? Com quem?
- Hum. Você não conhece. – Mel disse, desviando do assunto. – Mas e aí, como anda a vida?
- Bem, bem... – ele respondeu, passando a mão pelos cabelos cortados estilo militar, como sempre fazia quando costumava ter cabelo. – Cortei o cabelo e, acho que é isso...
- Ficou muito bem. – piei, dando uma piscadinha para ele, que sorriu.
- Valeu, Luinha.
Ficamos – nós 5 – conversando até o sinal bater, o que não demorou muito. Sophia saiu correndo para levar uma carta que tinha escrito para Chay e Mel e Michele entraram na sala, com sono demais para tentar outra coisa, deixando eu e Josh sozinhos.
- Mas me diz, Luinha, eu sei que o John vai ficar puto por eu estar perguntando isso, - ele realmente não sabia de nada que estava rolando na escola. E isso era, no mínimo, fofo. – mas quando você vai, finalmente, sair comigo?
Claro que eu ia recusar. Do jeito que eu estava enrolada, aceitar sair com um galinha, melhor amigo de John e, hum, que odiava Thur – e o ódio era mútuo – só me traria problemas.
“Mas... E Bella?” pensei.
Por que Thur poderia sair com quem quisesse e eu não? Por que ele saía com qualquer uma e eu tinha que ficar em casa me lamentando?
Então olhei muito bem para Josh. Alto, ombros largos, musculoso, cabelos no estilo militar, olhos verdes e sinceros.
Por que não?
- Quando você me chamar. – disse por fim. E me arrependi logo depois. Mas, hum, acho que não tinha mais volta. Ou tinha?
- Hoje? Cinema? – ele perguntou.
- Claro. – disse, me afundando de vez. – Me pega às 20h?
- Ok. Às 20h será.
Saí pelo corredor e entrei na sala, escorregando na cadeira e enfiando a cara no fichário.
“Péssima idéia, Lua” pensei.
Mas já era tarde demais.
48
Thur fala:
- Vai, Chay! Já são 14:30, nós temos meia hora! – gritei, esmurrando a porta. Chay gritou algo inaudível de dentro do banheiro e saiu com uma toalha enrolada nas pernas, pingando água. - Ótimo. Você tem 2 minutos.
2 minutos depois estávamos na sala, colocando os intrumentos nos ombros.
- Ok, então nós vamos tocar Five Colours In Her Hair, That Girl, She Left Me e Obviously? – perguntei, anotando mentalmente o que acabara de dizer.
- Ainda não sei porquê não tocamos Star Girl e All About You... – Micael disse, parecendo aborrecido.
- Porque nós decidimos que algumas teriam que ficar de fora, e as escolhidas são essas, se lembra? – perguntei, olhando fixamente para ele.
Eu estava bravo. E mandão. Assumo.
Mas aquele era eu. Incrivelmente chato em momentos como aqueles.
- Ok. Então vamos logo. – Harry disse, tentando acalmar um pouco os nossos ânimos. Saímos pela porta e fomos até o carro dele. Colocamos os instrumentos no porta-malas – não era necessária a bateria, como a secretária do renomado produtor Bob Williams havia nos avisado mais cedo – e entramos no carro.
Harry tremia tanto que quase não conseguiu ligá-lo.
- Relaxa, Thur, vai dar tudo certo. – Chay tentou me tranqüilizar, mas eu estava nervoso demais para pensar em tentar me acalmar.
O caminho até o estúdio foi lento e rápido ao mesmo tempo. Eu passei o trajeto inteiro tentando não vomitar.
- Finalmente! – suspirei, respirando fundo ao sair do carro, mesmo ele sendo conversível.
- Não vai vomitar no cara, eim Thur! – Harry brincou, me dando um tapinha nos ombros.
- Nem brinca, dude! – Micael pediu, com o rosto meio... Verde.
- McJump! – um gordinho que estava parado na porta com um charuto nas mãos exclamou. Ele desceu as escadas com passinhos curtos e suava no buço, [N/A: Como meu ídolo, Marcelo Adnet! ;D] fazendo com que seu bigode estilo cafajeste ficasse meio molhado. Estava enfiado em um terno cinza escuro apertado na barriga, fazendo com que os botões quase saltassem.
Ele se aproximou de nós e estendeu a mão gordinha para mim.
- Você deve ser Micael!
- Não, na verdade eu sou Thur e... – respondi, e ele pareceu confuso. Então somente chacoalhou a cabeça e continuou a falar.
- Bom, vocês já devem saber quem eu sou, mas eu vou falar mesmo assim. Sou Bob Williams, - ele se apresentou, e continuou: - e vamos logo porque meu tempo é precioso e eu tenho muitos sucessos para lançar.
Ele se virou e andou até a porta do prédio. Nós ficamos paralisados, nos entreolhando.
Na verdade, eu, Chay e Harry nos entreolhávamos. Micael fazia de tudo para não rir.
- Podem me seguir, garotos! – ele exclamou.
- Já estamos indo, Sr. Williams! Só vamos pegar os instrumentos! – eu disse, acenando para ele.
- Tudo bem então. Estou esperando no saguão.
Esperamos ele entrar no prédio para começar a rir.
Cara, qual é, McJump!?
- Vai, chega de rir, vamos logo porque se eu não for agora juro que vou vomitar em cima de você, Chay. – disse para ele, que era o mais próximo de mim.
- Ok, vamos logo. Eu não quero encontrar minha gata cheirando vômito. – Chay concordou.
O prédio por dentro era tão majestoso quanto por fora. O chão era todo de mármore e as paredes todas espelhadas. Atrás de um balcão de madeira clara, uma mulher de no máximo 20 anos, loira platinada e extremamente gostosa, - pelo menos Bob Williams tinha bom gosto em escolher as secretárias – falava rapidamente ao telefone. Quando nos aproximamos, ela nos olhou de cima a baixo e, com a voz enojada, perguntou:
- Pois não?
- Então, nós viemos tocar para o Sr. Williams. Ele estava aqui até agora, mas não estamos o vendo em nenhum lugar. – Micael respondeu, olhando em volta.
- Para falar com o Sr. Williams vocês tem que ter um horário. – ela disse, entediada, como se falasse aquilo a todo momento.
- Mas nós temos hora marcada! Ele acabou de descer aqui para chamar a gente! – eu disse, eufórico.
- Desculpe, mas não posso fazer nada.
- Mary, pare de irritar meus novos astros! – Bob Williams exclamou, saindo do banheiro do saguão. – Eles estão comigo. Harry, vamos? – ele chamouChay com as mãos.
Andamos atrás deles e Chay disse, baixinho:
- Olha só a minha cara de Harry. – depois levantou a sobrancelha e nos olhou de um jeito engraçado.
- Sabe onde eu vou enfiar essa baqueta? – Harry perguntou, girando as baquetas nos dedos. Eu e Micael rimos baixinhos e Chay voltou a caminhar atrás de Bob, que falava ao celular aos berros.
Chegamos ao último andar do prédio abestalhados pelo tamanho do estúdio. Tanto que quase fomos empurrados para dentro dele pelo ajudante de Bob, um tal de Josy.
Que tipo de nome era aquele? Josy não era nome de mulher?
- Vamos lá, podem começar. – ele ordenou ao microfone, do outro lado do espelho.
- Hum. – murmurei ao microfone. – Essa se chama, hum, Five Colours In Her Hair.
Começamos a tocar empolgados. Porque, bem, aquela era a única coisa que realmente sabíamos fazer. Quando acabamos o primeiro refrão, a voz entediada de Josy ecoou no estúdio:
- Ok. Podem tocar a próxima.
Olhei para Harry, que já girava as baquetas nervosamente.
- Ok. Bem, essa se chama That Girl. – disse, e começamos a tocar novamente. Foi exatamente como na primeira, depois do primeiro refrão, Josy pediu a próxima.
Assim tocamos She Left Me e Obviously. E, ao acabar, ficamos em silêncio, nos olhando. Até que a voz exclamou, nos assustando:
- O que estão esperando? Saiam daí, Bob quer falar com vocês.
Saímos do estúdio com as mãos nos bolsos. Eu sabia o que os guys estavam pensando. Porque eles pensavam a mesma coisa que eu. “Merda, não conseguimos.”
Bob falava ao telefone tão rápido que não podíamos entender uma palavra do que falava. Quando terminou, nos olhou sério e perguntou:
- Vocês têm algum empresário?
- Hum... Não. – Chay respondeu.
- Problema resolvido. Patrick Fedelso [N/A: Homenagem ao Luluzinho! Te amo!]. Ele irá entrar em contato com vocês amanhã de noite, pois está voltando de uma viagem a Austrália.
Ficamos em silêncio, não entendo o que estava acontecendo.
- Bem, vou colocar essa menina colorida para tocar nas rádios assim que vocês as gravarem. O que vocês farão, hum... – ele enrolou o bigode nos dedos. – Agora.
Nós ficamos mudos, sem saber o que falar. Bob alisou o bigode mais uma vez e ficou nos olhando sério.
- Isso é, tipo, sério? – perguntei enfim.
- Não! É brincadeira! – ele exclamou, me dando um empurrão. Começou a gargalhar e nós rimos juntos, para tentar sermos agradáveis. Mas logo ele parou de rir e exclamou, sério: - Claro que é verdade, suas antas!
Depois disso, ele se virou e foi embora, sem dizer mais nada.
Olhamos para Josy. Ele nos olhou, mal-humorado. Ficamos nos encarando por um bom tempo até que ele berrou, fazendo nós 4 pularmos:
- Qual é, perderam o cu na minha cara? Vamos gravar!
49
Lua fala:
- Afinal, Luinha, você está nervosa pelo encontro ou pelos meninos? – Mel perguntou, tirando minha concentração do celular de Michele.
- Pelo encontro, claro né, praga! – respondi, voltando a passar lápis nos olhos.
- Então porque não encara o próprio celular? – Sophia me provocou.
- Ah, não enche, Sô! – exclamei, jogando uma piranha de cabelos nela.
As 3 estavam em casa me “ajudando” para o encontro com Josh. Mas, na verdade, elas estavam lá porque não tinham nada para fazer enquanto os amados estavam na produtora. Só que eu simplesmente adorava ficar falando besteira com elas, então estava mais do que perfeito.
Isso meio que tirava meus pensamentos de Thur.
- Meu Deus, quanta agressividade! – ela disse, jogando a piranha de volta em mim. Depois virou-se para Mel e Michele, que olhavam sonhadoras para as alianças. – Dá pra vocês duas pararem de babar nesses anéis idiotas?
- Ah, tá bravinha porque quer um igual! – Mel brincou.
- Relaxa, Sô, você vai ganhar uma do Chay e nós seremos namoradas de Rock Stars! – Michele completou.
- Nós vírgula. – discordei, terminando de passar lápis nos olhos e me sentando entre Mel e Michele na cama. – Vocês.
- Vai me dizer que se o Thur ficar famoso você não casa com ele? – Sophia perguntou, piscando para mim.
- Quem vê pensa que ela já não casa com ele sendo pobre, feio e sem dente. – Michele disse, rindo.
- Bom, acho que feio e sem dente dá pra aturar, mas pobre não. – brinquei, mordendo a língua. – Credo, gente, se alguém me ouve dizer isso...
Mas o celular interrompeu meu raciocínio, vibrando na mesa. E todas nós pulamos para atender.
- É o Josh! – Michele gritou.
- Cala boca, Michele, é o Thur! – Sophia gritou ao mesmo tempo.
- Nada a ver, é o Micael! – Mel gritou com as duas.
- Calem a boca! É só minha mãe! – exclamei, rindo e lendo o visor do meu iPhone. Todas voltaram para a cama decepcionadas. – Por que o Micael ligaria no meu celular? – perguntei para Mel.
- Porque eu esqueci o meu em casa. – Mel respondeu, dando de ombros.
- Alô?... Oi, mãe! Não, tá tudo de boa na lagoa... E como está aí no... Onde você tá mesmo?... Isso, aí na Escócia!?... Que bom. Mas fale, por que ligou?... Uau! Dois meses!?... Não, tudo bem... Aham... Aham... Mãe, tô indo pra escolas todos os dias, que chatice! Você sabe como Rosa é, mesmo se eu quisesse, não conseguiria ficar o dia inteiro ouvindo suas cantorias em sei lá que língua!... HAHAHAHA, tá bom mãe. Não me esquece, eim!... Beijão, até de noite!... Também te amo!... Tchau!
- O que aconteceu? – Michele foi a primeira a perguntar.
- Nada demais. Ela ligou para avisar que vai ter que ficar mais dois meses na Escócia. – respondi.
- Cara, você tem tanta sorte! – Mel reclamou. – Dois meses sem o nhé nhé nhé da mãe?
- Sorte. – Sophia completou.
- Sorte nada! Rosa é mais chata que todas as nossas mães juntas! – argumentei. – Mas mesmo assim, eu não a trocaria por nada nesse mundo!
- Ah, que coisa mais gay! – Sophia suspirou.
- Ok, eu já estou pronta há séculos! – reclamei, me levantando. – Cadê ele?
- Deve estar chegando. – Mel respondeu. – Luinha, abaixa esse vestido menina, que indecência!
Olhei para baixo e vi que meu vestido estava preso na calcinha. Ri e puxei-o para baixo, e meu celular novamente tocou. Todas correram para atender, gritando novamente ao mesmo tempo.
- É sua mãe!
- É o Micael!
- É o Thur!
- NÃO! – gritei por cima delas, rindo. – Na verdade, agora é Josh. Alô?... Ok, tô descendo.
Desliguei o celular, enfiando-o de qualquer jeito na bolsa.
- Vamos descer com você. Acho que vamos dar um pulo na casa da Mel para mofar um pouquinho. – Michele reclamou.
- Quem mandou terem namorados ocupados? – perguntei, piscando para elas. – Bom, vamos indo?
Descemos as escadas rindo e falando besteiras. E quando abri a porta, quase fui atingida por um buquê imenso de rosas.
- Graças a Deus é você! – Josh exclamou do outro lado das rosas. As meninas atrás de mim suspiraram e fizeram “ahhh!”. – Fiquei com medo de, sei lá, eu desse com o buquê na cara do seu pai ou algo do tipo.
Peguei as rosas e ignorei o comentário, como sempre fazia quando comentavam do meu pai. Josh não tinha a obrigação de saber que éramos brigados. Ninguém tinha. Embora alguém soubesse. E esse alguém não saía da minha cabeça até naquele momento.
“Merda, Lua, pára de pensar no imbecil do Aguiar!” pensei.
- São lindas, Josh! Obrigada! – disse, chacoalhando a cabeça para pensar em outra coisa.
- Bom, nós estamos indo. Tchauzinho para os que ficam! – Sophia disse, dando um peteleco no nariz de Josh ao passar por ele. Mel e Michele fizeram o mesmo e alguns segundos depois, estavam disparando pela rua no carro de Mel.
- E é assim que você conquista suas vítimas? – perguntei, cheirando o buquê.
- Não, são só para você. – ele respondeu, sorrindo de um jeito meigo.
- Bom, agüenta aí que eu vou lá dentro colocá-las em um vaso.
- Claro.
Entrei e voei para a cozinha. Rosa ficou toda empolgada e as colocou em um vaso para mim. Depois beijou minha testa e me pediu juízo. Disse para ela que tentaria e saí da cozinha ouvindo os pais nossos dela.
Adorava deixá-la preocupada.
- Demorei? – perguntei, e ele se desencostou da parede.
Ele usava uma camiseta polo branca e calça jeans escuras. Nos pés, um tênis Puma de camurça preto.
- Não, sem problemas, gata. Vamos?
- Vamos.
Caminhamos em silêncio até o Porshe prata dele, e ele abriu a porta do passageiro para mim. Deslizei para dentro do carro e ele fez o mesmo do outro lado. Entrou e ligou o rádio no último volume, quase estourando minha cabeça com a música no estilo yo-shizzel my-wizzel nigga mother-fucker.
- Aperte os sintos. – ele me advertiu. Ri e coloquei os sintos. Mas nunca pensei que ele estivesse falando sério.
Josh dirigia como um louco. Costurava tudo e todos, tirava as mãos do volante para mudar de rádio e quase sempre se distraía da pista para conversar comigo. Quando chegamos ao shopping, tive vontade de beijar o chão.
Mas não beijei. Sabe como é, ia pegar meio mal. Tipo: “Olha, mamãe, tem uma menina beijando o chão e eu consigo ver sua calcinha!”
Muito estranho.
- E aí, quer assistir o quê? – ele perguntou.
- Estou louca para assistir Jogo de Amor em Las Vegas. Pode ser? – sugeri, e ele assentiu com a cabeça. Depois me abraçou pelos ombros, se dirigindo a bilheteria. Comprou nossas entradas e nós ficamos ali, porque o filme começaria em 10 minutos.
Josh começou a narrar um jogo de futebol que assistira mais cedo e eu tentava ao máximo ouvir, mas a única coisa que conseguia pensar era: chato. Chato. CHATO!
- Então ele fez o cruzamento e... – ele contava quando ouvimos um barulhão. Olhamos instantaneamente para a origem do barulho e quem vimos lá?
Isso mesmo que você deve estar pensando.
Thur e sua mais nova garota.
50
Thur fala:
- O que quer assistir? – perguntei para Bella, que arrumava a barra do shorts de cetim prata. Ela parou de mexer nele e fixou os olhos verdes nos meus.
- Você quem sabe. – respondeu.
- O que acha de Jogo de Amor em Las Vegas? – sugeri.
- Ótimo.
Aquele era o tipo de filme que Lua encheria o saco de todos para assistir.
Merda. Ela não saía da minha cabeça.
Virei meus olhos para ver os horários das sessões e quase derrubei uma velhinha com os netos ao ver ninguém menos que Lua parada perto da bilheteria. Com Josh.
Espera aí. Desde quando ela e o aspirante a Snoppy Dog branco estavam saindo?
- Putaqueopariu. – sussurrei, pegando Bella pelo braço e a puxando para trás de um pôster gigante do High School Musical.
- Ai, Thur! O que foi que te deu? – ela perguntou, se soltando das minhas mãos.
- Hum... – tentei pensar em alguma maneira de sair dali, mas quanto mais Lua se aproximava, mais Bella tentava sair de trás do pôster, então a única coisa que consegui improvisar foi: - Não consigo esperar até o filme!
E a beijei.
Até aí, meu plano estava correndo bem. Depois que Lua saísse dali, iria com Bella para seu apartamento, alegando não estar com vontade de assistir ao filme, e não teria que ver o casal de pombinhos e nem pensar nos dois juntos. Sabe como é, era meio difícil agir como amigo com Lua enquanto ela estava abraçadinha com um cover de Eminem. E, bem, depois que Bob Williams dissera que colocaria uma música nossa nas rádios, eu realmente pensei que a sorte estaria ao meu lado.
Mas vi que não.
Não quando se tratava de Lua Blanco.
E percebi isso depois que Bella meio que se impolgou com o beijo e derrubou o pôster gigante do High School Musical bem em cima de nós dois.
- Merda! – ela exclamou, embaixo do plástico.
- Meu Deus, vocês estão bem? – um segurança perguntou, tirando o pôster de nós dois. Olhei para o lado e Lua observava a cena curiosa. Mas ela ainda não tinha me visto, então eu pulei para trás do segurança e ele exclamou: - Menino, o que você está fazendo?
- Nada, finja que eu não estou aqui! – pedi, segurando na sua cintura e indo de um lado para o outro com ele como escudo para que Lua não me visse.
- Thur, você pirou ou o quê? – Bella perguntou, aflita. Me puxou pelos braços e o segurança me olhou com raiva. Olhei novamente para o lado e fechei os olhos com raiva ao perceber que Lua já me vira. Bati com a mão na testa e bufei. – Desculpe, senhor, ele está meio estranho hoje, não sei o que é.
- Tudo bem. Só não derrubem outros pôsters. – ele respondeu, indo para longe com o restos mortais de Zac Affron nos braços.
Lua se dirigia à fila de sessão abraçada com Josh, mas não pude deixar de notar que ela olhou por entre os ombros para mim, corando e virando o rosto quando seus olhos se cruzaram com os meus.
- Vamos comprar os ingressos, Thur, antes que você bote fogo em alguma coisa! – Bella exclamou, e alguns minutos depois estávamos acomodados na última fileira do cinema. E dela eu podia ver Lua e Josh abraçados, exatamente na minha frente. “Olhe para trás, béstie.” mandei uma mensagem no seu celular. Ela recebeu alguns segundos depois e riu baixinho, para Josh não perceber. Depois olhou para trás pelo braço dele que a envolvia e piscou para mim, ao ver que Bella procurava alguma coisa na bolsa. Depois, senti meu celular vibrar.
“Acho que nem querendo conseguimos ficar separados, eim, bff?”
Sorri.
“Era de se esperar que você fosse assistir Sorte de Amor em Las Vegas. É a sua cara.” respondi. Ela esperou um pouco para ler, porque Josh falava com ela, mas então o filme começou e ele começou a prestar atenção. Ela abaixou os olhos para o celular e me respondeu.
“A sua também.”
“Bom, parece que finalmente temos algo em comum.”
Lua recebeu a mensagem e começou a responder. Depois apagou. E escreveu de novo. Apagou novamente, revirou o celular nos dedos e olhou um pouco para o filme. Josh, ao seu lado, morria de rir, e nem percebia que Lua trocava mensagens com alguém. Bella fora ao banheiro e ainda não retornara, então não tinha com o quê me preocupar.
Lua pegou novamente o celular. Digitou algo nele e ficou observando o que tinha escrito. E com um impulso, enviou.
Segurei o ar nos pulmões. Segundos pareciam eternidades. Mas finalmente a mensagem chegou.
“Sinto sua falta. Desculpe por não ter acreditado em você.”
Lua fala:
Pode-se descobrir muitas coisas no cinema. Idéias novas, culturas novas, línguas novas e até mesmo pessoas novas. Mas acho que aquela foi a primeira vez que eu descobri algo sobre mim.
Na verdade, naquele dia no cinema, eu descobri três coisas.
Primeira: o quanto eu era fraca. Sabe como é, com todo aquele negócio de jurar se afastar de Thur e na prática não cumprir isso. Ou pelo menos foi o que eu pensei que estava fazendo mandando uma mensagem daquelas para ele, depois de praticamente ter mandando ele ir passear por algo que, desde o início, eu soube que ele não fez.
Segunda: eu simplesmente não conseguia ficar longe dele. Claro, fisicamente, era fácil ficar longe. Mas em pensamentos, em palavras, em ações?
Aí já era outra história.
Terceira: não era tão fácil assim ter o perdão de Thur.
Pelo menos foi o que eu percebi quando li sua resposta.
“Também sinto sua falta. Demais. Chega a doer, Luinha, doer de tal maneira que eu nem sei mais o que é real. Mas desculpas não são boas o suficiente. Eu não posso simplesmente te perdoar. Porque você me magoou muito.”
“Thur, eu sei, você tem todo o direito de estar magoado. Nós terminamos porque eu não te tratei direito e eu sei muito bem disso. A culpa foi minha, toda minha. Mas, por favor, não mude comigo. Eu não sei se consigo ficar longe de você, do seu jeito, das suas palavras, por muito tempo.” respondi, olhando de tempos em tempos para ver se Josh estava me olhando. Mas ele estava tão interessado no filme que nem percebeu algo de estranho.
“Acho que você já percebeu que nem tentando conseguimos mudar um com o outro. Eu sou louco por você, Lua Blanco!” ele respondeu, e meu coração acelerou ao ler isso.
“Eu também sou louca por você, Arthur Aguiar!”
Nós poderíamos ter trocado mensagens até o final do filme. Se a bateria do meu celular não tivesse acabado. Olhei para o filme e pensei seriamente em olhar para trás. Mas não consegui. Não depois de ter me mostrado a mulher mais fraca da face da Terra.
“Assisti” o filme com o pensamento na pessoa localizada atrás de mim. Josh finalmente me beijou – não que eu não estivesse rezando para que ele não tentasse, mas ajoelhou tem que rezar – e mesmo assim meus pensamentos não saíram do cara na poltrona acima de mim.
O filme acabou e a única coisa que eu me lembrava dele eram imagens borradas de Thur e de tudo que vivemos juntos.
E claro, a luta com pães.
Ela foi hilária.
Saímos do cinema e eu ainda não pude olhar para trás. Somente quando entramos no restaurante italiano que Josh havia me levado para comer, foi que consegui olhar para outro lado que não fosse para frente. E Thur não estava lá.
Continua.....
Créditos: Raíssa


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