61
Thur fala:
Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos quando comecei a ouvir barulhinhos irritantes na minha janela. Abri as pálpebras e esperei um pouco. Eles cessaram. Voltei a fechá-las. E como naqueles desenhos animados chatos, no momento que isso aconteceu, os barulhos começaram de novo.
- Porra... – sussurrei, me apoiando nos cotovelos. Olhei para a janela sonolento e a luz do poste a iluminava, deixando minha visão ofuscada. Levantei-me e calcei meus chinelos no chão. Arrastei-me até a janela e a abri. – Quem é o filho da p... – ia dizendo, mas parei, quando meus olhos desfocados se encontraram com os olhos chorosos que me encaravam lá embaixo. – Luinha!?
- Thur...? – ela soluçou baixinho e eu me apoiei na batente da janela.
- Espera aí. – sussurrei, entendendo que ela precisava de mim. – Estou descendo.
Ela concordou fraquinha com a cabeça e continuou a soluçar.
Entrei em meu quarto, coloquei a primeira camiseta que achei, um moletom velho e enfiei meias em meus pés, logo depois os calçando nos chinelos. Desci as escadas correndo e sem fazer barulho, e quando apareci na porta, Lua estava agachada perto dela, chorando sem parar.
Eu nunca tinha a visto daquele jeito. Suas mãos estavam enfiadas no couro cabeludo e seus soluços eram baixinhos mas mortais.
Meu coração parou de bater na mesma hora.
- Luinha, o que aconteceu? – perguntei, correndo até ela, que se limitou a continuar chorando. Agachei-me ao seu lado e envolvi meus braços em sua cintura. Ela amoleceu e tombou a cabeça em mim. – Luinha, você tá me assustando! O que aconteceu?
Seu rosto estava inchado e seus olhos vermelhos. Sua boca tremia e as lágrimas corriam rapidamente por seu rosto, se dissolvendo em seus lábios vermelhos.
- Meu pai... Voltando... Ryan... – ela murmurou, entre espasmos do corpo. Passei os dedos por entre seus cabelos e não disse nada, com medo de dizer algo que piorasse a situação.
O negócio é que eu era bem resolvido com a minha família. Nunca tivera problemas e sempre fora muito amado – fora algumas briguinhas particulares – por meus pais. Eles não tinham problemas entre eles, sempre comemoravam suas bodas em um restaurante japonês nojento – que eu não sei como até hoje nunca foram intoxicados – e assistiam a Tv juntos.
Sabe como é, o que todo casal depois dos 40 anos se limita a fazer.
Fechei meus olhos e enconstei minha cabeça em seus cabelos desgrenhados, respirando fundo seu perfume.
Não sei porquê, mas de repende me senti... Triste.
Triste por Lua, que estava ali, tão magoada e vulnerável.
- Sabe, quando eu era criança e meus pais brigavam comigo, a única coisa que me acalmava depois era fugir para a casa do meu amigo, Jimmy, e ficar horas e mais horas na piscina, boiando e pensando na vida. – confidenciei e ela, que fungou no meu peito. Não sei porquê disse aquilo, mas queria de algum jeito acalmá-la.
Ficamos um pouco em silêncio, ouvindo o som dos grilos misturado ao som de seu choro magoado. Então ela balançou os cabelos e levantou a cabeça para mim, piscando seus grandes olhos vermelhos e me encarando.
- Vamos fazer isso. – ela disse, fungando. – Vamos fazer isso! – repetiu, agora mais animada, se levantando em um salto.
- Isso o quê? – perguntei, me levantando também. Lua passou a mão por entre os cabelos, jogando-os para trás, e respondeu:
- Nadar. Na piscina de alguém!
- Luinha, ninguém vai querer deixar nós entrarmos na piscina às 2 da madrugada e... – eu ia dizendo, quando algo me atingiu em cheio. – É! – exclamei, já a agarrando pela mão e a arrastando pela rua. – Vamos fazer isso!
Então ela sorriu pela primeira vez, fazendo meus lábios se curvarem juntos, involuntariamente. E acho que pela primeira vez na vida eu me senti feliz em ser acordado no meio da madrugada.
Lua fala:
Thur me puxou pela rua deserta, banhada pela luz cintilante da lua, até uma casa grande, amarela e com aspecto de abandonada. Seu portão de madeira estava fechado e a grama crescia sem qualquer tipo de refreamento. Todas as janelas e portas da casa estavam fechadas e emboloradas, dando à casa um ar de mal-assombrada.
Tudo o que eu queria.
Atravessamos a espessa grama e fomos até o portão, que estava emperrado. Thur o forçou e ele se abriu com facilidade. Passamos pelo corredor úmido e chegamos ao quintal da casa, que era composto por um jardim muito bonito e uma piscina redonda. O jardim estava muito bem cuidado e a piscina mais ainda, e eu achei estranho, porque todo o resto da casa parecia estar ali, fechada e abandonada, por, pelo menos, uns 10 anos.
- Eu sempre venho aqui quando quero ficar sozinho. – Thur disse, jogando os cabelos para trás e sorrindo vagamente. – Quando nós terminamos eu vinha aqui praticamente todos os dias.
- Não sabia que você mexia com plantas. – deixei escapar. Thur riu baixinho e se aproximou de minhas costas, me envolvendo pela cintura. Encostou o queixo no topo na minha cabeça e ficou admirando o jardim comigo.
- Eu também não. – ele admitiu, com um tom de voz calmo e doce que me fez esquecer porquê estávamos ali.
Mas ele logo me lembrou, quando começou a tirar o moletom de qualquer jeito pela cabeça.
- Acho que isso não foi uma boa idéia. – disse, mordendo o lábio inferior. Porque visto daquele ponto de vista, realmente não era uma boa idéia. Primeiro porque fazia frio, segundo porque eu estava usando sutiã de florzinhas e calcinha de ursinho e terceiro porque não sei se ver Thur sem roupa seria um bom calmante.
Como se eu não soubesse que me acalmar era a última coisa que aquela visão me faria.
- Foi sim. Você vai ver. – ele disse, já tirando as calças, ficando só de boxers. Sem querer – ou será que não? – meus olhos fizeram todo o contorno do seu corpo. Então, sem pensar duas vezes, comecei a tirar minha roupa, ficando só de calcinha e sutiã. – Gostei da calcinha. – ele brincou e eu mostrei o dedo do meio para ele.
- No três? – perguntei, me posicionando ao seu lado na beirada da piscina.
- No já. – ele respondeu. – Um, dois, três e...
- JÁ! – gritamos ao mesmo tempo, pulando na piscina.
Ao cair na piscina, a água gelada invadiu meus sentidos como se fosse mil agulhas perfurando meu corpo. Meus olhos se fecharam e eu forcei meu punho, sentindo um frio quente por todos os meus membros. Pensei seriamente que estava morta. Bati os braços algumas vezes e emergi. Ao chegar à superfície, Thur já estava lá, com uma cara engraçada de dor misturada com alegria. A mesma cara que eu suspeitei que estivesse.
- Putaqueopariu, que frio da porra! – eu exclamei, nadando até ele, que gargalhou e me abraçou pela cintura por debaixo d'água. – Já reparou que nós geralmente nos encontramos quando está frio e envolve água nisso?
- Acho que alguém lá em cima não quer que nós façamos besteira. – Thur sugeriu.
- Provalmente... – eu concordei, encostando meu nariz gelado em sua bochecha mais gelada ainda. Nós ficamos um pouco em silêncio, de olhos fechados, com a água tão fria que parecia cortar. E aquilo realmente me acalmou, porque eu meio que esqueci de tudo e só fiquei ali, sentindo o corpo de Thur junto ao meu e a água gelada paralisando meu cérebro.
Ele andou devagar até a borda da piscina, me levando junto. Apoiou-se lá e eu o abracei, encostando minha bochecha em seu ombro.
- Não precisa se procupar com nada, Luinha. – ele sussurrou no meu ouvido, fazendo um arrepio gostoso percorrer todo o meu corpo. Apertei os olhos já fechados e me apertei mais a ele. – Eu sempre vou estar ao seu lado, não importa o que acontecer. Ninguém vai te magoar e sair impune disso.
- Obrigada, Thur. – sussurrei em resposta.
- Pelo o quê? – ele perguntou, curioso.
- Por ser meu príncipe encantado. – respondi.
62
Thur fala:
- Hum, Luinha, não acha melhor voltar para casa? – perguntei, depois do longo silêncio que fizemos. Lua estava deitada ao meu lado olhando para o céu escuro e tenebroso. E eu já estava ficando congelado por ficar ali só de boxers, deitado na grama úmida e com o vento batendo na minha pele molhada. – Sua mãe deve estar preocupada.
Ela suspirou e virou o rosto para mim, ficando na altura do meu ombro. Virei também e ela me olhou com aqueles olhões grandes de bebê no fundo da minha alma.
É, dude, quando eu digo que aquela garota era influente, não estou mentindo.
- Eu não quero voltar para casa. – murmurou, como uma criancinha mimada. – Vai ser muito doloroso.
- Tudo bem, então vamos ficar mais um pouco aqui. – sugeri, passando as mãos por meus braços, tentando aquecê-los.
- Mas você está congelando! – ela exclamou, dando um beijo em meu ombro. – Vem, vamos para sua casa. – disse, se levantando e me estendendo a mão. – Eu ligo pra Mel ou pra alguma das meninas e fico na casa delas...
- Não. – eu disse, me levantando também. – Você fica lá em casa.
- Ah, claro, e você acha que seus amigos não vão perceber nada entre a gente? – ela perguntou, colocando a camiseta por cima do sutiã molhado. – “Hey gente, a Luinha veio chorar no meu ombro e agora ela vai dormir no sofá!”
Não seria bem no sofá...
- Nada a ver. De manhã eu explico o que aconteceu. Não precisa se preocupar, eles ainda vão achar que nós nos odiamos. – a acalmei.
- Mesmo...? – ela perguntou, piscando os cílios de um jeito surpreendentemente sexy. Fiz uma careta para ela daquele jeito que as mães fazem para os nenês quando eles peidam pela primeira vez e apertei sua bochecha.
- Claro que sim, coisa fofa!
- Obrigada. – ela disse, envolvendo os braços na minha cintura e afundando a cabeça no meu peito. Achei aquilo engraçado, mas não comentei nada. Sabe como é, a menina estava mal e eu ia ficar zoando ela, tipo: “HAHAHA, SUA CRIANCINHA!”. Então só fiquei ali, parado.
Eu não era a melhor pessoa para os outros se consolarem, mas por ela eu estava tentando.
- Então vamos? – perguntei, quando ela levantou a cabeça.
- Vamos.
Andamos abraçados pela rua deserta pulando as lindas no chão. De vez em quando, Lua pulava errado e eu dava um cascudo em sua cabeça. Quando eu errava ela me dava uma mordida na bochecha. Bem aquelas brincadeiras daqueles casais gays que eu sempre achei ridículas.
Agora eu sabia porque eles faziam aquilo. E eu estava fazendo igual.
Merda.
- Ah, esqueci de te contar! Enquanto vocês estavam fofocando na sua casa depois da festa, nós, homens, machos dominantes, os fodões, os...
- Pára de chatice! – ela exclamou, entortando o nariz.
- Então, nós, os fodas, - ela me olhou bravinha e eu ri – ligamos para uma casa na Argentina que os donos alugam na alta temporada e nós vamos esquiar!
- Mas Chay não queria ir pra Suíça? – ela perguntou.
- Em julho na Suíça é tipo, quente. – respondi, não tendo muita certeza daquilo.
- Quem disse? – ela perguntou, e eu senti que ela também não sabia a resposta.
- Ah, sei lá, só sei que na Argentina é frio e é pra lá que nós vamos! – respondi, e ela gargalhou.
- Sabia que era só procurar no Google, né?
- Ah, foda-se. – disse, entortando a boca.
- Ok, então, Argentina, aí vamos nós!
Continuamos conversando e andando, até meu celular – que eu nem sei como tinha ido parar na minha calça – começou a vibrar.
- Espera aí. – pedi, tirando o aparelho do bolso. Nem vi quem era e antendi. – Alô?
- E aí, Thur, como vai o passeio noturno? – uma voz chiada a anasalada perguntou.
- Quem tá falando? – perguntei, apreensivo, parando de andar. Fiquei preocupado, não por mim, mas por Lua estar comigo. A voz do outro lado ficou em silêncio. – Quem tá falando, PORRA!? – gritei a última palavra, e isso fez ela ficar de frente para mim e gesticular perguntando o que estava acontecendo.
- Não precisa se preocupar, Thur. Eu não vou fazer nada com você. Nem com sua namorada, se é isso que você tem medo. – a voz riu, ironicamente.
- O que você quer? – perguntei, me aproximando de Lua e segurando sua mão.
- Nada, quero saber como você está. Tudo bem com você?
- Caralho, dá pra parar com isso? – pedi, virando os olhos. – Por que você tá me perseguindo? Quem é você? O que eu fiz pra você?
- Dicas só no blog meu querido, só no blog...
- Então eu vou desligar.
- Se você desligar eu vou tirar uma foto de vocês agora e postar amanhã no blog.
Comecei a olhar em volta. Quem morava por ali?
A pessoa só podia estar me observando de 6 casas, que era o número de casas na rua. Na primeira moravam um casal e dois filhos pequenos. Descartada. Na segundava, morava uma senhora e seus 20 gatos. Descartada. Na terceira morava... Quem morava na terceira? Apertei os olhos, tentando me lembrar. E foi quando me atingiu em cheio. Marcus! Marcus morava naquela casa!
- Então, diz aí, você está me perseguindo porque é apaixonada ou apaixonado por mim, ou algo assim? – perguntei. Lua arqueou a sobrancelha.
- Pode ser que sim, pode ser que não... – a voz respondeu, rindo.
- Sabe que o Harry é bem mais bonito do que eu. Sabe, com toda aquela pinta de lord inglês... – disse, e a voz riu.
- Todos vocês são bonitos.
Olhei mais uma vez em volta. Na quarta casa morava um cara separado e sozinho. Descartada. Na quinta casa morava um casal com três filhos pequenos também. Descartada. Na sexta casa morava um casal com dois filhos adolescêntes. E um deles eram John.
“Merda!” pensei.
Agora, qual dos dois seria?
- E então, Thur, como é ser famoso?
- E porque isso te interessa? – perguntei, procurando algum vulto nas janelas das duas casas ou qualquer coisa parecida. Nada. Dava voltas em mim mesmo e Lua me olhava com curiosidade. – Você é algum tipo de maníaco obssessivo que tem inveja do sucesso dos outros?
Ela continuava a ouvir a conversa completamente pasma.
Tudo bem, estávamos molhados e eu falava como um louco – com um louco – ao celular no meio de uma rua vazia.
Era compreensivo...
- Não, nada disso, eu só quero saber... Mas você sabe que se não descobrir quem eu sou até o final do ano, vai ter que aproveitar muito sua fama agora, porque depois, bye bye amigos, bye bye namorada e bye bye fama!
- Vai se foder. – murmurei, me segurando para não gritar. – Seu viado, por que você não mostra a cara e me encara como homem!
- E quem disse que eu sou homem? – a voz perguntou, rindo novamente.
- O mesmo serve se você for mulher. – respondi, ficando cada vez mais bravo.
- Bom, Thur, foi ótimo conversar com você. – ele/ela disse, todo animadinho/a – Tenha um bom resto de noite com a sua amante. Só espero que Bella não descubra! Beijos, meu lindão!
E delisgou.
Estendi o braço e fiquei olhando com cara de idiota para o celular, tentando descobrir quem seria. Mas fui interrompido por Lua.
- O que aconteceu?
- É uma longa história. – disse, tentando fugir do assunto.
- Eu tenho todo o tempo do mundo. – ela respondeu.
63
Lua fala:
- Então ele ou ela disse que vai tirar tudo que você tem se você não descobrir até o final do ano quem ele ou ela é? – perguntei, recapitulando na minha cabeça tudo que Thur havia contando.
- É. Basicamente.
- E como ele ou ela pretende fazer isso?
- Não sei. – ele respondeu, parando quando chegamos à sua casa. Apoiou-se no muro da casa do vizinho e eu parei na sua frente. – Mas não sei se posso me dar o luxo de não acreditar. Eu não quero perder tudo que tenho. – então ele se virou e me olhou no fundo da alma, com aquele sorrisinho torto que eu já disse milhões de vezes que amava. Talvez ele lesse mentes e soubesse daquilo, porque era só ele sorrir daquele jeito que eu quase me desmanchava na sua frente.
- Você não vai perder tudo o que você tem. – eu disse, sorrindo para ele.
- Eu... – ele começou a dizer, mas parou.
- Fala, Thur. – pedi, e ele balançou a cabeça.
- Quando eu era menor, meu pai costumava dizer que tudo que um homem conquistava em muitos anos, poderia perder em alguns segundos. E isso meio que entrou na minha cabeça. E eu realmente estou com medo de perder meus amigos, perder o que eu amo fazer, que é a música, e perder você, Luinha. – ele parou e eu me aproximei dele, segurando sua mão. – Porque nós dois sempre nos gostamos, mas só agora eu tenho você, mesmo que esse ter seja um meio ter, mas eu sei que tenho você. Eu sei que você me ama o tanto que eu te amo, e que não é pouco. Então eu não sei se suportaria te perder. Te perder pra sempre.
- Thur! – exclamei, bagunçando seus cabelos. – Isso não vai acontecer! Seus amigos te amam, a música é seu dom, e fama já está começando a te perseguir e eu...? – ele levantou a cabeça das nossas mãos entrelaçadas. – Eu sempre vou estar com você. Mesmo que for em pensamente. Porque você pode ter certeza que sempre que pensar em mim eu vou estar pensando em você.
Ele sorriu e eu sorri junto. Uma brisa gelada bateu e eu me arrepiei.
- Vem, vamos entrar. – ele sugeriu, se desencostando do muro e me puxando pela mão. – Você se incomoda de dormir na minha cama?
- Não. Mas e você, vai dormir aonde? – perguntei, estranhando. Ele soltou umar gargalhada anasalada e respondeu:
- Na minha cama.
- E sua cama é de...? – perguntei.
- Casal. – ele respondeu, e eu suspire aliviada. – Não precisa se preocupar, eu não vou abusar de você nem nada.
Não que eu não quisesse.
- Espero que esteja falando a verdade.
- Crianças não mentem. – ele respondeu, abrindo a porta com cuidado. Entramos e ele pediu silêncio, levando o dedo indicador aos lábios. Obedeci e nós subimos lentamente até seu quarto. Ele fechou a porta com cuidado e sussurrou:
- Pega uma camiseta aí, prometo que não olho.
Dei um tapinha na sua testa e olhei em volta. Reparei que era a primeira vez que entrava no quarto de Thur.
Ele era incrivelmente e totalmente bagunçado. Havia meias por todo lado e pôsters apinhados nas paredes. Em cima da escrivaninha, um computador, milhões de revistas, o material da escola e alguns livros alheios. Pelo chão, figurinhas, garrafas de cerveja e muitas manchas no carpete. Manchas e furos de cigarro. As portas e gavetas do armário marrom escuro estavam abertas e roupas eram praticamente expulsas de lá. Na sua janela, vários adesivos, um mais idiota que o outro. E em uma das paredes, alguns rabiscos.
Mas sua cama era, de longe, o pior do quarto.
Seu edredom estava todo embolado e amassado. O travesseiro estava no chão. Debaixo do colchão saíam revistas – de mulher pelada. Eca. – e mais meias. E algumas cuecas. E ao lado da cama, seu violão e baixo estavam descansando em pedestais. Um amplificador estava ao lado e, debaixo da cama, uma monstruosidade de coisas estavam acumuladas, e eu fiquei com medo de saber o que exatamente.
- Meu Deus. – foi a única coisa que eu consegui dizer.
- Está meio bagunçado, eu sei... – ele disse, tirando o moletom úmido.
Meio?
- Você consegue mesmo dormir aqui? – perguntei, pulando algumas meias e garrafas de cerveja para chegar ao seu armário. Ele jogou o moletom junto com a camiseta no chão – e que barriga era aquela? – e respondeu, indiferente:
- Claro. É só fechar os olhos.
Agachei-me em frente ao armário e fucei em sua gaveta, procurando a maior camiseta possível. Achei uma vermelha gigante e mandei ele olhar para o outro lado. Ele me obedeceu e eu tirei minha blusa e camiseta rapidamente, colocando a dele por cima. Nem sei porquê para falar a verdade. Ele já havia me visto várias vezes – ok, duas – de calcinha e sutiã.
Mas sei lá, era diferente.
Ah, foda-se. Eu era estranha.
Tirei minha calça e a sua camiseta bateu um pouco acima do meu joelho. Virei-me para Thur e ele já estava na cama, olhando para o teto. Pulei mais algumas nojeiras do chão e me joguei ao seu lado. Ele passou o braço por debaixo do meu pescoço e nós ficamos olhando para umas estrelas brilhates que estavam coladas no seu teto.
- Você é realmente louco por estrelas. – eu disse. Ele murmurou alguma coisa em resposta, com a voz sonolenta. Fechei meus olhos, tentando não me lembrar do assunto pai-voltando-com-irmão e relaxei em seu braço. Thur se remexeu ao meu lado e puxou o edredom até nossos pescoços. Depois se virou de lado e passou o braço na minha barriga. Virei-me de lado e coloquei meu braço em cima do seu.
- Thur? – chamei.
- Hmmm? – ele murmurou, quase dormindo.
- Nós precisamos limpar seu quarto.
Mais tarde. Ou mais cedo. Quem se importa?
Abri os olhos sem vontade. A claridade que entrava pela janela me fez fechá-los novamente. Virei-me de lado e senti um frio estranho nas pernas. Lembrei-me que usava só uma camiseta de Thur, então abri os olhos novamente, preguiçosamente, e dei de cara com uma foto dele com uma senhora sorridente de um lado e um senhor divertido do outro. Olhei em volta para ver se estava sozinha no quarto. Positivo. Dobrei-me toda para pegar o porta-retratos e o trouxe para junto dos meus olhos. Segurava-o em cima da cabeça e analisava as três pessoas na foto. Eles pareciam felizes. Uma família feliz. E eu subitamente fiquei com a estranha sensação de... Inveja.
Eu também queria uma família feliz.
Abracei a foto e apertei as pálpebras.
- Mas ela vai, tipo, morar aqui? – ouvi a voz abafada de Micael perguntar. Coloquei a foto de volta no criado-mudo e me virei de lado, fingindo estar dormindo. – Por mim tudo bem, eu não sou de recusar mulher bonita e essas coisas, mas... – a porta fez um clic e sua voz ficou mais nítida. – Onde ela vai dormir?
- Hoje ela dormiu na minha cama e eu dormi no sofá... – Thur respondeu.
Ah, que mentirinha mais inocente!
- É, mas você não pode dormir no sofá pra sempre. E se ela resolver ficar um ano por aqui!? – foi a vez de Chay dar sua opinião sobre a garota semi-nua que dormia na cama ali, na frente deles.
No caso, eu.
- Ela pode dormir no quarto de visitas. – Harry sugeriu.
- E quem vai tirar todo o lixo de lá? – Micael perguntou.
- Qual é, dudes, isso não é um problema. Em meia hora a gente faz isso! – Thur parecia aborrecido.
- Eu tenho medo do que vou encontrar lá... – Chay sussurrou mais para ele mesmo do que para os outros, mas como estava mais perto da cama, eu ouvi. E me segurei para não rir.
- Nossa, Aguiar, quem vê pensa que você tá doidinho para ter uma nova moradora em casa! – Harry ironizou.
- Claro, meu sonho de consumo!
Segurei o riso mais uma vez.
- Ok, quem vai acordar ela? – Micael perguntou.
- Eu que não. Ouvi dizer que as mulheres são assustadoras quando acordam... – Chay sussurrou, receoso, fazendo Harry rir.
- Claro, elas acordam com vontade de comer tripas! – disse, e eu ouvi um barulho oco do soco que Chay deu em seu braço.
- Parem com isso, suas bixonas! – Thur pediu, sentando-se na cama. – Lua. Ow, Lua. – ele me empurrava para frente e para trás, e eu comecei todo meu teatro. Deitei-me de barriga para cima, abri um olho só e me espreguicei. Depois abri o outro e olhei para Thur, que tinha um sorriso adorável estampando dos lábios.
- O que foi, Aguiar? – perguntei, puxando o edredom para cima, cobrindo minhas pernas. Micael entortou a boca e Chay pareceu desapontado. Harry riu da reação dos meninos.
- É assim que você me trata depois que eu acordo no meio da madrugada pra te ajudar? – ele perguntou, trocando olhares subentendidos comigo. – Ok, Blanco, deixa você...
- Não, desculpe... – pedi, e os outros abriram discretamente a boca. Thur me olhou curioso e eu completei: - Se sou tão chata assim, Aguiar, mas quem mandou você ser um babaca que realmente acorda de madrugada quando alguém chama?
Os meninos suspiraram, aliviados.
Depois eram as garotas que adoravam uma fofoca.
Hum...
- Hum, Luinha, o que exatamente aconteceu? – Harry perguntou, sentando-se ao lado de Thur e de frente para mim. – Pra você estar dormindo na cama do Thur e tals...
- Ah. – deixei escapar, e abaixei os olhos. Não sei se estava preparada para falar.
- É porque ela não vive sem mim. Vocês já deveriam saber disso... – Thur me ajudou. Os meninos riram e eu sorri, agradecida.
- Claro, e meu nome é Avagina! – disse, e eles riram mais ainda.
- Bom, Avagina, o que você quer de café-da-manhã? – Micael perguntou.
- Sei lá. Eu tenho medo de comer alguma coisa por aqui. – respondi, me levantando e colocando uma boxer de Thur que eu puxei de uma gaveta aberta. – Vai que eu morro...
Eles não responderam nada. Estavam muito mais ocupados em me observar. Harry com a sobrancelha levantada, Chay com a testa franzida, Micael com a boca torta e Thur com um olhar de bravo.
Ahhh, ele estava com ciúmes!
Que coisa mais fofa!
E gay.
- O quê? – perguntei, tentando parecer inocente.
- Coloca uma roupa, menina. – Micael exclamou, pegando minha calça no chão e jogando em cima de mim. – Não tem dó dos seus amigos comprometidos?
- Ah, vão se foder. As minhas amigas são tão gostosas como eu! – respondi, tirando a boxer e enfiando minha calça nas pernas.
- É, mas elas não estão aqui agora... – Harry respondeu.
- Você é um ótimo namorado, Judd. – Thur disse, irritado. Levantou-se e olhou para a janela, como sempre com as mãos nos bolsos, sua marca registrada ao ficar nervoso.
- Hey, eu até dei uma aliança para a Michele! – ele exclamou, não percebendo que Thur estava bravo e com ciúmes.
Como ele poderia saber?
- Hum, meninos, vocês não tem um show às 16h? Porque, sabe como é, já são 14:38h. – disse, tentando mudar de assunto.
- Táqueopariu! – Micael exclamou. – O show!
- Ai meu Deus! – foi a vez de Harry parecer uma garotinha ao acabar de ouvir que o RBD acabou [N/A: HAHAHAHA, não resisti!]. – O show!
- Run, Harry, run! – Chay gritou, empurrando-o porta afora. Micael foi correndo atrás e quase caiu no meio do caminho. Thur assistia a cena se divertindo, mas quando nós dois ficamos sozinhos no quarto, ele não conseguiu dizer nada.
- Aaah, vai me dizer que ficou com ciúmes, Aguiar! – eu disse, ficando de frente para ele, que virou o rosto como uma criança mimada. – Pára com isso, são seus amigos, e eles namoram minhas amigas! – pedi, passando o dedo pela gola da sua camiseta. Ele me pegou pela cintura e disse, ainda como uma criança mimada:
- Estão namorando mas não estão mortos. E já assistiram filmes pornôs o suficiente para imaginar muita coisa ao ver uma garota de boxers.
- Pára com isso, seu bobo! – pedi, juntando meu corpo ao dele, para ver se com isso ele parava com aquele ciúmes sem noção. E meio que funcionou – ah, a sedução feminina e todas essas merdas – porque ele deixou escapar um sorriso e virou os olhos. Aproveitei para empurrá-lo para dentro do banheiro. – Agora anda logo, que você tem um show para fazer hoje!
Ele entrou e tirou a camiseta, deixando seu abdômem amostra.
Ai, que homem!
Ok, isso ficou meio minha-mãe-suspirando-pelo-Bono-Vox.
Mas, quer saber?
Foda-se.
- Hey, hey, hey! – ele exclamou, me puxando pelo braço quando eu tentei sair do banheiro. Virei-me e ele veio todo cheio de manha. – Não ganho um beijo de bom dia?
- Que bom dia o que, Thur! Já são quase 15h! – respondi, fazendo doce. – E eu não posso ficar pelos cantos te beijando. E se algum dos meninos descobrir? Nós estamos ferr...
Mas meu discurso ético foi meio que boicotado por seus lábios, que se juntaram aos meus com uma certa urgência.
Thur me beijou com tanta intensidade que eu tive que me apoiar na batente da porta para não cair.
Sabe como é, um beijo pode fazer isso com você.
Ele enfiou as duas mãos no meu cabelo e me forçou na batente, encaixando as duas pernas no meio das minhas, subindo o corpo pelo meu quando o beijo começou a esquentar. Sua respiração estava muito ofegante e ele me beijava com força.
- Thur!? – Micael gritou lá de baixo, nos atrapalhando. Separei-me na mesma hora e Thur balançou a cabeça, saindo do banheiro às pressas, sem olhar para trás.
Achei estranho, mas não questionei. Meu coração ainda estava acelerado daquele beijo que demos.
E que beijo.
- Que é? – ele gritou de volta, na porta do quarto.
- Chay grampeou o dedo. – Micael respondeu, e eu comecei a rir do banheiro. E ri mais ainda ao ouvir Micael completar: - De novo.
Thur virou os olhos, como se aquilo acontecesse todos os dias, e começou a sair pela porta. Mas eu o impedi, correndo até ele e o pegando pelo braço.
- Não, deixa. Eu vou. – disse, fazendo ele se virar para mim. – Vai se arrumar, eu tiro o grampo do dedo do Chay.
Thur me olhou de um jeito esquisito.
Mas eu também estava com aquele olhar estampado no rosto. Eu não conseguia ler sua expressão, como consegui tantas outras vezes, e ele não conseguia ler a minha.
Era tudo muito esquisito. O cotidiano dos meninos, o jeito como eles se conheciam tão bem, a cumplicidade deles e tudo o mais.
Mas, acima de tudo, achei muito estranho aquele beijo.
Porque ele não era um beijo comum, onde rolaria no máximo um amasso com umas mãos bobas.
Não.
Aquele fora um beijo com muito mais do que isso.
E eu achei aquilo estranho. Muito estranho.
E parece que Thur também tinha achado, porque continuou me olhando esquisito e respondeu:
- Ok.
Só isso.
Então eu saí do banheiro e ele entrou, fechando a porta atrás de si.
Fiquei encarando o chão.
Muito esquisito...
64
Thur fala:
“Merda, Thur! Ela dorme em casa um dia e você já está pensando nessas coisas?” eu pensava comigo mesmo embaixo do chuveiro, me esfregando com muita força. A água quente levava pelo ralo a ardência da minha pele, mas não os pensamentos. Não. Eles ainda giravam pela minha cabeça, junto com o beijo.
E que beijo!
Eu jurei a mim mesmo. Sabe como é. “Não vá tentar fazer nada, Aguiar, ela só está passando por alguns problemas e logo vai embora. Mesmo se quisesse, não teria cabeça para isso!”. Mas não, eu com meus pensamentos nefastos e Thur Jr. com a sua... Hum... Vontade, tínhamos que estragar tudo!
Será que ela tinha percebido?
E se percebeu, será que sabia que fora só um impulso?
Ah, Aguiar, seu pervetido!
- “She's got a lip ring and five colours in her hair! Not into fashion but I love the clothes she wears! Her tattoo's always hidden by her underwear, but she don't care!” (Ela tem um piercing no lábio e cinco cores no cabelo! Não dentro da moda, mas eu amo as roupas que ela usa! A tatoo dela sempre escondida pela calcinha, ela não liga!). – ouvi algumas vozes distantes cantarem. Apurei os ouvidos e permaneci em silêncio. – “Everybody wants to know her name! I threw a house party and she came! Everyone asked me: Who the hell is she? That weirdo with five colours in her hair!” (Todos querem saber seu nome! Eu a convidei para uma festa e ela veio! Todos me perguntaram: Quem diabos é ela? Aquela estranha com cinco cores no cabelo!).
“Mas que merda é essa?”, pensei, desligando o chuveiro para ouvir melhor.
- “She's just a loner with a sexy atittude! I'd like to phone her cos she puts me in the mood! The rumours spreading that she cooks in the nude! She don't care, she don't care!” (Ela é apenas uma solitária com uma atitude sexy! Eu gostaria de telefonar para ela, porque ela me deixa de bom humor! Tem boatos que ela cozinha pelada! Ela não liga, ela não liga!). - fiquei ouvindo mais um pouco e finalmente tive a brilhante idéia de sair do box. Enrolei uma toalha no quadril e abri a porta do banheiro, deixando o vapor escapar e ouvindo as vozes femininas mais nitidamente. Andei devagar até a janela, como se aquilo fosse algum tipo de ataque extraterrestre, e ao chegar lá, abri minha boca.
Não era um ataque extraterrestre.
Era bem mais estranho.
Ali, paradas no meu jardim, umas 30 meninas berravam Five Colours In Her Hair, gritavam nossos nomes e arrancavam pedaço dos guys que estavam lá no meio, tentando dar autógrafos.
Não que eles não estivessem gostando.
Coloquei a roupa que tinha separado para o show, tentei secar meu cabelo com a toalha – em vão, pois ele continuou pingando – e desci as escadas correndo, parando para respirar ao chegar na porta de entrada. Lua estava lá, e, quando as meninas me perceberam parado ali, ela se curvou como se tirasse um fiapo da camiseta e sussurrou:
- Boa sorte.
E logo depois sua voz doce e calma foi substituída por gritos e choros na minha mente. Pisquei os olhos algumas vezes e, quando dei por mim, estava no meio das meninas, assinando papéis, E.P's, fotos, camisetas, tênis e, hum, sutiãs. Meninas me puxavam por todos os lados e os barulhos de fotos tiradas estouravam em volta de mim. Tentei sorrir, mas deconfio que minha cara tenha ficado mais ou menos: 'Putaqueopariu, o que tá acontecendo?'.
- Mas que porra é essa? - perguntei, quando a maré de meninas me arrastaram para perto de Harry. Ele sorriu meio torto, com duas fãs – hots, diga-se de passagem – nas braços e respondeu, baixinho:
- Acho que alguém espalhou por aí onde nós moramos!
- Sério!? Nem tinha percebido! - respondi, e ele me mostrou o dedo do meio, voltando a atenção a duas – não as que estavam agarradas a ele, mas outras duas – meninas que queriam tirar uma foto beijando a bochecha dele dos dois lados.
Dei mais alguns autógfrafos e tirei mais algumas fotos e Micael veio até mim pela maré.
- Thur...! - ele arfou, com uma menina meio... Avantajada, agarrada a ele. - Eu sou forte... Mas... Nem tanto... - ele ia parando para respirar, enquanto a menina se apoiava cada vez mais nele. - Me salva...!
Mas nem foi preciso pedir. Ao me ver, a menina deu um urro, largou Micael e veio se atirar em mim. Ele suspirou aliviado e foi atender algumas fãs de uns 10 anos no máximo, que queriam porque queriam um beijo dele.
Aaah, esse Micael Pedófilo Borges.
Ficamos ali por uns 15 minutos, atendendo todas as fãs e tentando não dar muuuuita atenção para uma ou outra que, bem, poderia ser resumida em uma palavra: Hot!
O que foi recompensado, pois quando Mel, Michele e Sophia encostaram com o carro de Mel na porta de casa, nós estávamos conversando com algumas meninas que podiam ser resumidas em duas palavras: Nada hot.
- Bom, meninas, agora nós realmente temos que ir! - Harry gritou mais alto que os gritos das meninas, olhando para o relógio e para a cara deMichele, que não era a das melhores.
Elas murmuraram um “Aaaaaaah!” e começaram a desgrudar de nós, lentamente.
- É, nós temos um show e se não corrermos, ele vai começar sem a gente! - Chay completou, e elas riram. - Então, vocês vão estar lá?
“Siiiim!”.
Ótimo, quanto mais fãs, mais grana.
Não vou ser hipócrita. Desde que Five Colours começou a circular nas rádios e nós começamos a dar shows mais grandes, nossas contas estavam um pouco mais... Cheias.
Um pouco? Meu pai havia me ligado para perguntar se eu estava roubando bancos ou algo do tipo!
- Até lá então! - Micael exclamou, seguindo Harry até o conversível vermelho. Eu e Chay fomos atrás e subimos no carro. Esperamos Lua caminhar calmamente – como se algumas fãs lunáticas não estivessem nos observando e prontas para dar o bote – até o carro das meninas, esperamos elas bateram as portas com força – ciúmes? - e esperamos elas saírem disparadas pela rua, para, finalmente, sair da garagem.
As fãs nos seguiram com o olhar e Chay e Micael gritaram um animado:
- Tchaaaaau!
E o imbecil do Chay completou:
- Voltem sempre!
- Cala boca, Suede! - Harry exclamou, dando um tapa na cabeça dele. - Seu jumento! Elas podem realmente achar que nós queremos serenatas em plena luz do dia!
- Certo, qual dos dois retardados mentais contou para alguma fã aonde nós moramos? - perguntei, me virando para trás para encarar Chay e Micael.
- Hey! Por que o Judd não pode ter contado? - Micael perguntou, fazendo bico igualzinho uma criancinha.
- É, por que o Harry não pode ter contado!? - Chay repetiu, imitando o gesto do amigo.
- Porque o Harry não tem problemas mentais como vocês dois! - respondi, e eles riram.
- Eu não disse nada a ninguém. Nem minha mãe sabe aonde eu moro... - Chay respondeu, virando os olhos e passando a mão pelos cabelos molhados, tentando colocá-los no lugar.
- Eu não disse nada. Eu nem sei o nome da nossa rua! - Micael disse. - Qual é?
- Meu Deus, dude, morre! - eu respondi, me sentando direito. Olhei para Harry, que dirigia sem olhar para a rua, e sim para o retrovisor, e perguntei:
- E você, mocinha, disse alguma coisa?
- Bem... - ele suspirou. - Eu posso ter dito alguma coisa...
- AHÁ! - Chay e Micael comemoraram, batendo as mãos a gritando “Hi-Five!”.
- Como assim pode ter dito alguma coisa? - perguntei, arqueando a sobrancelha. Harry suspirou e respondeu:
- Bem, eu posso ter dito alguma coisa para aquela mocinha que me vendeu a aliança... Qual era o nome dela? Sue? Sandra? Samantha?
- Suzannah, seu imbecil. - respondi, dando um tapa na minha própria testa. - Você achou mesmo que ela não iria espalhar a informação!?
- Qual é, Aguiar, nós nem éramos famosos! - ele respondeu, olhando para mim e deixando o carro balançar um pouco.
- Falou aí, sr. Eu Sou Famoso! - respondi, dando um soco de leve no seu ombro.
- Agora fodeu. Nós vamos ter que trocar de casa, de país e quem sabe mudar para a Lua! - Micael disse do banco de trás. Eu e Chay olhamos para ele, que fez uma cara de: “O quê? Que que eu fiz?”, e nós dois demos um tapa na sua cabeça quase ao mesmo tempo.
- Bom, acho que nossa maior preocupação agora não são as fãs lunáticas, e sim as nossas... - Harry começou a dizer.
- Namoradas! - Chay, Micael e Harry exclamaram juntos, se lembrando repentimante delas.
Eu olhei para o outro lado e desconfio que fiz a mesma cara de desesperado que eles estavam fazendo.
65
Lua fala:
- Filhos da puta. - Mel exclamou, enfiando um Cd do Simple Plan de qualquer jeito no rádio do carro. - São uns cafajestes que não podem ver uma bunda!
- E peitos! - Michele completou, passando gloss enfurecidamente na boca. - Vocês viram a cara de feliz que eles estavam fazendo!? Viram!?
- São uns... Uns... Aaaah, uns desgraçados, cuzões e escrotos! - Sophia disse, com muita raiva, apertando a bolsa contra o corpo. - Nem sei como nós podemos namorar uns losers como eles!
- Veados... - Mel sussurrou, apertando o volante.
- Gente, calma! - eu pedi, tentando não rir da situação. - Não foram eles que chamaram as fãs ali! Elas simplesmente apareceram!
- Como você sabe? - Michele perguntou.
- E o quê você estava fazendo lá, por falar nisso!? - Sophia perguntou também, cuspindo as palavras.
- Bom, isso não vem ao caso... - eu respondi, fechando os olhos.
Depois de todo aquele rolo, tinha até me esquecido de o porquê eu estava ali. Mas a imagem do meu pai voltando com meu irmão veio a tona, e eu me senti tonta. Mas antes que alguma delas pudesse perceber alguma coisa, eu abri os olhos e continuei: - Mas eu estava ali quando elas chegaram, e sei que nenhum deles as chamou ali!
Elas ficaram em silêncio.
- Qual é, meninas, agora eles estão ficando famosos, eles vão ter fãs grudadas aos pés 26 horas por dia. Vocês, como namoradas, têm que entender isso! E dar apoio! Não soltar vespas pela boca cada vez que alguma menina se aproximar deles!
- Falar é fácil, Luinha. Mas você não namora algum deles para saber. - Michele disse. - Nem ao menos gosta de algum deles, para saber como é ruim!
Bom, tecnicamente...
- Ah, parem com isso! Eles amam vocês! - murmurei, tentando fugir do assunto Lua-não-ama-ninguém.
- Amam, até alguma fã mais gostosa aparecer. - Mel suspirou, um pouco mais calma.
- Relaxem, meus amores. Daqui há uma semana e seis dias nós vamos para a Argentina esquiar e tudo vai ficar bem! - eu tentei acalmá-las.
- Argetina!? - elas exclamaram juntas.
- Era pra ser uma surpresa, então quando eles falarem, finjam estarem surpresas. - respondi, e elas deram alguns gritinhos abafados.
- Argentina! Ai, que sonho! - Sophia suspirou.
- E o que aconteceu com a Suíça? - Mel perguntou.
- Ah, não sei... - respondi, com medo de parecer uma idiota completa por não saber se em julho era frio na Suíça. - Eles acharam melhor Argentina. E eu também acho. Os argentinos são uns gatos!
- Isso é verdade... - Michele pareceu desanimada. - Mas o que nós podemos fazer com um bando de argentinos gatos e nossos namorados!?
- E é por isso que eu estou solteira! - respondi.
Bom, tecnicamente...
- ARGENTINA! - nós quatro gritamos ao mesmo tempo, e caímos na risada, esquecendo um pouco a raiva que estávamos sentindo dos guys.
Porque sim, eu também estava com um pouco de ciúmes.
Mas só um pouco.
Fomos rindo até o local do show, e, quando entramos no backstage, eles já haviam entrado no palco. As meninas iam à loucura e nós assistíamos ao show com os olhos brilhantes ao ver nossos homens ali, todos fofinhos, famosos e desejados.
NOT!
Quando o show acabou, eles saíram pelas laterais e deram de cara com a gente. E parece que todo o discurso “Não liguem para as fãs, eles amam vocês!” que eu tinha dado mais cedo não adiantara nada, por que elas olharam para eles com raiva e caminharam em silêncio ao camarim. Os meninos se cutucavam e as meninas se entreolhavam. Mais atrás, eu e Thur nos olhávamos e tentávamos não rir, o que estava sendo um desafio e tanto.
- McFLY! - umas fãs que já esperavam no camarim gritaram quando eles entraram. As meninas me olharam com raiva e eu sussurrei nas costas deChay, antes de ele ir falar com as fãs:
- Nós vamos para a casa da Michele, vou dormir lá hoje. Amanhã nos falamos na escola.
Chay se virou, me deu um beijo na bochecha e sussurrou de volta:
- Me salva. Não quero perder a namorada!
Sorri para ele e me virei, saindo pela porta. Mas antes de sair, joguei um beijo no ar para Thur, quando ninguém olhava. Ele pegou o beijo no ar e guardou no bolso. Mandou outro e eu guardei no decote – porque eu havia me trocado no carro. Nunca que eu iria de calça jeans e camiseta em um show daqueles.
Eu andava com losers, mas continuava louca por maquiagem como sempre.
Bom, só sei que eu não iria dormir na casa deles porque não sei se conseguiria depois daquele beijo de mais cedo. Sabe como é, dormir ao lado deThur não seria a melhor idéia.
Mas eu teria que voltar para lá de qualquer jeito. Não poderia ficar na casa de Michele para sempre. E nem voltaria para minha própria casa tão cedo.
Então eu era, definitivamente, o quinto elemento na casa dos meninos.
Só restava saber se isso era bom ou ruim.
66
Thur fala:
- Por que elas foram pra casa da Michele? E por que elas nem falaram com a gente? – Micael perguntou, quando Chay passou o recado para nós.
- Porque acho que tinha umas 3 fãs agarrando você essa hora. – Chay respondeu.
- Putaqueopariu, brincou, né? Elas estão com ciúmes mesmo!? – Harry perguntou, dando ênfase à última palavra e passando a mão nervosamente pela cabeça.
- Acho que sim. Pela cara que elas fizeram ao sair daqui... - Chay respondeu.
- E agora? O que a gente faz? - Micael perguntou.
- Sei lá, vamos voltar para casa e pedir uma pizza. - eu sugeri. Chay deu um tapa na minha cabeça e disse:
- Vamos atrás delas!
- É, vamos atrás delas! - Micael repetiu o que Chay disse.
- Porque você repetiu exatamente a mesma coisa que Chay disse? - perguntei, achando graça. Micael mostrou o dedo do meio para mim e nós começamos a sair do camarim. Ao passar pela porta dos fundos rumo ao nosso conversível, algumas meninas atrás de grades de segurança gritavam nossos nomes.
- Oi, olá! E aí!? - nós íamos dizendo pelo caminho.
- Meu Deus, eu ainda vou ser assassinado por uma fã! - Harry reclamou, disparando com o carro. Chegamos até a rua de Michele e paramos em frente. O carro de Mel já estava lá. A luz do seu quarto estava acesa e quatro vultos dançavam. Saímos do conversível e ficamos observando as silhuetas. Até que elas abriram a porta de correr da sacada e saíram. Nos agachamos atrás do carro e ficamos sentados ali, ouvindo a música Hot ‘N Cold da Katy Perry sair das caixas de som e as risadas abafadas das meninas.
Uma picape com uns oito caras socados dentro passou ali e eles começaram a mexer com as meninas:
- Vem dançar assim na minha cama! - um deles gritou, e a voz de Michele respondeu:
- Vai se foder, seu animal!
O carro começou a diminuir a velocidade e um deles nos percebeu ali, gritando para as meninas:
- Acho que vocês têm mais interessados do que prevêm.
- Vão embora, parem de enxer o saco. - Mel gritou.
O carro passou e nós nos entreolhamos.
- Eu preciso ver isso. - Chay foi a primeiro a se pronunciar, num sussurro desesperado, quando as risadas das meninas recomeçaram. - Elas estão de pijamas. Curtinhos. Dude, eu preciso ver isso. Sério.
- Cala boca, Chay, vocês já... - Harry disse, entortando a cabeça. - Você sabe.
- E por isso eu não posso olhar minha namorada semi-nua? - ele perguntou, irônico.
- Ok, o Harry olha pelo canto da direita, o Chay olha pelo canto da esquerda e o Micael olha por cima. - sugeri.
- E você? - Micael perguntou, sorrindo maliciosamente. - Eu sei que você tá louco pra dar uma espiada na Luinha.
Sorri e entortei a boca.
- Ok, eu olho com você.
E foi por isso que quatro marmanjos estavam atrás de um conversível vermelho, se escondendo o máximo possível para observar quatro meninas dançarem semi-nuas na sacada da casa de uma delas ao som de Hot ‘N Cold.
- Puta merda... - Micael sussurrou, ao ver Mel levantar a perna na grade da sacada e subir a mão do calcanhar até a coxa. - Por que, Deus, por quê?
- Aaaaah muleque! - Chay comemorou, ao ver Sophia levantar a barra da blusa do pijama. - Se isso é um sonho não me diz que eu tô sonhando!
- Nossa... - Harry sussurrou, quando Michele desceu até o chão. - Nossa. - foi a única coisa que parecia conseguir pronunciar.
Eu estava me divertindo com os comentários dos guys. Na verdade, não prestava muita atenção nas meninas que dançavam na sacada, e sim nos olhares fixos e apaixonados dos meus amigos. Mas então comecei a me entediar e decidi olhar para elas.
Sabe como é. Cabeça vazia, oficina do diabo.
Virei meu rosto para a sacada e meio que percebi porque eles estavam tão fixados. Logo que meus olhos alcançaram as meninas, procurei Lua entre elas, e a vi na ponta esquerda.
Ela usava um pijama muito curto – tipo aqueles com um shorts que mais parece uma calcinha e uma blusinha de alcinha agarrada ao corpo, revelando todas as curvas – listrado de azul escuro e vermelho, e seus longos cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo alto. Segurava um controle remoto na mão direita e dançava e cantava junto com a música. Seus cabelos iam de um lado para o outro e ela sorria, como eu não a via sorrir desde que descobriu que seu pai estava voltando.
E a simples visão dela ali, sorrindo, ganhou meu dia. Como se ela fosse algum tipo de droga, e toda vez que eu a via, a sensação de bem estar me dominava.
Eu agarrei a borda do carro e me deixei levar por sua felicidade naquele momento. Seus olhos, ora fechados ora abertos, dançavam junto com a música, e seu corpo se movia com uma delicadeza incomparável, mas, ao mesmo tempo, com agressividade. As meninas ao seu lado também eram lindas, mas nada, absolutamente nada, poderia se comparar a Lua.
E ela era minha. Só minha e de mais ninguém.
Agradeci baixinho por aquilo.
- O quê? - Micael perguntou ao meu lado, provavelmente ouvindo meus agradecimentos.
- Hã? - perguntei, finalmente conseguindo desviar o olhar de Lua.
E de suas pernas.
- O que você disse? - ele repetiu a pergunta.
- Eu? Nada. - respondi, voltando a olhar para ela, que agora dançava com Mel.
- Hum. - Micael murmurou, e fez o mesmo.
Perdi a conta de quanto tempo ficamos ali. Para mim, pareceu uma eternidade e ao mesmo tempo passou tão rápido. Quando Harry nos tirou do transe, eu havia perdido completamente a noção de tempo e espaço.
- Ok, vamos até lá. Eu não posso ficar brigado com... - ele olhou para Michele com uma expressão de dor no rosto e terminou: - Ela.
Dei uma olhadela rápido para Michele e tive de concordar.
Nem eu poderia.
Mas ninguém precisava saber daquilo.
- É, vamos logo. - Chay concordou.
- Você vem, Thur? - Micael perguntou, se lembrando de mim repentinamente.
- E-eu. - eu nem sei porque gaguejei, mas depois de ficar tanto tempo observando Lua eu meio que esqueci como se falava. - Vou. - disse, por fim.
É, dude, eu sou uma bixona.
- Então vamos logo! - Harry pediu, com certa urgência na voz.
Fomos nos esgueirando pelo jardim e nenhuma delas nos percebeu ali. Pelo menos eu acho que não. Bom, só sei que chegamos na porta de Michele intactos.
Tocamos a campanhia.
Silêncio. O som parou de tocar e as risadas cessaram, dando lugar aos cochichos.
- Será que são eles? - ouvi Sophia perguntar com um sussurro.
- Claro que sim, sua inútil, olha lá o carro do Harry! – Michele, a fina flor da grossura, respondeu.
- Ah, merda, será que eles nos viram dançando!? - foi a vez de Mel perguntar, apreensiva.
- Vamos parar com a sessão interrogatório e descer logo? - Lua respondeu com uma pergunta.
Mais silêncio.
Na porta, os meninos estavam nervosos, e eu sentia cada vez mais vontade de rir, apertando meus lábios para não fazê-lo.
Por mais que fosse trágica, a situação meio que era engraçada. Porque, porra, será que elas pensavam mesmo que nós não estávamos ouvindo?
De repente, os toc toc's de passos descendo as escadas pareciam cada vez mais nítidos, e os dudes estavam cada vez mais... Verdes?
Vultos pararam atrás da porta de vidro e começaram a sussurrar, como se nós fóssemos surdos.
- Vai você. - Mel sussurrou, nervosa.
- Por que eu? - Michele perguntou.
- Porque você é a dona da casa! - Sophia respondeu por Mel.
- Ai meu Deus, deixa que eu vou! - clic, a porta se abriu. E eu senti meus olhos entraram em foco novamente. - Oi, meninos. Pois não?
- Hum, nós... Nós... - Chay gaguejou, e Sophia riu, deixando ele mudo de vez.
- Nós viemos falar com as nossas namoradas. - Harry disse por ele, e Lua sorriu, envergonhada. - E com você Luinha, é claro.
- Bem, as meninas... - ela tentou responder, mas foi cortada pela voz ácida de Mel, ainda atrás da porta:
- Pergunta se eles cansaram das fãs.
- É, deve ser por isso que estão aqui. - Michele concordou.
Lua nos olhou novamente, envergonhada, e deixou escapar um sorriso cúmplice ao me ver. Eu, como estava atrás de todos os guys, sorri de volta, e ela voltou a fitá-los.
- Bem, as meninas, hum, não querem ver vocês. – disse, como se fosse preciso.
- Pergunta para elas se todo esse ciúmes é realmente necessário. - Micael pediu, parecendo entediado.
- É, qual é, são só algumas fãs. É o nosso trabalho a partir de agora, elas tem que superar isso! - Chay sussurrou para Lua, com medo de queSophia ouvisse.
- Hum, meninas, eles, hum, querem saber se todo esse ciúmes é necessário. - Lua perguntou, enfiando a cara de volta para dentro. A cada segundo que passava, a situação ficava mais tensa e mais engraçada.
- Claro que é! Se eles ficassem de boa com as fãs seria uma coisa... - Mel respondeu, com a voz suficientemente alta para que todos nós ouvíssemos.
- Agora ficar se esfregando nelas é outra! - Michele completou o argumento de Mel.
- Bom meninos, elas... - Lua tentou dizer, já ficando vermelha pela confusão.
- Diz para elas que ninguém ficou se esfregando com ninguém e que elas são umas inseguras! - Harry reclamou.
- É, menin... - Lua tentou dizer novamente, mas elas já gritavam de volta:
- Diz para eles que nós vimos os olhos deles brilharem quando as fãs chegaram com os seus grandes decotes e toooodo seu amor para dar! - Sophia disse, irônica.
- É, e diz para eles que nós... - Mel ia dizendo quando Lua, visivelmente alterada, escancarou a porta e gritou:
- DIGAM VOCÊS MESMOS! PELO AMOR DE DEUS! EU NÃO SOU POMBO CORREIO!
E eu não consegui mais conter o riso. Comecei a gargalhar ali mesmo, ignorando a situação crítica em que nos encontrávamos. Lua, depois de respirar fundo algumas vezes, também não conseguiu mais segurar e começou a rir também.
- Vocês são idiotas ou o quê? - Michele perguntou, irritada.
- Nós podemos entrar para tirar essa história a limpo de uma vez por todas? - Harry pediu, segurando o braço de Michele. Ela tirou a mão dele de seu braço e elas – menos Lua – gritaram em uníssono:
- NÃO!
E um barulhão de porta batendo demonstrou que, bem, elas não queriam nos ver nem pintados de ouro.
67
Lua fala:
- Na na na na na na na! – eu cantei, jogando a escova de cabelos para Mel, que a pegou no ar e cantou nela, como se fosse um microfone:
- I wanna start a fight! (Eu quero começar uma briga.). – cantou, jogando a escova para Sophia.
- Na na na na na na na! – ela cantou, assim como eu, e jogou a escova para Michele.
- I wanna start a fight! (Eu quero começar uma briga.). – berrou, jogando a escova no chão como aqueles jogadores de futebol americano bombadões e pulando em cima da cama.
- So so what? I'm still a rock star, I got my rock moves, and I don't need you! And guess what? I'm having more fun, and now that we're done, I'm gonna show you tonight! (Então, e daí? Eu ainda sou uma estrela do rock, eu tenho meus movimentos roqueiros e eu não preciso de você! E adivinhe só? Eu estou me divertindo mais e agora que acabamos, eu vou te mostrar essa noite!). – cantamos, gritando e pulando em cima da cama. - I'm alright! I'm just fine! And you're a tool! So so what? I am a rockstar, I got my rock moves, and I don't want you tonight! (Eu estou bem! Muito bem! E você é um idiota! Então, e daí? Eu sou uma estrela do rock, eu tenho meus movimentos roqueiros e eu não te quero essa noite!).
Então pulamos do colchão, caindo uma em cima da outra de qualquer jeito no carpete antiquado e cinza da casa de Michele. Mas eu não ligava, a casa de Michele era tão aconchegante que o carpete cinza quase não me incomodava.
Exceto em situações como aquelas, onde nós nos jogávamos nele.
- Na na na na na na na! – Mel cantou de novo.
- Eles merecem morrer. – Michele brincou, passando a mão no pescoço como se fosse uma faca.
- Na na na na na na na! – eu cantei novamente.
- Chay, vai se foder! – Sophia terminou, e nós recomeçamos a rir histericamente.
Sete horas da manhã e nós já estávamos hiperativas, por fazer um dia lindo e por faltar somente uma semana e cinco dias para as férias.
Ou talvez fosse todo o chocolate e Coca-Cola que tomamos no dia anterior.
Vai saber...
- Sai de cima de mim, Lua, você tá amassando meu uniforme! – Mel pediu, me empurrando longe. Ficou de pé prontamente e arrumou a saia com as mãos, se analisando no espelho. – Como ele pode trocar tuuudo isso por umas fãs idiotas? – perguntou, seguindo o corpo com a mão.
- Eu também trocaria. – brinquei, e recebi um chute na perna. – Ai, sua vaca!
- Isso foi por me chamar de feia! – ela respondeu.
- Vamos logo? Daqui a pouco nem na segunda aula a gente entra! – Michele nos apressou, como sempre a estraga prazeres.
- Vamos lá Dalai Lama, hoje é um ótimo dia para matar aula! – Sophia brincou, bagunçando os cabelos muito bem penteados de Michele. Ela fechou a cara e caminhou ao espelho, alisando os fios que saíram do lugar. - Nããão, nada a ver! Hoje a gente tem prova de Álgebra! – eu as lembrei. – Aliás, hoje começa a semana de provas!
- PORRA! – Michele exclamou, saindo de frente do espelho e correndo pelo quarto como uma barata tonta, pegando todo o material que estava jogado pelo chão. – Porra, porra, porra, eu me esqueci completamente!
- Ah, merda, vamos ter que ir à aula... – Sophia resmungou, pegando sua mochila que estava em cima da cama. – E ainda por cima temos prova. Que dia mais feliz!
- Vai, vamos logo, a prova é na quinta aula. – eu disse, jogando minha mala nos ombros. – Ainda dá tempo de pegar a segunda.
- Logo hoje que eu pensei que ficaria deitada no parque, olhando as nuvens... – Mel reclamou, ligando o computador.
- O que você está fazendo? – perguntei, estranhando. – Nós estamos atrasadas!
- Nunca se está atrasada para o Conte Seu Babado, baby. – ela me esclareceu. – Nunca se sabe quando nós vamos estar lá.
Pois é. Nunca se sabe quando nós vamos estar lá.
De pijama.
Dançando.
Na varanda.
Porra!
Embaixo, o famoso post.
“Bom dia, Colégio Norbert! Como vão vocês? Eu estou com sono, a balada ontem acabou muito tarde! Mas fora isso...
Pois é, semana de provas, ralação. Sentar a bunda na cadeira e estudar. Ou no caso das nossas amiguinhas da foto, dançar semi-nuas na varanda.
Aliás, por falar em diversão, eu estou doido(a) pra me deitar na grama verde e molhada do parque e observar as nuvens com uma garrafa de Jack Daniels. Quem está comigo?
Mas, bom, enquanto isso não acontece, Álgebra, aí vamos nós!
Vou falar um pouco da foto.
Ou a foto falar por si só?
Lua, Mel, Michele e Sophia dançando Hot ‘N Cold. Sim, tarados de plantão, se vocês não viram, perderam. Eu vi. HÁ!
Vi e tirei essa foto maravilhosa.
Mas sabe quem também estava por lá?
Como sempre, seus fiéis escudeiros, Aguiar, Judd, Borges e Suede!
Espiando sabe quem?
Dou um beijo pra quem acertar!
Bom, por hoje é isso. Meninos, não usem muito essa foto para brincar de cinco contra um, e, meninas, não falem tanto sobre os defeitos dessas pobres coitadas que estão morrendo de ciúmes dos namorados, cof cof.
Ah, agora um recadinho especial!
Pista 2 – Quando voltar da Argentina, estará mais próximo de saber quem eu realmente sou! Mas não pense que se livrará de mim por lá. Eu estarei na sua cola!
Um beijão pra todos vocês e até a prova!”
- Ótimo. Agora ele sabe que nós vamos para a Argentina! – Michele exclamou, esfiando o dedo no botão e desligando o computador. – Simplesmente ótimo.
- Aaaaah, eu ainda mato essa ou esse filho da puta! – Mel resmungou. – E eu ainda estou com o meu pijama de vaquinha!
- Por que, Deus, por que nós? – Sophia perguntou, pegando a mochila no chão. – Por que não todas as vacas do nosso colégio!?
- Inveja, baby, inveja... – respondi, repetindo o gesto. – Mas anda, vamos logo, temos muitos comentários maldosos para responder hoje.
- E ainda por cima tem prova! – Mel nos lembrou, virando os olhos.
- Bem, vamos nessa então!? – Michele disse, nos apressando pela décima quinta vez.
E algumas ruas depois, estávamos estacionando no colégio.
- Bom dia, meninas! A noite foi boa, eim? – um gorducho do primeiro ano disse, piscando para nós e entrando na escola.
- Eca. – foi a única coisa que eu consegui pronunciar.
- Esse com certeza fez vocês-sabem-o-quê com a nossa foto. – Mel riu, virando os olhos.
- O quê? – Michele perguntou, distraída. Depois de alguns risinhos nossos, quando ela finalmente processou a informação, exclamou, fazendo uma careta: - Eca... ECA! Às sete horas da manhã?
- Não se pode esperar mais nada desses meninos do primeiro ano... – Sophia respondeu com um jeito teatral, rindo e virando os olhos.
- História, aí vamos nós! – eu brinquei, abrindo a porta da nossa sala. A professora-cara-de-coruja anotou nossos nomes e fomos nos sentar. Ficamos a aula inteira babando no fichário e ficaríamos a terceira e a quarta também, se a prova não tivesse sido transferida para aquele horário.
- Merda pra vocês. – Michele nos desejou, assim que pegou sua prova.
Mas nós não precisaríamos de boa sorte, e sim de uma bela cola dela.
Ela era boa em matemática, Mel em biologia, Sophia em geografia e eu em história. De resto, éramos todas boas. E nas que não éramos, tínhamos umas às outras para passar cola.
Quem foi que disse que quem cola não sai da escola?
“Eu colo sim, e tô vivendo. Tem muita gente que não cola e tá morrendo!”
A prova passou rápido e nós acabamos quase ao mesmo tempo.
- Olha só se não são as dançarinas! – umas meninas do terceiro ano zoaram quando nós passamos por elas.
- Pelo menos eu não transo com o professor de Educação Física. – eu disse, mostrando o dedo para todas elas que, bem, corriam os boatos que eram as bonequinhas infláveis do professor do terceiro ano de educação física.
Eca!
- Vai se foder. – uma delas murmurou, envergonhada.
Saímos para o pátio e nos sentamos em uma mesa afastada. Conversávamos animadamente sobre o filme que estávamos esperando estreiar no cinema quando algo nos fez lembrar de o porquê estávamos tão bravas. Nós não, as meninas.
Ok, eu também estava com ciúmes. Mas ninguém precisava saber disso.
E esse algo eram os quatro meninos que tiveram total importância no ocorrido.
- Nossa. – Mel exclamou, olhando para eles, que saíam pelas portas se empurrando. – Eu tinha me esquecido que nós brigamos ontem!
- É vero! – Sophia concordou, olhando para Chay. – E agora? Damos uma trégua?
- Nem pensar! – Michele disse, virando para o outro lado. – Se eles quiserem nos ter de volta, vão ter que lamber o chão em que pisamos.
- Nós terminamos? Não sabia disso! – Sophia disse, surpresa.
- Não né, coisa burra. – Mel disse, sacando a idéia de Michele. – Nós só estamos em... Greve.
Greve.
Ótimo. Eu só poderia ficar com o Thur enquanto nós estivéssemos a sós e agora as meninas estavam em greve.
Quando eu ficaria com ele agora?
68
Thur fala:
- Não sei não, elas estão muito... Estranhas. – Chay disse, colocando a mão na frente dos olhos para se esconder do sol. – Tipo, elas estão ali, sentadas, rindo...
- E isso é estranho por...? – perguntei, rindo.
- Sei lá. Estou com um mau pressentimento. – Micael respondeu por Chay, e Harry concordou com a cabeça.
Lua fala:
- Eles estão se aproximando. E agora? – Sophia perguntou, se virando de costas para eles. – E agora, e agora? – perguntava, quicando na mesa.
- Agora fica quieta e quando eles chegarem veja e aprenda. – Michele disse, e os olhos de Mel brilharam. Eu olhei para Thur e arqueei a sobrancelha, tentando avisá-lo, mas era tarde demais, eles já haviam chegado na mesa.
Thur fala:
- Oi, meninas. – eu disse, olhando para Lua, que tentava me avisar algo com o olhar. – Como vão?
- Bem, Thur! – Michele disse, toda animadinha. Harry se sentou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, sendo logo repelido por ela. Ele piscou os olhos algumas vezes e disse:
- Bom dia para você também, Michele. – ele murmurou, áspero.
- Só se for bom pra você, Judd. – ela respondeu, se virando para ele, que arregalou os olhos, surpreso. – Porque pra mim não é.
- O que você quer dizer com isso? – ele perguntou, sem defesa.
- Nós queremos dizer, - Mel enfatizou a palavra nós e tirou os braços de Micael da sua cintura. – que... – então ela suspirou e começou com o teatro. – Borges, eu não sei porquê você finge que nada aconteceu! – ela disse entre os dentes, com raiva. – E não coloca mais a mão em mim, só quando eu achar que você merece meu perdão.
E depois disso ela saiu pelo pátio, com a cabeça baixa.
Mel sabia mesmo como atuar.
- Viu só o que você fez? – Sophia perguntou para Micael, com raiva. – Seu animal!
E foi atrás da amiga. Michele lançou um olhar raivoso para Harry e foi atrás.
Os meninos me olharam e eu dei de ombros, correndo atrás delas. Não sem antes pedir:
- Posso ficar na casa de vocês hoje?
- Pode. – Chay disse, ainda meio tonto.
Sorri e já estava quase alcançando as meninas quando Thur gritou:
- Mas avisa a sua mãe!
Virei-me nos calcanhares e o encarei.
- Senão você não fica lá em casa. – ele terminou, calmo.
Abri a boca e ele continuou com a mesma expressão de vitória no rosto.
Veado!
Thur fala:
- Ótimo, agora nós estamos sem namorada! – Micael exclamou, ainda com a boca aberta.
- E sem fãs. – Harry completou.
- Porra. – Chay suspirou, deitando na mesa. – Odeio as mulheres.
- Eu eim... – eu murmurei, me afastando de Chay, que riu e me mostrou o dedo do meio.
- Vai se foder, Aguiar. Você que tem sorte. Nenhuma namorada pra encher seu saco.
Bem que eu queria uma namorada pra encher meu saco.
Mais precisamente uma Lua para encher meu saco.
- Ok, e agora? O que nós vamos fazer? – Harry perguntou.
- Sei lá. Mas eu não vou ficar correndo atrás dela. – Micael respondeu, passando a mão pelo cabelo. – Se elas estão com esse ciúmes idiota a culpa não é nossa. E eu não vou dar o braço a torcer. Se alguém vai pedir desculpas vai ser ela.
- Sabe que não é uma má idéia? – Chay brincou, se levantando.
- É, a gente vira o jogo! – Harry riu, os olhos brilhando de expectativa, e eu virei os olhos.
- Vocês estão parecendo três velhinhas resmungonas!
- E você é o nosso prostituto! – Micael sugeriu, bagunçando meu cabelo.
- Sai de perto de mim, seu veado! – eu exclamei, pulando de cima da mesa. – Opa, acho que vocês se ferraram.
No mesmo instante que eu pulei de cima da mesa, a tiazinha-que-eu-ainda-não-sei-o-nome chegou e meio que gritou com nós quatro:
- De novo em cima de mesa, meninos? Acho que dessa vez terei de levá-los para o diretor.
Opa.
- Eu não estava não, tia. – eu disse, fazendo minha melhor cara de santinho.
Atrás dela, Chay e Micael me mostraram o dedo do meio e Harry dava tapas no ar, como se ele estivesse...
Bem, acho que você sabe, certo?
Os alunos que assistiam a cena riam sem parar, e a tiazinha se virou para ver o porquê. Chay e Micael colocaram a mão no bolso e Harry levou as mãos à cabeça.
- Então me sigam Judd, Borges e Suede.
Eles se levantaram e foram atrás dela.
- Seu filho da puta. – Chay disse no meu ouvido ao passar por mim.
- A gente vai pro buraco mas te leva junto! – Harry sussurrou, também ao passar por mim.
- Você tá fodido! – foi a vez de Micael dizer.
Eles passaram zoando-a pelas costas e eu fiquei no meu lugar, rindo.
69
Lua fala:
- Filho da mãe! – eu exclamei, virando o celular nas mãos. Estávamos no banheiro do pátio e eu meio que gritei isso, não conseguindo conter as palavras na boca. As meninas, que xingavam seus respectivos namorados, pararam de falar e me encararam. – Por que ele quer que eu ligue para ela, eim!? – completei, abrindo o celular e voltando a fechá-lo.
- Por que você não pode ligar? É a sua mãe! – Mel perguntou, curiosa. Arqueou a sobrancelha e eu joguei a cabeça para trás.
Eu a minha boca aberta.
O negócio é que eu ainda não havia contado para elas a novidade papai-voltando-com-maninho.
Suspirei e fechei os olhos, a dor de cabeça me invadindo por completo. Quando voltei a abri-los, elas me encaravam de um jeito estranho e eu não tive outra alternativa a não ser contar.
Contei tudo. Contei o que minha mãe disse, a corrida no meio da noite, Thur ter me salvado e por isso eu estava dormindo na casa deles.
Só não contei, claro, toda a parte da pegação.
Porque eu não podia. E mesmo se pudesse, ignoraria aquele parte. Porque o filho da mãe do Thur estava me fazendo ligar para minha mãe, quando o que eu mais precisava era ficar longe dela.
Sei que aquela era uma atitude que ele achava que me faria bem, mas, naquele momento, o que eu mais queria era esganá-lo por impor aquela regra.
Mas o que mais eu poderia fazer? Eu não tinha onde ficar. Ou pelo menos achei que os pais de minhas amigas ficariam incomodados em ter uma agregada à família. Com os meninos era perfeito. Eles não tinham pais para lhes dizer se aquilo era certo ou não. E, claro, eu ajudaria com as dispesas.
- Nossa... – Sophia assoviou quando eu acabei de contar a história.
- Você... Tá bem, Luinha? – Mel perguntou, envolvendo meus ombros com os braços. Balancei a cabeça e sorri.
- Não. Mas eu vou ficar.
O sinal bateu.
- Merda de intervalo curto! – Michele exclamou, guardando o gloss no bolso da saia. – Vamos? Acho melhor não chegarmos outra vez atrasadas.
Saímos do banheiro e o sol ofuscou nossos olhos. Ouvi alguns cochichos, mas pensei que fosse pela nossa foto. Mas, quando finalmente meus olhos se acostumaram com a claridade, eu quase desmaiei ali mesmo.
Thur fala:
Eu vi quando tudo aconteceu.
Eu estava sentando na mesa, conversando com uns amigos do primeiro ano, esperando o sinal bater. Tinha muito sol pra todo mundo, e eu não conseguia enxergar quase nada. Minha mão estava na frente do rosto, mas eu consegui perceber um menino que eu nunca tinha visto antes andar pelo pátio. Todos começaram a cochichar e eu pisquei os olhos algumas vezes.
O menino usava uma calça preta de sarja uns quatro números maior do que ele deveria usar. Umas correntes de prata saíam do passador de cinto e iam até o bolso, onde estavam presas a uma carteira de couro preta, toda pixada de branquinho. Por toda a extensão da calça, alguns rebites estavam presos, e até onde eu contei, ela tinha uns 5 bolsos. Nos pés, um coturno preto de couro todo arrebentado ia por cima da calça até metade da canela. Usava uma camiseta preta escrito Coca-Cola em vermelho, e as letras “escorriam” como se fossem sangue para a barra da camiseta. Seu cabelo loiro sujo era na altura das orelhas, todo pra frente e bagunçado, e uma bandana preta estilo Guns N' Roses cobria sua testa. Era bem alto e tinha um jeito de andar como se fosse superior a tudo e a todos.
Ele levava um cigarro em uma mão, e na outra trazia um pedaço de papel amassado.
Olhei bem para o garoto.
Ele parecia alguém... Mas quem?
O menino parou em frente ao banheiro feminino, leu o papel e voltou a apertá-lo na mão, como se ali estivesse escrito sua sentença de morte.
Se apoiou na parede branca e ficou esperando.
Meus amigos continuavam a conversar, mas eu já não prestava a mínima atenção neles. Eu só queria saber quem era aquele cara e o que ele estava fazendo ali.
Olhei bem. Ele tinha os mesmos olhos expressivos de... Lua!
Mas quem poderia ser?
Então um clic ecoou na minha cabeça e eu sai correndo, ignorando os chamados dos meninos da minha mesa. Cheguei perto dele, que me olhou com indiferença e voltou a tragar seu cigarro. Olhei para ele de cima a baixo e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Lua saiu do banheiro com as meninas.
Primeiro, ela colocou a mão na frente do rosto por causa do Sol. Mas depois de alguns segundos, quando a retirou da frente da testa, seus olhos pousaram no garoto apoiado na parede e ela abriu a boca.
Ele olhou para ela com uma mistura de arrependimento e dor.
E ela gaguejou:
- R... Ryan?
70
Lua fala:
“Lua, você está bem?”. “Luinha, fala alguma coisa!”. “Acho que ela vai desmaiar!”.
E eu ia desmaiar.
Desmaiar com os olhos abertos, para poder gravar bem aquele rosto. O rosto que eu nunca tinha me esquecido. Os olhos expressivos, o ar de superioridade, o jeito despojado. Tudo. Ele tinha mudado tanto, e, ao mesmo tempo, não tinha mudado nada.
Pisquei os olhos. Ele continuava lá, me olhando como se estivesse sentindo dor.
Muita dor.
Apoiei-me na parede ao meu lado, ainda sem dizer nada. Minhas pernas amoleceram e meu corpo foi ficando frio. Muito Frio. Eu poderia cair a qualquer momento.
“Me deixa passar. Sai da minha frente!” ouvi uma voz ordenar, e no instante seguinte, dois braços me seguravam pela cintura e me arrastavam para dentro da escola. As vozes de minhas amigas ficaram cada vez mais abafadas, até que não podia mais ouvi-las. Lá dentro, a escuridão tomou conta da minha visão e eu não via mais nada, só ouvia os meus passos moles e os passos firmes ao meu lado. Os braços estavam firmes na minha cintura e eu ofegava por estarem tão apertados.
- Me larga. - pedi, baixinho. Ele não obedeceu. - Me larga AGORA! - gritei, e tirei os braços da minha cintura. Parei ofegante no corredor e fiquei respirando profundamente, tentando processar tudo aquilo. Quando olhei para cima, me arrependi por ter sido tão grossa. Thur estava ali, parado, me olhando com uma mistura de dó e curiosidade. - Desculpa, Thur. Não sabia que era você. - pedi, me apoiando nos armários.
Ficamos em silêncio, absortos nos próprios pensamentos. Eu enrolava uma mecha dos cabelos nos dedos e ele fitava os tênis.
- Então. Esse é o seu irmão? - perguntou, por fim.
- Aparentemente sim. - respondi, sentindo uma pontada no peito.
Mais silêncio.
- Você... Quer ir pra casa? - sua voz atravessou minha barreira de proteção. Sorri, ainda olhando para baixo.
- Acho que sim.
E foi por isso que alguns segundos depois me vi sentada no conversível de Harry, com Harry, Chay, Micael e Thur me consolando.
- É sério, meninos. Vocês não precisavam matar aula por mim. - eu disse, pelo que parecia ser a trigésima vez.
- Relaxa, Luinha. Qualquer coisa pra matar aula! - Chay disse, piscando para mim. - E acho que quem nós queremos na escola não nos quer... - completou, com rancor.
- Esqueçam elas. Só estão com ciúmes, daqui a pouco passa... - eu suspirei, soltando meus cabelos para que pudessem voar com o vento. Thur me olhava pelo retrovisor e sorria. Sorri para ele discretamente e voltei a olhar para a estrada.
- Será que daqui uma semana e cinco dias isso passa? - Micael perguntou, colocando o óculos de sol. - Sabe como é, nós já pagamos a casa na Argentina.
- Sim. – respondi, em piloto automático. Mas minha cabeça estava bem longe das confusões amorosas de meus amigos.
Thur fala:
- É sra. Blanco, ela está aqui em casa... Não precisa se preocupar, nós vamos cuidar dela... Não, não precisa pagar nada, nós precisamos mesmo de uma menina para pôr ordem aqui!... Sim, pode deixar... Tchau. - eu falava com a mãe de Lua pelo telefone enquanto ela dormia na minha cama. Seu peito subia e descia. Subia e descia. Subia e descia.
Só Deus sabe como eu poderia ficar o resto da vida observando-a dormir.
“I girl like you it's impossible to find...”, pensei comigo mesmo. Sorri ao ver que ela sonhava. Sua boca se mexia e ela se virava na cama.
Os guys saíram para se encontrar com Fedelso e eu disse que ficaria em casa para o caso de Lua acordar. E eu queria acordá-la. Beijá-la e dizer o quanto eu a amava. Mas não conseguia. Ela estava tão linda dormindo...
Porra, até onde essa garota poderia me transformar?
- Hey, Aguiar, que tal abrir a porta de casa? - ouvi a voz de Mel gritar. Fui até a janela e as três estavam paradas, esperando. Abri-a e gritei:
- Como vocês sabem que só eu estou aqui?
- Porque acabamos de ver os ingratos dos seus amigos passarem de carro por nós. - Sophia respondeu, mostrando a língua para mim.
- Ok, tô descendo.
Desci as escadas correndo e abri a porta.
- Finalmente! - Michele exclamou, entrando sem ser convidada. - Cadê a Luinha?
- Dormindo lá em cima.
- Ótimo, porque eu acabei de ver o pai dela entrar na casa da mãe dela. - Mel respondeu.
- Como você sabe que é o pai dela? - perguntei baixinho.
- É a cara dela!
- Putaqueopariu... - eu suspirei, e elas me olharam com curiosidade. - Ok, eu posso não estar com a Luinha, - pigarreei. - mas eu me preocupo com ela. Se ela quase desmaiou ao ver o irmão, o que vai acontecer quando ela ver o pai?
- Você está certo... - Michele suspirou. - O que vamos fazer?
Olhei em volta, procurando algum tipo de inspiração. As meninas se sentaram nos sofás puídos da sala e eu continuei em pé, pensando.
O que poderíamos fazer? Não poderíamos ficar escondendo o pai dela, porque mais dia menos dia eles iam se encontrar.
Estava pensando quando meu celular começou a vibrar.
- Alô?
- Thur? - a voz de Bella chamou do outro lado.
“Ai caramba, esqueci a Bella!”, pensei, virando os olhos. As meninas conversavam entre si, então aproveitei para ir até a cozinha.
- Oi, Bella. - disse, quase como um suspiro. - E aí? Zen no Big bem?
- Estou bem. E você? - ela respondeu, cortando minha brincadeira.
- Hm... Vou bem... - respondi.
- Escuta, porque você não me ligou o fim de semana inteiro? Fiquei sabendo que você anda fazendo shows por aí e não me chamou! - ela piou do outro lado.
- Ah, sabe como é Bella, shows, fãs gritando, essas coisas. Achei que você não iria gostar... - eu respondi, me sentando na bancada.
- Claro que iria. Adoraria mostrar para todas elas que EU sou a namorada de Arthur Aguiar! - ela exclamou, e eu suspirei novamente.
- Enquanto a isso, Bella, nós precisamos conversar. Eu... - tentei dizer, mas ela me cortou.
- Claro que sim. Estou com saudades, meu pitoco! - 'Pitoco'? Alguém me mata, por favor. - Amanhã vou te buscar na escola, ok?
- Hum... Ok. - eu concordei. “Amanhã eu termino tudo com ela!”, pensei.
E é claro que nós poderíamos nos despedir antes, se é que você me entende.
“Não, Thur! Você está com a Lua agora!”, eu pensei novamente.
- Beijos, gatinho!
E delisgou.
Coloquei o celular em cima da bancada e suspirei.
Porra, até onde essa garota poderia me transformar?
Lua fala:
Acordei ainda cansada. Meus olhos pesavam e eu só pensava em voltar a dormir.
- Nem pense nisso. - ouvi a voz de Thur ordenar. Abri os olhos novamente e o vi parado ao lado da minha cama. - Você já dormiu, tipo, umas 12 horas. Já é terça-feira e você tem prova de Geografia.
- Ok, papai, pode deixar que eu vou acordar! - eu brinquei, com a voz sonolenta. Ele riu e foi até a porta, a trancando. Depois voltou para cama e se deitou ao meu lado. Aninhei-me em seu peito e ele passou os dedos pelo meu cabelo desgrenhado.
- Você não pode ficar assim. Não pode deixar eles te derrubarem. - ele sussurrou no meu ouvido. Me arrepiei inteira e fechei os olhos, sentindo seu cheiro de roupa limpa.
- O que eu posso fazer se eles já me derrubaram? - perguntei, com a boca colada na sua camiseta. Ele escorregou o corpo pela cama até nivelar nossos olhos. Então pegou meu rosto com as duas mãos e disse, sério:
- Nunca mais diga isso.
Concordei com a cabeça. Meus olhos estavam tão inxados de chorar que eu nem senti quando as lágrimas recomeçaram a escorrer.
Eu parecia uma criancinha chorando porque não tinha ganhado o brinquedo que queria de Natal.
- Nunca diga que está derrotada. Porque você não está. - ele continuou, aproximando seu rosto do meu. - Por favor, você tem que reagir. Eu não consigo te ver assim. Dói.
Então ele beijou minha testa e me abraçou.
Eu afundei minha cabeça no seu ombro e segurei o choro.
Naquele momento, abraçada com o garoto que eu amava, prometi a mim mesma que não iria mais chorar. Porque Thur não merecia aquele meu estado de espírito. Ele não merecia ficar mal por algo que estava acontecendo comigo. Ninguém merecia ficar mal por minha causa.
E, como se fosse só apertar um botão para ficar bem, desencostei minha cabeça do seu ombro, enxuguei as lágrimas e sorri, mostrando todos os dentes.
Por dentro eu estava um lixo, mas por fora eu tinha mesmo que reagir. Tinha que mostrar a todos que nada poderia me abalar.
- Tudo bem. - eu disse, e ele sorriu torto, sem mostrar os dentes, do jeito que eu amava. - Você está certo. Eu... Eu não vou mais ficar mal por quem não merece. Eles foram embora e me deixaram para trás. E se agora me querem de volta, estão muito enganados se acham que vão ter.
Thur abriu mais o sorriso, agora mostrando os dentes tortinhos de baixo, o que me fez querer beijá-lo.
E, bem, se você está na cama do seu namorado, geralmente é o que você faz.
Claro, tirando aquela “outra” coisa.
Mas isso não vem ao caso.
Me ajoelhei na cama e ele fez o mesmo. Então me inclinei e deixei meus lábios inxados encontrarem os dele, que me pegou pela cintura e me puxou para mais perto. Mas eu meio que me impolguei e soltei o peso do corpo em Thur, que não estava preparado para aquilo.
Então nós dois caímos da cama, fazendo o maior barulho.
Olhei para ele assustada e, no instante seguinte, os dois estavam um com a mão na boca do outro, se segurando para não rir alto.
- Hey, o que está acontecendo aí dentro? - Chay perguntou, do lado de fora da porta, com a voz sonolenta. Thur estava se segurando tanto que colocou a mão na barriga e apoiou a cabeça no chão, deixando a risada escapar. Depois disso, eu comecei a rir muito alto, junto com ele. - Que porra vocês estão fazendo aí? Querem acordar a casa inteira?
- HAHAHAHAHA. Não, Chay, HAHAHAHA, não é nada, HAHAHAHA. É que Thur, HAHAHAHA, caiu da cama! HAHAHAHAHAHAHA! - eu disse, não me segurando de tanto rir. Caí por cima de Thur, que não conseguia falar direito, arfando.
- Ah, que graça. Se foderam, porque o Harry acordou e vocês sabem como ele é quando é acordado. Hm, oi Harry.
- Dá pros dois pararem de rir QUE EU QUERO DORMIR!? - Harry gritou, o que nos fez rir mais ainda.
- Porra, que horas são? - ouvi a voz de Micael se juntar aos outros dois lá fora. Thur olhou para mim com lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos.
- Por que estamos rindo mesmo? - perguntei, ofegando.
- Não sei!
E voltamos a rir.
- Porra. - Harry disse do lado de fora. - Já tá na hora de ir pra escola.
- Thur, seu veado, você me paga! - Chay exclamou, e ouvimos os passos se afastarem pelo corredor.
- Vai... - Thur ofegou, finalmente conseguindo parar de rir. - Vai se trocar, pelo amor de Deus, antes que eu tenha um infarto!
Levantei-me, peguei o uniforme e fui até o banheiro. Lá chegando, lavei o rosto e me olhei no espelho. Apertei meu estômago dolorido de tanto rir e fechei a expressão.
Até quando poderia mentir que estava bem?
71
Thu fala:
Terça-feira passou. Quarta-feira também. Quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta e sexta. Todos os dias foram quase os mesmos.
As provas ocupavam todo o nosso tempo. E, em nosso tempo livre, os meninos eram basicamente ignorados pelas namoradas e eu e Lua mantínhamos nosso relacionamento entre quatro paredes.
As do meu quarto, para ser mais exato.
Lá dentro, nós podiamos fazer tudo que desse na telha.
Bem, exceto o que eu realmente queria, mas não vamos falar sobre isso.
Lua dormia no quarto de visitas – que foi devidamente limpo por nós quatro – e, no meio da noite, sempre dava uma escapulida para ir ao meu quarto. [N/A: Calma Katy, isso não foi inspirado em você. Cof cof.].
Tínhamos mais ou menos duas horas juntos por dia. Ou por madrugada. Porque fora do quarto, e pelo resto das horas, éramos amigos de oi e tchau.
Amigos não, no máximo colegas. Mas os olhares trocados por nós dois durante o dia compensavam tudo.
Bella? Não tinha terminado com ela, embora Lua achasse que sim.
Mas, porra, eu não conseguia! Ela simplesmente fazia todas as chantagens emocionais do mundo! E eu? Caía em todas.
É, Aguiar, acho que você nunca mais seria o mesmo...
Ryan? Não voltou a aparecer na escola. Não voltou a aparecer em lugar nenhum, para ser mais exato. Descobri – com ajuda das meninas e dos dudes – que ele e seu pai estavam hospedados no Hotel Ynn, no centro da cidade. Então, quando estávamos com Lua, evitávamos ir até lá.
- Mas eu quero comer uma casquinha de menta no centro! - ela choramingava.
- Não, hoje nós vamos... Ao Barney's! - algum de nós sempre tentava mudar o rumo do local. - Ah, foda-se... - ela sempre acabava concordando.
Josh? Lua terminara com ele, e, desse modo, demonstrava ser mais macho do que eu.
Merda...
Mas ele não se abalou. E eles continuaram amigos.
Amigos, sei... Ele que ficasse de gracinha com a minha garota!
Sra. Blanco? Bom, concordou que Lua morasse com a gente.
Melhor do que morar em um motel qualquer. Pelo menos ela nos conhecia. E como Lua estava mesmo destinada a não falar com a mãe, nada melhor do que morar com os amigos para eles contarem tudo o que estava acontecendo, certo?
Pai da Lua? Nunca tentou contatar a filha.
Pelo menos não naquele momento.
John? Não voltou a enxer o saco.
Marcus? Mais veado do que nunca.
James? Continuava a nos servir no Barney's, e, como sempre, nos dando descontos.
Bob Willians? Sei lá, aquele lá era pirado.
Patrick Fedelso? Continuva a nos deixar cada vez mais ricos e famosos, com shows aos fins de semana. “Quando acabarem o ensino médio, faremos uma turnê mundial. Por agora, somente shows de fins de semana!”
Na verdade, Fedelso era um pai para nós quatro. Nos ensinava todos os truques e macetes do mundo da música. E, como todo pai tinha regras, ele não poderia ser diferente.
As suas eram: nada de largar os estudos, matar aula para fazer show, festas que éramos convidados só de fim de semana e não podíamos chegar depois das 3h e... Bem, nada de drogas. O sexo e rock n' roll era permitido.
Pelo menos isso, certo?
Agora, o que você deve estar querendo saber.
Gossip?
Bem, esse/essa era uma incógnita.
Depois do post das meninas dançando na varanda, ele/ela não voltou a postar.
“Quando voltar da Argentina, estará mais próximo de saber quem eu realmente sou!”
Mas que porra de dica era aquela?
Lua fala:
- Obrigado, meninas! - eu agradeci, pegando as minhas duas malas da mão de Michele. - Ela disse alguma coisa?
- Boa viagem. - Mel disse, dando de ombros.
- Bom, melhor do que nada... - eu suspirei, jogando as duas malas em cima da minha cama de solteiro.
“Que saudades da minha cama de casal...”, pensei.
Mas do que adiantava uma cama de casal sem o Thu nela?
Pelo menos aquela cama de solteiro tinha história pra contar.
- E Rosa, como ela está? - perguntei, me lembrando subitamente.
- Ah, ela te mandou isso. - Sophia disse, pegando um pacote comprido do bolso do sobretudo e entregando a mim. Desembrulhei-o e sorri, ao ver que dentro do embrulho tinha um spray de pimenta. Um cartão escrito a mão – com uma caligrafia horrível, diga-se de passagem – dizia: “Ouvi dizer que os argentinos são bem tarados. Se cuida, criança. Com amor, Rosa.”
- HAHAHAHAHA, ela te deu um spray de pimenta? Adorei! - Michele disse, rindo.
- Pois é, pelo jeito os argentinos são bem mais tarados do que pensávamos! - exclamei, rindo. Joguei o spray de pimenta em cima da mala e caminhei até a janela. - E aí, vocês sabem de alguma coisa?
- Nada. - Sophia respondeu, parando ao meu lado e olhando na direção do meu olhar. O sol estava se pondo, deixando o céu todo laranja e rosa. Seria lindo, se meu estado de humor não fosse tão ruim. - Luinha, vamos fazer uma promessa?
Olhei para o lado e percebi que não só Sophia estava lá. Mel e Michele também estavam. Levantei a sobrancelha e achei esquisito, mas decidi obedecer minhas amigas. No meu estado frágil, elas deveriam saber o que era melhor para mim.
- Claro. Que tipo de promessa?
- Não vamos ficar na bad por nenhum motivo. - Mel começou.
- Seja namorado, família, ciúmes ou qualquer outra coisa. - Michele continuou, olhando de volta para o pôr-do-sol.
- E se, por algum motivo, nós não conseguirmos isso... - Sophia disse, fazendo um certo suspense. Elas se entreolharam e Mel completou:
- As amigas estarão lá para isso!
Sorri e senti lágrimas se formarem embaixo dos meus olhos. Respirei fundo e elas automaticamente sumiram, como sempre acontecia.
Eu tinha as melhores amigas do mundo.
Ficamos um pouco em silêncio, observando o céu passar de laranja para ébano em poucos minutos, até que alguém resolveu se manifestar.
- Ok, agora nós vamos embora. Daqui a pouco os meninos chegam do show e nós não queremos que eles nos vejam aqui. - Sophia suspirou, pegando sua bolsa em cima da minha cama.
- Até amanhã, Luinha. Nós vamos passar aqui pra te pegar umas 14h, ok? - Michele perguntou. - Ok. Boa noite, meninas! - exclamei, me apoiando na porta e observando elas descerem as escadas.
Aquela viagem prometia.
72
Thu fala:
- Todos vocês estão com os passaportes? - Harry gritou do andar de baixo. - Porque eu acabei de dar descarga em um papel que era bem parecido com um.
- Sim! - gritei, ofegante por sair correndo do quarto de visitas para o meu.
- Eu tô com o meu! - Lua gritou do quarto de visitas. Ela colocou a cabeça para fora do quarto ao mesmo tempo que eu coloquei a minha. Ela mostrou a língua para mim e eu mostrei o dedo do meio. Lua sorriu e enfiou a cabeça de volta no quarto.
- O meu tá na cozinha, em cima da geladeira! - Chay gritou do seu quarto.
- O meu tá aqui comigo! - Micael respondeu, saindo só de boxers do quarto.
- Ótimo, então era só um catálogo de comida chinesa. - Harry disse e, logo em seguida, ouvimos o barulho do liquidificador.
Lua saiu do quarto também e trombou com Micael, que pediu desculpas e desceu as escadas.
E isso era um dia rotineiro na nossa casa.
Quatro homens e uma garota. Coisas espalhadas pela casa e pérolas como: “alguém viu minha cueca da sorte?” ou “Lua, você podia fazer o favor de não deixar suas calcinhas espalhadas pela casa?” eram comuns.
Nós pensamos que depois que ela se mudasse para lá, as coisas ficariam mais organizadas.
Mas o que nós não sabíamos era que Lua era pior do que todos nós. Juntos.
Acontecia de tudo um pouco.
E eu rezava todos os dias para que nenhum dos guys entrasse no meu quarto de madrugada.
Mas era por isso que existiam as chaves e as fechaduras.
- Micael! - ela exclamou, enquanto ele descia as escadas como um zumbi. - Você sabe que horas são? Nosso vôo é daqui duas horas! E você está de boxers ainda? - Ah Luinha, não enche que eu sei que você acabou de colocar a roupa também. - Micael respondeu, parando na escada e se virando para ela. Eu assistia tudo da porta do meu quarto. - Porque a sua camiseta está no avesso.
Lua olhou para baixo e eu comecei a rir. Então, como se fosse a coisa mais normal, ela tirou a camiseta, desvirou-a e a colocou novamente. Simplesmente. Na frente de mim e de Micael.
Mas Micael só deu de ombros e voltou a descer as escadas.
Queria eu ter o poder de não surtar toda vez que visse minha garota de sutiã.
- Hey, Aguiar. - ela sussurrou. Eu chacoalhei a cabeça e subi o meu olhar para seu rosto. - Fecha a boca senão entra mosca!
- Não enche, sua profana! - brinquei, apontando para seus peitos. - Você acha muito legal fazer isso comigo, né?
Conversávamos entre os sussurros, como sempre tínhamos que fazer quando estávamos em casa.
- Deixa de taradice e vai se trocar! - ela exclamou, sumindo pelo quarto. Ainda fiquei alguns segundos olhando para o chão, sorrindo sozinho como idiota. Mas Micael, que subia as escadas com uma banana nas mãos [N/A: Huuum, Micael com uma banana nas mãos. Conseguem imaginar? xD], fez o favor de me tirar do transe.
- Thu, você vai de boxers e camisa de flanela? - perguntou, apontando para minha camisa com a cabeça. - Sabia que é a última moda em Paris?
- Ah, vai se foder. - murmurei, entrando no quarto. - Micael! - exclamei, e ele apareceu na porta. - Dá pra você tirar a caixa da pizza que você comeu sozinho ontem do meu quarto?
- Nossa, o que ela tá fazendo aí? - ele perguntou, inocente, pegando a caixa. Passou o dedo no catupiry e o levou a boca. - A é, eu tava te ajudando a arrumar a mala.
- Sabe o que eu soube? - perguntei, me lembrando repentinamente do que Lua havia me contando de noite, quando nós dois estávamos observando as estrelas pela janela do meu quarto.
- O quê? - Micael quis saber, pousando a caixa de pizza novamente no mesmo lugar.
- Mel e as meninas vieram aqui ontem. - respondi, e sorri ao ver a expressão de indiferença e dor se instalar nos olhos de Micael.
- Grande coisa. - respondeu, voltando a passar o dedo pelo catupiry da caixa.
- Meu Deus... - sussurrei, me segurando para não rir. - Como vocês são gays!
- A Lua está morando no mesmo teto que você e você não faz nada e nós que somos gays? - Micael perguntou, pegando a caixa de cima da minha escrivaninha de vez.
Nada, nada, eu não diria.
Mas o que eu realmente queria fazer...
Ok, parece que eu sempre acabo voltando pra esse assunto.
- Cala boca, Micael. Lua é passado. - respondi, virando os olhos. Fechei uma gaveta aberta com o quadril e continuei: - Agora vaza que eu preciso me trocar.
- Falou. Mas depois, quando ela estiver namorando um argentino rico, não diga que eu não avisei. - ele disse, saindo pela porta, arrastando os pés atrás de si.
Porque ela ficaria com um argentino rico se ela tinha um rock star famoso também rico?
Certo?
Certo?
Ouvi a buzina do carro de Mel tocar duas vezes lá embaixo. Caminhei até a janela com uma lata de cerveja que estava perdida no meu quarto na mão e observei Lua correr até o carro, jogar as duas malas gigantes no porta-malas e entrar no mesmo. As meninas riam sem parar de alguma coisa, daquele jeito histérico e fofo que só elas sabiam fazer, e eu encostei a testa no vidro da janela.
E antes de partir, Lua encostou a própria testa na janela do carro e mostrou a língua para mim.
Aquela viagem prometia.
Lua fala:
Última chamada para o vôo 3450 para a Argentina.
- Ótimo, somos nós! - Sophia piou, animadinha. Estávamos sentadas em uma fileira de bancos azuis de plástico duros, e, do outro lado, os meninos estavam apoiados na parede, conversando entre si.
- Prontos para o massacre? - ouvi Chay perguntar, fazendo os outros três rirem.
- Imbecis. - Michele murmurou, virando os olhos. Em voz alta, perguntou: - Hey, vocês aí, qual o número do assento?
- 122B. - Thu disse. Olhei para o meu papel. 123B.
- Ótimo, agora eu vou ter que viajar com o Aguiar. Simplesmente ótimo. - murmurei, usando meus truques de atriz, sem olhar para ele. Virei o papelzinho na mão e me levantei.
- 15J. - Harry exclamou. - Nossa, longe de vocês eim?
- Ah, só pode ser brincadeira! - Michele virou os olhos. - Eu sou 16J.
- Há. Destino cruel. Obrigado, Deus, por me fazer sentar ao lado... Dela. - Harry disse, com desgosto. Virou a aliança no dedo anular da mão direita – sim, eles ainda estavam de aliança, todos eles – e se desencostou da parede.
- Eu mereço... - Michele assoviou, se levantando também.
- O meu é 89R. - Micael disse, espiando o papelzinho de Mel. Ela brisava no cartaz gigante de Suflair e não viu ele fazendo isso. Mas abaixou os olhos do cartaz na mesma hora que ele murmurou: - Droga...
Mel olhou para o seu próprio papel e disse em voz alta, ainda não entendendo porque ele havia xingado:
- 87R. 87R... Ai, seu imbecil! Nem é do seu lado! - ela exclamou, dando com a bolsa de mão no braço de Micael. Ele soltou uma gargalhada anasalada e a empurrou de leve, fazendo-a quase cair do banco. – Ai! Seu idiota!
- Ai! Sua chata! - ele exclamou, imitando a voz dela.
- Vai se foder, Micael. - ela disse, se levantando. Eu e os outros assistíamos de camarote, enquanto os dois se matavam. - Nem sei como pude namorar com você...
- Mas... Nós ainda estamos namorando! - Micael disse, amaciando a voz. Fez uma carinha de gatinho quando ninguém quer fazer carinho e abaixou a cabeça. Acho que Mel se comoveu com a cena, porque também abaixou a voz e murmurou:
- É. – e antes que aquele silêncio constrangedor pudesse envolver todos ali presentes, ela se levantou em silêncio e saiu batendo os pés até o portão de embarque.
- Isso! Foge mesmo! – Micael sussurrou para ele mesmo, mas mesmo assim foi atrás dela. Os dois sumiram pelo portão e nós nos entreolhamos.
- Uou. - Chay assoviou, franzindo a testa. – Essas férias vão ser interessantes.
- Só falta você me dizer que é 103A. - Sophia ignorou o comentário dele. Chay olhou para o papel e riu. - Que foi?
- Não, não sou não. - ele respondeu, e ela suspirou aliviada. - Sou 101A.
- Ah, brincadeira né? - ela perguntou, arregalando os olhos. Olhei o papel dela. 102A.
Mas que ironia.
Olhei para Thu e ele entortava a boca, como sempre fazia quando tentava não rir.
- Você fez isso? - perguntei, só mexendo os lábios.
- Quem sabe... - ele respondeu, e eu franzi a testa.
- Vai, vamos logo. - Michele pediu, mal humorada. Caminhamos em silêncio até o portão de embarque e, quando chegamos ao avião, cada um foi – resmungando – para os seus assentos.
Na frente, Harry e Michele iam discutindo. Em um reflexo, ele colocou a mão em seu ombro.
Péssimo reflexo.
- Não encosta em mim, Judd. – Michele ordenou, tirando a mão de seu ombro. Ele a colocou no bolso, meio sem graça, e respondeu:
- Então sai da minha frente. – dito isso, passou por ela e sumiu entre os assentos. Michele resmungou e foi atrás, batendo com sua pequena – pequena lê-se aquelas malas de rodinha de tamanho médio – mala “de mão” em todos nas fileiras.
- Ok, até o final da viagem. Se eu não matar o Judd antes. – ela disse, antes de se sentar ao lado dele, que ouvia iPod mal humorado.
- Até mais ver, gente! – disse, passando por eles quando o cara que estava na nossa frente finalmente parou de babar no decote de Michele e resolveu andar.
Passamos por Mel e Micael, que ouviam iPod e liam livros diferentes.
Mel lia A Menina Que Roubava Livros [N/A: Eu recomendo. ;D].
Micael lia Coisas Que Toda Garota Deve Saber.
Sim, você não leu errado.
No meio deles, uma mulher de uns 30 anos teclava furiosamente no laptop.
Eles não nos viram, então passamos reto, porque o cara atrás de nós estava ficando impaciente. Sophia e Chay acharam seus assentos e copiaramMicael e Mel, colocando o fone de ouvido e se ignorando.
Eu e Thu fomos os últimos a nos sentar. Nossos assentos ficavam do outro lado daquela cortininha legal, de modo que nenhum dos nossos amigos iriam até lá, pois o banheiro ficava antes.
- Thu, você nos isolou de todos! – eu reclamei, sentando-me ao seu lado.
- Por que será? – ele perguntou, se curvando e estalando um beijo em meus lábios.
- Ah, então você acha que só porque nos isolou vai poder abusar de mim? – perguntei, roçando meu nariz no dele.
- Hm... – ele coçou a nuca, pensativo. – É.
- Tarado! – exclamei, me contorcendo por ele ter começando a fazer cócegas em mim.
Thu beijava meu pescoço e me fazia cócegas ao mesmo tempo, e eu estava quase sem fôlego de tanto rir.
- Pede penico rosa! Pede penico rosa! – ele ordenava, apertando minha barriga.
- Penico rosa! Peloamordedeus, penico rosa! – eu suspirei de alívio quando ele tirou as mãos de mim.
Sim minha gente, aquele era o tipo de brincadeira que nós fazíamos sozinhos.
Patético.
- Ótimo! – ele sorriu, vitorioso, estralando os dedos. O piloto começou a dizer as coisas de sempre pelo alto-falante e eu fiquei mexendo nos cabelos de Thu, que caíam em seus olhos. Ele fechou os olhos e encostou a cabeça em meu ombro. Fechei os meus também e deixei meu braço cair em cima do meu colo, onde Thu pegou minha mãe e a segurou com carinho. De repente, ouvi o barulho da cortina se abrindo e abri os olhos, soltando a mão de Thu e me sentando direito. Ele desencostou a cabeça do meu ombro no exato momento que um garoto passou pela cortina e foi até nossos assentos.
- E aí! – ele tinha mais ou menos a nossa idade e sorria verdadeiramente, como se estivesse feliz em nos conhecer. – Acho que meu lugar é aqui! – disse, olhando para o papel em suas mãos. – Importam-se?
“Importam-se”? Que tipo de pessoa da nossa idade falava daquele jeito?
- Claro que não. – respondi, sorrindo ao ser contagiada pelo seu bom humor.
Ele tinha a pele morena do sol e sardinhas minúsculos enfeitando seu rosto. Seu sorriso era branco e os dentes perfeitamente alinhados. Os caninos praticamente brilhavam. Seus olhos eram verde-água e sua sobrancelha espessa.
Resumindo. Gato.
Por um momento, esqueci que Thu estava ao meu lado e me perdi em seus olhos verde-água. Ele era... Bonito demais!
- E aí, cara! – Thu disse, estendendo a mão sobre meu colo, me tirando do transe. – Arthur Aguiar.
- Ben Tiller. – ele se apresentou, apertando a mão de Thu sem tirar os olhos de mim. – E você? – perguntou.
- Lua. – respondi, meio grogue.
- Lindo nome. – ele sorriu novamente. Seus caninos ficaram mais uma vez amostra e seu hálito de menta com cigarro soprou em meu rosto.
Eu estava hipnotizada por sua beleza.
E Thu estava ficando com ciúmes, porque pegou minha mão discretamente, para que Ben não pudesse ver, e se remexeu no banco, desconfortável.
Então Ben olhou para Thu e arqueeou a sobrancelha. E os dois começaram a falar ao mesmo tempo:
- Ela é minha...
- Você não é o Thu do...
Dei uma cotovelada em Thu, que parou de falar, e Ben terminou:
- McFLY?
Olhei com o canto dos olhos para ele, que estava com a testa franzida em uma expressão de mau humor, mais lindo do que nunca. Desviei a atenção para Ben, que ainda sorria de um jeito despreocupado, e comecei a realmente achar que estava no céu e os dois anjos mais lindos estavam ao meu lado.
Acho que sorte era pouco naquele momento.
- Hm... – ele pigarreou. – Sim, sou eu.
- Ah, que bom! – ele exclamou, piscando para mim de um jeito amigável. – Por um instante pensei que vocês fossem namorados, mas minha irmãzinha me disse que você namora uma tal de Bella ou sei lá o quê... – senti meu estômago se embrulhar ao ouvir aquele nome desprezível. – Então agora eu sei que você – ele pousou os olhos em mim e eu senti meu rosto corar. Thu apertou minha mão e ele continuou: -, não é namorada dele.
- Acontece que ela é minha... – Thu começou a responder Ben, e dava para sentir sua raiva no ar.
Mas ele não podia dizer. Qualquer que fosse nosso tipo de relacionamento – namorados? Ficantes? Amigos coloridos? –, ele simplesmente não podia dizer. Se ele dissesse, nada impediria que aquele estranho – gostoso, mas estranho – desse com a língua nos dentes.
E que língua!
E que dentes!
- Irmã! – exclamei, antes que ele pudesse respirar e terminar a frase. – Sou a irmã dele!
- E que irmã! – Ben brincou, sorrindo para mim.
E que problema eu iria arranjar...
73
Thu fala:
Filho... Da... Puta.
Essas três palavras descreviam perfeitamente Ben Tiller.
Minha mão formigava e suava, de tanto apertar a mão de Lua por trás do banco, e eu provavelmente não conseguiria me levantar do assento quando o avião pousasse, devido à posição desconfortável que eu estava.
“Calma, Thu, eles só estão conversando!” o anjinho sussurrava de um lado.
“Calma o caralho, Arthur Aguiar! Se você piscar o olho sua garota vai fugir para Las Vegas e casar com esse protótipo de lobo mau!” o diabinho não deixava a desejar.
Minha cabeça latejava, meu coração nem batia mais e eu sabia que a qualquer momento voaria no pescoço daquele folgado.
Uma gota de suor escorreu pelas minhas costas e eu fechei os olhos, encostando a cabeça no assento.
- Thu? – ouvi Lua chamar baixinho e pensei que fosse minha mente brincando de deixar-o-Thu-louco-e-depois-rir-da-cara-dele. Nem me dei ao trabalho de responder. – Thu?
Apertei os olhos já fechados, lutando para ignorar a voz doce que eu jurava ser uma brincadeira da minha mente corrompida pelo ciúmes.
- Thu, cacete!?
“Opa!” pensei, abrindo os olhos, “Isso é real!”
- Quê? – perguntei, tentando ser o mais arrogante possível.
- O que você tem? – ela perguntou, passando o polegar pela minha bochecha. Por um momento, toda a raiva que eu estava sentindo sumiu, e eu me perdi em seus olhos.
“Me perdi nos seus olhos...”
Que tipo de homem diz isso?
- Nada. – respondi, virando meu rosto. Seu dedo escorregou e bateu em seu colo. – Cadê seu novo amigo? – perguntei, a ironia quase saltando entre minhas palavras.
- No banheiro. – ela respondeu, olhando para baixo e, mais uma vez, senti a raiva se esvair pelo meu suor. – O que eu posso fazer? – ela sussurrou, brava. – Não posso simplesmente sair contando pra todo mundo que nós estamos juntos! Vocês estão ficando famosos! Qualquer informação é informação!
- Mas também não precisa ficar dando em cima do cara! – respondi, me arrependendo instantaneamente por ter falado aquilo.
Eu sabia que estava falando a coisa errada, e que aquilo provavelmente a deixaria triste e magoada, mas o ciúmes praticamente falava por mim.
Por isso, continuei, ignorando a sua expressão triste.
- Sabe como é, mesmo que ninguém saiba de nós dois, eu não saio por aí dando em cima das minhas fãs! – tudo bem que eu ainda estava com Bella, mas ela não precisava saber. Eu queria ganhar a briga de qualquer jeito. Homem é foda, quer sempre ter razão. – Principalmente quando estou do seu lado!
Soltei sua mão e pressionei os nós dos meus dedos.
- Sabe, Thu, você é a pessoa mais insegura que eu já conheci na vida! – ela respondeu às minhas ofensas serenamente, mas sua voz deixava transparecer que estava indignada. – Como você pode achar que eu vou trair você com qualquer estranho? Em um avião, pelo amor de Deus!
Silêncio.
Eu conseguia ouvir aquele barulho de velho-oeste e quase pude ver a bolinha de feno rolando pelo chão.
Não disse mais nada, primeiro porque ainda achava que estava com a razão e que ela que deveria pedir desculpas por dar em cima do cara na minha frente – embora em sua conversa com Ben não passasse de cordialidades – e segundo porque Ben acabara de voltar e já estava falando novamente, com seu jeito irônico de ser.
- Ótimo, aquele banheiro cheirava a suor, merda e cigarro.
- Eca! – Lua respondeu, voltando a sua voz normal, como se não estivesse gritando comigo há alguns segundos.
Enquanto os dois falavam sobre qualquer coisa sem importância, peguei-me pensando na possibilidade de amar tanto Lua que já sabia de cor todos os seus sinais; como quando sempre que estava prestes a chorar, seus lábios se retraíam e ela ficava rígida, impedindo que isso acontecesse, ou como apertava as mãos sempre que tinha algo importante a falar.
Mas, apesar de conhecê-la tanto, naquele momento, quando o ciúmes tomou conta de mim, não peguei um dos sinais cruciais que talvez evitasse que aquela viagem fosse catastrófica. Mas, se tivesse pego sua inquietação no ar, nunca conheceria todos os lados do amor como conheci aquela semana.
74
Lua fala:
- Bom... – murmurei, sentindo-me envergonhada. Thur estava ao meu lado, e eu travava uma luta interna para saber se estava com raiva das suas insinuações ou se sentia carinho por ele estar com ciúmes.
Ele suspirou, uma mistura de indiferença com desdém, e eu decidi que a raiva ganhara a batalha. E por seu tom de voz ao falar: “Falou, Ben. Estou te esperando com os outros, maninha...” percebi que ele também estava puto comigo.
Todo mundo puto, iupi!
- Bom... – Ben repetiu, quando Thur se afastou. Mas, diferente do que pensei que sentiria, ao vê-lo se afastar, eu não fiquei mais animada e me despedi alegremente de Ben. Pelo contrário. Meu coração deu uma cambalhota dentro do peito e uma súbita timidez me invadiu por completo. Estivera conversando por várias horas com Ben no avião, enquanto Thur fingia dormir, e agora, depois de pousarmos e estarmos no saguão do aeroporto, é que eu decidi levar em consideração suas acusações.
Muito bom, Lua, é assim que se faz!
Realmente, às vezes eu era uma completa vaca.
- E aí, quer me encontrar por aí? – ele perguntou, como se fosse normal dois entrangeiros, que não conheciam o país, combinarem de se encontrar “por aí”.
- Pode ser, claro. – respondi, mais por educação do que por vontade. Agora que Thur se fora, todo o brilho de Ben havia, de certo modo, desaparecido. – Me passa seu celular.
Ben tirou um V8 do bolso e, antes de passar seu número, anotou o meu.
- Nos vemos por aí, então. – disse, inclinando-me para beijá-lo no rosto. Seus lábios pousaram ao lado dos meus – o famoso beijo no canto da boca – e eu pude sentir o perfume Armani irradiar de seu pescoço, enquando seu hálito de menta e Malboro Light roçava em meu rosto.
Ok, acho que ele não tinha perdido todo o brilho afinal.
Ah, dá uma trégua! Vai me dizer que você, mesmo namorando, não baba pelo Edward-cara-de-assustado?
- Até mais, Luinha! – ele gritou, andando de costas e acenando para mim. Virou-se e atravessou o saguão com sua mala preta e discreta, até desaparecer completamente.
- Até. – murmurei para mim mesma, sabendo que ele não poderia mais ouvir. De repente, um arrependimento por te deixando Thur tão enciumado me dominou por completo.
Engraçado como os sentimentos que eu sentia no momento sempre acabavam me dominando.
Mas acho que, no fundo, eu só fiquei a viagem inteira conversando com Ben não porque ele era bonito – claro, isso ajudou muito – mas sim porqueThur não se sentia seguro comigo, e isso, mais do que tudo, me magoava. E eu precisava, de algum jeito, me vingar.
Resumindo: pirraça.
Mas pelo menos eu admitia aquilo. E admitia que teria que ser um amor com Thur para ele me perdoar. Ou será que ele estava com o mesmo sentimento de culpa que eu e esperava que eu o perdoasse também?
Meu olhar vagou sem rumo pelo aeroporto, lotado de pessoas de todos os lugares do mundo, até que eu localizei meus amigos no meio da multidão.
Não era difícil.
Harry era visível em qualquer tipo de multidão com aquele tamanho todo. Mel estava sempre pulando, o que não era difícil de se perceber também.Michele e Sophia riam histericamente e todos podiam ouvir, mesmo estando a alguns quilômetros de distância. Chay e Micael gritavam um com o outro para saber quem iria jogar Pokémon Gold no GameBoy [N/A: Dos tempos da brilhantina essa, eim?] de Harry e Thur estava praticamente jogando todo o conteúdo de dentro da mala no chão, aparentemente procurando por algo.
É. Eles eram bem fáceis de se achar. - Xúxú da minha marmita! Halls da minha balada! Vodka da minha fossa! Descarga da minha privada! Desinfetante da minha pia! – Mel ia gritando a plenos pulmões e andando em minha direção com os braços abertos, chamando a atenção de todos que passavam por ali.
- Nossa, Melzinha, sentiu minha falta, eim? – perguntei, ao ser envolvida por seus braços apertados. Ela fungou em meu pescoço e respondeu, baixinho, em meu ouvido:
- Qualquer coisa pra me tirar do lado daquele troglodita do Borges.
- Obrigado. Agora eu me sinto muito melhor. – respondi, virando os olhos. Ela me soltou e nós duas começamos a rir ao mesmo tempo.
- E aí, Luinha, como foi a viagem com o dedos-mágicos de Aguiar? – Sophia perguntou, se juntando a nós duas com Michele.
- Ah, vocês sabem... – olhei com o canto dos olhos para ele, que agora socava tudo que tinha tirado da mala de volta. – Irritante... – me perdi nos músculos dos seus braços, que trabalhavam por sua blusa de frio para colocar tudo o que havia jogado no chão na mala. Jesus me chicoteia... – Ah! – lembrei-me repentinamente de Ben, ao pensar em Jesus me chicoteando. – Conheci um menino MUITO gato. Ben Tiller.
- Ben Tiller, filho de Joseph Tiller, repetente do terceiro ano da nossa escola? – Michele se interessou na conversa. – Esse Ben Tiller?
- Nossa! Esse é meu Umpalumpa! – disse, abraçando-a pelos ombros. – É esse Ben mesmo! – exclamei, sorrindo de orelha a orelha. Sabia que conhecia ele de algum lugar. – Como você armazena essas informações, Mile?
- Fazer o quê... – Michele deu de ombros. – Eu sou foda.
- Espera aí, esse é aquele que só vai pra escola uma vez na vida e outra na morte? – Mel perguntou, estranhando.
- E que comeu Lee Mendes no armário de limpeza! – Sophia nos lembrou.
- Que clichê... – nós quatro suspiramos ao mesmo tempo.
Tentei me lembrar de alguma vez ter cruzado com Ben pelos corredores. Não me ocorreu nada. As únicas coisas que eu sabia sobre ele eu descobri pelas fofocas. Para mim, ele era um playboyzinho que só ia para escola comer as menininhas.
Hum. Em parte...
- Acho que ele é a única pessoa que não lê o Conte Seu Babado. – comentei.
- Por quê? – Mel perguntou.
- Ele não me reconheceu. E só sabia que Thur era do McFLY porque sua irmãzinha gosta. Não disse nada sobre a escola, em nenhum momento...
- Claro! Acho que esse ano ele foi à escola, o que, umas 10 vezes? – Sophia analisou. – E quando aparece, é para fazer nada.
- Fiquei sabendo que sua última vítima foi Katy Springs! – Mel fofocou, não se controlando.
- ... A eterna peituda! – nós quatro exclamamos e caímos na risada.
Até aquele momento, havia esquecido da presença dos meninos ali. Eles se juntaram no clube do Bolinha e nós, meninas, seres superiores, nos juntamos no clube da Luluzinha.
Então eu meio que não achei engraçado quando todos riram do meu pulinho de assustada quando Micael gritou “meninas!” e apertou minha barriga.
- Ha ha ha. Que engraçado! – ironizei, dando um tapa em Chay, que era o que mais ria.
- Hey! Eu sou só uma vítima! – ele se defendeu, ainda rindo.
- Certo, quem está com o mapa? – Thur perguntou, saíndo do seu casulo de silêncio.
- Eu! Eu! – Harry arfou, feliz por sentir-se prestativo. Ou simplesmente por ser o centro das atenções.
- Aparecido... – Michele murmurou, olhando para Harry com aquela cara de nojo que só ela conseguia fazer.
“Nota mental, pedir para Michele me ensinar a fazer essa cara.”
- Não começa com chilique, Mile! – Mel sussurrou, apertando sua barriga.
Essa era uma das nossas táticas infalíveis de nos acalmar. Apertar gordurinhas.
- Certo, vamos logo, pelo menos o dono do mapa vai prestar para alguma coisa. – ela murmurou novamente, com a voz ácida. Harry ficou vermelho da raiz do cabelo até o pescoço e sussurrou para ele mesmo:
- Piranha.
- O que você disse, Harold? – ela perguntou, levantando a sobrancelha de um jeito assassino. Harry sorriu com desdém e respondeu:
- Picanha, Michele. Picanha...
- Mais um dia e eu mato esse moleque. – ela piou, passando por mim e seguindo com passos firmes até a porta automática do aeroporto. Nós a seguimos e nos deparamos com o céu já escuro e várias estrelas brilhando no alto dele. Ao vê-las, senti uma vontade absurda de abraçar Thur, que as olhava com admiração.
- Nossa... – Sophia suspirou, olhando para a Lua cheia, amarela e gigante, que brilhava mais que todas as estrelas juntas. – Que lindo.
- Lindo mesmo... – Chay concordou, parando ao seu lado. Os dois se olharam e sorriram, mas Mel, a mais nazista na operação ignorar-namorados-tarados, pigarreou e Sophia se afastou, provavelmente para não cair em tentação.
- Concentre-se, Sô! – ela sussurrou, baixinho, e Sophia sorriu, olhando para mim e dando de ombros.
Ficamos um pouco em silêncio, observando o majestoso céu acima de nós. Fazia frio, mas nós já estávamos prevenidos, com grossos blusões e luvas. Coloquei meu gorro vermelho sangue e sorri ao ver que Thur também havia colocado o seu, verde-limão.
Chamativo? Magina!
Aos poucos, fomos nos juntando, como sempre acontecia no final. Mesmo com todos os problemas, sabíamos que sempre poderíamos contar um com o outro. Mel, ao meu lado, pegou minha mão e Michele me abraçou pelo outro lado. Sophia sorriu para mim e os meninos continuaram a olhar para o céu ébano. Um vento forte soprou por nós, balançando todos os cabelos, e Thur finalmente falou, interrompendo:
- Ok, acho que aquilo é um táxi. – apontou para dois carros parados, amarelos com faixas pretas e plaquinhas brancas com TÁXI escrito em preto, onde seus motoristas conversavam animadamente alguma coisa que eu tentei, mas não consegui entender.
- Que gênio! – Chay ironizou, virando os olhos.
- Ah, desculpa aí senhor eu-sei-a-cor-dos-táxis-fora-do-meu-país! – Thur brincou, bagunçando o cabelo de Chay, que mostrou a língua para ele, como uma criança mimada.
- Acho que ele só sabe disso porque tem uma plaquinha em cima do carro escrito Táxi, Thur. Se não fosse por isso... – Sophia disse, e todos nós rimos, menos Chay, que fechou a cara e voltou a jogar seu GameBoy.
Caminhamos com os braços em volta do corpo até os dois taxistas. Eles se viraram para nós e nos cumprimentaram em espanhol. Michele, que tinha alguma noção da língua, começou a conversar com eles, que assentiam com a cabeça e de vez em quando falavam algo incompreendível. Olhei paraThur com o canto dos olhos e ele ainda se recusava a me olhar. Na verdade, ele se recusava a ficar perto de mim, porque estava do outro lado, ainda olhando para as estrelas.
- Ok, gente, eles sabem onde nossa casa fica e vão nos levar até lá. – Michele explicou, enquanto os motoristas colocavam nossas malas nos carros. Os meninos entraram no primeiro táxi e as meninas no segundo.
O carro corria por uma avenida larga e, mesmo com minha super mega hiper blusa, eu sentia um frio esquisito cutucar minha espinha e me arrepiar inteira.
Ficamos em silêncio, sem ter muito o que falar. Michele foi na frente, para o caso de precisarmos de uma tradutora. Atrás, Sophia ouvia música, Mel tirava o esmalte da unha e eu olhava pela janela.
Não sei quanto tempo ficamos dentro do carro. Para mim, foram mais do que duas horas. Meu corpo inteiro doía e eu estava morrendo de vontade de me jogar na cama e dormir. Olhava para os lados e via na expressão de cansaço das meninas que elas estavam pensando o mesmo.
- Michele, falta muito? – perguntei, cutucando seu ombro. Ele repetiu a pergunta em espanhol e o motorista respondeu alguma coisa monossilábica.
- Não, estamos pertinho. – ela disse, sorrindo para mim.
Encostei-me de volta no banco e deixei minha cabeça cair no ombro de Sophia.
Adormeci.
Fui acordada por Michele, que me chacoalhava carinhosamente. Abri os olhos e olhei para o lado de fora da janela do carro. Ele estava parado em frente a uma casa de madeira antiga e que dava a impressão de estar abandonada há, pelo menos, uns 100 anos. O mato cobria praticamente toda a entrada e as janelas estavam cobertas por jornais amarelados. A única luz que conseguia ver era de um poste caindo aos pedaços, do outro lado da rua. Pisquei algumas vezes e levantei minha cabeça. Não estava sonhando.
- Hm... É aqui? – perguntei, mordendo meu lábio inferior.
- Acho que não. O motorista disse que pelo endereço que demos, é. Mas deve haver algum engano... – Michele refletiu, mais consigo mesma do que comigo. – Os meninos disseram que a foto da casa não tem nada a ver com essa!
- Eu estou com tanto sono que dormiria na rua! – Mel reclamou, piscando os olhos sonolentos.
Abri minha porta e saí. Lá fora, os motoristas falavam vagarosamente, como se falassem com crianças, e os meninos lutavam para entender alguma coisa.
- É. Aqui! – um deles falou, apontando para a casa.
- Não! Não é! – Harry imitava-o, fazendo gestos e caretas.
- Mim Tarzan, vocês taxistas! – Sophia disse ao meu lado e nós quatro caímos na risada.
De repente, um dos motoristas entrou no carro e o outro começou a falar alguma coisa rapidamente, do jeito que nem Michele entendeu. E, em um piscar de olhos, os dois partiram pela rua deserta, espalhando a poeira do chão.
Ficamos todos paralisados, ouvindo o barulho de carro diminuír aos poucos. Em pouco menos de 15 segundos, só ouvíamos o barulho dos morcegos. E a única luz que iluminava a rua se apagou. Dei um grito e abracei a primeira pessoa que vi.
75
Thur fala:
- Lua, relaxa, não vai acontecer nada! – eu reclamei, tentando ao máximo ser rude com ela. Não porque eu gostaria, mas porque nossos amigos estavam todos ali, vendo – ou quase isso – aquela cena. – É só falta de luz. Só isso.
Ela gemeu e enfiou a cabeça no meu peito.
“Ah, foda-se!”, pensei, afagando seus cabelos.
- Ok, acho melhor entrar. Pior do que isso não fica. – Chay sugeriu. Ao fundo, ouvimos um trovão.
- Muito obrigado, Chay. – Harry ironizou, pegando duas malas no chão. Micael imitou seu gesto e Chay também. Quando fui pegar as duas malas restantes, Mel e Sophia me impediram, pegando-as antes de mim.
- Tudo bem, você é o mais forte, só a mala da Luinha tá bom. – Mel disse, apontando para ela, que estava grudada em mim como um gato assustado.
Achei engraçado pensar naquilo. “Como um gato assustado” era exatamente o que ela estava parecendo. Uma gatinha.
Ai meu Deus, eu tenho que parar de escrever essas veadices aqui...
Puxei Lua pelo caminho inteiro. Ela andava de olhos fechados, o que me deu mais trabalho ainda.
Não que eu ligasse por ela estar ali. Ao contrário, era muito gostoso sentir seu perfume perto de mim depois da briga de mais cedo. Se é que aquilo poderia ser chamado de briga. Se pode, era mais como uma guerra fria. Eu sabia o que ela estava pensando e ela, com certeza, sabia o que eu estava pensando. Mas nenhum dos dois estava dando o braço a torcer.
Quando dei por mim, todos os outros haviam entrado e eu ainda estava lutando para que ela subisse as escadas de olhos fechados.
- Ok, Lua, você podia abrir os olhos só pra subir as escadas? Eu sou forte mas não sou dois! – pedi, parando para respirar. Ela abriu um olho, depois o outro, receosa. – Não tem nenhum fantasma, pode ficar tranqüila.
- Hm... – ela gemeu ao olhar em volta e fechou os olhos novamente. Ri comigo mesmo, pois sabia que, em condições reais, ela me mandaria tomar no cu.
- Ok, ok... – disse, para mim mesmo. – Eu consigo isso.
De súbito, tive um idéia. Peguei Lua pelas duas pernas e a coloquei no ombro, como se fosse uma mochila. Ela deu um grito abafado e afundou a cabeça nas minhas costas. Segurei-a muito bem – pela, hm, bunda – e continuei a subir as escadas, agora com muito mais facilidade. Ela não reclamou, não gritou e muito menos pediu que eu a colocasse no chão.
Acho que aquele medo de escuro era realmente verdadeiro.
Cheguei na porta e a coloquei no chão. Mais uma vez ela se agarrou a mim e eu a envolvi pelos ombros. Andávamos em câmera lenta porque ela arrastava os pés e tropeçava de cinco em cinco segundos.
- Sério, Lua, se você abrisse os olhos as coisas ficariam muito melhores e você estaria no claro mais rápido! – argumentei, e ela parou de andar. Soltou-se da minha blusa, deu um passo a frente, abriu os olhos de uma vez e ficou reta, olhando em volta. – Lua? – chamei, me aproximando. Ela continuou estática. De repente, uma vontade de confortá-la se instalou em mim, e eu encostei meu corpo junto ao dela, sussurrando em seu ouvido: - Viu só. Você não tem nada com que se preocupar.
Ela respirou pesadamente e voltou a andar.
Pelo jeito ainda estava brava comigo.
Fui atrás dela, e, de vez em quando, tinha que empurrá-la, pois ela “empacava” nos lugares.
Ouvi vozes vindas lá de cima e um pequeno feixe de luz. Ao ver a luz, Lua suspirou, aliviada, e subiu as escadas correndo. Quando cheguei lá, alguns segundos depois, ela estava jogada na cama, de barriga para baixo, com a cara enfiada no travesseiro.
- Bom trabalho, Thur. – Sophia ironizou, virando os olhos. – Você sabe como ela fica no escuro!
- Eu tentei... – dei de ombros e me sentei.
- Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui, seus merdas! – ela falou pelo travesseiro, com a voz abafada.
- Certo, a casa tem quatro quartos com duas camas de solteiro em cada um. – Harry ia explicando. – Podemos nos dividir ou colocar todos os colchões aqui, vocês que sabem, e...
- Pera aí! – Sophia o interrompeu. – Nós vamos mesmo passar a noite... Aqui?
- Tem outra idéia? – Chay perguntou, visivelmente irritado com ela. – Nossos celulares estão sem sinal – peguei meu celular no bolso e tive que concordar –, está escuro e tarde, essa rua é deserta, está a maior chuva lá fora e, não sei se você percebeu, mas nós não temos a mínima idéia de onde estamos. Se você quer passar a noite na rua, à vontade.
E aquela foi a primeira vez em que vi Chay bravo.
Todos nós olhamos para ele, que respirava fundo e pausadamente. Depois olhamos para Sophia e vimos seus olhos se encherem de lágrimas. Ela se levantou e saiu do quarto, levando sua mala atrás.
- Sô, espera aí, eu... – Chay tentou dizer, mostrando para todos que havia se arrependido de agir daquele jeito pela expressão em seu rosto. Mas ela já havia passado pela porta e batido em sua cara. – Caralho... – ele sussurrou consigo mesmo e voltou para a cadeira onde estava sentando, emburrado.
- Hm, certo... – Micael disse, tentando acabar com o silêncio que se instalara.
- Eu tô com fome. – Michele disse, do nada, e sua barriga roncou.
- Eu também. – lembrei-me que não tinha comido a comida do avião porque, toda vez que ouvia aquele Ben dar em cima de Lua, meu estômago se revirava de raiva. – Não comi no avião.
- Ótimo. Simplesmente ÓTIMO! – Mel reclamou, parando de andar pelo quarto. – Estamos perdidos, sem comida, sem comunicação e brigando como idiotas. Será que duramos até amanhã ou vamos nos matar aqui mesmo?
O silêncio invadiu o quarto novamente.
- Ótimo, se vocês não tem nada para falar, eu vou atrás de Sophia. – ela decidiu, saindo pela porta e a batendo, assim como Sophia fizera.
- Acho que temos muitas meninas na TPM por aqui... – Micael tentou brincar, mas não havia clima para isso.
Olhei em volta, pela primeira vez.
O piso do quarto era feito de madeira, que rangiam ao sentir qualquer movimento, dando a impressão de que iriam quebrar a qualquer momento. As paredes, antigamente brancas, agora estavam descascando e fediam a mofo. As duas camas de solteiro eram cobertas por um lençol bege e todo rasgado. Um armário de madeira estava encostado no fundo do quarto, e, como conseguia ver pelas portas abertas, só tinha dois cobertores marrons dentro. Duas cadeiras de madeira estavam agora no meio do quarto e só. Mais nada. O quarto era isso.
- Dude, esse lugar fede. – disse, desligado.
- Nós precisamos sair daqui. Logo. – Michele concordou.
- Ok, eu e Micael vamos dormir no quarto ao lado. – Chay disse, pegando sua mala no chão. – Sophia e Mel provavelmente vão dormir juntas. Então, dividam-se e... Até amanhã.
- Se nós sobrevivermos! – Harry comentou, enquanto os dois saíram pela porta.
Nós três – menos Lua, que ainda estava com a cabeça afundada em seu travesseiro verde-limão – nos entreolhamos. Pelo menos o clima já estava melhor.
- Luinha, já está melhor? – Michele perguntou, carinhosamente, passando a mão pelos cabelos dela, que somente concordou com a cabeça. – Ótimo, então vamos para o outro quarto? Harry e Thur vão dormir aqui.
Harry deu de ombros, com uma cara esquisita, e eu repeti seu gesto.
Lua se levantou e pegou a mala no chão. Passou por mim sem olhar para minha cara, e Michele foi atrás, lançando um olhar vago para Harry. As duas passaram pela porta e a fecharam. Olhei para Harry.
- Dude... – comecei, mas ele, em apenas uma palavra, resumiu toda a nossa situação. - Fodeu!
Continua......
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