Capítulo do 4 ao 6
Capitulo 4
Estava chovendo e era duro para as crianças ficarem quietas depois de um inverno longo
passado principalmente em um lugar fechado. Elas liam e reliam todos os seus livros uma dúzia de
vezes, brincavam dos jogos que conheciam, e faziam trabalhos manuais todo o inverno. Agora,
tendo tido um gosto da primavera, essas atividades e passatempos não tinham mais qualquer
atração. Especialmente quando havia um estranho fascinante e misterioso dormindo na cama de
Lua.
As crianças não eram os únicos que estavam fascinados. Lua não conseguia esquecer a
sensação de ter despertado nos braços do homem estranho, apertada contra o comprimento
cheio dele. O comprimento nu dele.
A intimidade morna de seu abraço, a sensação de seu corpo longo e duro apertado contra
ela, o modo quase protetor que os braços dele seguraram-na, provocaram… sensações. Sensações
que ela não queria ter. Não devia, não por um estranho que estava apenas de passagem, um
homem que poderia ter caído do céu. O anjo caído dela.
Ela secou as roupas dele, tirou sumariamente a lama, lavou a camisa e as roupas de baixo.
Tudo era da melhor qualidade. O jaleco era bordado com sombras ricas e sutis de linha de seda e
forrado com seda também. O casaco era sob medida da melhor lã e com botões de prata reais -
com a venda deles, ela podia se sustentar e as crianças por um mês. Até as mãos dele eram de um
mundo diferente.
Ela deu uma olhada rápida para as dela, com pesar ao notar os arranhões e a pele
encrespada. Uma dama é conhecida pelas mãos, a avó dela costumava dizer. As mãos da avó dela
eram sempre bonitas. Mas a avó dela não fazia o trabalho áspero na cabana e no jardim, Lua
sim. Lua ainda fazia. As mãos dela eram limpas e fortes e sustentavam uma família. Ela não
tinha nada do que se envergonhar.
Não obstante, quando ela via as próprias mãos ao lado das longas e fortes dele, com dedos
elegantes, ela se sentia envergonhada.
Capitulo 4 parte 1
Sim, misturar a realidade dele com os sonhos matutinos dela era tolo ao extremo.
—Henry, você e John não iriam fazer barcos daquelas cascas de noz que estamos
guardando? Meninas, acho que vocês deviam fazer um novo livro para a Lucy — Lua disse a
eles. —Lucy pode contar a história, Jane pode escrever, e Susan, você pode desenhar as imagens.
Nas profundidades do inverno, Lua teve a ideia de fazê-los escrever e ilustrar seus
próprios livros. Mantinha-os felizes e ocupados e os livros eram muito amados e relidos
frequentemente por todos, até mesmo os de John, que eram exclusivamente sobre cavalos. E, por
mais que Lucy não pudesse ler ainda, ela sabia seus próprios três livros de cor.
—Uma história sobre um príncipe adormecido— Lucy disse imediatamente.
—Por que não um príncipe-sapo?— John sorriu amplamente enquanto as irmãs frearam. —
Se eu jogasse água nele, o homem poderia se transformar em um sapo. Os sapos amam água.
—Oh, você é tão... — Jane começou.
—Não o encoraje, Jane— Lua disse vivamente. —Claro que John não jogaria água em
uma visita.
—Eu poderia se elas não pararem com essa historia de príncipes e belas— John inseriu. —
Além disso, ele está tão quente que provavelmente gostaria.
—O que você disse?— Lua girou para John. —Ele está quente?
John anuiu com a cabeça.
—Sim, eu toquei a mão dele e ele está realmente quente. Mas Lua, eu não jogaria de
verdade.
Mas Lua não estava escutando. Ela voou através do quarto e colocou a palma na testa do
homem. Ele estava queimando totalmente com febre.
Ela agarrou um pano, imergiu-o na água fria, e começou a passar no corpo dele. Evaporou quase imediatamente com o calor da pele.
—Ele está doente?— Jane estava logo atrás dela.
Lua apressadamente puxou o lençol sobre as partes privadas do estranho.
—Ele está com febre. Vá buscar vinagre e um pouco mais de panos.
As crianças apareceram curiosamente ao redor.
—Fiquem longe da cama, todos vocês. Podem me ajudar mais se ficarem fora do caminho e
brincando quietos. — Não que o barulho o perturbaria neste estado, mas ela podia muito bem
ficar sem isso.
Ela passou esponja no corpo dele com vinagre. Ela espalhou panos frios e molhados sobre
seu corpo quente, e os assistiu secar. Enquanto ela trabalhava para esfriá-lo, podia ouvir as
crianças brincando.
—Há muitas conchas. Podemos fazer uma marinha.
—Era uma vez uma menina que se chamava… Luciella…
—Duas marinhas e nós teremos uma batalha.
—Mantenha algumas conchas para os berços dos bebês— Susan gritou atrás deles.
—Ssssshhh!— Os outros todos silvaram.
Houve, por um momento, um silêncio culpado. E então uma vozinha.
— Nós o acordamos, Lua?
—Não. — Ela torceu outro pano e o espalhou sobre o tórax firme dele.
—Eu te disse— Lucy disse em um sussurro alto. —Ele não acordará até que receba o beijo de
uma princesa!
Lua não podia evitar e sorriu com a persistência da menininha. Ela não desistiria do
estranho, também.
A febre podia entrar em um corpo por um ferimento. Se entrasse, haveria putrefação. Ela
desembrulhou as bandagens e cuidadosamente inspecionou a ferida na cabeça. Parecia
boa,vermelha mas não parecia inflamada ou inchada. E ela não podia ver qualquer sinal de
putrefação. Ela borrifou mais pomada de basilicão nela, apenas para se certificar e pôs uma
bandagem limpa. Ela ergueu a cabeça dele com uma mão para passar a bandagem e sentiu algo
molhado e limoso sob os dedos.
Outra ferida, um que nem ela nem o doutor haviam visto. Infeccionando sem tratar desde o
acidente. Rapidamente ela cortou o cabelo dele. Uma ferida minúscula e insignificante, mas
vermelha, inchada e escorrendo. E sob a escuridão do cabelo, ela podia ver os estriamentos
vermelhos, como tentáculos emanando do corte. Sangue coagulado.
Ela passou a esponja com a água limpa, quente e salgada, e então deitou uma compressa
quente para tirar a impureza, tão quente quanto ela podia aguentar. Ela misturou o conteúdo do
pó que o doutor havia dado em um bule e o alimentou com o remédio. Ela ferveu casca de
salgueiro para fazer uma decocção.
Do lado de fora, o vento chicoteava nas árvores. A chuva respingava nas janelas em rajadas.
Os meninos sentavam sobre o tapete perto do forno, mexendo na bolsa de nozes, jogando
conchas quebradas no fogo, mantendo as metades perfeitas, e comendo qualquer noz que
achassem enquanto faziam as celas e mastros para seus minúsculos barcos de noz da marinha.
As meninas estavam fixadas em suas criações literárias.
Lua banhou a pele do estranho com vinagre e água, substituiu a compressa quente no
ferimento de cabeça infetada, e o alimentou com pequenas quantidades de chá de salgueiro
adocicado com mel e gengibre. E rezou.
Capitulo 4 parte 2
O dia passou lentamente. Lua alimentou as crianças rapidamente com comidas simples,
apenas sopa, queijo na torrada e ovos mexidos, e nos intervalos cuidava do homem doente em
sua cama. A noite caiu. Ela pôs as crianças na cama e desceu devagar para o primeiro andar. Ela
estava exausta.
Ela verificou o estranho. Ele havia jogado para longe novamente toda a roupa de cama e
estava nu e desavisado, tomando quase a cama inteira. Ela pôs a palma da mão no tórax dele. O
coração bateu rapidamente sob as pontas dos dedos, e a pele dele parecia mais quente. Nenhum
dos esforços dela ajudaram?
Ela o banhou com esponja novamente. Ela estava acostumada com a nudez dele agora; ela
conhecia cada centímetro de seu corpo. Ela o alimentou com um pouco mais da decocção de casca
de salgueiro e pôs uma atadura fresca no ferimento. Ele se acalmou com o tratamento e ela pôde
cobri-lo novamente.
Em um cansaço ofuscado, ela foi preparar sua cama no chão. Ela havia decidido naquela
manhã que ela não se arriscaria a despertar novamente com um estranho nu e enrolado ao redor
dela, com suas pernas nuas intimamente emaranhadas com as dela e a mão em seu seio. Era
muito… inquietante.
Ela espalhou a forragem diante do fogo.
Ele podia acordar a qualquer hora, o doutor dissera. Não havia como dizer quanto tempo
seria. Claro, isso antes de ele ter febre…
As cortinas da cama foram fechadas, não havia um som por detrás. Ela trocou para a
camisola e se sentou aquecendo os pés no fogo.
E se a febre dele piorasse? Se ela ficasse no chão, como poderia saber que ele precisava
dela? E se ele ficasse sem a roupa de cama novamente e a febre aumentasse com ele nu, suando e
impotente no frio da noite? Ele podia morrer.
Não havia escolha.
Ela pegou a colcha do chão e fez a Muralha de Adriano - para o decoro, e o que importava de
manter o decoro quando ela já havia banhado cada centímetro do corpo nu dele? Mesmo assim,
ela empurrou a muralha à frente e deslizou entre os lençóis.
Membros se movendo e murmúrios febris a despertaram na noite.
—Não— ele murmurou. —Não, não. — A cabeça rolava freneticamente, e punhos cerrados
batiam no ar, repelindo algum inimigo invisível. —Não, não… Você não pode…
Mantendo um olhar cauteloso nos punhos voando de modo selvagem, Lua sentiu a pele
dele. Queimava totalmente, mais quente do que nunca. Ela o banhou, murmurando: — Shhh,
shhh, eu estou aqui agora— enquanto alisava a pele dele em chamas com a esponja úmida e
fresca. —Você está bem agora… Ninguém vai te prejudicar.
Ele girou o rosto em direção a voz dela e abriu os olhos, olhando fixamente para ela
cegamente, a expressão angustiada. Mas os grandes punhos se soltaram e as mãos caíram
lentamente.
Ela continuou com as palavras calmantes e deslizou o braço embaixo da cabeça dele.
—Beba; fará com que você se sinta melhor. — Ela deslizou a bica entre os lábios dele. Ele
cerrou os dentes para recusar. Ela tentou novamente, mas ele empurrou a boca para longe,
enviando líquido para todos os lugares. Ele afundou a cabeça, murmurando uma série de palavras
que não faziam sentido para ela.
—Você tem que beber— ela disse a ele. —Diminuirá a febre.
Novamente ele olhou para ela com aquele olhar fixo, torturado.
A voz dela. Ele estava respondendo à voz dela. Ela não sabia quem ele pensava que ela era,
mas se desse certo… com novas frases calmantes, ela tentou novamente fazê-lo beber. Ele cerrou
os dentes e empurrou a mão dela para longe.
Ela pôde apenas pensar em uma coisa a fazer. Ela tomou um bocado do líquido agridoce e,
acariciando o rosto dele suavemente, apertou os lábios nos dele. Os lábios dele se separaram
imediatamente e ela deixou o líquido escorrer lentamente. Ele tragou sem vacilação e agarrou o
pulso dela, olhando-a fixa e mudamente.
Ela tomou outro bocado do remédio e o alimentou do mesmo modo, então outra e mais
outra vez, até que ela pensou que ele já havia bebido o suficiente.
Aquela troca, tão desesperada, tão íntima, acordou algo nela. A luta era agora intensamente
pessoal. Ele era dela e ela não o deixaria morrer. Ela o alimentou com água e remédio pela noite,
bocado por bocado, lentamente, beijos de vida. Ela não sabia quanto tempo isso tudo levou, ela
não dava atenção a nada exceto o homem em sua cama, mas finalmente, exausto, ele se deitou de
volta contra os travesseiros.
Ela apertou a bochecha contra o peito dele para escutar a batida de seu coração, mas em
vez disso, exausta, ela deslizou para o sono.
Ela despertou algumas horas mais tarde, com a luz cinza de antes do amanhecer, tremendo
com frio, a bochecha molhada. Ela estava chorando no sono? Não eram lagrimas. Suor. A febre
dele havia baixado, graças a Deus. Ela colocou a roupa de cama ao redor dele, dobrando para que
ele não apanhasse um resfriado.
Fraca com alívio, exausta demais, ela adormeceu apertada contra o corpo dele, a mão ainda
dobrada, mas solta no aperto firme dele.
Capitulo 4 parte 3
Ela despertou com um homem nu ao redor dela. Como na manhã anterior… mas dessa vez
era muito mais. A mão dele envolvia o seio dela novamente, mas desta vez não havia nenhuma
camisola entre a mão dele e a pele dela. A mão questionadora dele havia achado a abertura. Ele
suspirou, a mão se moveu, e o mamilo dela endureceu contra a palma dele com sensibilidade
primorosa. A boca secou.
Ela devia ir para longe.
Mas não conseguia se forçar a se mover.
A respiração dele era fixa, rítmica, imperturbada: ele estava adormecido. Ela estava deitada
muito quieta para não o perturbar, olhos fechados, saboreando a sensação de seu corpo grande e
masculino contra o dela.
Não era um sonho matutino, isso. Era muito melhor…
A camisola morna, espessa e respeitável estava ao redor da cintura, e os quadris e coxas dela
estavam nus, bastante nus, e emplastrados contra a nudez dele.
Intimamente.
O joelho dele estava curvado entre as coxas dela, coxas empapadas, cutucando a racha entre
as pernas dela. A cada respiração que ele tomava, o joelho se movia sempre muito ligeiramente,
roçando levemente contra ela em uma fricção lenta e atraente.
Sem consciência, ela se achou se movendo contra ele com urgência, arqueando, afundando
a fricção. Enviava calafrios por ela, ondulações deliciosas de sensações...
—Lua , quando vamos ter o café da manhã?— Uma voz chamou de cima.
Às pressas, Lua foi para longe. Ela arrastou a camisola, colocou um manto tricotado ao
redor das costas e saiu da cama. O chão glacial mergulhou seu corpo aquecido no frio da
realidade.
Ela voou pela cabana, pondo o mingau de aveia para cozinhar enquanto apressadamente
lavava a copa. Ela estava brincando com fogo. Se ele estivesse acordado, teria ido além. Ela teria
resistido? O embaraço a tomou. Ela sempre havia se considerado uma mulher de caráter forte,
mas a verdade era que, nem mesmo ela podia resistir ao toque inconsciente dele; de fato, ela o
aumentava.
Se os sonhos matutinos a desestabilizavam, isso… o que quer que fosse, a enfraquecia
completamente.
—É o nosso dia no vigário, se esqueceu?— Jane desceu com as irmãs a seguindo.
—Não, eu acabei dormindo demais e perdi a hora.
—O homem ainda está doente?— Lucy perguntou.
Lua sorriu.
—A febre diminuiu à noite e ele está dormindo pacificamente agora.
—De novo?— Lucy declarou. —Ele nunca vai acordar, não a menos que...
—Vá e lave o rosto e as mãos. — Lua deu a ela um pequeno empurrão. —O café da
manhã estará pronto num instante.
—Lua. — John desceu, uma maleta de couro apertado no peito, o rosto contraído com
uma emoção que Lua era muito familiar.
Ela suspirou.
—O que você fez agora?
Ele fez uma careta.
—Não foi o que eu fiz, e sim o que eu não fiz.
Ela deu uma olhada rápida na maleta. O vigário havia dado aos meninos para que levassem
seus preciosos livros para lá e para cá pelo vicariato.
—Você esqueceu de fazer sua lição?
—Não, mas o vigário me pediu para te dar isso, dias atrás, e eu me esqueci.
Ele a deu uma pilha de artigos de vestuário brancos, nitidamente apertados e dobrados.
Ela os pegou e agitou um.
—As camisolas do vigário— John explicou. —Para ele. — Ele empurrou a cabeça na direção
da cama. —A coisa é, Lua, o vigário deu para mim no primeiro dia, e me disse que eu não
deveria mostrá-las na frente das meninas. Ele disse para Henry e mim...
—Henry e eu.
—Henry e eu devíamos vestir o homem, ou dar ao doutor para fazer isto, mas… eu me
esqueci. Ele disse que era muito importante, coisa de homem, que eu devia isto a você como o
homem da família.
—Entendo. — E Lua entendia.
John mordeu o lábio ansiosamente.
—Você tem que dizer a ele? O vigário, eu quero dizer.
Dizer ao vigário que ela cuidou de um homem - totalmente nu - em sua cama...
Como se o vigário pudesse forçar um cavalheiro estranho a se casar com uma mulher
desconhecida com cinco crianças para cuidar. Seria uma tempestade em um copo d’água,
chateando a todos, e alcançando nada além de rebuliço, embaraço e ressentimento.
—Eu não direi ao vigário se você não disser— ela disse. O rosto de John se dividiu em um
sorriso aliviado e ela arrepiou o cabelo dele afetuosamente. —Agora, coma o seu mingau de aveia
e vá.
Capitulo 4 parte 4
—Lucy, saia dessa cama.
A menininha fez beicinho.
—Mas Lua, eu estava apenas...
—Eu sei o que você estava ‘apenas' para fazer e você sabe o que eu te disse sobre isto. Deixe
o homem em paz. Agora, seja uma boa menina e separe estes botões para mim. — Lua
esvaziou uma caixa de lata com botões sortidos sobre o tapete e logo Lucy estava felizmente
absorvida na tarefa, organizando os botões por cor, forma ou tamanho, de acordo com sua
fantasia. Lua havia brincado o mesmo jogo, com alguns dos mesmos botões, quando era
criança.
Sophia deu uma olhada para cima de sua tarefa. Três vezes por semana, em troca de
produtos de leite, Sophi tinha lições com Lua em leitura, escrita e as habilidades necessárias
para ser a empregada de uma dama. Ela vinha quando as crianças mais velhas estavam tendo suas
lições no vicariato, os meninos com o latim e grego e as meninas com pintura e piano.
—O que ela estava planejando fazer? — Sophia sussurrou quando Lua retornou à mesa.
Lua revirou os olhos.
—Ela decidiu que o nosso inválido é um príncipe adormecido por causa do feitiço de uma
bruxa má. Ele não acordará a menos que seja beijado por uma princesa.
Sophia sorriu amplamente.
—Pena que não exista nenhuma princesa por aqui. Mas ele é um homem muito bonito.
Era início da tarde. Sophi havia ido para casa e Lua havia persuadido Lucy a dar um
cochilo na parte de cima. As crianças retornariam de suas lições no vicariato em mais ou menos
uma hora. Ela estava para ir para o lado de fora e fazer algum trabalho no jardim quando ouviu
movimento na cama, e uma espécie de coaxar. Ela foi apressada através do quarto.
Ele estava acordado, olhos abertos.
—Água— ele coaxou.
—Sim, claro. — Ela correu para ir buscar água e agarrou o remédio que o doutor havia
deixado com ela.
Ele lutou para se sentar, mas continuava caindo. O médico a advertiu que ele poderia ter
dificuldade com o equilíbrio e ela então deslizou o braço por debaixo dele e o apoiou,
sustentando-o primeiro com seu corpo, e então colocou alguns travesseiros ao redor ele.
Ele se debruçou fortemente contra ela e fechou os olhos. Ele estava pálido, a pele sob os
olhos fina como papel e inchadas. Linhas de tensão circundavam a boca, e a mandíbula estava
apertada, friccionada contra a dor.
Ela deu a ele a água primeiro. Ele a tragou agradecidamente.
—Eu preciso… — Ele esquadrinhou o quarto, então encontrou o olhar dela com um olhar
agonizado.
—Ah— ela disse, entendendo, e foi o buscar um jarro grande.
Alguns minutos mais tarde ela despejou um pouco de água quente em uma xícara e
acrescentou as gotas que o médico havia indicado.
—Agora beba isto.
Ele tragou uma vez então fez uma careta e tentou afastar.
—É o remédio que o doutor deixou— ela disse a ele. —Ajudará com a dor.
—Horrível!— Ele murmurou.
—Claro que o gosto é horrível, supõe-se que seja, é remédio. Então não seja um bebê, e
apenas beba.
Ele abriu os olhos e deu a ela um olhar fixo, mas bebeu sem reclamar mais.
Ele terminou de beber e baixou fortemente contra ela como se estivesse exausto do
pequeno esforço de se sentar. Ele caiu devagar, a mandíbula cerdosa correndo pelo corpo dela até
que ele descansou no lugar entre o ombro dela e o seio.
Ela queria se mover, para deitá-lo novamente, mas o braço dele ergueu e segurou-a
apertado.
—Fique.
Ela tinha trabalho a fazer, mas ele parecia tão impotente, com tanta dor. Ela se sentou lá
quietamente escutando o som da respiração dele e o cantar dos pássaros do lado de fora. Os
pássaros eram sempre mais ruidosos após as chuvas.
Capitulo 4 parte 5
Pobre homem, perdido. Qualquer que fosse seu destino, ele estava agora vários dias
atrasado. Haveria pessoas preocupadas com ele. Em algum lugar uma esposa, um amor, uma mãe
estava aflita, imaginando o pior. Ou talvez uma amante.
Um homem como ele não estaria só.
O rosto era uma escultura, fechado com uma expressão de dor, a linha da mandíbula tensa e
a boca apertada, magra e…
Linda.
Ela tragou. Como era estranho não saber nada sobre ele, ainda assim conhecer seu corpo,
sua boca tão intimamente. Ela sabia como era sentir aqueles lábios, apertados nos dela formando
um laço sem costura, até que ele se abriu para ela. Ela deu a ele fluidos preciosos. Ele a deixou
com o gosto dele em seus lábios, em sua boca.
Ela ainda podia saboreá-lo.
Gradualmente a respiração dele igualou. Lentamente as linhas de dor aliviaram. O remédio
estava fazendo efeito.
Os olhos dele abriram brevemente e o olhar vagou pelo quarto, assistindo as roupas
penduradas em pregos no fim da cama, as cortinas da cama de um vermelho enfraquecido, a
janela e o jardim além. Ele fez uma carranca para cada artigo, como que perplexo, então suspirou
e suas pálpebras tremularam e fecharam, como se fosse tudo demais para ele entender.
—Você pode me dizer o seu nome?— Ela perguntou. —Ou onde estava indo? Posso enviar
uma mensagem para as suas pessoas queridas.
Ele murmurou algo ininteligível e moveu a cabeça impacientemente contra o ombro dela.
—Está tudo bem — ela o acalmou, acariciando seu cabelo. Era obviamente demais para ele
falar ainda.
Ele murmurou algo novamente e a mão deslizou pelo seio dela.
Ela saltou. Ele estava meio adormecido, ela estava certa, e provavelmente não tinha
nenhuma ideia do que estava fazendo. Ela recomeçou o movimento calmante de correr os dedos
pelo cabelo dele. Ela não estava certa de quem se acalmava mais, se ela ou ele.
—Hmm, bom— ele murmurou e envolveu o seio dela, acariciando o mamilo com um dedo
polegar longo, forte. Enviando raios pelo corpo dela.
Ela saltou da cama.
—Pare com isto!— Meio adormecido ou não, ele não devia fazer tais coisas.
Ela pensou no modo em que havia respondido na cama de manhã e corou. Não era o
mesmo. Ele a tocava deliberadamente.
E esta manhã ela havia se apertado contra ele, deliberadamente.
Ele se retirou, meio enterrado nos travesseiros quando ela saltou para fora da cama. Um
olho intensamente castanho se abriu lentamente.
—Volte para a cama.
—Absolutamente não. — Reverendo Matheson estava certo; o homem era um libertino,
afinal. Ela se sentia estranhamente… desapontada.
Ele olhou para ela.
—O que foi?
Talvez um libertino precisasse de explicação.
—Eu não gosto de você me tocando assim.
O olhar dele abaixou.
—Você gostou. — O olho dele cintilou, e então se fechou.
Ela cruzou os braços através do peito sobre os mamilos traiçoeiros e encarou o velhaco
aparentemente dormente.
Eles nem tinham sido apresentados!
—Bem, então, já que você está acordado o suficiente para - hmm. — Ela tentou novamente,
tentando soar mais tranquila e refinada em vez de alguém que tinha acabado de ser apalpada
como uma criada e queria bater nele por causa da… impessoalidade do ato. Não que alguém
devesse tratar uma criada sem respeito. Mas alguns homens o faziam. Libertinos. —Enquanto
você está acordado, vamos usar a oportunidade para te deixar decente.
—Não… além da redenção, certo?
—Eu queria dizer decentemente vestido. Estou com a camisola do vigário aqui. Vendo que
você viajou sem nenhuma, ele amavelmente doou uma.
Houve um lânguido bufar amortizado na cama.
—Foi benzida?— Até com os olhos fechados e o rosto apertado com dor, um meio sorriso
lânguido espreitava em sua boca tão má e bonita. Diabrura brilhava através da dor. Irresistível.
Desonesta.
Ela não podia deixá-lo nu sob a roupa de cama por mais tempo. Vestido, ele seria mais fácil
de administrar. Fraldado seria muito melhor. Firmemente, com os braços amarrado nas laterais.
Um anjo caído? Um diabo, isso sim!
Ela agitou a camisola e o ajudou a colocá-la. A metade, de qualquer modo. Não foi muito
difícil colocar os braços longos e poderosos dele cuidadosamente e passar por cima da cabeça com
a bandagem. Ela o arrastou até cobrir os ombros e o tórax plano, firme e largo, tentando não
notar os pequenos mamilos masculinos apertados enquanto fazia isso.
Os dela estavam duros e pulsando, o que fazia com que fosse difícil não comparar.
Ela arrastou as dobras espessas de flanela branca abaixo até a cintura dele. Ele, claro, não a
ajudou em nada. Ela agarrou o tecido para arrastá-lo e do canto do olho pegou o cintilar de dentes
brancos.
—Você poderia ajudar— ela disse a ele
—Por quê? Você está fazendo tão bem. — Como ele podia rir quando estava obviamente em
dor?
Ela deixou a camisola junto em um maço na cintura dele. Se ele quisesse levá-la pelos
quadris, pernas e… e outras partes, ele mesmo podia fazer isto. Ela vivamente reorganizou os
travesseiros e endireitou a roupa de cama.
—Qual o seu nome?
Ele não respondeu.
Capitulo 4 parte 6
Ele deu a ela um olhar estranho. A testa enrugou, então ele fechou os olhos lentamente. A
pele estava pálida e as linhas de dor ao redor dos olhos e da boca afundaram novamente. Ele
estava realmente exausto.
Ela se sentia um pouco culpada em forçá-lo a colocar a camisola, mas ela se sentia melhor
sabendo que ele estava vestido, mais ou menos. Ela não podia deixá-lo nu em sua cama o dia
todo. Não com as crianças na casa. Ela não estava puta com ele, para falar a verdade, não. Ele era
o que era. Era a própria culpa dela que a estava deixando tão desapontada e chateada. Ela era a
boba que havia começado a se importar, que havia começado a construir fantasias ao redor de um
homem inconsciente. Pensando que sonhos matutinos poderiam se realizar.Lua
não precisa apenas dele decentemente vestido. Ela precisava dele fora de sua cama e
fora de sua vida assim que possível.
Ele não estava certo de quanto tempo havia se passado até despertar novamente. E
examinou o ambiente com cuidado, procurando por alguma pista de onde estava, exceto pela
cama construída em uma alcova. Ele ziguezagueou e a cama sussurrou. Um colchão de palha?
Meia dúzia de pregos estava fixada em uma parede. Havia roupa de mulher pendurada
neles: vestidos, uma pelica, um capote verde enfraquecido. Só um prego com roupa de homem:
um casaco, calções de pele de corça de corte bom e uma camisa de linho bom.
Nada parecia familiar.
Ele separou as cortinas e se achou em uma cabana pequena, espasmódica. As paredes eram
ásperas, simplesmente caiadas, o chão feito de pedras desiguais. O teto era baixo e enegrecido
com fumaça. A porta era antiga e de corte áspero, com uma barra de madeira para trancá-la.
Acima do parafuso pesado da tranca cintilava uma tranca nova contra a madeira desgastada pelo
tempo. Havia uma lareira com um fogo queimando, uma chaleira e uma panela suspensa sobre
ela.
O estômago dele roncou. Algo cheirava bem. Tudo cheirava bem. Sob o aroma de comida,
havia um odor lânguido e penetrante de cera de abelha. Até a forragem estava limpa, com cheiro
de feno, raios de sol e lavanda.
Do lado de fora, crianças gritavam em brincadeiras. Crianças de quem?
Uma mulher se moveu para a visão dele e ele soube de uma vez quem ela era. Ela era
familiar, e ainda assim não era, esbelta, com um modo rápido e gracioso de se mover. O cabelo
era de um loiro escuro e encaracolado preso no alto da cabeça e ele podia ver sua nuca pálida e
tenra, beijada por alguns fios escuros.
Ele sabia como aquela pele cheirava, saboreava, qual a sensação.
Mas ele não podia se lembrar do nome dela.
As costas dela estavam voltadas para ele. Ele admirou a linha elegante de sua coluna, a
cintura estreita e os quadris acentuados pelo avental. Ele gostava do modo como os quadris e as
nádegas dela balançavam enquanto ela se movia em torno da cabana.
Ela retornou à mesa, desta vez de frente para ele e começou a cortar legumes. Ela não o
havia notado ainda. Ela fazia uma carranca à medida que cortava, pensando. Ela era adorável. Não
convencionalmente bonita, mas definitivamente atraente.
O rosto tinha formato de coração, com uma pele cremosa como seda, a testa larga com um
queixo pequeno, decidido. O nariz tinha a ponta erguida e era cheio de opinião, a boca era suave
com lábios cheios, erguidos no momento, franzidos.
Ele não podia dizer daqui qual a cor dos olhos, e maldição, ele não podia se lembrar. Um
homem devia pelo menos se lembrar disto.
E o nome. Maldição, qual era o nome dela?
A velocidade dela diminuiu, e, lentamente, como se soubesse que ele a estava assistindo, ela
ergueu os olhos.
—Você está acordado!— Ela soltou a faca e foi apressada até ele. —Como você se sente?
—Minha cabeça… — O movimento mais leve fez com que martelos batessem em seu crânio,
como ferreiros ao redor de uma bigorna.
—Sim, você bateu quando caiu.
—Caí?— Isso explicava as várias dores e ardências.
—Do seu cavalo.
A sobrancelha dele enrugou mais profundamente.
—Eu caí de um cavalo?— Ele não poderia ser capaz de se recordar de quando havia caído
pela última vez de um cavalo, mas estava certo de que não era uma ocorrência comum. E ficou
ofendido pelo simples pensamento.
—Realmente, seu cavalo deslizou em uma lama inesperada e muito escorregadia e te jogou.
Você não se lembra?
Ele olhou fixamente para ela. Você não se lembra? Ele começou a agitar a cabeça, mas parou
quando os ferreiros começaram a martelarem seu crânio novamente. Ele tentou se sentar, mas
sua cabeça rodou horrivelmente e por um momento ele temeu que vomitasse.
As náuseas enfraqueceram.
—Você me deu um susto terrível, posso te dizer. Havia sangue em todos os lugares. — Ela
sorriu. —Mas você está bem melhor agora, e parece bem melhor do que nos últimos dias.
—Dias?
Ela anuiu com a cabeça.
—O acidente aconteceu dois dias atrás.
Dois dias? Ele fechou os olhos, permitindo às batidas no crânio pararem. Nada fazia sentido.
—Então se você apenas me disser o seu nome e destino, ou mesmo o endereço da sua casa,
enviarei uma mensagem para a sua família. Eles devem estar muito preocupados com você.
A família dele? O olhar dele se fixou no rosto com formato de coração dela e sua expressão
docemente problemática. Os olhos eram de um castanho dourado profundo, a cor do conhaque.
—Meu cavalo, ele ficou muito machucado?
Ela pareceu surpresa.
—Não, ele ficou de pé e saiu trotando, não se preocupe, os meninos o pegaram. Mas...
—E ele está bem? Não está ferido mesmo?
—Ele está perfeitamente são e mansinho— ela o assegurou. —Nós o deixamos com o
vigário, a pouco mais de um quilômetro e meio daqui. Nós não temos nada grande o suficiente
para ele.
Ele anuiu com a cabeça devagar e fechou os olhos Lua endireitou a roupa de cama, perplexa. Ele parecia mais preocupado com o cavalo do que com os parentes que estariam preocupados. Talvez ele não tivesse nenhum parente. Talvez
ele fosse um órfão como ela mesma e as crianças. Ou talvez ele não quisesse que ela soubesse seu
nome. Ele poderia ser um homem procurado.
Ele não parecia ser um, porém.
—O vigário não se importa, ele é um homem muito amável. E os meninos são loucos por
cavalos, então é uma alegria para eles, realmente. Eles cuidam dele ainda que não seja
responsabilidade deles. Eles me dizem que é um animal bonito. Qual é o seu nome?
—Nome?— Ele repetiu inexpressivamente.
—Sim, os meninos têm me perguntado. As meninas, também, no que diz respeito a esse
assunto.
— Todos perguntam o nome do estranho, mas já que ele parecia relutante em dizer…
—Meninas, também— ele repetiu, divertido. —Quantas?
—Três meninas, e Lucy tem apenas quatro anos, mas ela gosta de nomear animais. Todos
eles. É um incômodo porque isso torna muito difícil matar algumas das galinhas ainda que não dão
nada, porque é difícil comer um fricassé de Mabel ou um assado de Dorothy, não é?
Ela estava conversando demais, falando sobre besteiras, mas o silêncio dele era
preocupante. Isto, a carranca e o modo que ele estava olhando fixamente para ela com aqueles
olhos azuis, muito azuis.
E o pensamento do que havia se passado entre eles mais cedo.
—Quer alguma coisa?— Ela perguntou a ele. —Você está com sede? Faminto?
—Um jarro.
Ela o trouxe.
Lua trouxe água. Deslizou o braço por debaixo da cabeça do homem e o ergueu para que
assim ele pudesse beber. Ele bebeu a xícara inteira sem abrir os olhos. Ela estendeu a xícara para
Jane para mais.
Depois da segunda xícara, ele suspirou e abriu os olhos novamente. Ele examinou cada rosto
pequeno alinhado ao lado da cama.
—Quatro crianças? Quatro?
—Cinco— disse Lucy, que foi buscar um tamborete para vê-lo.
—Eu disse que eram cinco— Lua disse.
Ele olhou fixamente.
—A semelhança de vocês é extraordinária.
—Não eu. Todo mundo diz que eu me pareço com a Lua— Lucy disse a ele.
—Sim, mas eu não te vi antes— ele disse a menininha em desculpas.
—Eu não te vi, também. Mas consegui um tamborete— ela disse. —Vou insistir nisto agora.
—Uma estratégia excelente— ele disse. Lucy irradiou com orgulho por causa do elogio.
—Os outros se parecem comigo?
—Por que eles se pareceriam com você?— Lua disse inexpressivamente.
Ele deu a ela um olhar pensativo mas não respondeu.
—Você está com fome?— Lua perguntou
Fiz sopa. Você precisa ganhar força.
—É isso que eu estou cheirando?— Ele perguntou. —Cheira bom.
Levando como um sim, ela espantou as crianças, e enviou John e Henry para levar ao doutor
a mensagem de que o estranho havia despertado e estava consciente.
Ela colocou alguma sopa em uma tigela, dobrou um pano ao redor do pescoço dele, e se
sentou na extremidade da cama para alimentá-lo.
—Eu posso me alimentar— ele disse a ela, agarrou a tigela, mas as mãos dele tremeram
tanto que ela a pegou de volta.
—Você foi muito ferido. Não é nenhuma fraqueza aceitar ajuda.
—Eu não me importo se a ajuda for sua— ele disse a ela, com um olhar que fez as bochechas
dela ficarem mornas.
Ela se concentrou em dar a sopa, evitando o olhar atento dele. Ela desejou que ele
fechasse os olhos, mas ela não poderia alimentá-lo assim.
A dificuldade era que ela tinha que colocar a comida em sua boca bonita, masculina e
perfeitamente cinzelada e tudo o que isso fazia era provocar outras… sensações… matutinas.
—Você nunca me disse o nome do seu cavalo— ela disse enquanto o alimentava. —As
crianças querem saber.
Ele tragou a sopa pensativamente.
—É uma sopa muito boa— ele disse depois de um momento. —O que há nela?
Ele ainda estava evitando a pergunta. Por quê?
—Urtigas. — Os olhos dele alargaram e ela riu. —Não dão coceira se for na sopa e é muito
bom para você. A parte mais difícil é escolher - tem que usar luvas.
Ele permitiu que ela o alimentasse outra colherada, fingindo saboreá-la corretamente desta
vez.
—Urtigas têm esse gosto?— Era um elogio.
—Não só urtigas. Há outros ingredientes.
—O quê?— Ele perguntou suspeitosamente.
—Oh, apenas o habitual, sabe, olho de Tritão e perna de rã.
Ele sorriu e ela realmente desejou que ele não o fizesse. Ele era muito encantador para o
próprio bem dele. Para o bem dela.
—Estou realmente interessado.
Ele estava mesmo, ela viu.
—Nada terrível, eu te asseguro. Principalmente batatas, manteiga, creme, agrião e um
pouco de salsa. — Em outras palavras era como a maior parte das comidas: feita de ingredientes
que ela podia plantar, escolher ou trocar. Graças a Deus Sophia era uma ordenhadora.
—Eu podia ter jurado que tem gosto de galinha.
—A base é feita de uma carcaça de galinha.
Capitulo 4 parte 7
Ela o trouxe uma segunda tigela de sopa, mas não fez nenhum esforço para falar enquanto o
alimentava. A recusa dele em responder a pergunta dela deixou-a com raiva. Quem ele era para
esconder o nome? Algum tipo de criminoso? Um homem procurado assim como um libertino?
Ele estava pensativo, distante, bebendo a sopa que ela o alimentava quase como se ela não
estivesse lá. Ela estava muito ciente dele, a proximidade, a masculinidade magra de seu corpo, os
pelos escuros nos braços, as mãos com dedos longos de cavalheiro. Essas mãos não pertenciam
aqui. Ela precisava mandá-lo seguir seu caminho. Alguém podia enviar uma carruagem para ele.
—Vou notificar alguém — ela disse a ele enquanto ele enxugava a boca e a dava o pano. —
Então, a quem devo notificar?
—Notificar?
—Sua família, ou quem você estava a caminho de visitar quando sofreu o acidente. Eles
estão preocupados.
Ele suspirou, mas não disse nada.
Ela ficou de pé e disse com o tipo de voz que usava com as crianças quando estava tentando
mostrar sua autoridade: — Se você não me disser, não terei nenhuma escolha além de informar as
autoridades. Então, quem é você?
Houve um longo silêncio antes de ele dizer relutantemente.
— Eu não sei.
Continua.....
Capitulo 5
—O que você quer dizer com... — Ela cessou bruscamente. —Você quer dizer que não se
lembra quem é? — Esse era outro plano para evitar dizer a ela o nome?
—Não.
—Você não tem nenhuma ideia?
—Nenhuma. Está tudo em branco. — A sobrancelha dele enrugou. —Você está me dizendo
que não me conhece, também?
—Eu nunca te vi até dois dias atrás quando você caiu de seu cavalo do lado de fora da minha
casa.
A boca dele contorceu.
—Mas eu pensei…
—Pensou o que?
Ele bateu levemente na cama.
—Você dormiu aqui, comigo.
As bochechas dela aqueceram e ela juntou as coisas na bandeja e saltou para fora da cama.
—Só porque você estava inconsciente - eu pensei que estava - e porque a alternativa era
congelar no chão. E eu coloquei a Muralha de Adriano para nos manter separados, mas alguém —
ela estreitou os olhos para ele — jogou-a para longe. Ambas às vezes.
—A Muralha de Adriano?
—Foi um muro que o Imperador romano Adriano construiu para manter o selvagem povo
escocês.
—Eu sei o que é a Muralha de Adriano. Mas como você poderia colocá-la na nossa cama?
—Minha cama — ela disse imediatamente. —E esse é a Muralha de Adriano. — Ela
gesticulou para a colcha enrolada, então piscou e entendeu o que ele havia acabado de revelar. —
Você sabe o que é a Muralha de Adriano? E diz que não pode se lembrar do próprio nome?
—Eu não digo apenas, é verdade!— Ele fez um gesto frustrado. —E não me pergunte como
posso me lembrar de um imperador romano e não saber quem sou ou onde estava indo, porque
não posso explicar. Só sei que é verdade. —Ele soou bravo e confuso, e por mais estranho que
soasse, Lua estava propensa a acreditar nele. —Mas estou certo de que conheço você— ele
terminou.
—Você não me conhece. Nunca nos encontramos antes.
—Não. Eu reconheci o seu odor durante a noite. Mesmo na escuridão, eu sabia quem era
você.
Ela agitou a cabeça.
—Eu não uso perfume.
—Eu sei. Não estou falando de algo de uma garrafa. Era você quem eu reconheci, seu
próprio odor feminino. — O olhar dele abrasou-a.
Ela abriu a boca para dizer algo, alguma observação firme que colocaria a atitude muito
familiar de volta em seu lugar, mas nenhuma palavra veio. A boca estava aberta sem som, como
um pássaro filhote em que a fala havia secado completamente.
Ela se virou, o rosto - o corpo inteiro - queimando. Seu próprio odor feminino. Que
mortificante! Ela era escrupulosa com seus hábitos, lavando a si mesma e as crianças todas as
manhãs e à noite. Mas se ele podia cheirá-la! Ela precisava óbvia e imediatamente tomar banho!
Com um tipo diferente de sabão.
O que provavelmente explicava o excesso de familiaridade dele. Ele tinha uma esposa ou
uma amante que usava o mesmo tipo de sabão. Lua fazia seu próprio sabão usando cera de
abelha e outros ingredientes. Seria caro comprar, mas não quando se tem abelhas e se pode fazêlo
você mesmo.
—E agora eu te deixei furiosa— ele disse.
Ela o atirou um olhar estreito.
—Deixou?
Ele sorriu amplamente.
—Definitivamente furiosa.
Ela começou a lavar os pratos, desejando que ele voltasse a dormir. Ela podia sentir o olhar
dele nela o tempo inteiro.
—Posso te perguntar uma coisa?— Ele disse quando ela terminou de lavar e começou a
secá-las.
—O quê?— Ela disse cautelosamente.
—Qual é o seu nome?
—É Blanco— ela disse a ele. —Senhorita Lua Maria Blanco
—Senhorita Blanco?— Ele tentou esconder a surpresa.
—Sim, senhorita— ela disse laconicamente. —Por quê?
—É que… todas aquelas crianças.
Ela riu, de repente percebendo a linha de pensamento dele.
—Você pensou que fossem meus? Todos os cinco? Jane, a mais velha, tem doze. Quantos
anos você acha que eu tenho?
Era uma pergunta retórica, mas ele deu a ela um olhar pensativo, considerando-a, da cabeça
aos pés, e ela se sentiu corando sob seu olhar, imediatamente autoconsciente. Desejando,
absurdamente, que ele gostasse do que via.
—Eu não sei— ele disse. —Mais ou menos… vinte e cinco?
—Vinte e dois— ela disse decisivamente. Então ela parecia mais velha do que era.
Maravilhoso. O sonho de toda mulher.....
Continua......
Capítulo 5 parte 1
Era uma pergunta retórica, mas ele deu a ela um olhar pensativo, considerando-a, da cabeça
aos pés, e ela se sentiu corando sob seu olhar, imediatamente autoconsciente. Desejando,
absurdamente, que ele gostasse do que via.
—Eu não sei— ele disse. —Mais ou menos… vinte e cinco?
—Vinte e dois— ela disse decisivamente. Então ela parecia mais velha do que era.
Maravilhoso. O sonho de toda mulher.....
—As crianças são meus irmãos e irmãs, meio irmãos e irmãs, para ser precisa. Eles são filhos
do meu pai com sua segunda esposa. Eles são - nós somos - órfãos.
—Eu sinto muito. — A voz era gentil.
—Obrigada. — Ela sentia pouco pesar pelo pai. As crianças poderiam, mas era a opinião dela
que elas lamentavam mais pela ideia de um pai. E muito mais pela perda da casa. —Agora, se isto
é tudo…
—São roupas minhas?— Ele apontou para os ganchos ao lado da cama, que era tudo o que
ela tinha como um guarda-roupa nestes dias.
—Sim, mas você não está bem o suficiente...
—Quero verificar se há alguma identificação nelas. Suponho que você não olhou.
—O vigário verificou. Não há nenhuma.
—Você não olhou? Não estava curiosa?
Ela mordeu o lábio.
—Eu olhei, sim, mas...
—Mas o quê?
—Eu apenas verifiquei se você tinha dinheiro.
Ele afundou de volta contra o travesseiro e apenas ficou olhando para ela.
—Entendo.
Ela sentiu as bochechas aquecerem.
—Não é o que você pensa, bem, é, mas — Ela estava tropeçando. —Eu precisava saber se
você… — A voz dela diminuiu, sabendo o quão ruim soava.
—Tinha dinheiro?
A nota seca na voz dele sacudia-a até o âmago.
—Sim, porque você estava muito ferido e eu não pensei duas vezes em chamar o doutor.
Mais tarde eu me perguntei como poderia pagá-lo, eu não tenho nenhum dinheiro, então quando
o vigário enviou o baú, eu me perguntei se… se você poderia pagar.
—Entendo. E eu tinha dinheiro?— A voz era fria, imparcial. Julgando.
Ela anuiu com a cabeça.
—Bastante, ainda bem. — Um rolinho espesso de notas novas.
—E você pagou ao doutor?
—Não, ele nem mesmo mencionou dinheiro. Ele não estava certo de que você viveria pela
noite. Foi uma ferida muito séria, sabe. Você estava sangrando muito. E então houve a febre.
Ele pôs uma mão sobre a cabeça, sentindo a bandagem ligeiramente.
—Então é graças a você que eu sobrevivi à noite. Várias noites. — Ele deu a ela um olhar,
como se não soubesse o que fazer com ela.
Como se ele ainda pensasse que ela poderia ser uma ladra. Mas não havia nada que ela
pudesse dizer para convencê-lo, e se ela continuasse a discutir a questão, apenas soaria pior.
—O doutor voltará. Espero que ele envie uma conta quando estiver acabado seu
tratamento.
—Entendo.
—Ele também disse que não sabe se o seu tornozelo está quebrado ou não, diminuímos um
pouco o inchaço, mas você precisa estar consciente para que ele tenha a certeza. Veja se pode
mover os dedões do pé. Coisas assim.
Ele se moveu desconfortavelmente: — Eu pensei nisto. Dói para demais.
—Sim, seu cavalo pisou nele. Mas enquanto isso, você não pode se mover ou tentar sair da
cama.
Ela ergueu as roupas dele do prego, deitou-as na cama, então puxou um pequeno baú de
couro que estava por baixo da cama.
—O vigário enviou este com os meninos; estava amarrado com correia ao cavalo. Examine
você mesmo. Talvez haja algo que ative a sua memória. E você pode verificar o... — Ela parou,
percebendo que se ele não pudesse se lembrar quem era, certamente não se lembraria o que
estava em seu baú.
—Está tudo lá— ela disse rígida. —Podemos ser pobres, mas não toquei em um centavo.
Não faria isso.
—Eu sei— ele disse suavemente. —Eu sou um idiota. É apenas...
—Que você não me conhece. E eu não conheço você. Sim. Agora, se me dá licença, tenho
trabalho a fazer. — Ela fechou as cortinas da cama e um momento mais tarde ele ouviu a porta da
cabana fechar atrás dela.
Maldição, ele não queria tê-la chateado assim. Ele não a conhecia - não conhecia a si mesmo
quando a questão era essa - e viajantes eram roubados o tempo todo. Mas eles normalmente não
o arrastavam de uma tempestade e o colocavam em suas próprias camas.
Era estranho como ele sabia algumas coisas bastante bem, mas não podia nem se lembra de
seu próprio maldito nome. Mas ele sabia que ela não tentaria roubá-lo ou seduzi-lo por dinheiro;
não havia tentado seduzi-lo mesmo, o que era uma pena. Ele teria ficado muito feliz em cooperar.
Ela era adorável. Não bonita no sentido clássico, mas era deliciosa, quase comestível, com aquela
pele cremosa sedosa e tão suave, fragrante e convidativa. Ele queria tocá-la, sentir o gosto,
explorar o corpo da cabeça até o dedão do pé delicado, feminino.
Deus, ele soava como o pior poema de amor que ele já havia lido. Não que ele pudesse se
lembrar de um único poema no momento. Ele deu uma risada irônica - e foi imediatamente
castigado por isto. Ele esperou as batidas dos martelos em sua cabeça diminuírem, então agarrou
suas coisas.
Os bolsos do casaco vomitaram um punhado de moedas, um maço grande de notas novas, e
um pedaço pequeno de papel que um dia tinha sido escrito, talvez um endereço. Ele o desdobrou,
mas estava completamente ilegível, a tinta tinha escorrido.
Ele foi até o baú. Como ela havia dito, não havia nenhum meio óbvio de identificação. Além
de uma pequena pistola eficiente carregada, apenas com a marca do fabricante nela, e roupas - o
mínimo: uma muda de roupa íntima, uma camisa sobressalente, um par de meias, uma gravata -
não havia nada além exceto artigos de toalete e uma navalha.
A navalha era uma visão bem-vinda. Ele correu uma mão sobre o restolho. Ele não tinha
nenhuma preferência por uma barba áspera e estava certo de que as damas também não. Ele se
lavaria e barbearia mais tarde.
Ele peneirou os pertences uma segunda vez. Nada deu um estalo em sua memória.
Ele parecia ser um homem de algumas posses: os pertences eram da melhor qualidade. Mas
não havia nenhum desenho ou mesmo iniciais em ouro no baú ou em seus artigos de toalete,
então ele provavelmente não era membro de uma das melhores famílias.
E o estranho era que ele estava, aparentemente, viajando só, sem um cavalariço ou
camareiro, e a cavalo, coisas que os cavalheiros faziam apenas para uma viagem curta, informal.
Mas ninguém por aqui parecia conhecê-lo ou notar sua ausência, então parecia que ele era
desconhecido nesta localidade.
Ele estava indo embora?
A falta completa de qualquer forma de identificação, nenhum documento, nenhuma carta,
nada exceto o pacote de cédulas grandes e novas - parecida estranho. Peculiar. Até mesmo um
pouco suspeito. Será que ele era, talvez, algum tipo de caráter sombrio? Ele não se sentia sombrio,
ele não gostava muito da ideia, mas não estava nada claro em sua mente atual.
Ainda assim ele estava na cama dela, e ela a compartilhara com ele, estranho ou não. Isso
tinha que significar algo.
Preocupado com perguntas incontestáveis e doloridas por toda parte, ele empurrou seus
pertences de lado, fechou os olhos, e eventualmente, dormiu...
Continua....
Capitulo 5 parte 2
Dr. Thompson inspecionou os ferimentos na cabeça dele com fungadas aprovadoras.
—Por fora parece estar curando bem, mas me disseram que você não pode nem se lembrar
do próprio nome, é?
—É muito frustrante. Eu posso me lembrar de todos os tipos de fatos estranhos, citações e
tal - mas nada sobre eu mesmo ou os eventos que levaram ao acidente.
—Fascinante. — O doutor fixou nele um olhar astuto e fez uma série de perguntas: Quem
era o Primeiro Ministro? Quando foi a Batalha de Waterloo10? Onde ele havia crescido? Qual era a
soma de 241 com 398? Qual era nome do pai dele? O que foram as Guerras Púnicas11? Quem
havia escrito O Mercador de Veneza12?
Ele havia respondido o melhor que podia, respondendo algumas até sem pensar duas vezes
e deixando outras em branco.
No fim da inquisição, o doutor anuiu com a cabeça.
—Seu cérebro parece estar trabalhando bem, é apenas a sua memória que está ruim.
Isso ele já sabia.
—A pergunta é: quando ela vai voltar?
—Não sei dizer — o doutor disse alegremente. —O homem já circunavegou o mundo
centena de vezes, mas ainda temos pouquíssima ideia do que está aqui. — Ele bateu na têmpora
dele ligeiramente. —Ou como ele trabalha. Em alguns casos, os pacientes nunca recuperam a
memória. Ou até mesmo o cérebro. — Aparentemente inconsciente da expressão intimidada de
seu paciente, ele acrescentou alegremente: — agora, vamos dar um olhada neste tornozelo.
Ele desembrulhou o tornozelo ferido, sondou e manipulou, e eventualmente disse que havia
sido um deslocamento.
—Mas poderia ser um osso rachado. Eu o amarrarei com uma correia novamente numa
possibilidade remota. Não ponha qualquer peso nele por pelo menos uma semana. Se doer, não o
use. — Ele fechou a bolsa. —Não a menos que você queira ser um aleijado pelo resto da vida, há,
há.
Maldito bastardo alegre, ele pensou quando o doutor partiu. As manipulações do médico o
deixaram exausto. E frustrado.
—Ele é um médico muito bom— Lua disse defensivamente. —Ele só não é
infundadamente otimista.
—Oh, sim, eu notei o otimismo dele. Tenho que me sentir um sortudo por ter um cérebro,
não importa se eu nunca descobrir quem sou. E se eu me mover, ficarei aleijado por toda a vida. É
tudo tão fascinante!
Ela riu.
—É um bom conselho. Você parece bastante cinza sob os olhos, então por que não descansa
um pouco?
Não havia nada que ele quisesse mais, mas ele odiava parecer tão fraco e impotente na
frente dela.
—Estou perfeitamente bem— ele começou, mas ela puxou as cortinas e ele foi deixado só.—
Eu não sou normalmente tão fraco— ele disse para a cortina. —Sou um homem muito enérgico,
na verdade.
Ela riu e respondeu: — Como você saberia?— Um momento mais tarde a porta de fora foi
fechada e ele podia ouvi-la dizendo às crianças para brincarem um pouco mais distante da cabana
para que o homem pudesse dormir.
Como ele saberia, realmente?
—O homem— esse era o nome dele. Isso ou “você” ou “senhor” dependendo de quem
estava falando. Não era aceitável. Ele precisava pensar, precisava se lembrar…
Capitulo 6
Um momento mais tarde Lua entrou voando na cabana. Ela colocou a cabeça entre as
cortinas da cama e disse com voz urgente: — Não importa o que você ouça, o que seja dito ou
feito, não acorde! Você está me ouvindo? É de extrema importância que você pareça inconsciente.
Não mova um músculo!— Ela fechou as cortinas da cama, e antes de ele poder perguntar o que
raios estava acontecendo, ele ouviu uma batida na porta.
—Oh, Sr. Matheson, que surpresa agradável— Lua disse em surpresa aparente.
—Minha querida Senhorita Blanco. — O locutor tinha a voz profunda, do tipo
normalmente ouvida sobre púlpitos. —Achei que fosse minha incumbência vir na sua hora de
necessidade.
—Minha hora de necessidade?
A voz abaixou, retendo seu talento dramático.
—Sua Imposição mal recebida.
—Minha impos... oh, você quer dizer o estranho ferido. Ele não é realmente uma imposição.
Pequena mentirosa, a imposição pensou.
—Mas é claro que ele é— o Reverendo Fruit-bowl declarou. —Uma jovem dama solteira,
forçada a dar abrigo a um Homem Desconhecido! E um homem - posso acrescentar, sem sujar
suas Orelhas Tenras - de Hábitos de Mau gosto!
Hábitos de Mau gosto? Ficou tentado a exigir uma explicação, mas ciente das instruções da
sua anfitriã, continuou deitado fingindo inconsciência. O que diabo este falador fanfarrão sabia,
acusando-o de hábitos de mau gosto?
—Então você o conhece?— Ela perguntou calmamente.
—Conhecê-lo? Agradeço a Deus por não conhecê-lo. Mas conheço Seu Tipo.
—E que tipo é esse?
—Não seria adequado que eu explicasse, mas basta dizer...
—Você quer dizer o tipo que viaja sem uma camisola?— Houve um som lânguido de engolir,
mas ela continuou imperturbada. —O doutor me disse as suas preocupações, querido Sr.
Matheson, mas não há nada para se preocupar. Conseguimos colocá-lo na camisola que você
enviou...
—Nós?— Fruit-bowl declarou sinistramente
—O doutor e John, claro— ela disse suavemente.
Oh, ela era boa. O médico e John não estavam em lugar nenhum a vista quando ela o vestiu
com a maldita coisa. Não se admirava que a camisola nadasse nele. O Reverendo Fruit-bowl era
obviamente tão arredondado quanto as suas vogais no nome.
—É o que eu espero! E Senhorita, eu imploro, não há nenhuma necessidade
adicional de você se referir a um Artigo de vestuário Masculino Íntimo. Deve ser aflitivo para uma
Lady.
E o que você pensaria, bom reverendo Fanfarrão, se soubesse que ela me deixou todo nu e
me colocou na cama dela e então se juntou a mim lá, embora de forma casta? Ele amortizou um
bufar de riso.
—O que foi isto?— O fanfarrão perguntou.
—Nada— ela disse às pressas. —Artigos de vestuário masculinos íntimos não me ofendem
em nada. Eu lavo o dos meninos toda a semana. Agora posso te oferecer uma xícara de chá? Há
apenas chá de menta com mel, mas...
—Não, não, obrigado. Minha boa senhora terá chá esperando quando eu retornar, mas estou certo de que ouvi…
—Sem dúvida era uma das crianças brincando. Elas frequentemente fazem os sons mais
ridículos, e esquisitamente, soam bastante per... Reverendo Matheson, imploro, não perturbe —
As cortinas vermelhas enfraquecidas da cama foram abertas.
Houve um longo silêncio enquanto ele fingia inconsciência sob o olhar fixo do vigário. Ele
podia ouvir o homem respirando enquanto se debruçava para observá-lo de perto. Ele tinha
cheiro de Porto e cominho.
Ele tentou parecer pálido e às portas da morte. Como alguém respirava quando
inconsciente? Ele se perguntou. E deixava a boca aberta ou não? Não, ele decidiu. Não era uma
coisa atraente, e ele estava certo de que ela estava ao lado do vigário, assistindo-o em busca de
qualquer sinal de consciência.
—Um Rufião de aparência maligna— o vigário declarou. —Um Verdadeiro Pirata.
—Isto é por causa das contusões e das bandagens, e porque ele não se barbeia há dias.
Então ela pensava que ele se parecia com um pirata, também, é?
—Ele fica assim na maior parte do tempo— ela disse ao vigário. —Dia ou noite, ele nunca se
movimenta, então como pode ver, estou segura. — Ela o estava defendendo.
Interessante.
O vigário xingou.
—Dr. Thompson disse que ele estava consciente hoje mais cedo.
—Ele estava, é verdade, mas estava tão cansado com os cuidados do doutor que voltou a
ficar inconsciente quase imediatamente e não moveu mais um músculo desde então.
Sem aviso prévio, um dedo o cutucou nitidamente no lado, no local de um de seus danos
mais tenros. Ele fez uma exclamação brava, mas conseguiu torná-lo um gemido. Ele esperou que
tivesse sido convincente. Havia doído para caramba.
—Não gosto disto, nada mesmo — o vigário disse.E eu não gosto de você me cutucando, ele pensou.
—Ele é inocente, Reverendo Matheson, então, por favor, saia. O doutor disse que a
recuperação dele será mais rápida se não for transtornado. — Ela fechou as cortinas e ele pôde
relaxar.
—Iria me oferecer para levá-lo para o vicariato. Não é certo que uma dama jovem e solteira
seja sobrecarregada com alguém como ele.
—O médico disse que ele não deveria ser movido até que o dano na cabeça mostre sinais de
cura.
—Ele disse o mesmo para mim— o vigário disse irritadamente. —Mas quando será isso?
—Está nas mãos de Deus— ela disse, e ele teve que abafar uma risada no modo como ela
roubou a frase do vigário.
—Então até que este Evento Feliz aconteça, talvez a minha Boa Dama deva vir e ficar com
você, como uma acompanhante.
Ela riu, um som cintilante.
—Não sugira tal coisa, eu imploro. Pobre Sra. Matheson. Ela odiaria ficar nessa cabana
pequena, sufocante e fechada com cinco crianças ruidosas.
—Ela adora crianças.
—Eu sei, e tem sido mais do que gentil para nós. Mas não há nenhum lugar para ela dormir.
Houve uma pausa curta, tensa.
—E onde, posso perguntar, você dorme, Senhorita Woodford? Sei que há mais dois quartos
de cima, com duas camas.
—Eu fiz a minha cama nas últimas duas noites no chão diante do fogo.
Ela é boa, ele pensou. Não era, afinal, uma mentira. Ela havia feito a cama no chão. Ele a
havia visto guardá-la de manhã. Ela simplesmente omitira a parte em que havia dormido com ele.
E a coisa que ela havia chamado de a Muralha de Adriano.
—Mas...
—E hoje à noite eu farei o mesmo— ela disse com garantia quieta.
Não se eu puder evitar, ele pensou.
—Eu não gosto disto.
—É muito amável que você se preocupe comigo, Sr. Matheson, mas não há a menor
necessidade. Eu não preciso de nenhuma proteção desta criatura fraca, ferida. Dificilmente diria
que sou uma jovem ingênua, afinal; tenho me sustentado e aos meus irmãos e irmãs sem ajuda
por algum tempo.
—Sim, mas...
—E com cinco pequenas aias, eu não preciso de outro, então, por favor, não se preocupe
comigo ou com o estranho. A maior parte do tempo ele está inconsciente e, quando está
acordado, parece do tipo cavalheiro. Além disso, estou certa de que ele vai recuperar a memória
logo e irá embora.
Ele ouviu a porta da frente sendo aberta.
—Mas eu não gosto disto— o vigário disse infelizmente. —Nem um pouquinho.
Continua.....
Capitulo 6 parte 1
Alguns minutos mais tarde ela retornou.
—Ele se foi, você pode relaxar agora. — Ela abriu as cortinas e olhou.
—Velho fanfarrão e falador— ele disse.
—Ele é um homem muito amável— ela disse a ele. —Ele e sua esposa têm sido mais do que
bons para as crianças e para mim, e eu não aceitarei que você zombe dele. Ele está preocupado
com a minha reputação e a minha segurança, isto é tudo.
—Então por que raios você disse que eu fingisse que estava inconsciente? Eu poderia tê-lo
reassegurado de que sou um cavalheiro e...
—Isso teria sido um desastre.
Ele fez uma carranca.
—Por quê?
Ela parecia que ia dizer alguma coisa, então parou.
—Apenas acredite em mim, seria.
—De que modo?— Ele persistiu.
—Muito bem, se quer saber, acho que se ele conhecesse que você é um cavalheiro e
solteiro, ele tentaria nos forçar a casar.
Ele riu. —Você não pode estar falando sério. Ninguém, vigário ou quem quer que seja,
poderia me forçar a qualquer coisa que eu não queira. Por que ele consideraria tal coisa?
Ela estreitou os olhos para ele.
—Porque ele acha um escândalo você estar na minha cama, só isso.
—Sim, mas não aconteceu nada. E ainda que tivesse, eu já estive em dezenas de... — ele
cessou bruscamente, notando a expressão dela. —Pelo menos, estou certo de que devo ter ido…
Provavelmente.
—Ele estava certo em me lembrar que eu não sei nada sobre você.
—Eu não sei nada sobre mim, também— ele a lembrou. —Mas até eu posso dizer que um
casamento entre nós seria absur... — ele cessou bruscamente.
—Sim?— Ela disse com uma doçura que não o enganou em nada.
Ele tentou se recuperar.
—Você não vai querer um casamento desse tipo também, ou não teria dito - como você
disse mesmo? Essa criatura frágil e ferida. — Irritou-o. Ferido sim, mas frágil? Como se ele não
servisse para nada. — Por que fez isso? Para que ele não achasse que eu sou um dano a sua
reputação?
—Exatamente!— Ela relampejou. —Não tenho nenhum desejo de me unir em matrimônio
com qualquer homem, muito menos um que eu não sei nada, que estava apenas montando um
dia e caiu de seu cavalo aos meus pés.
—Eu não caí, fui lançado quando o meu cavalo deslizou! E se você não queria ser
comprometida, por que você não aceitou a oferta dele de me levá-lo para a casa dele?
—Porque, seu tolo, apesar da evidência crescente de que você tem a cabeça mais dura de
todo o universo, o médico disse que poderia fazer mal a você ser movido!— E com isso ela fechou
as cortinas da cama e saiu como um furacão da cabana, batendo a porta com um estrondo.
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Bem grandão né!! merece muitos comentários também!!
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Céditos:CFC


1 comentários:
Posta mais, amo essa web
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