Capítulo 8
Ele se deitou de volta contra os travesseiros, tomado pela culpa. Ele não devia ter rido. Claro
que ela ficaria chateada. Ninguém gostaria de ser motivo de riso.
Mas a ideia do vigário forçar um casamento entre ele e a Senhorita Blanco parecia tão
improvável. Até sem saber qualquer coisa sobre si mesmo, ele podia ver à primeira vista que eles
vinham de mundos muito diferentes.
Ela vivia em uma cabana de operário. Ele estava bem certo de que nunca esteve em uma
casa tão pequena e espasmódica. A fascinação dele por ela demonstrava isso. Tão minúscula e
ainda assim seis pessoas viviam aqui. Sete, se contasse com ele mesmo. E tudo tão limpamente
organizado, tudo em seu lugar e sem uma única coisa que ele pudesse ver que não tinha alguma
função prática. Nenhum artigo de beleza ou cultura, apenas necessidades do dia a dia.
Havia anomalias, porém - o sotaque dela, por exemplo. E o das crianças. Eles falavam como
ele, corretamente, sem inflexões regionais fortes.
Talvez ela fosse a filha de um cavalheiro, que passou por tempos duros. Fazia a questão do
casamento entre eles parecer não tão improvável, mas se ela teve um bom nascimento, ele podia
entender por que ela se sentiu ofendida pelo riso dele. Quando as pessoas de uma boa família
perdiam sua posição na sociedade, fazia com que ficassem mais sensíveis sobre serem
respeitados. Ele se desculparia quando ela retornasse à cabana.
Ele cochilou durante algum tempo, mas despertou quando a ouviu retornando.
—Eu poderia ter um pouco de água quente, por favor?— Ele perguntou, lutando para
sentar. Ele fechou os olhos para parar a dor, e quando os abriu, ela estava de pé ao lado da cama,
emoldurada pelas cortinas vermelhas enfraquecidas, uma visão tão adorável quanto nenhuma
outra que ele pudesse imaginar, o rosto corado pelo tempo ao ar livre.
Ela o assistia gravemente, uma xícara emitindo fumaça em sua mão.
—Sinto muito pelo o que eu disse antes— ele começou. —Sobre ser absur...
—Não há nada para se desculpar — ela disse depressa, com um olhar que indicava que não
tinha nenhuma intenção de discutir o assunto. Ela ofereceu a xícara. —Aqui, beba.
Ele a tomou e pegou uma brisa que o fez olhar o conteúdo. Era algum tipo de líquido
marrom. Ele enrugou seu nariz.
—O que é isto?
—Chá de casca de salgueiro. Ajudará com a enxaqueca. E gengibre ajudará com a náusea.
Ele a devolveu intata.
—Obrigado, mas não. Quero água quente para me barbear. — Ele correu uma mão pelo
queixo áspero e deu a ela um sorriso sentido. —Ouvi de fonte segura que eu pareço com um
rufião maligno, algum tipo de pirata.
Ela sorriu.
—Você não deve se importar com o Reverendo Matheson. O latido é pior do que a mordida.
Trarei água quente, mas primeiro você precisa beber. — Ela ofereceu a xícara novamente.
Ele não fez nenhum movimento para tomá-la. Ele não queria nenhum remédio. O último que
havia bebido o havia dado sonhos estranhos. —Não, obrigado.
—Demorei a noite toda para prepará-lo. — Ela acrescentou com a voz persuasiva: — e
adociquei com mel para ajudar com o gosto amargo.
Quantos anos ela achava que ele tinha?
—Eu não me importo com o gosto; não quero isto porque da última vez que você me deu
para beber, coisas estranhas passaram pela minha mente.
Ela balançou a cabeça para um lado, como um passarinho cauteloso.
—Coisas estranhas?
—Sonhos, alucinações, esse tipo de coisa. E acordar era como se erguer de uma cama cheia
de cola. — Ele não tinha nenhuma intenção de dizer a ela que tipo de sonhos - eram
profundamente eróticos e a envolviam.
—Não foi o remédio. Você estava delirando ontem à noite porque estava queimando de
febre.
—Febre? Então é por isso que eu estou me sentindo tão ferr- fraco.
Ela anuiu com a cabeça.
—Você estava muito doente. A febre baixou logo antes de amanhecer, mas levará um tempo
antes de você conseguir sua força de volta. Esse chá é inofensivo e ajuda com as suas dores e
contusões - e não me diga que você está sentindo nada porque eu posso ver no seu rosto. — Ela
empurra a xícara na direção dele novamente. —É do meu interesse também que você se recupere
depressa— ela o lembrou.
—Oh, muito bem— ele disse, tomando a xícara e virando-o em um trago longo. Ele
estremeceu e a deu a xícara vazia. —Gosto horrível.
—É pior sem o mel. Agora, suponho que você precisará disso. — Ela se curvou e pegou o baú
dele, dando a ele antes de sair para ir buscar a água quente.
Ele tirou o aparelho de barbear e o desenrolou, colocando de lado seu pincel de barbear de
pelo de texugo, sabão, navalha, a pedra para afiar a navalha e uma garrafa de um líquido que ele
destampou e cheirou. Água-de-colônia, agradável e familiar.
Ele testou a navalha. Perfeitamente afiada.
—Aqui. — Ela voltou com uma bandeja em que havia uma bacia com água, uma xícara
grande, um espelho de mão e uma toalha. —Você está certo de que consegue fazer sozinho?
—Claro.
Ela assistiu enquanto ele se molhava o pincel com sabão e água quente vigorosamente e
aplicava no rosto.
—Estou perfeitamente bem— ele disse a ela.
Ela anuiu com a cabeça, mas não se moveu.
Ele ergueu o espelho com uma mão e a navalha com a outra....
Continua....
Créditos : CFC


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