Capitulo 12
—Você acha que a Lucy é minha filha, não minha irmã.
—Não, não— ele começou, mas se perguntou se de fato achava.
—Ela não é— ela disse com tom que não admitia dúvida. —Sim, ela é muito mais jovem do
que os outros, e ambos somos ruivas, mas olhos da Lucy são azuis, como os dos meus irmãos e
irmãs, e os meus são castanhos. — Ela alisou várias tiras, selecionou uma bronze e pegou de novo
a agulha.
Os olhos dela não eram marrons, eram da cor do conhaque ou do xerez, um ouro escuro e
luminoso. Intoxicante.
—Peço desculpas, não é da minha conta.
Ela agitou a cabeça.
—Estou acostumada às pessoas dizerem isto pelas minhas costas, então eu raramente tenho
a chance de explicar. A verdade é, a mãe de Lucy morreu pouco depois de dar a luz a ela. Lucy é a
razão pela qual meu pai mandou me buscar.
—Mandou te buscar? Por quê? Onde você estava?— Ele fez as somas. Ela teria mais ou
menos dezoito ou dezenove quando Lucy nasceu. —Em Londres, fazendo seu debute?
—Não. — Ela reuniu a rede até a agulha, formando um plissado. —É por isso que eu pensei
que o meu pai havia mandado me buscar, para eu fazer o meu debute afinal. Mas os planos dele
eram… o contrário. — Ela ergueu o chapéu, girando-o e examinando de todos os ângulos. —O que
você acha? O plissado, ficou bom?
Ele deu uma olhada superficial.
—Sim, muito elegante. Mas você estava me dizendo sobre os planos do seu pai. Em vez de
fazer o seu debute, ele queria o quê?
Ela cortou a linha com os dentes.
—Ele queria que eu tomasse conta do berçário.
—Onde você estava?
—Vivendo no interior com a minha avó. Mãe da minha mãe. — A boca trançou
ironicamente. —Vivendo muito como agora - com os legumes e as abelhas. Foi quando eu aprendi
a renovar chapéus. Minha avó tinha talento para essas coisas.
Ele deu uma olhada rápida novamente para o chapéu. Parecia surpreendentemente
elegante. A avó dela fora uma modista? Nesse caso, ela era boa. Aquele chapéu parecia quase
francês. Não se admirava que as damas da aldeia contratassem os serviços dela.
Era aparente também que o pai dela havia se casado com alguém abaixo dele e queria
desconhecer a descendência.
—Seu pai não podia ajudar?— Seguramente ele poderia ter se disposto a sustentar uma
jovem.
Ela encolheu os ombros.
—O meu pai nunca reconhecia qualquer coisa que não estivesse bem debaixo do nariz dele.
Ele era muito bom em evitar realidades desconfortáveis. Além disso, meu pai nunca gostou da
minha avó. E ela não gostava dele.
Ela trabalhou em silêncio durante algum tempo, o único som era o do crepitar do fogo na
grelha. Ele a imaginou como uma garotinha, labutando longe no interior, cuidando da avó de
idade avançada, plantando legumes e aprendendo sobre ser modista. Então a excitação de ser
chamada, antecipando seu debute apenas para acabar como empregada de um berçário. Deve ter
ficado esmagada com decepção.
Ela examinou o chapéu com ar crítico.
—Precisa de algo mais. Talvez algumas flores. A moda deste ano é de chapéus bem mais
ornamentados e a Sra. Richards gosta de estar na moda.
As mulheres o espantavam. Como ela podia saber da moda mais recente, enterrada aqui? E
aquele sotaque francês era bom. Alguém a havia ensinado bem.
—Você já fez o seu debute?
Ela pegou sobre a pilha de pequenos pedaços, juntando um pequeno ramalhete de tiras e
tecido de flores.
—Não, nunca. O meu pai me disse que não havia necessidade. Era muito caro, ele disse, e
ele já havia feito… um acordo.
—Um acordo?
—Não me agradou. — Ele podia dizer pelo pequeno queixo firme que ela não iria explicar
mais nada. Ela costurou as flores sobre a faixa do chapéu.
—A sua avó não podia ajudar com as crianças?
Ela agitou a cabeça.
—Ela morreu seis meses antes de o meu pai mandar me buscar. Eu escrevi para ele falando
da morte dela, claro, mas ele não mandou me buscar até que sua segunda esposa morreu e ele
tinha quatro crianças pequenas e um bebê recém-nascido nas mãos. — Ela costurou a última flor,
e acrescentou, como se não importasse: — Até então, eu nem sabia que tinha quaisquer irmãos
ou irmãs. Eu sabia, claro, que ele havia se casado novamente, mas nos dez anos em que ele me
deixou com a minha avó, nunca mencionou as crianças.
Dez anos! E então achar uma outra família inteira, e sendo a primogênita de seis.
A dor de não ter sido informada…
Abruptamente, um fragmento de memória o perfurou. Ele tinha um irmão que nunca havia
sido informado. Ou eram dois irmãos? Ele não estava certo. Havia sensações de raiva. E… ciúme?
Ou ódio interpolado. Mas os detalhes o iludiram.
—Quando seu pai morreu?
—Dois anos atrás. E tudo o que ele deixou foram as dívidas e as crianças, então… — Ela
encolheu os ombros.
—Não há nenhuma outra pessoa para te ajudar?
Ela ergueu o chapéu, girando-o e examinando de todos os ângulos.
—O que você acha?— Ela o colocou e girou em direção a ele. Ele ficou surpreso. Como esse
chapéu de aparência tão elegante havia sido emerso daqueles pedaços velhos? Mas ele não iria
ser distraído.
—Muito bonito. — Então, ela ficou completamente responsável por crianças que mal
conhecia e sem suporte de ninguém. Trabalhando cada hora que Deus dava. Ele a assistiu parar de trabalhar com os materiais.
—Você deve se ressentir disto— ele disse tranquilamente.
—Ressentir do que?
—Ter as crianças jogadas sobre você...
—Jogadas?— Ela disse em uma voz surpresa. —Eu não me ressinto das crianças. Eu as amo.
São a minha família, a coisa mais preciosa que eu tenho. É por isso que me recusei a deixar aquele
primo cuidar da Susan. Já que eu posso cuidar das crianças, não deixarei que ninguém nos separe.
—Mas...
—Se eu abrigo qualquer ressentimento - e admito que sim - é pelo meu pai pelos modos
tolos, egoístas e esbanjadores que nos deixaram com nada - menos que nada - com uma pilha de
dívidas! Mas uma coisa eu aprendi na vida que é não desperdiçar tempo com reclamações
infrutíferas, que não ajudam ninguém e apenas deixam a pessoa amarga. Agora, acho que é hora
de cama. — Ela sorriu brilhantemente e desapareceu no outro quarto.
As palavras o deslumbraram e o sorriso que as acompanhou fez um tremor de excitação
passar por ele.
Ele se deitou e esperou, o corpo pulsando agradavelmente, já parcialmente excitado.
Ela retornou alguns minutos mais tarde, vestida com uma camisola de flanela espessa e um
mantô de lã com um laço na frente, escondendo a forma dos seios. Estava frio, claro, e a flanela
era uma escolha razoável. Mas ela não precisava disto. Ele a manteria morna.
Ela colocou uma tela na frente do fogo, então saiu apressada, retornando com um rolo.
—O que diabo é isto?— Ele se sentou abruptamente, deixando a cabeça tonta. Ele podia ver
perfeitamente bem o que era.
Ela arqueou uma sobrancelha.
—Desculpe, não entendi.
Maldito idioma, ele pensou.
Continua....
Créditos : CFC
Sem comentários , Sem post -^.^-


1 comentários:
Mais My...Postaaa maisssss
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