sábado, 15 de setembro de 2012

Sem Coração


Um mês foi o tempo que se passou desde o enterro de Pedro. Um mês foi o tempo que Arthur aguentou, com muita dificuldade, os pesadelos que o atormentavam. Um mês foi o tempo que ele levou para encontrá-la.

O rapaz perdera a conta do quanto havia gasto procurando pela garota que agora tinha o coração de Pedro batendo em seu peito. Os hospitais e o pedido de total sigilo que ela havia feito não foram páreos para todo o seu dinheiro. Arthur gastara muito também com o – julgado por ele imprestável – detetive particular, que tanto procurava por indícios da morte de Pedro e até agora não havia encontrado nada, mesmo estando sob vigia de Dominic, o padrinho do garoto, a única pessoa no mundo em quem ele confiava para tratar de assuntos como esse. Contudo, tinha planos de como recuperar o coração de Pedro e, só quando o tivesse de volta, direcionaria sua atenção à busca incessante do assassino.

A casa de Lua Blanco era simples, possuía duas largas janelas próximas a uma porta central de madeira, as cortinas claras impediam observar o seu interior, mas notava-se que era um lugar “organizado”. Sua fachada era decorada por uma trepadeira muito verde, que cobria quase toda a pintura amarelada. Um jardim com diversas espécies de flores adornavam o caminho de pedras que levava à porta. O homem decorara tudo naquela casa, assim como os horários da dona, na semana inteira em que ficou a vigiando. Nos primeiros dias, Arthur percebeu muita movimentação, um entra e sai de pessoas com flores e presentes de boas-vindas – uma verdadeira besteira, pensava ele –, mas com a semana terminando, todos os “amigos” de Lua pareceram desaparecer, o que afirmava sua tese de que não existia amor sem interesse. Seu carro ficou estacionado na calçada em frente à casa dela e seus olhos de águia ficaram presos em cada movimento da moradora.

- Não, Dominic, ainda não. – Arthur conversava com seu padrinho por telefone, enquanto observava pelo vidro Insulfilm de seu carro a casa da garota do outro lado da rua – Porque eu não tive coragem, ela é só a porra de uma professora de História, o que quer que eu faça? – o rapaz virou o rosto furioso, metendo a mão no volante ao gritar. Tirou o aparelho por segundos de perto do ouvido e pensou em jogá-lo com força no banco traseiro, mas respirar fundo ao apertar os olhos acabou o acalmando, voltando o mesmo para perto a fim de ouvir o fanfarrear de Dominic do outro lado da linha – Vou fazer, não sou um covarde. – fitou a pistola G38 sobre o estofado do assento ao lado, rangendo os dentes – Como anda a investigação? Da última vez que eu perguntei, você não tinha nenhuma novidade e eu já estou começando a ficar farto de hipóteses. – disse, cansado, bufando. O padrinho não tinha, de fato, nada de novo, o que fez com que Arthur arremessasse o celular pela janela aberta, estourando o mesmo na caixa de correio dos vizinhos da casa da frente de Lua. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e colocou as mãos no rosto, exausto.
- Com licença, senhor? – alguém bateu irritantemente no vidro com o dedo indicador, chamando sua atenção. O homem abaixou minimamente o vidro do carro e fitou o indivíduo do lado de fora com os óculos escuros e sua habitual expressão vazia – Desculpe incomodá-lo, mas recebemos uma ligação de que está aqui há dias, bom, é que... A vizinhança está começando a ficar assustada. – disse o policial acanhado, intimidado pela frieza do rapaz. Arthur seguiu o olhar para trás do homem baixo e gordinho à sua frente, reparando que a sombra de Lua observava-os, curiosa, através da cortina de uma das janelas. Assim que seus olhares se encontraram, ela abriu a boca assustada e fechou o pano abruptamente. Thur voltou a encarar o homem de farda azul. 
– Não quero me intrometer, mas o que o senhor está fazendo pela redondeza? Não é muito comum alguém de sua classe por essas bandas... – e foi deixado falando sozinho, quando Arthur apertou o pé no acelerador e começou a dirigir rumo ao final da rua. O velho policial deu de ombros, passando freneticamente as mãos por seu bigode ralo e continuou sua ronda, descontraidamente. 
Arthur percorreu pela décima quarta ou décima quinta vez aquele mesmo percurso até a lanchonete mais próxima, parando rente a sarjeta. Não podia evitar sair sorrindo do automóvel a cada vez que ia ao Janett’s. Todos os seus clientes o fitavam imobilizados e ele achava graça de suas expressões. Atravessou a porta vermelha da lanchonete, onde o nome da mesma brilhava em uma luz forte de neon.
- O mesmo pedido devo supor? – o corajoso atendente caminhou até a solitária mesa em que Arthur sentou, no final do estabelecimento. O homem assentiu brevemente, sem sequer olhar para o lado, permanecendo com a cabeça virada para a janela. O jovem de aparentemente 20 anos anotou o pedido em um bloco e se virou, caminhando até o balcão. Voltou minutos depois, carregando um hambúrguer duplo com fritas e um copo enorme de cerveja – Não mereço nem um “Obrigado”? – perguntou o moço, indignado com a falta de interesse que Arthur demonstrou nele e nos demais funcionários. Murmurou com sua voz estrondosamente forte um “Obrigado” indiferente, fazendo o garoto balançar a cabeça de um lado ao outro enquanto voltava para seu posto. Thur parou para prestar atenção no estabelecimento pela primeira vez dentre as muitas vezes em que estivera ali, enquanto devorava despreocupadamente seu “almoço”. O papel de parede era florido, com adornos dourados e vermelhos, as mesas eram todas próximas às vidrarias, como naqueles típicos filmes dos anos 60. A única peça que chamou verdadeiramente sua atenção foi a galhada de um veado enfeitando uma das paredes do local. Ele se perdeu por um bom tempo ao imaginar o animal sendo abatido, o que o fez lembrar “sua missão”. Lua ficaria bem enfeitando sua parede? Era o que ele, estranhamente, se perguntava. Trocou olhares com alguns dos presentes, que o encaravam curiosos, principalmente pelo modo como comia, nem se importando se estava sendo mal educado, o que de fato estava. Minutos depois, levantou-se, caminhando até o balcão e inclinando-se sobre o mesmo.
- Um maço de cigarros e a minha conta... Por favor? – lutou consigo mesmo, sendo educado a fim de pelo menos ser atendido rapidamente. A atendente, trêmula de nervosismo com a beleza do rapaz, entregou-lhe o maço e recebeu o pagamento, tirado de uma carteira de couro bem “gorda”. Arthur assentiu, não conseguiria pronunciar “Obrigado” novamente, e saiu pela porta, ouvindo o irritante ronronar dos pregos enferrujados. Entrou mais uma vez no carro, olhando seu reflexo pelo retrovisor e percebeu que sua barba estava começando a crescer outra vez. Daria um jeito nela antes de finalmente “falar” com Lua. Havia decidido acabar com esse peso de uma vez por todas, o assassino de Pedro precisava ser encontrado logo ou ele o perderia. Dirigiu até o hotel barato de quinta categoria em que se hospedara, inutilmente tentando esconder sua posição social. Caminhou até seu quarto, que tinha uma aparência mofada e um péssimo odor, e se direcionou até o banheiro. Ligou o chuveiro, que na maior parte das vezes deixava cair água gelada, e tirou as roupas, passando a camisa verde pelos braços. Todos os músculos de suas costas se contraíram com o movimento, marcando-os perfeitamente. Deslizou a calça pelas pernas junto com a boxer branca que usava e as empurrou com os pés, agora descalços, para um canto. Seu corpo nu arrepiou-se ao andar do chão frio até o box transparente. Sem nem testar a temperatura da água ele entrou embaixo do chuveiro, enrijecendo com o frio. A água descia tentadoramente por seus ombros, deslizando por sua barriga sarada onde corria por seu umbigo até a parte sempre “acesa” de seu corpo. Ele precisava se conter, ou melhor, conter seu órgão para não desobedecê-lo. Era uma máquina do sexo e não estava acostumado a ficar tanto tempo sem uma mulher em sua cama – um mês, no caso. Mas o que o deixava irritado era em quem ele pensava para ficar excitado. Exatamente, Lua Blanco, a “ladra”. Ele nunca a tinha propriamente visto, mas só de imaginá-la não conseguia segurar a ereção, era quase instantâneo. Passou as mãos pelos cabelos molhados, fechando os olhos. O cheiro do shampoo lhe lembrava da garota, o do sabonete, as gotas que desciam se assemelhavam ao seu toque. Como ele poderia ter essa tremenda imaginação? Afinal, não a conhecia, ainda não. Fez a barba rapidamente e, enfim, pegou uma esponja, esfregando-a no sabonete, começando, em seguida, a passá-la pelo corpo. Apertando os olhos, ele pôde sentir a espuma como se fossem os lábios deLua, o que o forçava a contrair os músculos, pois não se perdoaria se fizesse “algo” pensando nela. Desceu a esponja por suas costas e, vagarosamente, por sua bunda perfeitamente desenhada, voltando-a para frente e a pressionando contra o sexo. Deu um leve gemido, desesperadamente tentado. Deixou a esponja cair ao chão, exausto demais para lutar. Apoiou as mãos no órgão, sentindo-se um perdedor, e... “TOC TOC”, alguém bateu à porta. Arthur assustou-se, desligando rapidamente o chuveiro enquanto xingava com os seus piores palavrões.

- Espere um minuto! – gritou revoltado ao pegar uma toalha branca, enrolando-a sobre a parte de baixo do corpo que, mesmo com o choque da surpresa, não desarmara o desejo. Com outra toalha enxugava seus cabelos. Caminhou até a porta e a abriu – O que é? – perguntou grosseiramente – Dominic? O que você está fazendo aqui? – indagou, desentendido. No fundo sentiu vontade de lhe socar o olho, mas devido a sua expressão preocupada não o fez – Aconteceu alguma coisa? – insistiu, abrindo caminho para que o padrinho adentrasse no quarto.
- Reece está te procurando, ele quer te impedir de fazer você-sabe-o-que. – disse apressado, andando de um lado ao outro no aposento. Arthur estranhou o “interesse” que ele aparentava demonstrar com o plano de recuperar o coração de Pedro. Talvez pensasse como ele, foi ultrajante para ambos – Se quer mesmo fazer isso deve andar rápido, não sei se posso te acobertar por muito tempo. Sabe que eu sempre te considerei meu filho, não é? Sinceramente ainda espero que se arrependa antes de tomar qualquer atitude, mas vou estar do seu lado se isso não vier a acontecer. – disse, tenso.
- Não vou me acovardar, sabe muito bem disso. – disse firme, abrindo sua mala e tirando de lá uma camisa preta, junto a uma calça jeans escura e meias brancas limpas – Está me parecendo que você se importa com essa garota Dominic, já a viu antes? – o homem engoliu em seco.
- Não, nunca. – disse sério, com um brilho revoltado nos olhos castanhos escuros – Só me importo com você, não quero que se transforme no mesmo assassino que matou seu irmão.
- Quanto a isso não se preocupe, eu nunca seria capaz de me tornar alguém como ele. – Arthur falou, entrando novamente no banheiro, só saindo de lá devidamente vestido e com o cabelo penteado para trás – Mais alguma coisa? Tenho um encontro com Lua Blanco e não posso me atrasar. – permaneceu com a expressão vazia enquanto encarava com seus olhos castanhos o homem parado. Dominic hesitou, respirando profundamente.
- Conor está ocupando seu cargo na empresa. Como ele sempre quis, na verdade. Tem que voltar logo, garoto, você sabe que nunca foi o preferido dos funcionários e aquele crápula com os seus 49% das ações está começando a agir de acordo com suas próprias vontades. – disse, com um olhar sugestivo – Conor teve a audácia de retirar todos os benefícios ambientalistas que seu irmão tanto se importava em manter. De acordo com ele, aquilo é “perder dinheiro”. – Arthur travou a mandíbula, bagunçando os cabelos, irritado. Por que deu prioridade à Lua mesmo? Era o que pensava até se lembrar de que optara em salvar o que o irmão ainda tinha de “vivo” – Acho que está perdendo tempo com essa garota, ela não vale a perda da empresa... – o rapaz o olhou, repreendedo-o, fazendo com que se calasse imediatamente – Conor não parece distraído com supérfluos, ao contrário de voc...
- Eu já ouvi demais, Dominic. Não me tire do sério! – gritou Arthur, o encarando com os olhos semicerrados – Dê ordens de que estou te colocando em meu lugar enquanto não me resolvo. Não quero mais ouvir falar sobre isso. Basta que organize o que Pedro introduziu à organização, fora isso, não me importa mais nada. Agora pode ir. – apontou para a porta, brutamente. Dominic, após afirmar com a cabeça, saiu do quarto. O celular, o “reserva” que Arthur carregava na bolsa, começou a tocar quando voltou a ficar sozinho – Alô? – atendeu, estava ficando impaciente com interrupções – Reece? O que é que você quer? – perguntou, bufando – Já pedi para não me chamar dessa forma e não, não vamos conversar. Tenho assuntos pendentes a tratar. – dizia friamente – Pare de bancar o protetor, o senhor nunca se importou verdadeiramente comigo e muito menos com Pedro, sempre dizia que suas ideias não o levariam a lugar algum. Dominic é muito mais meu pai do que você. Não tenho culpa se não sabe agir como ele, aliás, eu preferia que ele fosse meu padrasto. – rugiu, sentando-se na cama – Não vou perder mais meu tempo com você, pare de me importunar, Reece. – mal deixou o homem responder do outro lado da linha e desligou o aparelho. Pegou uma colônia masculina da mala e se banhou em perfume, atravessando, a seguir, a porta em direção ao seu carro.
- Tudo corre como o planejado agora que temos Pedro Aguiar fora da jogada. – um trio de homens passou apressadamente às suas costas, enquanto ele apertava o alarme do automóvel ao se aproximar do mesmo. Arthur apurou os sentidos e virou minimamente o rosto na direção deles, interessado – Conduta “verde” em prol dos nossos objetivos é uma ova! Pedro nunca aceitou violência como forma de protesto, aquele idiota acreditava que uma conversa civilizada era o suficiente para lidar com as necessidades da população. Nunca o considerei um verdadeiro rebelde, foi até sensato o que aconteceu a ele, queria eu ter tido a oportunidade... – Thur fechou as mãos em punho, respirando profundamente. O trio continuou seu caminho até o final do corredor, onde passaram por uma porta, entrando em um quarto. Obviamente, sendo naturalista, Pedro tinha muitos inimigos. Na política, de outros grupos revolucionários e de empresas com forte influência, por fazer-lhes perder dinheiro com suas idealizações. Arthur continuou caminhando até o carro, segurando a vontade de voltar e estourar os miolos dos três caras.
Dirigiu até a casa de Lua, que vigiara durante toda aquela semana. Mas dessa vez seria diferente, não seria? Pegou a pistola e a escondeu no cós da calça jeans, disfarçando o volume da mesma com a camisa preta. Olhou-se no retrovisor, penteando os cabelos para trás com os dedos, e colocou seus óculos escuros. Sorriu sadicamente para si mesmo e abriu a porta, batendo-a ao sair. Caminhou determinado até a casa da garota, tocando a campainha ao chegar. Estranhou o suor nas mãos, que o fazia ficar ainda mais nervoso. Não por ter a intenção de matá-la, mas porque iria finalmente conhecê-la. Não recebendo sinais de vida, tocou a campainha mais duas vezes, batendo o pé freneticamente no chão. Ouviu finalmente o som de passos se aproximando e o barulho de mãos na maçaneta enferrujada. Ele piscou bobamente diversas vezes quando a porta foi aberta, absorvendo os fatos. Primeiro: Lua Blanco não era a mulher fatal que ele imaginava, era ainda melhor. Não de um jeito sedutor, mas simples e intelectual. Tinha os olhos castanhos mais vibrantes que já vira, escondidos inocentemente por óculos com aros quadrados. Vestia uma camiseta branca com o triplo do seu tamanho e uma calça de moletom cinza, com meias de dedinho nos pés junto a chinelos. Seus cabelos loiros estavam presos de forma desajeitada em um coque com hashis e ela se abraçava toda encolhida, a fim de conter o calor de seu corpo, de modo encantador. E segundo: nunca se sentira tão excitado em toda a sua vida como quando a viu ali parada, o encarando com olhos arregalados e curiosos.
- Lua? – Arthur perguntou com a voz embargada, cruzando as mãos em frente a sua calça jeans a fim de esconder o que viria a ser uma ereção em segundos. A garota o fitou de cima a baixo, abrindo e fechando os olhos timidamente, o que o rapaz achou um tanto provocador, apesar de ela só o estar analisando por puro interesse, não de maneira sedutora e sim intrigada.
- Eu... Não... Eu sou... Não sou... – a voz frágil de Lua soou fraca enquanto ela balançava as mãos em frente ao rosto de modo desajeitado – Lua Blanco, em carne e osso. – respirou fundo, estendendo a mão direita até ele – Eu te conheço? – perguntou descontraída, arqueando uma das sobrancelhas.
- Arthur Aguiar. – o homem a cumprimentou, formando uma linha com os lábios ao encostar em sua pele macia pela primeira vez. Lua deu dois passos para frente, fazendo-o recuar dois passos. Ela seguiu os olhos pela rua enquanto Arthur ficava quieto, travando a mandíbula ao respirar calmamente. De repente o olhar dela se viu preso no carro estacionado logo à frente. A garota abriu e fechou a boca, assustada.
- Oh meu Deus, você é o maluco do Rolls Royce! – sussurrou trêmula, correndo para dentro de casa e fechando a porta desesperada. Arthur só conseguiu ver seus cabelos loiros atravessarem a porta e franziu o cenho, tombando minimamente a cabeça – Por favor, vá embora. Não tenho nada de valor, você não iria querer absolutamente nada comigo. Eu nem sou saudável, na verdade. Acabei de ter alta do hospital, ainda tenho faixas por todo o corpo e essa casa? Não é minha. É da minha avó, que foi obrigada a se internar em um asilo a duas quadras daqui, mas voltará daqui a alguns dias e já vou lhe avisando, ela é faixa preta em karatê. Estou implorando, se for dinheiro o que quer, posso conseguir. – destrambelhou a falar, soltando de uma vez cada súplica – Só não me mate! – implorou, por fim. Arthur engoliu em seco, suspirando tensamente. Pedido um tanto quanto contraditório esse, já que de fato era essa sua intenção.
- Mas você está com o coração do meu irmão... – sussurrou revoltado, com um tom dolorido na voz, mais para si do que para ela. Lua ficou calada, o que Arthur achou ser constrangedor já que ela não havia parado de tagarelar até aquele momento. A porta foi novamente aberta e ele, recebido por um par de olhos castanhos piedosos. Piedade. O motivo por ter aceitado internamente o que havia ido fazer ali, levando em conta que pensara, duas ou três vezes, em desistir ao ouvi-la lhe implorando que não a machucasse. Mas para aqueles olhos ele não se importou em ser bom ou ruim, só voltou ao tom frio de sempre, determinado a tirar o peso da culpa de seus ombros.
- Estou? – perguntou acanhada, apertando as mãos em frente aos seios – Desculpe-me, eu... Não sabia. – Arthur sentiu algo por ela ao dizer isso, talvez pena. Lua o fitou duvidosa, indecisa em convidá-lo para entrar em sua casa. Ele passou as mãos pelos cabelos, impaciente, até que finalmente a garota abriu toda a porta, dando passagem. O homem levou a mão discretamente à arma, certificando-se de que ela permanecia ali, enquanto dava os primeiros passos para dentro. Como a fachada indicava, sua casa era organizada, continha algumas peças históricas velhas espalhadas e artefatos provavelmente de sua avó, como uma máquina de costura ainda em uso, ao lado de um cesto com novelos e linhas. Lua indicou o caminho até a cozinha, que parecia ser o centro de movimentação da residência, sentando-se em um banco alto ao lado de um balcão e apontando outro à sua frente – Se me permite perguntar, posso saber por que ficou dias vigiando a minha casa se o assunto que trataria comigo era de tamanha importância? – indagou receosa, ajeitando os aros de seus óculos.
- Estava me decidindo se viria ou não, na verdade. – Thur mentiu, limpando a garganta – É sobre meu irmão que falaremos, não queria ser rude com você. Afinal, está carregando o coração dele. – disse sério, com os olhos presos nos dela – Deveria ter se escondido melhor se não queria que eu a encontrasse. Sabe que não se pode confiar em hospitais quando em meio ao assunto envolve-se o dinheiro. – pronunciou de forma grossa, fazendo-a esboçar uma expressão indignada.
- Importa-se de falar logo o que quer? Não estou com ânimo para receber insultos, porque eu sei que é o que está pensando em dizer. – disse levantando-se do banco, colocando ambas as mãos na cintura – Não escolhi receber justamente o coração de seu irmão, preferiria deixá-lo todo para você se fosse o caso. – bufou, esperando que o rapaz abrisse a boca e parasse de olhá-la indiferente.
- Essa é a questão. – Arthur ergueu-se abruptamente – Eu também não escolhi doá-lo e muito menos a você. Por mim não o teriam tirado de quem o pertencia. – rugiu, o sangue fervendo dentro de si. Lua encarou-o boquiaberta.
- Sinto lhe informar, mas agora é tarde para isso. Vejo que daqui não sairá nada produtivo, o senhor poderia se retirar? – ela virou-se para a porta de entrada, mas foi parada pela mão firme de Arthur em seu braço, que a olhava de forma destrutiva – Está me machucando. – pronunciou, engolindo em seco. O rapaz sorriu irônico, balançando a cabeça negativamente, enquanto ela pedia que a soltasse.
- Posso fazer pior. – sussurrou sadicamente, mostrando a arma junto à calça. Lua arregalou os olhos, ficando quieta instantaneamente – Eu realmente não queria fazer, não é do meu feitio. Sou uma pessoa de classe. – murmurou debochadamente, retirando os óculos escuros – Mas para o seu azar, “roubou” uma coisa que me é de valor e eu a quero de volta. – a empurrou até a parede, prensando seu corpo frágil na mesma. Aproximou seu rosto do dela e deu um beijo tentador no início de seu pescoço, respirando calmamente ali, fazendo-a arrepiar-se com o ar quente e reconfortante que expirava. Pensando “no bem maior”, Arthur se segurou para não agarrá-la naquele momento mesmo e proporcionar-lhe todo o prazer das obscenidades que se passavam por sua mente. Ele assistiu seus olhos agoniados deixarem cair uma única lágrima de desespero e... raiva? – Naaaaaah, assim não teria graça, quero ver a luz deixar seus olhos. – provocou, afastando seu corpo. Pegou a arma em mãos e apontou-a no meio da testa da garota, que deixava de chorar para encará-lo com bravura e indignação – Adeus, Lua Blanco, foi um prazer conhecê-la.


Créditos: Fanfics Tensão Teen

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