terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sem Coração


Capítulo Três: Sangue
- Ou ou ou, calminha aí cowboy. – Lua o contradisse, chacoalhando as mãos em frente ao corpo – Podemos resolver isso de outra forma, não precisa ser assim. – dizia tensa, controlando seu lado emocional para enfrentá-lo cara-a-cara. Arthur balançou a cabeça negativamente, desinteressado – Não pode ver somente o seu lado dessa história, Aguiar. Faz ideia do quanto foi torturante para eu ficar em coma por dois meses, sobrevivendo à custa de aparelhos? Não, você não faz. Só pensa em si mesmo. – moveu o corpo para frente, não se importando com a arma apontada para si, enquanto apontava o dedo indicador sobre o peito do rapaz. Ele franziu o cenho, de certa forma admirado. Os olhos castanhos marejados de Lua já se transformavam em um brilho de firmeza e pura coragem – Aposto que está escondendo alguma coisa, caso contrário não se postaria a fazer algo tão radical.
- Não blasfeme você não sabe do que está falando. – ele novamente percorreu os centímetros que os afastavam, prendendo-a rente a parede com as pernas. Lua o encarou desafiadora ao sentir o baque forte de suas costas, questionando-o com os olhos castanhos intrigados.
- Pelo visto você sabe... E muito bem. – retrucou. Arthur agarrou seus pulsos e os levou também a parede, pressionando doloridamente o cabo da arma sobre seus dedos. Seu nariz encostou-se ao lado do rosto da garota, passeando pelos fios soltos de seu cabelo de encontro com a orelha, sentindo o perfume inebriante que se desprendia dali. Lu ficou indecisa entre o que sentia pulsando no meio das pernas dele; desejo por ela ou por vê-la morta. Mas um desejo que não sabia de onde tinha vindo. Não havia mais espaço entre a garota e a parede, o corpo pesado de Arthur a envolvia completamente, até suas pernas estavam imóveis pelas dele. Ela respirava acanhada, sem fôlego, inalando a colônia máscula de seu corpo. O som da risada irônica de Thur soava em seu ouvido. Ela pode sentir seus dentes percorrendo o mesmo tentadoramente e segundos depois, sua língua – Não pode me enganar, está se sentindo culpado pelo que houve com seu irmão. Pode confiar em mim, Arthur. – conseguiu sussurrar, perdida entre a vontade que tinha de que ele continuasse e o desespero de tentar distrai-lo. O rapaz, que umedecia seus lábios tão próximos a ela de maneira que sua língua quente e provocante atingia sua orelha e pescoço, ficou tenso inesperadamente. Mais uma vez Lua tocara em um assunto particular dele – Tenho uma proposta. – disse ela, percebendo-o passar as mãos pela arma. O volume entre suas pernas não a deixava respirar com facilidade e Arthur, percebendo que isso inocentemente a excitava, pressionava ainda mais o quadril para frente – Pode me ouvir?
- E não estou ouvindo? – provocou, passando os lábios tentadores por seu rosto. O peitoral forte sufocava a garota, que sentia doer à área em que havia sido operada. Ela gemia de dor, o que o rapaz pensou ser de prazer, apesar de também o ser. Ele se divertiria com o brinquedinho antes de quebrá-lo, pensava.
- Não de maneira civilizada. – ela conseguiu murmurar, formando uma linha com os lábios. Os óculos caíam tortos em seu rosto, o que fez Arthur sorrir, divertido. Ele estava interessado no que ela teria a dizer, não esperava por uma reação como essa, talvez se saísse bem conseguindo possuí-la antes de matá-la. Afastou o rosto, para poder encarar seus profundos olhos castanhos e a fitou, esperando o início de seu último desejo – Dê-me uma hora...
- Fora de cogitação. – foi o que ele disse interrompendo-a, enquanto travava a mandíbula e a olhava sério.
- Uma hora. – repetiu Lu, firme em suas palavras – Para eu te convencer a não me matar. – pronunciou, fazendo-o sorrir irônico – Ninguém entra, ninguém sai. Não me importarei se quiser manter a arma apontada para mim o tempo todo. Se ao final não conseguir fazê-lo desistir, prometo me entregar sem relutância. O que me diz? – insistiu, erguendo a cabeça, sem paciência. “Uma hora” diziaArthur para si mesmo, parecendo pensativo. Chegou à conclusão de que não faria diferença esperar por mais sessenta minutos, já que a tinha nas mãos. O que ele não sabia era que Lua de ignorante não tinha nada e tudo aquilo estava arquitetado em um plano de sensibilizá-lo. Tinha um trunfo nas mãos, que era o que o rapaz parecia sentir fisicamente por ela, talvez corresse como queria. Arthur, contra a vontade de soltá-la, afastou o corpo, apoiando as mãos na cintura. A garota respirou fundo, passando as mãos entre os seios, sentindo pontadas na sutura da ferida. Ela sentou-se no chão, apoiando as costas na parede.
- TIC... TAC. – brincou Arthur, olhando no relógio do pulso da mesma mão em que segurava a arma.
- Não me apresse, preciso medir as palavras para doê-las em você. – sorriu baixo ao vê-lo passar mais uma vez as mãos pelos cabelos, entediado – Acho que pelo começo é a melhor forma de dizê-las. – concluiu para si, inspirando forte antes de começar – Antes de morrer, minha mãe me deixou uma carta. A condição era de que eu a abrisse somente quando completasse vinte e cinco anos. Mesmo curiosa, passei a vida toda apenas a analisando, sem nunca abri-la. Não desacataria o último pedido dela. – falou, abraçando os joelhos. Arthur a observava curioso e não gostava quando ela hesitava, provavelmente porque revia na mente a maneira de como contar a história de uma forma que de fato o faria ficar com pena – Na manhã do meu aniversário, a primeira coisa em que pensei foi correr em direção à carta. Abri a gaveta onde a mantinha guardada e não me contive, rasgando o envelope de uma só vez. Digamos que mais surpresa era impossível de eu ficar. A reli várias vezes, principalmente por que não podia crer...
- O que estava escrito? – o rapaz perguntou de repente, sentando-se ao seu lado no chão da cozinha. Lu fitou-o intrigada, talvez seu plano estivesse funcionando e logo ele a deixaria livre. Mal sabia ela que Arthur também tinha em mente fingir cair em seu jogo sentimental, para que no final da hora pudesse gargalhar de sua expressão encabulada. Jogos sádicos às vezes o animavam.
- Como eu poderia encontrar o meu pai, que até então eu pensava estar morto. – falou triste, torcendo o canto da boca – Endereços, telefones, muitos nomes, praticamente um mapa em direção a ele. A principio fiquei chocada demais para demonstrar qualquer reação, mas com o passar do dia resolvi tentar encontrá-lo. Disquei a maioria dos números, só o localizando no antepenúltimo. John Bailey... – sussurrou fraco, piscando involuntariamente – Contei-lhe sobre a carta, sobre minha mãe e disse que queria vê-lo. Conhecê-lo, na verdade. O choque provavelmente o fez mudo por minutos até me perguntar se eu morava na mesma casa em que eles conviveram. Eu afirmei, dizendo-lhe que vivia aqui com minha avó. Disse-me que viria me ver... – a garota parou para suspirar, sorrindo ironicamente depois. Arthur sentiu-se incomodado com a história, estava o afetando e isso, a seus olhos, não era vantajoso – Vovó nunca aceitaria que ele ficasse sobre o mesmo teto que ela novamente, então sugeri que nos encontrássemos em um restaurante tradicional da cidade. Ele respondeu que viria me encontrar, pois não morava mais em Chelmsford.
Lua parou, pensativa.
- Continue. – Arthur pediu, franzindo o cenho a seguir por ter demonstrado interesse.
- Eu estava dirigindo até o restaurante quando tudo aconteceu: o freio do carro travou, pessoas pularam para os lados enquanto eu passava descontrolada pelas ruas, tentando, em vão, brecar. A parede alta do muro a minha frente e a batida. O que mais doeu na hora não foi o estilhaço de metal que me acertou o coração, mas a chance que perdi de conhecê-lo. Fui levada ao hospital e até agora não tive notícias sobre o que aconteceu a ele. Queria ter o visto uma única vez, esse era o meu desejo. E agora não o localizo mais, simplesmente sumiu. Chego a pensar que está me evitando. – abriu um sorriso triste, encostando a cabeça na parede – Agora estou aqui. Refém de um maníaco que quer roubar meu – novo – coração. A vida não tem sido muito justa. – deduziu, virando minimamente o rosto para encarar o rapaz ao seu lado. Arthur a olhava em retorno, ofendido com o “maníaco” direcionado a ele.
- Você ainda tem mais trinta e dois minutos. – disse grosso, deixando de fitá-la.
- Pois bem, se meu drama particular não te afetou em nada não posso desperdiçá-los não é mesmo? – disse Lua, abrindo um mísero sorriso – Posso te fazer uma pergunta? – Thur rolou os olhos, concordando – Meu sonho até minutos atrás era encontrar o meu pai, mas agora me contento em sobreviver. Arthur Aguiar, você tem um sonho? Não falo de utopias criadas enquanto dormimos ou de idealizações pequenas e sim de algo palpável, que possa realmente alcançar. Algo que ainda não tenha ou não tenha feito. – seus olhos castanhos eram tão intensos que ele se imaginou conversando com uma criança. Não queria respondê-la, sentia-se começando a desistir. Poderia pegá-lo de vez se começasse a chantageá-lo com belas palavras.
- Eu já tenho tudo o que quero e tudo o que preciso. – disse mal humorado, fazendo-a gargalhar – O que é? – perguntou desentendido, encarando-a nervoso.
- Não minta para mim Arthur. Eu vou morrer, não precisa esconder nada. – ela disse sincera. De algum modo o rapaz quis dizer-lhe o contrário, que ela não morreria, ou pelo menos não por suas mãos, e contar-lhe o que de fato imaginava para sua vida futura – É só me dizer, não vai doer.
- Quero... Me... Casar. – pronunciou dificilmente, entre bufadas, suspiros e resmungos. Não acreditava ter dito isso em voz alta, o que o fez virar-se para o lado e encarar as samambaias que enfeitavam o aposento descontraidamente, como se dissesse “Que interessante isso, não?”. Lua o admirava com a boca entreaberta, descrente de que havia mesmo conseguido tirar algo sólido dele. Ela contara algo pessoal, uma resposta igualmente importante deveria ter sido, e foi, dita – Quinze minutos. – suspirou o rapaz, cabisbaixo.
- Temos possibilidades de casamento, sua resposta não foi totalmente justa. Precisa ser mais específico, 
Thur. – Lu disse, chamando a atenção dele, que resmungou um “Arthur” grosseiro. Contudo, a garota já estava acostumada ao seu modo e nem se importou – Quando você se refere a “casar” podemos supor uma união amigável, da qual ambos receberão carinho, mas não amor; casar literalmente falando. Ou pode ser pelo sentido de você não conseguir viver sem a pessoa e desejar passar a vida toda ao lado dela, mas essa opção eu acho menos provável. Então, qual delas? – perguntou, fazendo-o corar pela primeira vez. Lua abriu um sorriso ao vê-lo envergonhado.
- Se pensa que vou dizer a segunda, está muito enganada. – ele murmurou, voltando a observar as samambaias. Arthur estava gostando de conversar com a garota, o assunto não era relacionado a dinheiro ou trabalho e muito menos a problemas. Ele sentia a vontade de falar, de tagarelar até altas horas se fosse preciso, de ficar ali sentado com Lua e esquecer o mundo a sua volta. Olhou no relógio uma última vez, faltavam cinco minutos, talvez isso explicasse o abrupto silêncio pairando no ar – Sem mais perguntas? – indagou, ainda sem olhá-la.
- Não vejo porque perguntar nada agora, meu tempo acabou. – ela disse relutante, desmanchando a súbita felicidade que se apossou de seu corpo durante aquela hora – Não consegui fazê-lo desistir, mas talvez eu ainda tenha uma última, sim. – ele virou-se frente à Lua, em seus olhos um brilho de arrependimento e nos dela, misericórdia. Engoliu em seco e esperou que ela falasse – Você, ArthurAguiar, conseguirá conviver com a culpa?

O homem caminhava assombrosamente pelo jardim, banhado pelos brilhos mórbidos da lua, passando as pontas das adagas vagarosamente pelas flores enquanto sorria sadicamente. A neblina escurecia a visão aos fundos, tornando o local semelhante a um pântano. A bota de plástico preta rangia em seus pés, fazendo sua aproximação ainda mais agoniante. O jardineiro, que morava junto aos demais empregados em uma pequena casa nos terrenos dos Aguiar, parecia sentir os passos do assassino em sua direção. Fora o único a presenciar a brutal cena da morte de Pedro, mas ficara tão apavorado com a visão que entrara em choque, saindo só agora do hospital – o que nenhum dos investigadores levou em consideração, afirmando que havia ficado impressionado ao ver um dos patrões morto. Estava fraco, mas disposto a dizer toda a verdade. Talvez por isso, 
alguém achou válido que ele nunca mais voltasse a abrir a boca. O assassino mordia sua tão adorada maçã verde, deixando o suco da fruta escorrer por seus lábios. Já se aproximava da casa dos empregados agora e estava empolgado por ter “trabalho” aquela noite. Chegando ao portão, empurrou-o para o lado, contente. Cantarolava ao se aproximar, saboreando lascas grossas da fruta. Ele havia escolhido aquela noite por conta da reunião semanal que os empregados realizavam, portanto, imobilizado, o jardineiro não teria ido e estaria sozinho. Facilmente abriu a porta da casa com um grampo, atravessando o vão.
- Surpresa! – disse ironicamente, assustando o pobre homem que rezava encolhido em um canto, o jardineiro não conseguiu pronunciar nem um mísero gemido, apertando o rosário junto ao corpo – Esperava por mim? – perguntou sarcasticamente, aproximando-se ao morder novamente a maçã – Se sabia que eu viria, porque não tratou de contar a verdade a alguém? Parece-me estúpido. Ou, achou que eu seria misericordioso se não abrisse a boca? Esperto, devo admitir, mas não muito. Eu iria te matar de qualquer forma. – rolou os olhos – Preciso de um pouco de sangue para aquecer a alma.
- Nã-não. – gaguejou o homem, apertando os olhos.
- Diga-me um motivo para não fazer isso, pois se quisesse realmente se safar teria uma carta na manga, o que eu duvido que você tenha. Sabe por que a perícia não lhe deu atenção? Na verdade eles estão fazendo um ótimo serviço a meu suborno: ignorando a testemunha, omitindo fatos e provas. Lindo, não concorda? – ria sozinho – Às vezes é útil ter lábia para com essa gente. Enfim, não deve ter a mínima noção do que eu falo e já me cansei de provocações, não sou uma pessoa que gosta de ficar enrolando, talvez depois que lhe contar a garganta eu brinque um pouquinho. Você não estaria consciente para saber o que vou fazer com o seu corpo então fique tranquilo, tenho uma ideia ótima de como desaparecer com ele, clássica até.
O homem estremecia, mas não conseguia falar. O choque havia sido grave e ele estava fraco e se recuperando, portanto não teria nem a chance de gritar, o que era considerado uma pena pelo homicida, que tinha um gosto singular por gritos – soavam como suas músicas preferidas. Seus olhos se arregalavam com os passos mais próximos do assassino, o corpo todo tremia, não podia nem se mover tamanho era o medo. O homem abriu a mochila imunda que carregava nas costas, espalhou um largo plástico pelo piso, contornando o jardineiro que não conseguia nem ao menos respirar facilmente, e voltou a encará-lo.
- So give them blood, blood, blood. – cantarolava, passando a base do dedão pela faca afiada, sorrindo maliciosamente – Grab a glass because there's going to be a flood! – guinchou e com um movimento rápido, que lhe rasgou a garganta com a adaga, silenciou o jardineiro para sempre. O homicida levou vagarosamente os dedos no rosto, passando-os pelas gotículas de sangue que o atingiram a face, e muito sadicamente, desceu os mesmos a boca, sentindo o gosto metálico do líquido vermelho o aguçar o paladar, como se fosse sua comida preferida. O assassino não o teria matado tão rapidamente se o mesmo pudesse gritar, seria diferente se ele pudesse emitir qualquer som a mais do que um gemido. Contudo, como não era o caso, o homem não poderia se divertir ao ver o outro berrar tão desesperadamente, achou que não merecia afinal morte mais demorada. Sorria ao ver o corpo do jardineiro imóvel no chão, com a pele do pescoço separada em duas ao jorrar uma cachoeira de sangue – Agora vem a pior parte. – disse entediado a si mesmo, olhando as marcas vermelhas nas paredes e carpete. Tornou a abrir a mochila, tirando de lá uma esponja, produtos de limpeza e um pano seco. Carregou o morto até o jardim, jogando-o desajeitadamente no gramado e entrou novamente na casa. Limpou rapidamente os vestígios de sua presença ali, assim como qualquer marca que o jardineiro poderia ter deixado ao morrer e saiu. Colocou o corpo sem vida sobre o ombro e caminhou até o carro estacionado a alguns metros, deitando-o sobre o porta-malas – Desculpe-me não ser um hotel cinco estrelas, mas é o melhor que eu poderia arranjar para alguém como você. – debochou, fechando a porta do automóvel sobre a perna esquerda do rapaz, ouvindo o estralo do possível quebrar de ossos – Oh, machuquei você? – perguntou sorridente, passando a língua sobre os dentes enquanto abria novamente a porta, colocava a perna para dentro e a fechava – Ora, como sou estúpido! – lamentou ao sentar no banco do motorista e ligar o carro – Eu poderia ter visto a agonia em seus olhos, não precisava ter me livrado de você tão cedo. – choramingava, desacreditado – Seria divertido, mesmo sem gritos. – repetia inconformado – Mas, no final das contas, não chegaria nem perto da empolgação que me tomará ao atravessar o peito de Arthur Aguiar. Ah sim, esse será o meu troféu! A esse faço questão de pendurar a cabeça em minha parede. Faço questão de cuspir em seu rosto antes de vê-lo angustiando ao chão. O sangue deste será o meu maior prêmio.


Créditos: Fanfics Tensão Teen

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